A Perfeição de Clarissa

Fazia um bom tempo desde a última vez que visitei meus primos; acredite ou não, já se passaram cinco anos desde que vi seus rostos. Na última vez eu tinha oito anos e ainda não sabia que o mundo tinha consequências. Eu corria e pulava pela casa de dois andares da tia, cantando minhas músicas preferidas e brincando com os gêmeos de seis anos. Mas essa época de brincadeiras era sempre maculada por minha tia Clarissa.

Tia Clarissa era aquela pessoa para quem tudo tinha que estar perfeito — ou o mais próximo disso que se podia conseguir. Sempre que tentávamos brincar de pega-pega, esconde-esconde ou qualquer coisa parecida, ela pairava sobre nós, com seus olhos cinza-escuros brilhando. Ela sempre dizia:

— Jared, não brinque com o Simon ou com a Eloise de um jeito brusco; se algo acontecer com eles, eu te bato.

Clarissa me assombrava quando criança: queixo pontudo, olhos tempestuosos, parecia uma bruxa. Eu não ousava fazer nada que ela desaprovasse perto de Simon ou Eloise, mesmo quando ela não estava por perto, porque sabia que ela cumpria suas ameaças e me castigaria se eu ferisse seus preciosos gêmeos.

Visitávamos a casa deles o tempo todo quando morávamos mais perto; depois meu pai conseguiu um emprego em Michigan e demorou anos até eu voltar a pisar em Illinois. Lembro-me de que estava, no mínimo, feliz por minha tia Clarissa — ela estava esperando outro filho quando nos despedimos; parecia radiante, menos sombria do que o normal. Para ela, três era o número perfeito: três filhos, família perfeita.

Mudamos para Detroit e, oito meses depois, chegou a notícia: Clarissa teve uma bebê. Ela nos mandou uma carta cheia de exclamações contando como estava feliz com a recém-nascida, Mallerie. Mesmo aos dezessete, lembro que achei estranho ela não ter enviado uma foto do bebê.

Os anos passaram como areia ao vento e o contato foi rareando. Finalmente fomos convidados para passar o feriado na casa deles. Minha mãe, que sentia falta da irmã, não pensou duas vezes. Meu pai, vendo a alegria dela, concordou.

Depois de dois dias de viagem de carro chegamos à velha casa de minha tia, tio e seus três filhos. Subimos as escadas rindo e conversando; quando batemos à porta, demorou um minuto até que alguém abrisse uma fresta. O rosto de um menino de uns onze anos surgiu — cabelo loiro muito claro cobrindo os olhos grandes e verdes que nos avaliavam. Ele tremia antes de nos dizer, com voz baixa:

— Entrem, por favor. É tão bom ver todos vocês.

Simon tinha mudado. Parecia mais sério, como alguém que aprendeu a esperar desprezo dos outros. Minha mãe foi recebê-lo com um sorriso:

— Simon, vem cá me abraçar.

Ele deixou-se abraçar e nos levou para dentro, onde encontramos tia Clarissa. Ela sorriu:

— Que bom ver todos vocês novamente — e nos ofereceu abraços, comentando como eu havia crescido e perguntando se eu estava ajudando meus pais.

Havia algumas mechas grisalhas no cabelo dela, mas pouca mudança além disso. Perguntei pelo tio Wayne; ela disse que ele estava em uma viagem de negócios e não voltaria tão cedo.

Fomos até a sala de jantar, onde Mallerie e Eloise já estavam sentadas. Minha mãe se encantou com Mallerie; meu pai comentou como Eloise havia mudado. Mallerie não parecia pertencer ao resto da família: cabelo loiro-sujo, olhos azul-claro, não verdes nem cinzentos. Eu mal conversei com ela e foquei em Eloise, que estava mais velha e mais bonita do que eu lembrava. Ela mal se lembrava de mim, mas aceitei conversas breves. Notei que ela andava desconfiada, vigilante, como se esperasse uma traição a cada esquina.

Os únicos que pareciam normais eram tia Clarissa e Mallerie. Clarissa comia seus legumes com ar satisfeito, orgulhosa de seus filhos perfeitos. Havia tensão, como se um conflito tivesse acontecido recentemente entre ela e as crianças. Decidi perguntar sobre isso a Eloise depois do jantar.

Encontrei-a na sala de estar folheando uma revista adolescente. Percebi que seus olhos esmeralda saltavam para dois pontos atrás de mim antes de voltarem para mim. Perguntei:

— Há algo errado nesta casa?

Ela forçou um sorriso, respondendo:

— Não, por que você diria isso?

Eu hesitei e falei que Simon estava estranho. Vi um segundo de alívio cruzar o rosto dela, que logo foi escondido.

— Não se preocupe com ele, às vezes ele é alvo de bullying de crianças mais velhas — ela tentou minimizar.

Minha atenção, no entanto, estava presa àqueles dois pontos para os quais ela olhara: um armário de casacos e a escada com um pequeno armário por baixo. Quando eu era menor, eles sempre se escondiam naquele armário sob a escada durante o esconde-esconde. Lembro-me de, criança, sentir pavor do escuro daquele lugar. Agora, vendo marcas de desgaste no chão, percebi que o sofá fora puxado, escondendo a porta — mas o armário ainda estava lá.

Decidi descobrir o que havia de errado naquela noite, depois que todos dormissem. Eu dividiria o quarto com Simon; meus pais ficaram no quarto de hóspedes. Fingi dormir, mas observei Simon até tarde. Ele não fechava os olhos. Sequer relaxava. À 1h da manhã sua respiração finalmente ficou mais calma e ele ficou imóvel. Saí do quarto silenciosamente com uma lanterna pequena que pegara do gaveteiro de Simon e segui até o armário de casacos, pisando nas tábuas rangentes.

O armário parecia comum. Revirei bolsos, a bolsa de Clarissa, até achar um recorte de jornal que caiu de cima de uma prateleira quando movi um cesto. A manchete dizia: “Bebê recém-nascida roubada de orfanato”. Meu coração apertou. Por que minha tia teria isso? Coloquei o recorte no bolso e fui para a escada.

Puxei o sofá, encontrei a porta do armário sob a escada — estava fechada com um cadeado grosso. Voltei ao armário, peguei o canivete do bolso de Simon e arrombei o cadeado. Minhas mãos tremiam quando abri a porta e ativei a lanterna.

No canto direito do espaço raso pendia uma corrente do teto. Segurei a luz e vi uma mão acorrentada. Um grito pequeno e sufocado saiu da minha garganta. Ao acender a lâmpada que dependia do teto, o que vi fez meu sangue gelar: uma menina de cerca de nove anos pendurada por algemas, com nada além de umas roupas íntimas sujas; a cabeça caía para o lado, um pano enfiado em sua boca, os tornozelos amarrados com cordas grossas. Os pulsos e a pele ao redor dos tornozelos estavam vermelhos e feridos. Pela face, olhos pequenos e pela forma do rosto percebi que ela tinha sinais de síndrome de Down. Ela parecia esquelética; as costelas saltando sob a pele. Por um instante achei que ela estivesse morta.

Então sua cabeça se ergueu e um gemido horrível saiu pelo pano em sua boca. Ao olhar para o outro canto do armário, náuseas me dominaram: o corpo do meu tio jazia parcialmente devorado. O peito estava aberto, as vísceras espalhadas pelo chão; a pele do rosto havia sido arrancada, expondo o crânio branco.

Olhei novamente para a menina e vi que suas mãos e o rosto estavam manchados de sangue. Quinze segundos parecia uma eternidade. Vomitei, apoiando-me no batente e tremendo. Percebi o padrão macabro: tia Clarissa, obcecada pela perfeição, não suportaria uma criança “imperfeita”. Ela devia ter sequestrado a bebê do orfanato — Mallerie — e a escondido sob a escada porque não tinha coragem de matá-la. Mas quando meu tio discordou, Clarissa se livrou dele e usou seu corpo para alimentar a criança escondida.

Saí correndo escada acima e peguei o telefone da sala, discando 911. Quando olhei para baixo, meu peito caiu: os fios haviam sido cortados. Clarissa mantinha a família — e a casa — completamente isolada.

Ouvi um grito lá embaixo; percebi que havia deixado a porta do armário aberta e a luz acesa. Em seguida ouvi passos correndo e a porta da frente bater com força. Peguei meu celular e liguei para a polícia com as mãos trêmulas.

Mais tarde soube que, ao perceber que seu segredo havia sido descoberto, tia Clarissa fugira da casa. Felizmente a menina sob a escada sobreviveu e foi resgatada, mas a polícia nunca encontrou Clarissa. Mesmo hoje, imagino-a por aí, com outro nome, outra cara, à procura de outra criança que se encaixe na ideia distorcida de perfeição que a consumia.

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