Para a segunda vez naquela noite, Mike apontou uma arma para a minha cabeça. Eu a afastei; não estava de humor para as baboseiras dele. Mike parecia derrotado, esvaziado, como se fosse o único que tivesse saído de uma orgia com a cara esmagada.
— Pare com isso — disse eu. — Não sou eu, tem que ser um de nós.
Mike retrucou, virando a arma para Billy.
— Não sou eu também.
Billy protestou. Eu não gostava de Billy, e uma pequena parte de mim desejou que Mike apertasse o gatilho. Ele não fez; em vez disso, colocou a arma na própria cabeça.
— Bem, então tem que ser eu — raciocinou, pressionando o cano contra a têmpora. — Caramba, isso está intenso demais, eu não gosto disso.
— Alguém segura a arma rapidinho — intercedeu outra voz, demais entusiasmada para o meu gosto.
— Não, você não vai — estalei, seco.
Os três ficamos ali, no quarto de motel abafado e úmido, olhando fixamente uns para os outros. Não fazia ideia de como a arma tinha ido parar na minha mão, mas senti um alívio estranho ao segurá-la, suando e tremendo. Ouvi Billy dizer:
— Segura a arma; se alguém fizer algo, atira neles, atira no pinto.
Mike respirou fundo e assentiu.
— O que fazemos com ela? — apontou para a mulher desacordada na cama, o sangue escorrendo de uma ferida profunda na testa, onde Mikage Strucker a havia acertado minutos antes. Os pulsos estavam amarrados com corda; o rosto, negro e machucado; o subir e descer lento do peito era a única indicação de que ela ainda respirava.
— Ah sim — disse Mike, mordendo o lábio nervoso. — Eu tinha esquecido dela. Ela deve ficar bem. Um problema de cada vez. Agora temos que descobrir qual de nós está possuído pelo demônio que acabamos de expulsar dela.
— Pessoalmente eu acho que é o Billie — cuspiu alguém.
— Vai se foder, Billie — cuspiu Billy. — Não estou possuído, você é que está possuído, Mike, atira nele. Se você for atirar no Mike, atira em mim também. Vou fazer com que o Mike atire em mim de volta.
— Se você fizer isso, eu peço para o Mike atirar duas vezes — disse outro.
— Esquece, Mike, apenas me atira por eu ter pedido pra ela atirar.
— Pare — interrompeu Mike. — Se eu vou atirar em alguém, eu escolho.
Billy bufou.
— Eu meio que acho que é você também, Billy.
— Mike, eu sou homem da igreja — eu disse. — Se alguém aqui estiver possuído é provavelmente você.
— São palavras grandes pra um homem que não tava segurando a arma — revirou Billy. — Bem, acho que, senhor Homem da Igreja, você vai ficar muito mais santo agora.
Mike manteve a arma baixa. Passei a mão na ponte do nariz e tentei segurar a enxaqueca que apertava. Aquilo não ia nos levar a lugar nenhum.
Devo explicar melhor a situação: Mike e eu somos, por falta de termo melhor, investigadores paranormais. Por um valor baixo, limpamos casas de espíritos, banimos presenças malignas e às vezes tentamos exorcismos. Não é exatamente uma profissão lucrativa. Culpo Scooby-Doo por nos enganar nesse negócio — como eles mantinham as roupas limpas e abasteciam a van é um mistério. Aceitávamos qualquer trampo.
Quando nosso rival, o Padre William — que eu chamava de Billy — pediu ajuda, não estávamos em posição de dizer não. Billy era um babaca; dizia ser homem da igreja, mas até pouco tempo tinha trabalhado numa locadora e vendia DVDs e tapetes de fim de semana no mercado. Dirigia uma van coberta de cruzes e nos subcotava sempre que podia. Já tínhamos trabalhado com ele antes; geralmente terminava em desastre, como naquela noite.
A princípio aquilo seria um exorcismo comum: algumas linhas de Escritura, um pouco de latim e você sai pra jantar em casa. O que o Padre William não disse foi que não lidávamos com um espírito, e sim com um demônio. Nem eu nem Mike sabíamos lidar com algo assim e estávamos despreparados.
A garota gritou, cuspiu blasfêmias e, por um momento, chegou a levitar enquanto tentávamos expulsar a criatura. Mike, sem opção razoável, acabou dando uma coronhada na moça como se isso fosse resolver algo. Em seguida a entidade saiu da garganta dela em uma nuvem densa de fumaça negra; as luzes se apagaram e acenderam segundos depois. A nuvem havia sumido, a jovem estava inconsciente e um de nós, sem dúvida, estava possuído. Era onde estávamos agora.
Depois de acusações e insultos gratuitos, nos aquietamos. Eu me sentei no canto do quarto, pernas cruzadas, segurando a arma com força e observando Billy e Mike com desconfiança. Billy recostou-se no sofá do motel, pés na mesinha, mexendo na barba tingida de cinza e olhando o relógio. Andei de um lado para o outro, sabendo que cada minuto ali era um tempo que eu nunca recuperaria — e, pelo meu histórico de fumar e beber, eu não tinha muito tempo de sobra.
Mike finalmente falou, quebrando um silêncio que parecia durar vinte minutos.
— Vamos ficar aqui e esperar que um de nós enlouqueça? — sugeriu.
— Sim — respondi, seco. — Esse é o plano: somos os únicos na área; não há mais ninguém para o demônio pular. Tem que ser um de nós.
Ele lançou um olhar maldoso para Billy.
— Então esperamos. Ou nos matamos todos ao mesmo tempo? Estou sem reflexo.
Os três viramos a cabeça em direção à porta — alguém batia. Não devia ter ninguém naquele motel àquela hora; havíamos reservado o quarto.
— Quem é? — perguntei em tom baixo.
— Como eu vou saber? — resmunguei, duvidando que o sujeito fosse falar sobre Jeová.
Alcancei e virei a maçaneta. Mike estava atrás de mim com a arma em punho; Billy segurava o terço e murmurava trechos de Escritura. Abri a porta só um pouco.
O homem disse que vinha batendo de porta em porta, que o carro tinha quebrado um pouco mais adiante e que não tinha celular para emprestar. Era um homem de meia-idade, terno encharcado pela chuva, com uma pasta. Quando viu a arma, o tom diminuiu. Troquei um olhar com Mike e Billy antes de suspirar.
— Acho melhor você entrar.
Excluindo a jovem inconsciente na cama, havia agora quatro de nós no quarto. O estranho, que se apresentou como Brandon, sentou-se no sofá afundado e manchado, roendo os dedos nervosamente. Reação compreensível — ser mantido à mira por três homens suados no meio da noite não é agradável.
— Tem um demônio aqui? — ele perguntou, com a voz tremendo.
— Sim — respondeu Billy. — Possivelmente dentro de alguém.
— Talvez em mim — Brandon continuou.
— Pode ser — disse Mike. — Mas você não tem como saber.
— Vocês têm cerveja? — Brandon perguntou, tentando retomar o controle.
Sentei-me na cama enquanto Mike puxava um isqueiro e dividia um conhaquezinho com Brandon. Isso estava ficando ridículo. Verifiquei Emily na cama e confirmei que ainda tinha pulso; bom, pensei, desde que ela não morra — era ela que nos pagava. Emily era jovem, loira e totalmente fora do meu alcance, possuída ou não. Ela procurou Billy pedindo um exorcismo, achando que algo ou alguém estava tomando controle dela. No começo, imaginei transtorno mental — nove de dez supostas possessões têm esse motivo — mas decidi dar o benefício da dúvida. Acabou que ela estava realmente possuída.
Observei Mike rindo com Brandon enquanto Brandon, por algum motivo, agora segurava a arma; fiz uma anotação mental: a estupidez do Mike provavelmente vai me matar. Billy ficou junto à janela, olhando o estacionamento.
— Acredito que tenho uma ideia — disse ele, virando-se e ajeitando a batina. — No meu van há vários livros e tomos. Lá dentro estará o nome desta praga. Se tivermos o nome, teremos poder sobre ela; com isso podemos expulsá-la pro lugar de onde veio.
Billy levantou um punho trêmulo no ar, como se chamasse uma revolução. Mike e Brandon assentiram, como se aquilo fizesse sentido.
— Ok — aceitei. — Vamos supor que encontremos o nome e não funcione; precisamos de um plano B.
Oh, porra. Agora éramos cinco no quarto: eu, Billy (meio inconsciente e com um olho a menos), Mike, Brandon — o estranho que havíamos deixado entrar — e Glenda, uma mulher de meia-idade com cabelo castanho sem graça e óculos de aro fino, que dizia trabalhar na limpeza do motel e vinha averiguar se precisávamos de algo. Ela agora se sentou ao lado de Brandon, que explicava a situação.
— Então tem um demônio aqui? — Glenda perguntou, assustada.
— Sim — respondi. — Mas não precisa se preocupar, tenho tudo sob controle.
Brandon pousou o braço no ombro dela enquanto exibia a arma.
— Não se preocupe, estamos bem.
Glenda apertou-se mais perto de Brandon; eu pensei no que diabos eu estava fazendo com a minha vida.
Bati na porta do banheiro.
— Mike, sai daí agora! — gritei.
Mike apareceu segundos depois.
— O que foi? O que houve? — perguntou, com a voz tensa.
— TUDO — respondi, puxando-o pelo colarinho e empurrando-o na direção de Billy. — Billy, consegue andar?
Ele murmurou palavras ininteligíveis, mas disse que sim.
— Bom — disse eu. — Você e Mike vão até a van procurar o nome do demônio pra voltarmos pra casa antes que você perca outro olho ou Brandon e Glenda virem churrasquinho. Glenda, você fica aqui com esses dois. Mike, pega a arma. Se acontecer algo esquisito lá fora, não traga de volta nada pro quarto. Estou farto disso.
Mike pegou a arma de Brandon; os dois trocaram um abraço e um aperto de mão ridiculamente elaborado. Billy se levantou, cambaleante, e saiu devagar. Mike abriu a porta e espiou, segurando a arma verticalmente como um completo idiota.
Fechei a porta e sentei na cama, encarando os dois estranhos, esperando pelo retorno de Mike e Billy. O ar ficou constrangedor. Depois de um tempo ouvi o banco do carro de Billy batendo e passos vindo de fora. Brandon e Glenda conversaram o tempo todo, deixando-me ali, mexendo as mãos, esperando que o pesadelo terminasse.
Levantei-me aliviado e fui até a porta quando as luzes se apagaram outra vez. Apoiei-me na parede e fechei os olhos, numa tentativa de não sentir nada. Abri-os quando ouvi Glenda gritar. Mike entrou pela porta; as luzes voltaram. Glenda estava encolhida no sofá, abraçando o corpo como se fosse um cobertor, expressão de terror. Ao lado dela, Brandon parecia igual — exceto por um rasgo enorme na garganta; sangue jorrava até os pés. Seus olhos estavam vazios.
— Brandon — Mike suspirou. — Não.
Ele correu até o corpo. Billy entrou devagar, carregando alguns livros, parecendo meio morto.
— Brandon, não! — Mike gemia. — Você era um dos bons, um dos melhores.
— Você só conheceu o cara por quatorze minutos — eu disse. Mike me olhou com reprovação e voltou ao corpo do amigo.
Dei a Mike uns três minutos para lamentar antes de puxá-lo de volta.
— Vamos — ordenei. — Vamos acabar com isso e ir embora.
Mike afastou-se, pegando a arma e recuando até um canto.
— Tem que ser um de vocês — rosnou, movendo a arma entre mim e Glenda.
Billy estava desmaiado no chão, folheando livros sem rumo. Glenda encolheu-se, levantando as mãos como quem espera bloquear uma bala.
— Acalma-te, Mike — falei, dando um passo adiante. — Você está estressado. Coloca a arma no chão.
— Ok, não — ele murmurou. — Você acalma-se.
Eu estava calmo, juro. Mas ele se irritou e apontou a arma à nossa frente. Respirei fundo.
Fui até ele e empurrei a arma para o chão; abracei-o e ele se aninhou no meu ombro.
— Eu sei, amigo — consolava-o.
Depois de um tempo, com Mike mais calmo, fizemos um rápido balanço: Billy estava fora de combate; Glenda se recusava a falar, balançando-se no sofá; o corpo ainda quente de Brandon jazia ali. Restávamos eu e Mike, o que não era nada reconfortante.
E agora? perguntei a mim mesmo.
Mike encolheu os ombros e deixou a arma sobre a mesa de centro.
— Não sei — disse. — Deveríamos cair fora? Talvez.
Mike pegou o casaco. Tocou no corpo de Billy e não obteve reação, então disse que deixaria um bilhete. Ele se despediu de Glenda, que nem pareceu notar. Eu disse que daria uma olhada rápida.
Fui ao banheiro e sentei na pia com a cabeça nas mãos. Decidi que, na manhã seguinte, arrumaria um emprego no McDonald’s; não ia mais fazer esse trabalho. Rapidamente, depois de um tempo, ouvi Mike do outro lado da porta:
— Ei, onde está a Emily? Você a mexeu?
— Não — respondi, franzindo a testa, confuso.
As luzes começaram a piscar outra vez. Um grito aguado veio do outro cômodo, seguido por um tiro. O som de madeira estilhaçando. Fiquei imóvel até as luzes voltarem.
Abri a porta lentamente. Mike estava no chão, os restos da mesa de centro quebrada por cima dele; a arma não estava à vista. Glenda estava no sofá, silenciosa — desta vez porque a língua pendia para fora da boca, a mandíbula quebrada; ela piscou algumas vezes e então parou. Peguei a arma do chão; o cano ainda estava quente.
Mike se ergueu lentamente. Levantei a arma para ele.
— Mike, responde honestamente que eu prometo não ficar puto — disse. — Você é possuído?
Mike se levantou, procurou a arma e viu que estava na minha mão apontada para ele.
— O que? Eu? Não — respondeu, voz trêmula. — Porque parece que você é o possuído.
— Não fui eu — tentei garantir. — Vi você olhando pro corpo do Brandon com dor. Eu não matei a Glenda nem o Brandon.
— Eu também não — disse ele, olhando pro chão. — De fato, eu acredito, mas não confio.
Observei a cama: Emily estava onde estivera a noite toda, imóvel.
— Por que você perguntou onde estava a Emily? — perguntei, me aproximando de Billy e chutando-o até ele se mexer.
Ele ergueu a cabeça com dificuldade; um pequeno lago de sangue jazia ao lado.
— O que fizemos? — perguntou ele. — Os livros funcionaram?
Mike olhou pra cama, boquiaberto, tampando a boca.
— Eu juro que ela não tava aqui há um minuto — disse. — O demônio voltou pra ela e está nos caçando um a um. Que jogada traiçoeira.
Billy conseguiu se erguer, encostando-se na parede.
— O que está acontecendo? — perguntou, exausto.
— Com esforço — respondi — Mike está possuído.
— EU NÃO! — Mike bradou.
— Eu sabia! — gemeu Billy. — Mike, se você ainda estiver aí dentro, vou ter que atirar em você, pelo menos um tiro pra te subjugar. Só avisando. — Ele apontou para a perna do padre.
— Não atira em mim! — Mike gritou. — Dá a arma pra ele, atira nele, por favor, não quero que pegue em mim de novo.
Nesse momento Emily começou a se mexer. Sentou-se na cama, esfregou a testa machucada e perguntou, trêmula:
— Acabou? Vocês tiraram?
Ela limpou o sangue e os cabelos loiros empastados.
— Ah — respirei aliviado. — Bom que voltou. Sim, tiramos. É ele.
— Cala a boca, demônio — Emily resmungou, irritada. — Você me fez passar por tanta palhaçada hoje à noite. Pelo menos extrai com dignidade.
— Ninguém disse que você não pode falar — Mike respondeu. — Você não consegue expulsá-lo. Ele é forte demais; tem que matá-lo — ele apontou a arma — atira nele ou vai só pular pra outro de nós.
Ela tinha um ponto; Billy concordou e então vomitou no chão.
— Não, ela não tem razão, ela está possuída — disse alguém. — Pensem: eu nem estava com Brandon quando ele foi morto; eu estava com Billy.
Mike deu alguns passos para trás, encostou-se na parede. Emily implorou:
— Dá a arma pra ele, atira nele, por favor, não quero que pegue em mim de novo.
Eu apontei a arma para Mike.
— Promete que você não está possuído? — ela gritou.
— Eu prometo — Mike disse, mão sobre o peito. — Eu juro na memória do bom e velho Brandon.
Sobrou pouca paciência. Fechei os olhos por um segundo e pensei: chega. Abri os olhos e atirei.
Dias depois estava no carro, esperando, com um currículo no colo, em frente ao McDonald’s local. Não conseguia entrar. Depois de tudo que vi lidando com o paranormal, a ideia de trabalhar em fast food me enjoava. Dobrei o jornal e o joguei pela janela.
Talvez eu pudesse ser lixeiro, pensei; parecia um trabalho estranhamente nobre. Talvez eu me jogasse na frente de um trem, talvez torrasse um pão na banheira — as possibilidades eram infinitas.
Mike apareceu, abrindo a porta do carro e jogando uma caixa de nuggets pra mim.
— Não tinham molho barbecue, só agridoce — disse, sentando-se. O braço estava em tipoia e o ombro enfaixado; ele reclamou enquanto fechava a porta. — Ainda não acredito que você atirou em mim.
Abri a caixa e comi um nugget.
— Ela estava convincente — protestei. — Você quis o pau, é isso que está dizendo? — brinquei, tentando aliviar a culpa.
Ele lutou para abrir um canudo com uma mão só. Eu o ajudei, sentindo uma ponta de culpa por ter aberto um buraco no ombro dele.
— E o Billy? — perguntei.
— Ele tá bem — Mike respondeu. — Adora o tapa-olho; acha que dá um ar de padre guerreiro.
— Tem notícias da Emily? — quis saber.
— Ah, ela está bem. O exorcismo funcionou na segunda tentativa. Ela teve que comprar a arma depois que você atirou em mim — disse Mike, meio rindo. — Ela estava meio fora de si na hora, então não quero falar muito.
— E agora? — perguntei.
Mike pegou o celular e começou a checar e-mails.
— Temos opções — disse ele. — Um fazendeiro acha que palhaços espaciais estão roubando o leite das vacas — não, não vou lidar com palhaços espaciais. Ou um cara rico oferece uma grande recompensa pra quem passar a noite na sua mansão; aparentemente uns universitários se inscreveram. Poderíamos nos infiltrar.
Pensei um minuto.
— Beleza — disse. — Por que não. O que poderia dar errado?