As regras chatas do David

— Então… você tem alguma experiência trabalhando com segurança? — perguntou ele.
— Não. — respondi.

— Ok, mas você concluiu o curso online, certo?
— Tinha curso online? — O homem magro bateu a mão na testa. O cara tinha me dito o nome dele, mas… eu não conseguia lembrar.

— Olha! — disse, inclinando-me para frente com um sorriso. — O que exatamente você quer que eu faça? Vigiar umas câmeras? Dar uns berros em uns adolescentes? Ficar acordado a noite toda sem a ajuda de estimulantes ilegais, mas totalmente legítimos!?

Pisquei. Ele me olhou, mas não sorriu.

— Entendi, cara! O que você precisar, eu anoto! É claro que sempre posso aprender na prática! — disse eu.

O estresse fez o homem magro suspirar, apoiando a cabeça nas mãos. Ele usava uma camisa social limpa, mas encharcada de suor.

— Conte-me sobre seu último emprego na prefeitura da cidade. — ele finalmente disse.

Engoli em seco. Havia um acordo. Uma cláusula entediante e gordurosa assinada com o prefeito que me impedia até de explicar por que eu saí. Era legalmente embaraçoso — e, honestamente, conveniente.

— Ah, não, não, não, não, legalmente, não preciso falar sobre isso… — gaguejei, encolhendo ombros.
— Devid. — ele corrigiu, pacientemente.
— Não seja bobo, Devid, eu sabia disso! Agora, nosso grande governo declarou que… — respondi, tentando desviar.
— O que quer que você esteja prestes a dizer, garanto que não… — começou ele.
— Cale a boca, Devid! Quer dizer, desculpe… não quero falar sobre a prefeitura. — interrompi.

Devid ficou quieto por um momento. Eu podia ver aqueles dois olhinhos nerds me julgando. Aquele era um puta burocrata corporativo. Eu não podia julgar muito; hoje em dia eu era tão escravo do sistema quanto ele.

Devid sentou-se, mexeu nos papéis sobre a mesa e empurrou os óculos que escorregavam do nariz.

— Johnny… Del-Montague? Certo? — perguntou.
Estremeci com a menção do meu sobrenome.
— Sim, é isso mesmo. — respondi.
— O que faz você pensar que será uma boa opção para este trabalho, Johnny? — ele pediu.

Olhei pela porta do escritório, para a área de espera onde fileiras e mais fileiras de assentos estavam vazias.

— Serei bem honesto com você, Devid. Normalmente, é aqui que eu continuo falando bobagens e soltando umas palavras bonitas que podem ou não funcionar. — virei-me para encará-lo nos olhos. — Mas, honestamente, Devid, acho que o fato de eu estar aqui e respirando pode ser o suficiente.

Devid gemeu, sem tirar os olhos dos papéis sobre a mesa.

— Infelizmente, você está certo… — murmurou.

Sorri.

— Você ao menos se lembra do que fazemos aqui, Johnny? — ele perguntou.
Fiquei em branco por um segundo.

— Ahn… refresque minha memória… — respondi.
— Você realmente se importa? — ele retrucou.
— Bem, isso é importante? — perguntei.
— Não. — disse ele, pegando uma folha de papel e me entregando. — O que é importante é esta lista. Agora, olhe, tudo o que preciso que você faça é seguir essas regras e… — começou.

— Espere? — o interrompi. — Não posso usar o banheiro entre meia-noite e duas da manhã?
— Não, isso é muito importante, Johnny. Se você fizer… — começou.
— Tenho quase certeza de que isso é ilegal. — respondi.
— JESUS CRISTO, JOHNNY! Eu vou acrescentar mais vinte por noite. É só fazer xixi num balde ou coisa parecida, se precisar ir. — ele explodiu.

Olhei de volta para ele. Acho que esse homem era um pouco maluco.

— Tudo bem… o garoto de preto, que eu devo ignorar. Ele é tipo o filho do dono ou algo assim? — perguntei.
— Não é importante, apenas fique longe dele. — disse ele.
— Ok… e… — continuei.
— Olha, Johnny… eu realmente espero sair em uma hora. Você pode começar hoje à noite ou não. — disse Devid, apressado.

Puta merda, eu não queria começar a trabalhar hoje… Melhor não deixar isso transparecer.

— Claro. — respondi.

Vesti meu velho casaco de novo e pensei que eu realmente deveria descobrir o que esse lugar era. Ah, tanto faz. Agora era trabalho!

Peguei minha sacola de fast food e fui até a porta. Devid passou por mim, a caminho da saída, com um sorriso nervoso no rosto.

— Você revisou a lista, certo, Johnny? — perguntou.

Ah… merda… aquela lista idiota de regras… Era… puta merda, eu não conseguia lembrar o que tinha feito com ela. Eu apenas sorri e balancei a cabeça. Não devia ser tão importante.

Devid me entregou as chaves e uma coisa estranha e roxa.

— Para a regra número 7. — ele disse. — Não se esqueça disso.

Sorri e balancei a cabeça, fingindo saber do que ele estava falando.

— OK. — disse ele. — Também não se esqueça da regra 3 quando se trata dessa comida. Estou saindo agora. Boa sorte, Johnny.

Com isso, ele saiu correndo. Correndo para longe, mais parecido. De qualquer forma, entrei no prédio, tranquei a porta atrás de mim e segui para a sala de vigilância.

Coloquei meu fast food na mesa e comecei a enrolar meu primeiro baseado da noite. Eu não tinha dado uma boa olhada na lista, mas com certeza não vi nada sobre isso nela. As imagens pareciam meio problemáticas. Devid, meu amigo, você precisava manter suas coisas atualizadas.

Um rato rastejou para fora de uma saída de ventilação próxima. Ele desceu e se aproximou de mim, cautelosamente. Sorri e joguei uma batata frita para ele. Ele pareceu olhar por um momento antes de agarrá-la e sair correndo. Acendi meu baseado.

Merda, eu realmente não sabia como interagir com a tela da câmera. Ah, bem, acho que posso apertar todos os botões até encontrar o que funciona. Um deles desligou a tela, mas apertando de novo ligou tudo.

O amigo rato voltou com um companheiro, seguido por um terceiro. Eu os ignorei por enquanto, apenas focando em como operar aquele computador.

Eu estava prestes a apertar um estranho botão vermelho na lateral do teclado quando meu braço acidentalmente derrubou minha bebida. Espero que não tenha sido a regra 3… Rapidamente, peguei a manga do suéter e esfreguei no teclado. Ela bateu em todas as teclas, mas depois de desligar a tela e abrir algumas abas estranhas, nada mais aconteceu.

Pensei em ligar para o Devid, mas achei que seria melhor fingir que sabia exatamente o que estava fazendo; podia me safar por um tempo.

Os ratos estavam por toda parte agora. Eles corriam ao meu redor em um padrão circular quase perfeito. Pequenos esquisitos. Joguei mais algumas batatas fritas para eles.

Olhei para uma das imagens da câmera e vi que havia dois trabalhadores noturnos ali. Suas formas estavam todas falhas na transmissão; não consegui distinguir muitos detalhes além das silhuetas humanas negras. Decidi me apresentar; não seria um bom segurança se não o fizesse.

Peguei a coisa roxa estranha e pontiaguda, caso achasse que algo era a tal regra 7. Assim que a peguei, todos os ratos fugiram de repente.

Enquanto descia por este lugar, percebi que não sabia em que sala eles estavam. Abri uma porta e o que parecia ser um grito estridente soou. Eu rapidamente bati a porta. Acho que você precisa de protetores de ouvido para trabalhar com o que quer que estivesse lá dentro.

Finalmente encontrei os dois, e a imagem da câmera não estava mentindo. Aqueles pobres rapazes estavam tão cobertos de carvão ou espuma, ou seja lá o que fosse, que ficaram completamente negros. Tudo, exceto seus olhos, que pareciam ter sido queimados de branco. Não tenho certeza de como eles me viram.

Acendi um novo baseado e me apresentei sem demora.

— E aí, pessoal! Acho que vocês são da equipe noturna, hein? Devid não me disse que tinha outros trabalhadores noturnos. Meu nome é Johnny e… — comecei.

— DEIXEM-NOS EM PAZ, MERO MORTAL!!! ESTAMOS AQUI DESDE ANTES DE VOCÊ EXISTIR NESTE MUNDO E EXIGIMOS SER DEIXADOS EM PAZ!!! — rugiram eles.

Eles praticamente rugiram para mim. Jesus, não eram apenas os olhos e o corpo. Alguma substância devia ter afetado a voz desses caras.

— Uau! Desculpe, pessoal! Malz. Não tive a intenção de incomodar, só queria ter certeza de que não eram adolescentes, heheh. Ah, a propósito, aposto que vocês conseguem que a empresa cubra a cirurgia desses olhos, provavelmente até processá-los se não o fizerem. — falei, tentando amenizar.

Comecei a recuar desajeitadamente enquanto os dois me olhavam.

— O que há de errado com nossos olhos? — um deles sibilou.
— Eu… uh… desculpe incomodá-los, senhores. Ah, antes de ir, querem uma piada? — ofereci, ainda nervoso.
Os dois me olharam, sem nenhuma emoção verdadeira além daqueles olhos assustadores.
— …Simmm. — respondeu um, mais como um engasgo.

Passei-lhes o baseado. O que quer que os cobrisse parecia flutuar enquanto ele se estendia. Quando seus dedos tocaram, a coisa preta deles contaminou meu baseado. Um deles inalou.

Agora mais desses trabalhadores começaram a aparecer. Acho que todos queriam uma piada.

— Vocês podem ficar com essa ponta, vou deixar vocês com isso. — disse eu enquanto saía. Aqueles filhos da puta realmente precisavam de um banho.

Enquanto voltava pelos corredores escuros, encontrei outro cara. Ele não parecia outro trabalhador, mas estava todo vestido de preto. O filho do dono, eu suponho.

Sorri e balancei a cabeça, lembrando que ele não gostava que conversassem com ele. Ele olhou para trás e deu um sorriso sádico que me lembrou muito do meu irmão. Passei, mas esse cara se virou e começou a me seguir até a sala de vigilância, onde tranquei a porta para ele.

Me recostei e derramei um pouco de cocaína num guardanapo e cheirei. Hora de me preparar para as últimas horas da noite.

1h00
Algumas crianças apareceram em uma das salas. Consegui usar o interfone para fazê-las se dispersar. Elas continuavam voltando, e sempre havia mais delas. Nunca consegui vê-las direito, mas dava para dizer que eram jovens pelas silhuetas tênues. Eventualmente, decidi que iria ignorá-las. Não ia chamar a polícia por causa de crianças. Eles provavelmente eram bem mais barulhentos do que perigosos — ou assim eu achava.

1h45
Desculpe, Devid, mas não vou fazer o número 2 num balde. E este estava chegando agora mesmo! Abri a porta da sala de vigilância e quase morri de susto. Aquele cara estranho que me seguiu ainda estava lá, sorrindo.

Fiquei parado por um minuto. Espere, talvez esse cara precisasse de alguma coisa. Talvez fosse sobre a regra 7? Peguei a coisa roxa e ofereci a ele. Sua expressão mudou para choque enquanto olhava para aquilo. Ele olhou para mim e depois para o objeto; de repente, sorriu com verdadeira alegria nos olhos, agarrou-o e saiu correndo.

Nossa, posso ver por que Devid queria que eu ficasse longe dele. Havia algo muito errado naquele cara.

Encontrei o banheiro, entrei em uma cabine vazia e esvaziei meu sistema digestivo.

Assim que terminei, deparei-me com uma visão aterrorizante. Não havia papel higiênico!

Esvaziei rapidamente meus bolsos esperando por um lenço ou algo assim, quando senti um pedaço de papel de impressora. A lista de regras!

Eu estava prestes a dar uma olhada quando ouvi uma batida forte na porta do box. Desculpe, Devid, não queria ser grosseiro. Limpei minha bunda com as regras, e lá se foram elas, descarga abaixo.

Abri a porta velha e fui recebido pelo que parecia ser um albino selvagem de olhos vermelhos. Ele parecia prestes a me atacar, mas eu rapidamente sorri e dei um tapinha em seu ombro, pedindo desculpas pela demora.

Quando saí, ele apenas olhou para mim com uma expressão que só poderia descrever como estupefato. O filho da puta tinha a língua partida também. O que quer que seja com você, meu caro.

Saí da cabine apenas para ver um monte daqueles trabalhadores ainda desmaiados, todos fugindo de alguma coisa. O que aconteceu foi que aquele cara estranho de antes estava montado em uma horda de ratos enquanto apontava aquela coisa roxa para eles.

Levei um momento para processar o que acabara de ver. Decidi que era melhor não pensar muito nisso.

3h00
Eu estava prestes a cheirar mais uma carreira quando meu telefone começou a tocar. Ah, que droga, era meu irmão Sawyer…

Atendi e falei.

— Olha, cara, eu me importo com você e tudo mais, mas isso é realmente importante? Eu meio que comecei um emprego novo e, honestamente, Sawyer, ainda não estou me sentindo bem com você. — disse.

— JOHNNY!!! JOHNNY! POR FAVOR, ME AJUDE, JOHNNY!!! — veio a voz em pânico do meu irmão.

Rapidamente tirei o baseado da boca.

— O quê? Mano, o que está acontecendo!? — perguntei, preocupado.
— São o Mike e o Sam, Johnny! Eles não me deixam sair!!! Eu quero voltar pra casa, Johnny, quero ver você, mamãe e papai, por favor, Johnny!!! — implorou.
Suspirei.

— Mano, o que diabos eu te falei sobre trabalhar para eles? Olha… — comecei.
— ELES PEGARAM MEU CABELO, JOHNNY! Eles estão arrancando fio por fio e usando-o para preencher as próprias cabeças carecas. Eu vou ficar careca, Johnny! — ele gritou.
— Sim, isso soa como o Mike e o Sam… — disse revirando os olhos. Sawyer meio que merecia.
— Por favor, Johnny! Acho que eles podem me matar! Eu acho que eles são na verdade… — tentou dizer, sufocado pelo pânico.
— Olha, mano, acalme-se! — disse, interrompendo-o. — Eles não vão te matar. Você é da família. Olha, eu vou ligar para o vovô amanhã de manhã e ver se ele pode ajudar. Eu preciso ir.
— JOHNNY, POR FAVOR… — implorou ele enquanto eu desligava na cara dele. Suspirei. Eram momentos como esse que me davam vontade de voltar a beber, mas isso só servia para entorpecer a mente e não para expandi-la.

4h47
Os trabalhadores estavam correndo soltos. Ocasionalmente, alguém batia na minha porta apenas para fugir enquanto o garoto esquisito, rei dos ratos, fazia suas rondas. Havia criaturas estranhas, meio humanas, mal-humoradas, sem rosto e com membros extralongos. Ocasionalmente, rostos estranhos e sangrentos piscavam um pouco nas câmeras. Aqueles estranhos de chapéu pareciam se teletransportar por todo o lugar.

Eu ia ter que conversar com meu contato da cocaína. Acho que ele, sem querer, tinha misturado com MDA de novo…

5h30
— Então, Johnny, como foi? Você está vivo, então presumo que não teve nenhum problema com as regras. — disse Devid quando voltou.

Forcei uma risada e joguei as chaves de volta para ele.

— Sem problemas! Ah, mas esqueci de despejar o balde de xixi. Se importa de pegar para mim? — perguntei.

Devid suspirou e assentiu, entrando no prédio.

Eu estava prestes a voltar para casa, mas de repente me senti culpado por ter desligado na cara do Sawyer; afinal, ele ainda era meu irmão.

Disquei o número e esperei.

— E aí, Johnny! É a Vanessa, o caixa eletrônico do Sawyer está ocupado, mas posso dar um recado a ele. Acho que ele ficaria feliz em ouvir sua ligação! — atendeu uma voz feminina.
— Ah, e aí, Ven. Apenas diga a ele que sinto muito por ter desligado ontem à noite. Diga a ele para me ligar de volta, certo? — pedi.

Houve uma pausa.

— Ahn, Johnny, o Sawyer esteve na reserva a noite toda. Ele só tinha um tablet, não poderia ter te ligado de lá. — disse Vanessa.
— Espere… você tem certeza?? — perguntei, confuso.

De repente, ouvi Devid gritar de dentro do prédio. Rapidamente liguei o motor e saí de lá. Fosse o que fosse, eu daria um jeito de inventar uma desculpa depois.

— Sim. — Vanessa continuou. — Na verdade, foi um verdadeiro show de horrores. Ele saiu para tentar organizar todo mundo, mas agora o Samuel quer que ele mate alguém e… — ela começou a explicar.
— Espere, mas se não foi o Sawyer… quem me ligou…? — murmurei.
— Você está chapado, Johnny? — ela perguntou.
— Sim, mas não TÃO chapado! — respondi.
— Ahn-hum… Sem ofensa, Johnny, mas sinto que já ouvi essa história mil vezes antes… — disse Vanessa.

BOOOOOM

Olhei para trás e vi que meu novo local de trabalho havia acabado de explodir.

— Johnny… que porra foi essa?! — Vanessa perguntou, assustada.
— Nada! — respondi e desliguei rapidamente o telefone.

Acho que teria que encontrar um novo emprego.

Talvez tenha sido o melhor.

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