A campainha tocou. Ninguém na porta. Ignorei, achando que era engano. Mas então o rádio da cozinha ligou sozinho, sintonizado numa estação de chiado branco. Desliguei, sentindo um arrepio. Nos dias seguintes, pequenos incidentes se tornaram mais frequentes. Objetos mudavam de lugar. A luz da sala piscava, mesmo com as lâmpadas novas. Uma noite, meu celular tocou. Era um número desconhecido. Atendi. Do outro lado, ouvi minha própria voz, sussurrando meu nome. Minha respiração travou. Desliguei. Tentei racionalizar, mas a paranoia começou a roer. Comecei a deixar a TV ligada, para abafar o silêncio. Mas a cada corte de cena, no canto do reflexo da tela escura, eu via. Um vulto rápido, um piscar de olhos que não era meu. Meu coração disparava. Tentei filmar. Tentei gravar o áudio. Mas na gravação, apenas o som da minha própria respiração ofegante. Quando me olhava no espelho, meu reflexo às vezes demorava um milésimo de segundo para me imitar. E um dia, ele sorriu. Um sorriso largo, frio, antes de eu tentar sorrir. Aquele não era eu. Corri para a porta, mas a maçaneta não girava. Minha chave não funcionava. As janelas, pesadas e fixas, não abriam. Preso. Comecei a gritar. Foi quando ouvi a voz novamente, agora clara, nítida, ecoando de cada canto do apartamento. “Você não precisa sair”, ela disse. “Estamos tão bem aqui, nós dois.” Não era mais minha voz. Era a voz. E vinha de mim. Olhei para minhas mãos. Elas não pareciam mais as minhas. Uma risada lenta e distorcida encheu o apartamento. Eu era a piada. E a piada ainda estava morando aqui. Dentro de mim.

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