Ninguém nos avisou que a dor não some, ela só espera. Leo, Ana e Pedro invadiram a velha ala de pediatria do Hospital Santa Clara, sussurros de experimentos sinistros ecoavam nos corredores. Ana, a mais corajosa, tropeçou numa escada enferrujada, caindo sem jeito. Mas ela se levantou rindo, sem um único arranhão. Pedro, sempre cético, pegou um caco de vidro, fazendo um corte raso na própria mão. A pele se fechou, como se nada tivesse acontecido. Aquele lugar era estranho. Começaram a testar os limites. Socos na parede, saltos de mesas quebradas. Nenhuma dor, nenhum ferimento. Uma euforia tóxica. Ana, delirante, escalou um andaime precário até o topo, um sorriso selvagem no rosto, antes de se jogar no vazio. Um baque forte, mas ela ria enquanto se levantava, intacta. Em seguida, pegou uma seringa enferrujada do chão, cravando-a na própria mão, gargalhando com a “invulnerabilidade” deles. O corpo dela, intocável. Decidiram ir embora. No corredor empoeirado, a caminho da saída, Pedro notou um relógio de parede. Parado. Marcava 30 minutos desde que entraram. Ana, no meio de outra risada, engasgou. O ar pareceu congelar. Seu rosto contorceu em puro terror. O braço que ela havia esfaqueado começou a sangrar. O grito dela foi gutural, um som que rasgou o silêncio. Ela caiu. O som de ossos esmagados, o impacto da queda do andaime, tudo a atingiu de uma vez. Os cortes, as contusões, os ossos quebrados que ela ignorou, explodiram na carne. O corpo dela convulsionava, revivendo cada segundo de invulnerabilidade com uma brutalidade inimaginável. Leo e Pedro ficaram paralisados, vendo a amiga virar uma massa de dor e carne dilacerada. O último som foi um baque seco, de algo se esmagando dentro dela. Os olhos de Ana fixaram no teto, sem vida, mas carregando um horror que jamais sumiria. Leo sentiu suas mãos incharem, latejarem, as que ele havia batido na parede. Pedro agarrou a câmera, as mãos tremendo tanto que a imagem ficou borrada. O relógio parado na parede da ala marcava agora 32 minutos.

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