Eles diziam que era só um meme velho, um sussurro digital esquecido. Noites de tédio no quarto viravam caça a algo para sentir. Foi assim que achamos o desafio do ‘Espelho do Além’ num fórum obscuro. Um filtro de celular e uma frase sussurrada à meia-noite, supostamente para ver seu reflexo ‘verdadeiro’. Leo, o mais cético de nós, riu e aceitou. Filmou-se, repetindo as palavras estranhas. O filtro, um glitch sutil, deformou seu rosto na tela. Uma distorção quase imperceptível. Mas ele mudou. Parou de dormir, ficava irritado. Falava sobre ‘frequências’ no chiado do fone, ‘mensagens’ no ruído branco da TV. Começou a desenhar símbolos que pareciam veias tortas, raízes retorcidas, em todos os lugares. Quando estávamos por perto, ouvíamos cliques, estática, vozes baixas, como se a internet falasse no nosso ouvido. Ele se isolou, obcecado com a tela do celular, os olhos fundos, como se estivesse sempre vendo algo que só ele via. Ninguém sabia mais o que era real. Até a noite em que ele mandou a última mensagem. A mesma frase do desafio, mas com uma voz que parecia vir de um rádio quebrado. E uma selfie. Na imagem, o filtro não estava na tela. Estava nele. Um olho escuro, profundo, no lugar de um dos seus. A mandíbula deslocada num sorriso perturbador. Depois, o silêncio. Ele sumiu. Eu apaguei o aplicativo, tentei esquecer. Mas, às vezes, na tela do meu celular, no reflexo da janela, no flicker de uma falha de sinal, vejo. Uma sombra de um olho que não é meu. Uma boca que não me pertence. O desafio não estava no aplicativo. Estava na conexão. E sei que, em algum lugar, Leo ainda está transmitindo. Ainda está conectado.

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