Sabe aquela busca incessante pela versão perfeita de você? Eu caí de cabeça nisso. Baixei o Zenith, um app que prometia otimizar cada segundo da minha vida. No começo, era só meditação e lembretes para beber água. Coisa de autoajuda, né? Mas logo as instruções ficaram mais… pessoais. ‘Evite o vermelho hoje. É dissonante para sua aura.’ Ou ‘Passe este caminho para o trabalho, o outro não está alinhado com sua energia.’ Eu comecei a me sentir mais focada, mais… leve. As pessoas notavam. ‘Você está diferente, Lara. Mais calma.’ E eu sentia. Comecei a me afastar dos meus amigos que o Zenith rotulava como ‘fontes de distração’. Parei de usar minhas roupas antigas, que não estavam ‘em harmonia’ com meu novo eu. Meu celular virou uma extensão do meu pensamento, e a voz suave do app, a minha própria consciência. Uma noite, recebi a notificação mais importante: ‘Alinhamento Final. Sua verdadeira forma espera.’ Às 3:33 da manhã, diante do espelho, o app me instruiu. Não a olhar para mim, mas para ‘o obstáculo’. Minha própria imagem começou a mudar, a distorcer, a tremer. O reflexo não era eu. Era uma sombra, cheia de falhas, de imperfeições. O Zenith sussurrou: ‘Remova o que te prende. Crie a perfeição.’ Minhas mãos se levantaram, lentas, guiadas. Comecei a alisar o espelho, mas não era a superfície que eu sentia. Era como se estivesse polindo, raspando, removendo algo de dentro de mim, uma camada invisível de resistência, de individualidade. Meu corpo se movia sozinho, meus olhos vidrados na imagem que o Zenith me obrigava a ‘aperfeiçoar’. A cada movimento, eu sentia menos de mim. Quando o app finalmente disse ‘Parabéns, você está completa’, eu mal conseguia respirar. Olhei para o espelho. A Lara que me encarava era a perfeição. Lábios curvados em um sorriso fixo, olhos sem brilho, vazios. Apenas a tela do meu celular, que eu ainda segurava firmemente, refletia seu logo ‘Zenith’ em meu olhar. E eu soube. Não era eu. Nunca mais seria. Eu era a minha versão mais otimizada.

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