Ela apareceu nas fotos do casamento, mas eu não lembro do dia. Casamos? Ela dizia ‘meu segredo’ e ria com a boca cheia de dentes que não eram dela. Cada dente trazia um nome. Quando ela sorria, o nome sumia do mundo: ninguém mais respondia, ninguém mais escrevia. Primeiro foi o cachorro. Depois o meu número. Hoje fui me apresentar e ninguém entendeu meu nome. Ela puxou o véu, mostrou um dente com meu nome gravado e começou a mastigar. Quando ela terminou, eu deixei de existir.
Achamos que o rito funcionou. O padre sorriu, o corpo relaxou. Um de nós começou a rir baixo. Desconfiança virou silêncio pesado. Numa briga, o Matheus matou o João. Disseram que foi defesa. Eu enterrei o segredo com a terra. Contei tudo à polícia e ajeitei a história. À noite, palavras escorrem na minha cabeça e eu escrevo sem querer. Alguém escreve culpa com minha mão. Última coisa: eu não estou no controle. Eu sou o possuído.
A nova trend apareceu no meu feed: um vídeo sem rosto. Quem curtia dizia que tinha pesadelos horríveis, acordava com as unhas marcadas na pele. No comentário fixado, a regra: ‘pra acabar, grava um vídeo pedindo pras pessoas assistirem.’ Eu gravei como prova. Pedi. As curtidas subiram. De madrugada eu senti outra voz na minha boca pedindo pra mim tocar a tela. Agora eu não sei se tô acordado ou se tô sendo mostrado.
“Vá para a cama e espere o Homem de Areia.”
Assim que a frase saiu da boca de James, soou estranha para ele, e ele não sabia exatamente por quê; ainda assim, de algum modo, disse-a. Na manhã seguinte, quando Daniel foi dormir mais cedo, perguntou:
— Como é o Homem de Areia?
James estava na cozinha preparando o café.
— Você vai sentar à mesa, com as perninhas balançando embaixo da cadeira — respondeu, tentando fazer graça. — Nada demais, é só uma expressão.
— Por que dizem isso? — continuou Daniel.
James colocou um prato de ovos na frente do filho e lhe beijou o topo da cabeça. Pensou que aquilo seria o fim da conversa, até vê‑lo com seus próprios olhos.
Era rotina: antes de dormir, James sempre passava pelo quarto de Daniel para checar. Aquela verificação decidida e quase automática deu-lhe alguns segundos a mais para processar o impossível. Sentada na beirada da cama havia uma criatura pálida, nua e magra, balançando para frente e para trás, os pés tocando o chão como se fosse o gesto mais natural do mundo.
Por instinto, James correu ao quarto gritando. Por um momento cogitou atacar o intruso; então a criatura virou-se — e ele percebeu que não era um homem.
Era algo pálido, úmido ao toque da luz, quase desprovido de pêlos. As juntas dobravam‑se ao contrário; o corpo se entortava em dobras que enganavam a lógica. Quando se movia, lembrava uma marionete enlouquecida no palco de um pesadelo. James ficou imóvel. A coisa o observou e um calor subiu por suas pernas — e, com ele, a sensação de que sua alma se havia molhado de medo.
Só então lembrou que Daniel ainda estava ali, a um palmo, com os olhos presos na figura deformada. Sem coragem para permanecer, agarrou o filho e correu para o corredor. Ao se virar, notou que a criatura não os seguia; ficou alguns instantes observando, depois engatinhou até a janela de maneira espasmódica e pulou, deixando apenas as cortinas esvoaçantes.
Policeiros demoraram a chegar. James registrou um arrombamento, mas teve dificuldade para descrever o invasor; como explicar a um homem de farda que, enquanto colegas revistavam a casa, ele vira algo que não cabia em nenhuma palavra? Para piorar, o relato de Daniel não coincidiu com o seu. O menino descreveu um ladrão de máscara comum. James cogitou que talvez fosse uma máscara — mas isso exigiria um disfarce elaborado que não justificaria os movimentos impossíveis. No fim, repetiu o testemunho do filho: um sujeito com máscara, um ladrão.
Os médicos disseram que Daniel não estava ferido, sem sinais de abuso. Aliviado, James e o menino ficaram alguns dias num hotel até se sentirem prontos para voltar. Em casa, instalou um novo sistema de segurança e grades nas janelas — odiava o visual das grades no quarto do filho, mas julgou‑as necessárias.
Na primeira noite em casa sentiu um medo que não se explicava; estranhamente, Daniel não parecia perturbado. Quando James perguntou se ele dormia bem sozinho, o menino disse que sim. James, porém, não conseguiu deixar de vigiar: passou noites em claro, atento a qualquer som. Às vezes, convencendo‑se de que sua memória lhe pregara uma peça, lembrava‑se de que talvez o invasor fosse mesmo um humano perturbado. Mas bastava fechar os olhos por um segundo para a imagem voltar — pele sem sangue, rosto inumano e torcido. Por que escolheram sua família? Ele sabia que nem toda coisa tinha razão, mas continuava a se perguntar.
Com o tempo, Daniel parou de falar. No início James pensou que fosse uma fase — filhos mudam. Aos poucos tentou fazê‑lo conversar, mas o menino não conseguia. Voltaram ao médico: “Nada aparente”, disseram. “Pode ser trauma; crianças são um mistério.” Recomendação: psicólogo infantil que James não podia pagar. Nada parecia ajudar. Daniel às vezes respondia por escrito, com um sim ou um não. Sempre que James perguntava se algo o assustara, o menino apenas fitava-o com um olhar distante. James sentia falta da voz do filho; queria ouvi‑la tanto que doía — mas parecia que Daniel só falaria quando estivesse pronto.
Enquanto isso, a sensação de que o intruso não fora embora só aumentava. O alarme jamais disparou, as grades e trancas permaneceram intactas, mas James jurava ouvir movimentos noturnos — não passos comuns, mas um arrastar, como de uma serpente gigante passando pela casa. Quando foi verificar, nada. Às vezes, um vislumbre: um pé pálido, uma sombra disforme na periferia da visão, que sumia quando ele se virava.
Sem sair de casa por semanas — exceto para o banco e o supermercado —, James sentia‑se acuado. Evitava falar; falara apenas com a mãe, a quem dissera estar bem, apesar do suor nas palmas. A conversa foi interrompida por um som estranho na linha, um pequeno arfado, como alguém prendendo a respiração. Um frio subiu pela nuca.
— Tem certeza que ninguém escuta do outro telefone, querido? — perguntou a mãe.
— Não tem outro telefone. Estou no celular, por isso o sinal é ruim.
Se o som não vinha dela, de onde vinha? James largou o aparelho e correu pelo corredor. O telefone fixo estava pendurado, intacto; no porão o telefone reserva estava sobre a bancada. Ninguém por perto. Poderiam ter ouvido a ligação e saído sorrateiramente? No dia seguinte arrancou os fios de extensão e até preencheu as entradas com massa de vedação.
Daniel assistia curioso; James não deu explicações. Começou a examinar o filho toda semana, um reflexo de seu treinamento como auxiliar de enfermagem — meio enferrujado após o afastamento. Era absurdo — mesmo que houvesse uma causa física, não seria algo que pudesse descobrir ali; ainda assim, o fazia para se sentir um pouco no controle.
Numa manhã encostou o diafragma do estetoscópio no peito do menino e não localizou batimentos. Procurou de novo, várias vezes. Para testar, ouviu o próprio coração — firme e claro —, mas no peito de Daniel nada. A lembrança do Homem de Lata do Mágico de Oz, com o peito oco, veio à mente. Enjoado, James atirou o estetoscópio no chão, agarrou Daniel pelos ombros e olhou em seu rosto. O menino sorriu levemente; James sentiu as lágrimas subirem. Abraçou‑o, e Daniel correspondeu. Enxugou a cara do filho, disse que o aparelho estava quebrado e o jogou no lixo.
As coisas pioraram. Os terrores de James deixaram de ser apenas noturnos: ruídos sub‑reptícios e estalidos surgiam ao longo do dia. Pensamentos sobre o quão grande era a casa consumiam‑no; havia tantos cantos, tantos lugares para algo se esconder. Sempre que acendia a luz e abria uma porta, nada aparecia — e isso só alimentava a ideia de que a coisa se movia rápida e silenciosamente assim que ele desviava o olhar.
Começou a imaginá‑la em todo lugar: debaixo da escada, detrás das paredes, rente à sua cadeira. A falta de confirmação só fortalecia a paranoia. O que o mantinha ainda humano era ver que Daniel permanecia aparentemente normal — exceto pela mudez — e que, quando percebesse o pai perturbado, às vezes o abraçava ou apertava sua mão.
Numa noite, às duas da manhã, James saiu de casa no escuro. Se a criatura invadia as horas de dia, enfrentaria o pai nas horas de noite. Perambulou pelo corredor, subiu e desceu escadas, entrou e saiu de quartos vazios. Andava descalço; a madeira fria mordia a sola dos pés. Às vezes parava para ouvir; a criatura se movia furtiva mas com um compasso irregular, como se estivesse sempre em dois ritmos ao mesmo tempo. Ele a imaginava num quarto de hóspedes — na verdade um armário grande, sem pintura, sem carpete, um espaço frio que sempre o lembrara de um corpo parcialmente dissecado. Se a coisa tivesse um ninho, seria ali.
Entrou no armário. Nada. Mas “nada” não significava que não existia nada. Passou a mão pelo ar úmido; buscou fendas. A lâmpada pareceu piscar; ele congelou. Meu Deus, pensou, está no teto. Imaginou‑a se arrastando acima dele como um lagarto pálido, descendo como uma aranha, rosto de canto de parede. Fechou a respiração. Não queria se virar — mas foi obrigado. Girou nos calcanhares e, claro, estava sozinho.
Foi ao quarto de Daniel. Não entrou: encostou o ouvido na madeira da porta e segurou a respiração, temendo um arranhar do outro lado. O que ouviu o chocou — Daniel falava com alguém. Recuou, então entrou no quarto batendo a porta. Daniel estava acordado, sentado na cama, mas em silêncio. A luz fez James hesitar: confirmar que o filho podia falar ou encontrar quem quer que fosse com quem ele conversara. O rangido da porta decidiu por ele: correu para o armário e arrombou. Nada lá. Vasculhou roupas, brinquedos, o piso; o armário estava completamente vazio.
Enquanto revirava, Daniel observava. James, ofegante e tonto, riu baixinho sem motivo. Percebeu então duas coisas: não dormira em dias e estava perto de perder a sanidade. Decidiu que no dia seguinte dormiriam até tarde e iriam embora daquela casa — sem trancas, sem vigílias, sem sonhos com monstros. Tiraria as grades das janelas. Queria viver como gente normal novamente.
Ao passar a mão pelo cabelo de Daniel puxou‑o um pouco mais forte do que pretendia. O menino cedeu, imóvel. James fixou‑se no perfil do filho e não piscou. E, então, com náusea crescendo, percebeu o óbvio: Daniel não tinha orelhas. Não era uma ferida, não havia corte nem cicatriz — apenas pele lisa onde as orelhas deveriam estar.
O ar faltou‑lhe. Agarrando o filho, correu para o corredor, sem saber onde ia, apenas sabendo que precisava tirar o menino daquela casa. No caminho, encontraram‑se com a criatura.
Não era um homem; era um ser pálido, de membros alongados, encolhido sobre si como se sofresse. Agachado no corredor, balançava como se cantasse para si. Por um momento James recuou, protegendo o filho. Então ouviu a voz de Daniel, distante e estranha:
— Papai… — disse o menino.
James se virou. Ouviu outra voz, do mesmo filho:
— Daddy, daddy.
Os lábios de Daniel não se moveram.
A criatura endireitou a cabeça. A voz que vinha dela era quase a de Daniel, fraturada:
— Oi, pai — cumprimentou.
A boca de James secou. Demorou a falar.
— Não me chame assim — conseguiu dizer.
— Este é o nome com que você me chama — respondeu a coisa. — Vá embora. Deixe minha família.
— Eu não vou — disse James, apertando as mãos. — Saia daqui.
— Eu sou sua família — retrucou a criatura, e quanto mais falava a voz ficava mais distorcida, mais borrada. Um frio acomodou‑se no estômago de James.
— Quem é você? — perguntou.
— Alguém que veio visitar. Por que aqui? Você me convidou.
O rosto de James aquecia de ódio e medo.
— Eu não convidei nada. Eu queria partir. Eu queria ir embora e nunca voltar. Quem é a mãe do Daniel? — a criatura interrompeu, como se a pergunta fosse óbvia.
James piscou, estupefato.
— O que é isso? — gaguejou.
— Quantos anos tem o Daniel? — insistiu. A voz era um prego cravando no centro da testa de James. — Quando é o aniversário dele? Qual é o nome do meio? Qual foi a primeira palavra dele?
— Cala a boca! — gritou James, raiva e desespero cortando as palavras. Queria rasgar aquela coisa em pedaços.
Só o peso de Daniel nos braços o deteve. A criatura continuou, calma e terrível:
— Você estava sozinho. Você queria um filho, então eu fiz um pra você.
As mãos de James começaram a tremer. “Isso não tem sentido”, pensou. “Feito de quê?” A voz respondeu, simples e cruel:
— De mim.
O estômago de James revirou. Agora a criatura dizia que precisava das partes de volta.
Algo chamou a atenção de Daniel; sua expressão mudou. “Danny, abre os olhos”, James implorou. O menino apertou as pálpebras, tentando resistir. Com esforço, as pálpebras se moveram e James viu a verdade: os olhos de Daniel não existiam. Por um segundo quase deixou o filho cair; sentiu vontade de atirar a criança no chão só para não encarar aqueles buracos vazios no rosto.
Daniel abriu a boca para falar, mas não tinha voz. A criatura continuou:
— Ele está voltando. Faz parte de mim de novo.
— Não! — James chorou. — Dá‑mo de volta! Dá‑mo de volta!
— Não posso — disse a criatura. — Já faz tempo demais.
— Mentiroso! — gritou James. — Você mente!
A coisa disse que não mentia. “Eu avisei”, repetiu. “Ele não podia existir para sempre. Você só lembra o que eu quero que lembre. Você esquece todas as vezes que conversamos.” Daniel parecia um boneco vazio; o cabelo caía antes de tocar o chão, as mãos recuavam para dentro das mangas, os pés enrolavam‑se nos punhos das calças.
James embalou o que restava do filho, lágrimas correndo pelo rosto. Logo só segurava um monte de roupas vazio; depois nem isso. Brinquedos desapareceram, fotografias sumiram das molduras. As sapatilhas de Daniel já não estavam mais junto à porta. James virou‑se para o quarto do menino: onde deveria haver uma porta havia apenas uma parede lisa. Tateou a superfície com os dedos, bateu a cabeça contra o muro; a dor parecia inexistente.
“Por que? Por que fez isso?” ele perguntou.
— Porque era o que você queria — respondeu a coisa. — E eu aprendi tanto. Pessoas vão perguntar, vão perceber. A polícia, os hospitais, os vizinhos… já esqueceram. Elas só lembram o que eu quero que lembrem, como você.
James pressionou as mãos contra a cabeça que latejava.
— Ao menos eu vou lembrar dele? — perguntou, a voz mal um fio.
— Você pode tentar, mas sua mente vai falhar — disse a criatura. — Agora que tudo o que ele foi faz parte de mim de novo…
James sentou no chão, olhando a parede vazia. Pela fresta da visão viu a coisa aproximar‑se e sentiu a mão úmida dela em seu ombro, mas não olhou.
— Por que me contar então? — murmurou.
A resposta foi miseravelmente humana.
— Porque um pai deve saber.
E então James ficou sozinho.
Abigail preocupava‑se com James. Quando o conhecera, um ano antes, ele disse nunca ter tido filhos nem sido casado, mas havia uma expressão dolorida no rosto dele quando falava da parte de nunca ter tido filhos — um traço que Abigail reconheceu: a marca de pais que perderam crianças. Havia outras coisas que a inquietavam: frequentemente o surpreendia parado, olhando fixamente para um ponto da parede, o cenho franzido, sem perceber. Havia insônia, sonambulismo; sim, motivos para preocupação — mas ela o amava mesmo assim. James repetia que nunca tivera filhos, e ela repetia que sempre quisera uma criança, embora fosse impossível para ela. Tinha medo de que James fosse embora por causa disso, embora ele sempre assegurasse que não.
Ultimamente, as noites em que James sonambulava tornaram‑se mais frequentes. Abigail começava a ouvir ruídos estranhos — passos cortantes pela casa, formas impossíveis nos cantos escuros. Quando imaginava o que faria para ter uma menininha com James, às vezes o desejo a transformava em algo perigoso — e nesses momentos ficava realmente aterrorizada, sem saber direito por quê.
Ela havia pensado em bater na porta de James naquela manhã. Não o fez. Mas, naquela noite, enquanto a casa se afundava em silêncio e as sombras se alongavam, ouviu um som fino vindo do corredor: como se alguém sussurrasse números, como se fosse uma voz aprendendo nomes. Respirou fundo e foi até a sala. No tapete, havia marcas de dedos pálidos que não pertenciam a nenhum de nós.
Henrique Vincent Johnson tinha mãos como luvas de beisebol. Tremendas, de formato estranho e um pouco curtidas, como couro.
Henrique tinha 33 anos e vivia feliz com sua mãe amorosa, Patricia. Quando era pequeno, Henrique foi diagnosticado com uma forma avançada de autismo que o deixou com deficiência mental. Ainda assim, Patricia amava o filho acima de tudo. O pai de Henrique, anos antes, fez as malas e saiu de casa para uma viagem de negócios — que nunca terminou. Henrique imaginava que o trabalho devia ser muito importante para demorar tanto a voltar.
Henrique não entendia muitas coisas do mundo: não compreendia por que as pessoas comiam cordeiros, tão fofos; não entendia por que padres que praticavam sodomia falavam contra a homossexualidade. Não entendia por que as pessoas zombavam dele quando ia à loja de música e cantava sua canção favorita, já que cantar o deixava tão feliz. Mas, acima de tudo, Henrique não entendia por que as pessoas achavam suas mãos enormes tão assustadoras e estranhas. Sua mãe lhe dizia que aquelas eram mãos bonitas porque Deus as havia feito. Henrique refletia que, se tudo que Deus fez era bonito, por que as pessoas reagiam tão mal ao ver os outros nus? Havia muitas coisas que o confundiam.
Seus pés eram parecidos com as mãos: grandes, inchados e de textura áspera. Isso tornava comprar sapatos um pesadelo. Mesmo quando Patricia encontrava um par que servia, Henrique os achava desconfortáveis e pesados, e na maior parte do tempo ia descalço. Ele não entendia por que isso incomodava tanto as outras pessoas, mas sua mãe continuava a amá‑lo.
Henrique também amava a mãe, embora às vezes ela o confundisse. Por exemplo, quando ela tomava banho, proibia com fervor que Henrique entrasse no banheiro com medo de ficar nu; isso deixava Henrique perplexo, pois ele achava todo corpo bonito e a proibição frequentemente fazia‑o sentir‑se rejeitado.
Um dia, durante um banho de Patricia, Henrique decidiu sair para caminhar. Nunca o deixavam sair de casa sem permissão, mas naquele momento ele não quis obedecer. Foi até a mercearia e sentou‑se no avião de brinquedo do lado de fora. Henrique nunca tinha ido a um voo de verdade porque a mãe dizia que ele era grande demais, mas queria experimentar. Não tinha dinheiro, então contentou‑se em sentar no aparelho e fingir que o avião se movia. Estava gostando quando o gerente da mercearia apareceu e exigiu que ele saísse do brinquedo. Henrique não queria interromper sua aventura, mas sua mãe ensinara‑o a respeitar a autoridade, então ele obedeceu relutante. Depois de uma repreensão, ele saiu chateado. Não gostava de ser gritado.
Pensou que talvez a loja de música pudesse o consolar. Caminhou até a placa de neon familiar e entrou. Dirigiu‑se ao aparelho reprodutor e esperou a canção de que tanto gostava. Não sabia selecionar músicas sozinho, precisava confiar na função de embaralhar até que sua favorita tocasse. Já tinha ido à loja sem a mãe, mas sempre fora quando estava vazia; agora o lugar estava cheio. Enquanto aguardava, um garoto aproximou‑se do aparelho e apertou um botão, fazendo tocar uma música diferente. Henrique não entendia como a máquina funcionava e temeu que teria de esperar muito mais tempo; começou a assustar o garoto.
Felizmente, o atendente da loja, que conhecia Henrique, interveio. Acalmou o homem grande e procurou a canção favorita para ele. Quando os primeiros acordes tocaram, a caixa de som lançou triunfante:
— Se você está feliz e sabe disso, bata palmas.
Henrique ficou radiante; cantou e bateu palmas, transformando suas enormes mãos em pratos que soavam alto. Isso incomodou alguns clientes, que cochicharam comentários, e outros saíram da loja; mas ele não se importou. Tinha sua música para animá‑lo. O atendente nem se importou tanto; sabia que, terminada a música, Henrique sairia por conta própria.
Mas antes que a canção acabasse, a mãe entrou: havia terminado o banho e estava muito zangada por ele ter saído sem permissão. Pediu que voltasse para casa imediatamente. Henrique ainda queria ficar; estava curtindo sua canção, mas Patricia era insistente e sabia lidar com o filho, na maioria das vezes. Aquele dia ele estava mais difícil e menos obediente, o que frustrou Patricia.
Quando a situação ameaçava piorar, o atendente, com cuidado, aproximou‑se da mulher segurando o CD que continha a canção de Henrique. Entregou‑o com um sorriso e fez questão de que o rapaz visse a transferência. Ele ficou empolgado ao saber que poderia ouvir a música quando quisesse, mas a mãe sabia que não devia premiar o mau comportamento. Pediu que ele prometesse nunca mais sair sem pedir permissão para ficar com o CD. Ele concordou prontamente, embora não fosse bom em lembrar promessas. Patricia perguntou ao atendente quanto devia. Ele disse que era um presente para Henrique; poderia levar o disco de graça. Como ambos acharam — que homem gentil. Saíram da loja sem mais incidentes.
Henrique ouviu o CD repetidas vezes. A semana inteira seguinte, tudo o que Patricia ouviu foi o filho cantando e dançando sua canção. Ela era forte e suportava muito em seus ombros estreitos. Henrique amou o presente: amou na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e, sim, no domingo.
Mas quando a segunda‑feira voltou, algo mudou. A música já não trazia a mesma alegria. O que antes era seu único refúgio começou a ficar banal à medida que o tratado raro se tornava rotina. Logo deixou de sentir qualquer prazer ao ouvir o disco, e isso o deixou muito aborrecido. Passou a considerar o atendente nada gentil. “Agora nem posso curtir minha canção favorita, e tudo porque ele me deu o CD”, pensou. Esses pensamentos se acumularam na mente de Henrique como roedores ao redor de um pedaço de ricota, e em pouco tempo ele percebeu que seu único método de sentir alegria tinha sido tomado.
Isso tornou a convivência com Patricia muito difícil. Henrique e Patricia começaram a brigar; cada explosão de Henrique trazia punições e perda de privilégios. Isso também o magoava, é claro, mas o que ele poderia fazer? Não conhecia o mundo lá fora e certamente não podia viver sozinho. Um mês antes ele tentara ligar para a avó usando o micro‑ondas; em outra ocasião acreditara que os refrigeradores da mercearia eram portais para Nárnia; e houve o mal‑entendido com autoridades sobre o termo “strip mall”. Assim, Henrique emburrecera em tristeza por dias até chegar a uma conclusão: se já estava tão miserável, o que mais a mãe poderia fazer para piorar? Ele achou que havia batido no fundo do poço e que nada poderia torná‑lo mais infeliz.
Então, numa quinta‑feira, enquanto Patricia tomava banho, Henrique saiu de novo sem supervisão. Dessa vez não foi à loja de música nem à mercearia — embora quisesse investigar melhor os refrigeradores —, resolveu ir ao minimercado próximo, onde nunca estivera. Patricia não dirigia e evitava preços altos da conveniência, mas Henrique tinha algum trocado e pensou em comprar um pacote de M&M’s. Preferia‑os a barras de chocolate porque as barras não tinham personagens coloridos nos rótulos.
Ao chegar ao minimercado, já era fim de tarde; o crepúsculo se aproximava. Havia um grupo de adolescentes aglomerados na frente da loja. Henrique não gostava de adolescentes — costumavam ser cruéis por causa de sua condição — mas queria muito os M&M’s e aproximou‑se da entrada. Os rapazes, como era de se esperar, reconheceram‑no pelas mãos enormes e pelos pés descalços. Já era conhecido na pequena cidade, e não perderam tempo em atacá‑lo com insultos e piadas maldosas.
Henrique geralmente não entendia muito do que se dizia, mas entendeu as palavras deles daquela vez; doeram‑lhe. Tentou se defender, mas ao abrir a boca os jovens aproveitaram para insultá‑lo ainda mais. Atingido, Henrique ficou ferido e confuso: por que eram tão cruéis? Que vantagem tinham em humilhá‑lo? A confusão virou raiva; ele perdeu a paciência com as zombarias. Os garotos não se impressionaram, provocaram ainda mais até que Henrique, que desde criança ouvira que era errado usar violência, atingiu seu ponto de ruptura.
Antes que pudessem reagir, ele agarrou o pescoço de um deles com sua mão monstruosa e o levantou no ar, sacudindo‑o como um farrapo e mandando que não zombassem mais. Os outros dois entraram em pânico e tentaram empurrá‑lo, mas Henrique, maior e mais forte, os afastou com a outra mão. Jogado ao chão, o primeiro garoto caiu inconsciente no cimento. Quando recuperou fôlego, começou a xingar Henrique por tê‑lo atacado — e isso o irritou ainda mais. Ele não era o vilão; eles o eram. Se não os impedisse, continuariam a ferir outros.
Então Henrique ergueu o grande pé e desceu com violência sobre a perna do rapaz, quebrando‑a. O garoto gritou, mas Henrique não parou. Pisoteou os três rapazes até que não pudessem fugir, o sangue encharcando seus pés curtidos. Percebeu que a mãe não aprovaria, mas também que nada que ela fizesse poderia piorar sua vida naquele ponto. Além disso, descobriu algo: desobedecer a mãe e escolher suas próprias ações lhe dava uma sensação boa; e dar àqueles que mereciam o que vinham merecendo era prazeroso.
Quando essa realização o inundou, os três estavam derrotados; três golpes bem desferidos nos crânios foram suficientes para calar de vez as zombarias deles. Henrique permaneceu um instante, saboreando a vitória sem saber que o atendente do minimercado tivera visto os últimos minutos de sua ação.
Henrique, feliz, pediu por educação um pacote de M&M’s, estendendo algumas notas amassadas que guardara no bolso. A jovem ficou aterrorizada, correu para trás do balcão e acionou o alarme silencioso. Como muitas coisas, isso confundiu Henrique: queria entender por que ela não lhe vendia o doce. Quando não respondeu, ele ficou zangado e se aproximou do balcão até a menina, frágil, dizer para ele pegar todos os M&M’s que quisesse. Henrique ficou ainda mais confuso — não tinha dinheiro para tanto. Ao dizer isso, descobriu que podia levar aquilo tudo de graça. Como as guloseimas eram grátis, ele perguntou se podia gastar seus dois dólares em uma barra Milky Way; ela disse que podia pegar quantas quisesse também.
Henrique ficou encantado com aquele lugar mágico onde o doce parecia ser gratuito. Saiu com as mãos cheias do que conseguia carregar, pensando em como aquele dia melhorara desde que desobedecera à mãe. Pela primeira vez em muito tempo, fora um dia maravilhoso. “Se ao menos esse dia pudesse durar para sempre”, pensou.
Mas o destino nem sempre é gentil: sua mãe reapareceu e, ao ver o filho sobre três corpos adolescentes ensanguentados, com os braços cheios de chocolate, sentiu horror e fúria. Patricia costumava esperar até chegar em casa para regravar a bronca, mas aquilo era além do que ela imaginara. Henrique havia ultrapassado limites que ela jamais acreditara que ele pudesse cruzar, e despejou sobre ele uma fúria bíblica.
Pela primeira vez, Henrique não teve medo da mãe. Achou quase engraçado ver a mulher pequena diante dele, gritando em sua voz estridente, tão abaixo de sua altura. Riu, e riu alto — tanto que deixou cair todas as barras de chocolate. Isso enfureceu ainda mais Patricia, que avançou. Henrique soube o que fazer. Com uma varredura poderosa do punho, fez a cabecinha frágil da mãe voar longe de seu corpo envelhecido, do mesmo modo que havia tratado os garotos. O corpo dela tombou ao chão, sobre a pilha de doces.
E, de repente, todos os problemas de Henrique desapareceram. Ele não conseguiu se conter: bateu palmas, riu e dançou, mostrando ao mundo aquelas mãos grandes e belas. Não havia mais ninguém para dizer‑lhe que não podia sair de casa, que não podia bater palmas, dançar ou cantar sua agora quase esquecida canção favorita. Pela primeira vez, Henrique estava feliz — e sabia disso. Bateu palmas novamente.
Agora poderia viver do seu jeito, eliminando todas aquelas pessoas desagradáveis que causavam problemas para ele e para os outros. Ninguém mais ficaria em seu caminho. Aqueles velhos policiais malditos não souberam o que os atingiu.

