Três folhas, dois galhos, um bico

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 Isso foi a primeira coisa que o Jeremy me disse. Eu estava cuidando dos meninos há três dias, enquanto os pais deles estavam fora. E, até aquele momento, ele não tinha falado uma única palavra. Não comigo, não com os irmãos, nem para responder perguntas simples.

Os outros dois disseram que ele era só tímido. Disseram que ele sempre foi assim: doce, educado, quieto perto de gente nova.

Mesmo assim, três dias inteiros de silêncio pareciam mais do que timidez.

Eram três irmãos, cada um com cerca de três anos de diferença. Josh era o mais velho, depois o Jonathan, e o Jeremy era o caçula. Tinha oito, quase nove anos.

Os primeiros dias foram fáceis demais, quase estranhamente fáceis. Sem brigas, sem reclamações, sem bagunças que eu não conseguisse lidar. Eles brincavam juntos, faziam o dever sem que eu mandasse duas vezes e comiam tudo o que eu colocava no prato. À noite, iam para a cama sem brigar.

Dava uma sensação errada que eu não soube explicar. Cuidar de crianças nunca tinha sido tão tranquilo antes.

Naquela noite eu estava na cozinha, limpando depois do jantar, quando percebi que o Jeremy estava parado na porta. Eu não o ouvi entrar. Ele simplesmente estava ali, me observando.

Quando me virei, ele não desviou o olhar. Não piscou. As mãos pendiam ao lado do corpo. Por um momento tive a estranha sensação de que ele já estava parado ali há um tempo, esperando que eu notasse.

Comecei a falar alguma coisa, mas ele falou antes que eu pudesse.

— Você já jogou Três Folhas, Dois Galhos, Um Bico?

A voz dele era baixa e cuidadosa, como se ele escolhesse cada palavra antes de deixá‑la sair.

Soltei uma risadinha nervosa. Não era o que eu esperava que fossem as primeiras palavras dele.

— Não, nunca ouvi falar. É divertido?

O rosto dele mudou num instante. Sorria largo e de repente, como se tivesse esperado exatamente por aquela resposta.

— Sim — disse ele. — Eu adoro esse jogo.

Ele parecia tão feliz que tive que perguntar.

— Como se joga? — perguntei.

— A gente tem que ir la fora primero — ele disse. — Aí eu te digo as regras.

Olhei pro relógio. Já era tarde e os irmãos dele estavam no andar de cima se preparando pra dormir.

— Já é muito tarde pra sair — eu disse. — Você precisa ir pra cama.

Por um instante ele não reagiu. Ficou ali, me encarando com o mesmo sorriso pequeno.

— Por favor.

Ele não aumentou a voz. Não choramingou. Só repetiu, cada vez mais baixinho.

— Por favor, 

por favor, 

por favor.

Cada palavra soava mais frágil que a anterior, como se estivesse sendo arrancada dele. Hesitei.

Eu devia ter dito não, mas havia algo nele, naquele jeito de ficar parado depois de dias de silêncio, que tornou difícil recusar.

— É rápido? — perguntei. 

— Sim — ele respondeu na hora.

Respirei aliviada.

— Tudo bem. Mas depois disso você vai direto pra cama.

Ele assentiu uma vez, firme, e saiu correndo.

Fui atrás pelo corredor, chamando pra ele ir devagar, pelo menos calçar sapatos, mas não me ouviu. Quando cheguei à porta dos fundos, ele já estava lá fora, descalço, parado no meio do quintal, imóvel.

A luz da varanda piscou quando eu saí atrás dele, e uma estranha quietude pairou sobre tudo.

Não havia vento, nem insetos, nada além do som da minha respiração por alguns segundos. Nenhum de nós se moveu. Ele não parecia impaciente. Não repetiu nada. Só esperou, como se o jogo já tivesse começado e eu fosse a que o atrasava.

— Você disse que ia explicar as regras — eu disse, tentando manter leveza.

Ele assentiu.

— Você tem que achar três folhas — ele disse. — Têm que ser diferentes.

Olhei para o chão. Havia folhas por toda parte. Aquilo parecia fácil.

— E dois galhos — continuou. — Mas você não pode quebrá‑los. Têm que já estar no chão.

— Faz sentido — eu falei. — Mais alguma coisa?

Ele pausou, adicionando um tom mais claro. — Cada vez que você pegar algo, tem que dizer em voz alta o que está segurando.

Esperei que ele explicasse por quê, mas ele não explicou. Ficou apenas olhando para mim, como se aquilo fosse suficiente.

— E o bico? — perguntei.

— Esse você pega por último — ele disse, na beira do quintal.

Ele apontou para o fundo do quintal, onde a grama dava lugar a terra e mato baixo antes de abrir para as árvores.

— Vai ter mesmo um bico ali? — eu perguntei. 

— Vai. 

— De quê?

— Os caçadores deixam eles.

A resposta veio rápido demais, como algo memorizado.

Quase questionei, mas havia no jeito de dizer que qualquer pergunta parecia inútil.

— Tudo bem — eu disse. — Eu vou primeiro.

Ele assentiu.

Afastei‑me e procurei uma folha que parecesse diferente das demais. Agachei, peguei e me levantei, girando a folha entre os dedos.

— Uma folha — disse.

Jeremy assentiu, observando minhas mãos com os olhos fixos.

Afastei‑me um pouco e achei outra, mais larga e escura, com as bordas enroladas. Peguei e juntei à primeira.

— Duas folhas.

Ele assentiu de novo, quieto.

Quando cheguei à terceira, já estava consciente de como aquilo soava estranho: ficar no quintal falando alto, repetindo palavras que pareciam não importar.

Mas eu não conseguia parar. Parecia importante para ele.

— Três folhas.

O pequeno aceno foi o mesmo. Ele não desviava o olhar; acompanhava minhas mãos como se ouvisse algo preciso e, ao mesmo tempo, visse se eu fazia direito.

— Agora os galhos — ele disse.

Fiquei olhando uma das árvores e vi um galho fino e seco perto da base. Parecia estar lá há um tempo. Peguei sem pensar.

— Um galho — falei. Jeremy inclinou a cabeça.

— Tudo junto — disse ele.

Franzi a testa, ajustando a pegada.

— Tudo junto? — ele assentiu.

Respirei e me corrigi com um sorriso forçado.

— Três folhas, um galho.

Isso pareceu satisfatório.

Andei alguns passos e achei outro galho, menor, meio escondido na grama. Peguei e falei um pouco mais rápido.

— Três folhas, dois galhos.

Ele assentiu novamente, mais devagar agora, como se confirmasse algo pra si mesmo antes de pra mim.

Por um momento ficamos em silêncio. A quietude do quintal parecia pesar mais.

Ele olhou para a floresta

— Agora o bico — disse.

Segui o olhar dele. A borda do quintal deixou de ser uma linha clara; era só um lugar onde as coisas ficavam menos nítidas.

— Você tá dizendo que vai ter um bico ali largado? — perguntei. 

— Vai.

Hesitei, então olhei pra ele.

— Vem comigo.

Ele balançou a cabeça. — Você tem que pegar.

— Como assim? A gente não pode ir junto?

— Estou observando.

Não pareceu uma resposta, mas ele não disse mais nada. Balancei as folhas e os galhos nas mãos e fui em direção à mata.

O chão mudou enquanto eu andava: a grama foi rareando para manchas de terra e raízes irregulares. O ar ali parecia mais pesado, como se o calor da casa não alcançasse aquele ponto.

Havia silêncio. Não absoluto, mas suficiente pra perceber o que faltava. Nenhum inseto, nenhum movimento nas árvores. Só aquela mesma quietude apertando ao redor.

Desacelerei ao alcançar a primeira linha de árvores.

E então vi.

Estava no chão, alguns passos à minha frente. Pequeno, pálido — um bico.

Parei e olhei, tentando entender aquilo. Não havia penas em volta, nem sangue, nada que sugerisse o que teria acontecido. Parecia limpo demais, quase intacto.

Olhei ao redor esperando achar alguma coisa: um corpo, ossos, qualquer coisa.

Não havia nada. Só o bico.

— Jeremy — chamei, sem tirar os olhos dele. — Tem mesmo um aqui.

— Eu disse — ele falou.

A voz estava mais perto do que eu esperava. Virei levemente e o vi alguns passos atrás. Eu não ouvi ele se aproximar.

Abaixei‑me e peguei o bico. Era mais leve do que imaginava, liso e inteiro, não quebrado nem rasgado — apenas separado.

Por um momento fiquei só segurando aquilo.

Então me lembrei.

— Três folhas, dois galhos, um bico — falei.

Minha voz soou mais alta do que devia.

Comecei a me erguer, virando levemente em direção ao quintal.

— Pronto, está tudo — disse. — Diga de novo.

Congelei.

A voz do Jeremy estava agora bem atrás de mim.

Virei. Ele estava mais perto, parado, olhando não para mim, mas para o que eu segurava.

— Tudo junto — disse ele.

Engoli seco.

— Três folhas — falei. — Dois galhos, um bico.

Ele assentiu um pouco, mas algo na expressão não mudou.

– denovo.

— Por quê?

— Tem que falar três vezes — respondeu ele. A voz estava plana. A empolgação de antes havia sumido.

Olhei de novo para o bico na minha mão, depois para ele.

— Três folhas, dois galhos, um bico — disse baixinho.

Ele sorriu de novo, de repente, tão brilhante quanto antes.

— Perfeito. Agora uma última coisa.

Ele correu de volta pro meio do quintal, parando no lugar onde estava antes.

— Coloque tudo aqui — disse ele, quase pulando no lugar.

Voltei, me ajoelhei e depositei as coisas onde ele apontou.

Ele imediatamente se agachou ao meu lado, mexendo com rapidez e precisão surpreendentes, arrumando os itens como se seguisse um padrão conhecido. Colocou os dois galhos primeiro, um deitado e o outro encostado em ângulo. Em seguida colocou o bico numa das pontas e alinhou as folhas ao longo dos galhos, espaçando‑as com cuidado, como se já soubesse exatamente onde cada peça devia ficar.

Fiquei observando por um segundo, tentando entender.

— O que é isso? — perguntei.

Ele não levantou o rosto. — Um corvo — disse.

Franzi a testa.

— Como você sabe o que é um corvo? Não tem corvos por aqui. O gato espantou eles anos atrás.

Ele ajeitou uma das folhas e finalmente olhou pra mim.

— Isso é só uma história — disse. Por um segundo sorriu de novo, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Eles ainda estão aqui.

Ele olhou além de mim, em direção à mata escura. — Os corvos estão nos observando.

Na hora achei que era só pra me assustar. Aquelas coisas que criança fala pra parecer que sabe mais do que sabe.

Quase mandei ele parar, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa algo se mexeu.

Era pequeno, tão pequeno que eu poderia ter deixado passar se não estivesse olhando direto praquilo.

Uma das folhas se movimentou. Não do jeito de algo que cai ou desliza, mas mais devagar, deliberado. Levantou‑se um pouco, só o suficiente pra romper a forma, e depois se acomodou de novo.

Congelei.

Não havia vento. Eu sentia isso claramente. O ar estava completamente imóvel, pesado do jeito que fica à noite quando nada mais se move. Quando até as árvores parecem prender a respiração. Continuei olhando, esperando que acontecesse de novo.

Não aconteceu.

Por alguns segundos tudo ficou exatamente igual. Folhas, galhos, bico. Só um monte de coisas arrumadas no chão.

Entretanto olhei pro Jeremy. Ele não estava me olhando. Nem olhava para o chão à frente. O olhar estava fixo além dele, sobre a própria forma, como se esperasse que algo acontecesse.

— Você viu? — perguntei.

Ele não respondeu. Só sorriu. Não do mesmo jeito de antes; não empolgado, não impaciente. Mais contido, como se aquela parte fosse mais importante do que tudo o que já havíamos feito.

Olhei de novo. Por um momento nada mudou. Então um dos galhos se moveu.

Foi só um leve ajuste, só o suficiente pra mudar o ângulo. Mas foi o bastante. A forma deixou de parecer algo que havíamos montado. Começou a parecer algo sustentando a si mesmo.

Foi quando me afastei.

Falei que era suficiente, que o jogo tinha acabado, que era tarde demais e que entraríamos. Desta vez ele não discutiu. Assentiu como se já soubesse que iria acontecer assim.

Não olhei mais pra aquilo. Fechei a porta, tranquei e garanti que ele subisse.

Estou escrevendo isso agora, talvez uma hora depois, e continuo tentando convencer a mim mesma de que não foi nada.

Procurei uma explicação simples para o que vi, mas não voltei lá fora pra ver, e não acho que vou voltar.

Algo está fazendo barulho do lado de fora. Uma bicada lenta e deliberada. Não na porta, não nas paredes.

4

Não dormi. Fiquei no meu quarto com a porta trancada, ouvindo. O som não parou. Aparecia e sumia, nunca por tempo suficiente pra eu me acostumar, nunca tempo suficiente pra eu esquecer que estava lá. Lento, deliberado.

Em algum momento a luz lá fora começou a mudar. A escuridão deu lugar a algo mais suave e percebi que amanhecia.

Desci ao ouvir as crianças. O Jeremy já estava sentado à mesa tomando café. Não me olhou. Não disse nada.

Fiquei parada por um momento antes de sentar do outro lado da mesa. Ele continuou comendo, em silêncio, como nos três dias anteriores.

Eu também não disse nada. Ficamos alguns minutos sem falar.

Quando terminou, levantou e subiu.

Não me olhou ao passar.

Esperei um pouco antes de me mexer.

Mais tarde encontrei Josh e Jonathan arrumando as coisas. Fiquei à porta um segundo antes de falar.

— Ei — disse. Eles olharam pra mim. — O Jeremy já sai à noite?

— Às vezes — Josh respondeu. — Sim, — Jonathan acrescentou.

— Por quê?

balencei a cabeça.

— Não sei. Ele me perguntou uma coisa ontem.

— O quê?

Hesitei.

— Um jogo — disse. — Algo com folhas e galhos.

Ficaram em silêncio um segundo. Então Josh acrescentou: — Ah, aquilo. — Jonathan disse: — Ele joga às vezes. — “Às vezes” repeti. — De vez em quando — Josh disse. — Só à noite — Jonathan disse.

Assenti.

— Ele sempre pede pra alguém jogar com ele?

— Sim — disse Josh. — Ele não faz sozinho.

— Como assim?

— Ele não pega nada — Jonathan disse. — Ele só diz o que você tem que fazer.

— E aí no final ele ajeita — completou Josh.

Diziam como se não fosse importante, como se fosse só algo que ele fazia.

— Eu pego as coisas? — perguntei. As folhas, os galhos?

— Tá tudo lá — disse Jonathan. — Não precisa pegar nada.

Hesitei.

— Vocês sabem onde ele aprendeu isso?

— Algum garoto mostrou — Jonathan disse. — Que garoto? Não sei.

Houve uma pausa curta.

— Acho que foi alguém da escola — disse Josh. Jonathan sacudiu a cabeça. — Não, não foi.

Eles não falaram mais nada. Eu não perguntei também.

Saí pro quintal depois disso.

Estava igual ao dia anterior. Grama, terra, a borda da mata.

Fui até o lugar onde Jeremy tinha arrumado tudo.

Não havia nada. Nem folhas, nem galhos, nem bico.

Fiquei ali olhando o chão, esperando achar algo que tivesse passado despercebido.

Não havia nada sequer pra ver.

Caminhei ao redor, conferi de ângulos diferentes como se isso pudesse fazer algo aparecer.

Não apareceu.

Tentei lembrar exatamente como era, onde cada coisa havia ficado, como eu estava parada. Tinha certeza de que sabia. Mas quanto mais eu tentava, menos nítido ficava, como algo que eu já revira tantas vezes que se desgastou.

Fiquei ali mais tempo do que pretendia. Acabei desistindo.

A imagem não sumiu completamente. Mesmo quando não pensava nela diretamente, ela continuava lá. Aquele mesmo ponto no quintal, aquela forma que eu não conseguia recompor direito.

Cada vez que eu chegava perto, algo não se alinhava. Pequeno, mas perceptível.

Sentei dentro de casa e tentei de novo. Desta vez devagar. Só os galhos primeiro. Eu via um contra o chão, o outro levemente elevado. Essa parte parecia certa.

Depois as folhas. Eu sabia que eram três. Tentei colocá‑las na cabeça, mas não funcionou. Mexi nelas mentalmente, testei posições diferentes.

Nada parecia correto.

Fiquei assim mais tempo do que devia, revendo tudo repetidas vezes, tentando acertar.

Depois de um tempo ficou mais difícil focar. Não de repente, mas uma pressão lenta atrás dos olhos. Inclinei‑me pra trás e fechei os olhos um instante, mas a imagem não sumiu. Sequer clareou — estava mais nítida ali.

Os galhos, o espaço vazio onde as folhas deveriam estar.

Foi aí que notei o som. Fraco no começo, fácil de ignorar. Abri os olhos. A casa estava quieta. Fiquei imóvel, escutando.

Mexi na cadeira e tentei deixar pra lá.

Então veio de novo. Um toque suave.

Olhei ao redor tentando localizar. Não vinha das paredes. Nem do chão.

Virei a cabeça devagar. Nada.

Pressionei os dedos levemente na têmpora sem pensar. A pressão ali mudou. Mantive os dedos alguns segundos.

Aconteceu de novo. Um toque debaixo dos meus dedos.

Puxei a mão. A sala voltou ao silêncio.

Fiquei um tempo tentando achar uma razão.

Falta de sono. Tinha que ser aquilo.

Levantei, andei, escutei de novo, sentei.

O som voltou.

Dessa vez não parou em um só toque. Toque, pausa, toque — uma pausa maior — e de novo. Lento, uniforme.

Fiquei imóvel, ouvindo, tentando seguir sem pensar.

Com o tempo a coisa ficou familiar. Não o som em si, mas o espaçamento, as pausas entre cada um, como se houvesse um padrão.

Fechei os olhos outra vez, não de propósito, só pra me concentrar.

Toque, pausa, toque — pausa maior. De novo.

Fiquei ali, contando sem querer, tentando igualar a algo.

Em certo momento percebi que já tinha ouvido aquilo antes. Não exatamente igual, mas perto o suficiente.

Abri os olhos por um segundo e não consegui lembrar de onde. Aí caiu a ficha: do jeito que ele me fez falar em voz alta. Cada parte separada, cada uma espaçada.

Eu não me movi. Não disse nada em voz alta. Não mexi os lábios, mas já estava lá na minha cabeça.

Três folhas, pausa. 

Dois galhos, pausa maior. 

Um bico.

Tentei parar. Não falei. Não pronunciei, mas a frase continuou repetindo, coordenada com o som. Toque. Pausa. Toque.

Ainda está acontecendo. Não parou. Não sei se vai parar. Não sei se eu fiz algo errado ou se isso faz parte do jogo.

Fico pensando no que o Jonathan disse: que ele não pega nada, que ele só manda você fazer e no fim ajeita tudo.

Não sei o que isso significa.

Não sei se acabou ou se falta alguma coisa.

Não voltei lá fora.

Nem quero.

Acho que não deveria.

O som às vezes muda. Não fica mais rápido, nem mais alto, só parece mais perto — como se não precisasse mais viajar tanto. Não sei explicar de outro jeito.

Fico pensando naquela pergunta que ele me fez — a primeira coisa que ele disse. Antes eu não achava que importava. Agora soa diferente.

Então, acho que vou perguntar também.

Você já jogou Três Folhas, Dois Galhos, Um Bico?

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O Homem de Areia

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“Vá para a cama e espere o Homem de Areia.”

Assim que a frase saiu da boca de James, soou estranha para ele, e ele não sabia exatamente por quê; ainda assim, de algum modo, disse-a. Na manhã seguinte, quando Daniel foi dormir mais cedo, perguntou:

— Como é o Homem de Areia?

James estava na cozinha preparando o café.

— Você vai sentar à mesa, com as perninhas balançando embaixo da cadeira — respondeu, tentando fazer graça. — Nada demais, é só uma expressão.

— Por que dizem isso? — continuou Daniel.

James colocou um prato de ovos na frente do filho e lhe beijou o topo da cabeça. Pensou que aquilo seria o fim da conversa, até vê‑lo com seus próprios olhos.

Era rotina: antes de dormir, James sempre passava pelo quarto de Daniel para checar. Aquela verificação decidida e quase automática deu-lhe alguns segundos a mais para processar o impossível. Sentada na beirada da cama havia uma criatura pálida, nua e magra, balançando para frente e para trás, os pés tocando o chão como se fosse o gesto mais natural do mundo.

Por instinto, James correu ao quarto gritando. Por um momento cogitou atacar o intruso; então a criatura virou-se — e ele percebeu que não era um homem.

Era algo pálido, úmido ao toque da luz, quase desprovido de pêlos. As juntas dobravam‑se ao contrário; o corpo se entortava em dobras que enganavam a lógica. Quando se movia, lembrava uma marionete enlouquecida no palco de um pesadelo. James ficou imóvel. A coisa o observou e um calor subiu por suas pernas — e, com ele, a sensação de que sua alma se havia molhado de medo.

Só então lembrou que Daniel ainda estava ali, a um palmo, com os olhos presos na figura deformada. Sem coragem para permanecer, agarrou o filho e correu para o corredor. Ao se virar, notou que a criatura não os seguia; ficou alguns instantes observando, depois engatinhou até a janela de maneira espasmódica e pulou, deixando apenas as cortinas esvoaçantes.

Policeiros demoraram a chegar. James registrou um arrombamento, mas teve dificuldade para descrever o invasor; como explicar a um homem de farda que, enquanto colegas revistavam a casa, ele vira algo que não cabia em nenhuma palavra? Para piorar, o relato de Daniel não coincidiu com o seu. O menino descreveu um ladrão de máscara comum. James cogitou que talvez fosse uma máscara — mas isso exigiria um disfarce elaborado que não justificaria os movimentos impossíveis. No fim, repetiu o testemunho do filho: um sujeito com máscara, um ladrão.

Os médicos disseram que Daniel não estava ferido, sem sinais de abuso. Aliviado, James e o menino ficaram alguns dias num hotel até se sentirem prontos para voltar. Em casa, instalou um novo sistema de segurança e grades nas janelas — odiava o visual das grades no quarto do filho, mas julgou‑as necessárias.

Na primeira noite em casa sentiu um medo que não se explicava; estranhamente, Daniel não parecia perturbado. Quando James perguntou se ele dormia bem sozinho, o menino disse que sim. James, porém, não conseguiu deixar de vigiar: passou noites em claro, atento a qualquer som. Às vezes, convencendo‑se de que sua memória lhe pregara uma peça, lembrava‑se de que talvez o invasor fosse mesmo um humano perturbado. Mas bastava fechar os olhos por um segundo para a imagem voltar — pele sem sangue, rosto inumano e torcido. Por que escolheram sua família? Ele sabia que nem toda coisa tinha razão, mas continuava a se perguntar.

Com o tempo, Daniel parou de falar. No início James pensou que fosse uma fase — filhos mudam. Aos poucos tentou fazê‑lo conversar, mas o menino não conseguia. Voltaram ao médico: “Nada aparente”, disseram. “Pode ser trauma; crianças são um mistério.” Recomendação: psicólogo infantil que James não podia pagar. Nada parecia ajudar. Daniel às vezes respondia por escrito, com um sim ou um não. Sempre que James perguntava se algo o assustara, o menino apenas fitava-o com um olhar distante. James sentia falta da voz do filho; queria ouvi‑la tanto que doía — mas parecia que Daniel só falaria quando estivesse pronto.

Enquanto isso, a sensação de que o intruso não fora embora só aumentava. O alarme jamais disparou, as grades e trancas permaneceram intactas, mas James jurava ouvir movimentos noturnos — não passos comuns, mas um arrastar, como de uma serpente gigante passando pela casa. Quando foi verificar, nada. Às vezes, um vislumbre: um pé pálido, uma sombra disforme na periferia da visão, que sumia quando ele se virava.

Sem sair de casa por semanas — exceto para o banco e o supermercado —, James sentia‑se acuado. Evitava falar; falara apenas com a mãe, a quem dissera estar bem, apesar do suor nas palmas. A conversa foi interrompida por um som estranho na linha, um pequeno arfado, como alguém prendendo a respiração. Um frio subiu pela nuca.

— Tem certeza que ninguém escuta do outro telefone, querido? — perguntou a mãe.

— Não tem outro telefone. Estou no celular, por isso o sinal é ruim.

Se o som não vinha dela, de onde vinha? James largou o aparelho e correu pelo corredor. O telefone fixo estava pendurado, intacto; no porão o telefone reserva estava sobre a bancada. Ninguém por perto. Poderiam ter ouvido a ligação e saído sorrateiramente? No dia seguinte arrancou os fios de extensão e até preencheu as entradas com massa de vedação.

Daniel assistia curioso; James não deu explicações. Começou a examinar o filho toda semana, um reflexo de seu treinamento como auxiliar de enfermagem — meio enferrujado após o afastamento. Era absurdo — mesmo que houvesse uma causa física, não seria algo que pudesse descobrir ali; ainda assim, o fazia para se sentir um pouco no controle.

Numa manhã encostou o diafragma do estetoscópio no peito do menino e não localizou batimentos. Procurou de novo, várias vezes. Para testar, ouviu o próprio coração — firme e claro —, mas no peito de Daniel nada. A lembrança do Homem de Lata do Mágico de Oz, com o peito oco, veio à mente. Enjoado, James atirou o estetoscópio no chão, agarrou Daniel pelos ombros e olhou em seu rosto. O menino sorriu levemente; James sentiu as lágrimas subirem. Abraçou‑o, e Daniel correspondeu. Enxugou a cara do filho, disse que o aparelho estava quebrado e o jogou no lixo.

As coisas pioraram. Os terrores de James deixaram de ser apenas noturnos: ruídos sub‑reptícios e estalidos surgiam ao longo do dia. Pensamentos sobre o quão grande era a casa consumiam‑no; havia tantos cantos, tantos lugares para algo se esconder. Sempre que acendia a luz e abria uma porta, nada aparecia — e isso só alimentava a ideia de que a coisa se movia rápida e silenciosamente assim que ele desviava o olhar.

Começou a imaginá‑la em todo lugar: debaixo da escada, detrás das paredes, rente à sua cadeira. A falta de confirmação só fortalecia a paranoia. O que o mantinha ainda humano era ver que Daniel permanecia aparentemente normal — exceto pela mudez — e que, quando percebesse o pai perturbado, às vezes o abraçava ou apertava sua mão.

Numa noite, às duas da manhã, James saiu de casa no escuro. Se a criatura invadia as horas de dia, enfrentaria o pai nas horas de noite. Perambulou pelo corredor, subiu e desceu escadas, entrou e saiu de quartos vazios. Andava descalço; a madeira fria mordia a sola dos pés. Às vezes parava para ouvir; a criatura se movia furtiva mas com um compasso irregular, como se estivesse sempre em dois ritmos ao mesmo tempo. Ele a imaginava num quarto de hóspedes — na verdade um armário grande, sem pintura, sem carpete, um espaço frio que sempre o lembrara de um corpo parcialmente dissecado. Se a coisa tivesse um ninho, seria ali.

Entrou no armário. Nada. Mas “nada” não significava que não existia nada. Passou a mão pelo ar úmido; buscou fendas. A lâmpada pareceu piscar; ele congelou. Meu Deus, pensou, está no teto. Imaginou‑a se arrastando acima dele como um lagarto pálido, descendo como uma aranha, rosto de canto de parede. Fechou a respiração. Não queria se virar — mas foi obrigado. Girou nos calcanhares e, claro, estava sozinho.

Foi ao quarto de Daniel. Não entrou: encostou o ouvido na madeira da porta e segurou a respiração, temendo um arranhar do outro lado. O que ouviu o chocou — Daniel falava com alguém. Recuou, então entrou no quarto batendo a porta. Daniel estava acordado, sentado na cama, mas em silêncio. A luz fez James hesitar: confirmar que o filho podia falar ou encontrar quem quer que fosse com quem ele conversara. O rangido da porta decidiu por ele: correu para o armário e arrombou. Nada lá. Vasculhou roupas, brinquedos, o piso; o armário estava completamente vazio.

Enquanto revirava, Daniel observava. James, ofegante e tonto, riu baixinho sem motivo. Percebeu então duas coisas: não dormira em dias e estava perto de perder a sanidade. Decidiu que no dia seguinte dormiriam até tarde e iriam embora daquela casa — sem trancas, sem vigílias, sem sonhos com monstros. Tiraria as grades das janelas. Queria viver como gente normal novamente.

Ao passar a mão pelo cabelo de Daniel puxou‑o um pouco mais forte do que pretendia. O menino cedeu, imóvel. James fixou‑se no perfil do filho e não piscou. E, então, com náusea crescendo, percebeu o óbvio: Daniel não tinha orelhas. Não era uma ferida, não havia corte nem cicatriz — apenas pele lisa onde as orelhas deveriam estar.

O ar faltou‑lhe. Agarrando o filho, correu para o corredor, sem saber onde ia, apenas sabendo que precisava tirar o menino daquela casa. No caminho, encontraram‑se com a criatura.

Não era um homem; era um ser pálido, de membros alongados, encolhido sobre si como se sofresse. Agachado no corredor, balançava como se cantasse para si. Por um momento James recuou, protegendo o filho. Então ouviu a voz de Daniel, distante e estranha:

— Papai… — disse o menino.

James se virou. Ouviu outra voz, do mesmo filho:

— Daddy, daddy.

Os lábios de Daniel não se moveram.

A criatura endireitou a cabeça. A voz que vinha dela era quase a de Daniel, fraturada:

— Oi, pai — cumprimentou.

A boca de James secou. Demorou a falar.

— Não me chame assim — conseguiu dizer.

— Este é o nome com que você me chama — respondeu a coisa. — Vá embora. Deixe minha família.

— Eu não vou — disse James, apertando as mãos. — Saia daqui.

— Eu sou sua família — retrucou a criatura, e quanto mais falava a voz ficava mais distorcida, mais borrada. Um frio acomodou‑se no estômago de James.

— Quem é você? — perguntou.

— Alguém que veio visitar. Por que aqui? Você me convidou.

O rosto de James aquecia de ódio e medo.

— Eu não convidei nada. Eu queria partir. Eu queria ir embora e nunca voltar. Quem é a mãe do Daniel? — a criatura interrompeu, como se a pergunta fosse óbvia.

James piscou, estupefato.

— O que é isso? — gaguejou.

— Quantos anos tem o Daniel? — insistiu. A voz era um prego cravando no centro da testa de James. — Quando é o aniversário dele? Qual é o nome do meio? Qual foi a primeira palavra dele?

— Cala a boca! — gritou James, raiva e desespero cortando as palavras. Queria rasgar aquela coisa em pedaços.

Só o peso de Daniel nos braços o deteve. A criatura continuou, calma e terrível:

— Você estava sozinho. Você queria um filho, então eu fiz um pra você.

As mãos de James começaram a tremer. “Isso não tem sentido”, pensou. “Feito de quê?” A voz respondeu, simples e cruel:

— De mim.

O estômago de James revirou. Agora a criatura dizia que precisava das partes de volta.

Algo chamou a atenção de Daniel; sua expressão mudou. “Danny, abre os olhos”, James implorou. O menino apertou as pálpebras, tentando resistir. Com esforço, as pálpebras se moveram e James viu a verdade: os olhos de Daniel não existiam. Por um segundo quase deixou o filho cair; sentiu vontade de atirar a criança no chão só para não encarar aqueles buracos vazios no rosto.

Daniel abriu a boca para falar, mas não tinha voz. A criatura continuou:

— Ele está voltando. Faz parte de mim de novo.

— Não! — James chorou. — Dá‑mo de volta! Dá‑mo de volta!

— Não posso — disse a criatura. — Já faz tempo demais.

— Mentiroso! — gritou James. — Você mente!

A coisa disse que não mentia. “Eu avisei”, repetiu. “Ele não podia existir para sempre. Você só lembra o que eu quero que lembre. Você esquece todas as vezes que conversamos.” Daniel parecia um boneco vazio; o cabelo caía antes de tocar o chão, as mãos recuavam para dentro das mangas, os pés enrolavam‑se nos punhos das calças.

James embalou o que restava do filho, lágrimas correndo pelo rosto. Logo só segurava um monte de roupas vazio; depois nem isso. Brinquedos desapareceram, fotografias sumiram das molduras. As sapatilhas de Daniel já não estavam mais junto à porta. James virou‑se para o quarto do menino: onde deveria haver uma porta havia apenas uma parede lisa. Tateou a superfície com os dedos, bateu a cabeça contra o muro; a dor parecia inexistente.

“Por que? Por que fez isso?” ele perguntou.

— Porque era o que você queria — respondeu a coisa. — E eu aprendi tanto. Pessoas vão perguntar, vão perceber. A polícia, os hospitais, os vizinhos… já esqueceram. Elas só lembram o que eu quero que lembrem, como você.

James pressionou as mãos contra a cabeça que latejava.

— Ao menos eu vou lembrar dele? — perguntou, a voz mal um fio.

— Você pode tentar, mas sua mente vai falhar — disse a criatura. — Agora que tudo o que ele foi faz parte de mim de novo…

James sentou no chão, olhando a parede vazia. Pela fresta da visão viu a coisa aproximar‑se e sentiu a mão úmida dela em seu ombro, mas não olhou.

— Por que me contar então? — murmurou.

A resposta foi miseravelmente humana.

— Porque um pai deve saber.

E então James ficou sozinho.

Abigail preocupava‑se com James. Quando o conhecera, um ano antes, ele disse nunca ter tido filhos nem sido casado, mas havia uma expressão dolorida no rosto dele quando falava da parte de nunca ter tido filhos — um traço que Abigail reconheceu: a marca de pais que perderam crianças. Havia outras coisas que a inquietavam: frequentemente o surpreendia parado, olhando fixamente para um ponto da parede, o cenho franzido, sem perceber. Havia insônia, sonambulismo; sim, motivos para preocupação — mas ela o amava mesmo assim. James repetia que nunca tivera filhos, e ela repetia que sempre quisera uma criança, embora fosse impossível para ela. Tinha medo de que James fosse embora por causa disso, embora ele sempre assegurasse que não.

Ultimamente, as noites em que James sonambulava tornaram‑se mais frequentes. Abigail começava a ouvir ruídos estranhos — passos cortantes pela casa, formas impossíveis nos cantos escuros. Quando imaginava o que faria para ter uma menininha com James, às vezes o desejo a transformava em algo perigoso — e nesses momentos ficava realmente aterrorizada, sem saber direito por quê.

Ela havia pensado em bater na porta de James naquela manhã. Não o fez. Mas, naquela noite, enquanto a casa se afundava em silêncio e as sombras se alongavam, ouviu um som fino vindo do corredor: como se alguém sussurrasse números, como se fosse uma voz aprendendo nomes. Respirou fundo e foi até a sala. No tapete, havia marcas de dedos pálidos que não pertenciam a nenhum de nós.

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As Mãos de Eric

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Henrique Vincent Johnson tinha mãos como luvas de beisebol. Tremendas, de formato estranho e um pouco curtidas, como couro.

Henrique tinha 33 anos e vivia feliz com sua mãe amorosa, Patricia. Quando era pequeno, Henrique foi diagnosticado com uma forma avançada de autismo que o deixou com deficiência mental. Ainda assim, Patricia amava o filho acima de tudo. O pai de Henrique, anos antes, fez as malas e saiu de casa para uma viagem de negócios — que nunca terminou. Henrique imaginava que o trabalho devia ser muito importante para demorar tanto a voltar.

Henrique não entendia muitas coisas do mundo: não compreendia por que as pessoas comiam cordeiros, tão fofos; não entendia por que padres que praticavam sodomia falavam contra a homossexualidade. Não entendia por que as pessoas zombavam dele quando ia à loja de música e cantava sua canção favorita, já que cantar o deixava tão feliz. Mas, acima de tudo, Henrique não entendia por que as pessoas achavam suas mãos enormes tão assustadoras e estranhas. Sua mãe lhe dizia que aquelas eram mãos bonitas porque Deus as havia feito. Henrique refletia que, se tudo que Deus fez era bonito, por que as pessoas reagiam tão mal ao ver os outros nus? Havia muitas coisas que o confundiam.

Seus pés eram parecidos com as mãos: grandes, inchados e de textura áspera. Isso tornava comprar sapatos um pesadelo. Mesmo quando Patricia encontrava um par que servia, Henrique os achava desconfortáveis e pesados, e na maior parte do tempo ia descalço. Ele não entendia por que isso incomodava tanto as outras pessoas, mas sua mãe continuava a amá‑lo.

Henrique também amava a mãe, embora às vezes ela o confundisse. Por exemplo, quando ela tomava banho, proibia com fervor que Henrique entrasse no banheiro com medo de ficar nu; isso deixava Henrique perplexo, pois ele achava todo corpo bonito e a proibição frequentemente fazia‑o sentir‑se rejeitado.

Um dia, durante um banho de Patricia, Henrique decidiu sair para caminhar. Nunca o deixavam sair de casa sem permissão, mas naquele momento ele não quis obedecer. Foi até a mercearia e sentou‑se no avião de brinquedo do lado de fora. Henrique nunca tinha ido a um voo de verdade porque a mãe dizia que ele era grande demais, mas queria experimentar. Não tinha dinheiro, então contentou‑se em sentar no aparelho e fingir que o avião se movia. Estava gostando quando o gerente da mercearia apareceu e exigiu que ele saísse do brinquedo. Henrique não queria interromper sua aventura, mas sua mãe ensinara‑o a respeitar a autoridade, então ele obedeceu relutante. Depois de uma repreensão, ele saiu chateado. Não gostava de ser gritado.

Pensou que talvez a loja de música pudesse o consolar. Caminhou até a placa de neon familiar e entrou. Dirigiu‑se ao aparelho reprodutor e esperou a canção de que tanto gostava. Não sabia selecionar músicas sozinho, precisava confiar na função de embaralhar até que sua favorita tocasse. Já tinha ido à loja sem a mãe, mas sempre fora quando estava vazia; agora o lugar estava cheio. Enquanto aguardava, um garoto aproximou‑se do aparelho e apertou um botão, fazendo tocar uma música diferente. Henrique não entendia como a máquina funcionava e temeu que teria de esperar muito mais tempo; começou a assustar o garoto.

Felizmente, o atendente da loja, que conhecia Henrique, interveio. Acalmou o homem grande e procurou a canção favorita para ele. Quando os primeiros acordes tocaram, a caixa de som lançou triunfante:

— Se você está feliz e sabe disso, bata palmas.

Henrique ficou radiante; cantou e bateu palmas, transformando suas enormes mãos em pratos que soavam alto. Isso incomodou alguns clientes, que cochicharam comentários, e outros saíram da loja; mas ele não se importou. Tinha sua música para animá‑lo. O atendente nem se importou tanto; sabia que, terminada a música, Henrique sairia por conta própria.

Mas antes que a canção acabasse, a mãe entrou: havia terminado o banho e estava muito zangada por ele ter saído sem permissão. Pediu que voltasse para casa imediatamente. Henrique ainda queria ficar; estava curtindo sua canção, mas Patricia era insistente e sabia lidar com o filho, na maioria das vezes. Aquele dia ele estava mais difícil e menos obediente, o que frustrou Patricia.

Quando a situação ameaçava piorar, o atendente, com cuidado, aproximou‑se da mulher segurando o CD que continha a canção de Henrique. Entregou‑o com um sorriso e fez questão de que o rapaz visse a transferência. Ele ficou empolgado ao saber que poderia ouvir a música quando quisesse, mas a mãe sabia que não devia premiar o mau comportamento. Pediu que ele prometesse nunca mais sair sem pedir permissão para ficar com o CD. Ele concordou prontamente, embora não fosse bom em lembrar promessas. Patricia perguntou ao atendente quanto devia. Ele disse que era um presente para Henrique; poderia levar o disco de graça. Como ambos acharam — que homem gentil. Saíram da loja sem mais incidentes.

Henrique ouviu o CD repetidas vezes. A semana inteira seguinte, tudo o que Patricia ouviu foi o filho cantando e dançando sua canção. Ela era forte e suportava muito em seus ombros estreitos. Henrique amou o presente: amou na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e, sim, no domingo.

Mas quando a segunda‑feira voltou, algo mudou. A música já não trazia a mesma alegria. O que antes era seu único refúgio começou a ficar banal à medida que o tratado raro se tornava rotina. Logo deixou de sentir qualquer prazer ao ouvir o disco, e isso o deixou muito aborrecido. Passou a considerar o atendente nada gentil. “Agora nem posso curtir minha canção favorita, e tudo porque ele me deu o CD”, pensou. Esses pensamentos se acumularam na mente de Henrique como roedores ao redor de um pedaço de ricota, e em pouco tempo ele percebeu que seu único método de sentir alegria tinha sido tomado.

Isso tornou a convivência com Patricia muito difícil. Henrique e Patricia começaram a brigar; cada explosão de Henrique trazia punições e perda de privilégios. Isso também o magoava, é claro, mas o que ele poderia fazer? Não conhecia o mundo lá fora e certamente não podia viver sozinho. Um mês antes ele tentara ligar para a avó usando o micro‑ondas; em outra ocasião acreditara que os refrigeradores da mercearia eram portais para Nárnia; e houve o mal‑entendido com autoridades sobre o termo “strip mall”. Assim, Henrique emburrecera em tristeza por dias até chegar a uma conclusão: se já estava tão miserável, o que mais a mãe poderia fazer para piorar? Ele achou que havia batido no fundo do poço e que nada poderia torná‑lo mais infeliz.

Então, numa quinta‑feira, enquanto Patricia tomava banho, Henrique saiu de novo sem supervisão. Dessa vez não foi à loja de música nem à mercearia — embora quisesse investigar melhor os refrigeradores —, resolveu ir ao minimercado próximo, onde nunca estivera. Patricia não dirigia e evitava preços altos da conveniência, mas Henrique tinha algum trocado e pensou em comprar um pacote de M&M’s. Preferia‑os a barras de chocolate porque as barras não tinham personagens coloridos nos rótulos.

Ao chegar ao minimercado, já era fim de tarde; o crepúsculo se aproximava. Havia um grupo de adolescentes aglomerados na frente da loja. Henrique não gostava de adolescentes — costumavam ser cruéis por causa de sua condição — mas queria muito os M&M’s e aproximou‑se da entrada. Os rapazes, como era de se esperar, reconheceram‑no pelas mãos enormes e pelos pés descalços. Já era conhecido na pequena cidade, e não perderam tempo em atacá‑lo com insultos e piadas maldosas.

Henrique geralmente não entendia muito do que se dizia, mas entendeu as palavras deles daquela vez; doeram‑lhe. Tentou se defender, mas ao abrir a boca os jovens aproveitaram para insultá‑lo ainda mais. Atingido, Henrique ficou ferido e confuso: por que eram tão cruéis? Que vantagem tinham em humilhá‑lo? A confusão virou raiva; ele perdeu a paciência com as zombarias. Os garotos não se impressionaram, provocaram ainda mais até que Henrique, que desde criança ouvira que era errado usar violência, atingiu seu ponto de ruptura.

Antes que pudessem reagir, ele agarrou o pescoço de um deles com sua mão monstruosa e o levantou no ar, sacudindo‑o como um farrapo e mandando que não zombassem mais. Os outros dois entraram em pânico e tentaram empurrá‑lo, mas Henrique, maior e mais forte, os afastou com a outra mão. Jogado ao chão, o primeiro garoto caiu inconsciente no cimento. Quando recuperou fôlego, começou a xingar Henrique por tê‑lo atacado — e isso o irritou ainda mais. Ele não era o vilão; eles o eram. Se não os impedisse, continuariam a ferir outros.

Então Henrique ergueu o grande pé e desceu com violência sobre a perna do rapaz, quebrando‑a. O garoto gritou, mas Henrique não parou. Pisoteou os três rapazes até que não pudessem fugir, o sangue encharcando seus pés curtidos. Percebeu que a mãe não aprovaria, mas também que nada que ela fizesse poderia piorar sua vida naquele ponto. Além disso, descobriu algo: desobedecer a mãe e escolher suas próprias ações lhe dava uma sensação boa; e dar àqueles que mereciam o que vinham merecendo era prazeroso.

Quando essa realização o inundou, os três estavam derrotados; três golpes bem desferidos nos crânios foram suficientes para calar de vez as zombarias deles. Henrique permaneceu um instante, saboreando a vitória sem saber que o atendente do minimercado tivera visto os últimos minutos de sua ação.

Henrique, feliz, pediu por educação um pacote de M&M’s, estendendo algumas notas amassadas que guardara no bolso. A jovem ficou aterrorizada, correu para trás do balcão e acionou o alarme silencioso. Como muitas coisas, isso confundiu Henrique: queria entender por que ela não lhe vendia o doce. Quando não respondeu, ele ficou zangado e se aproximou do balcão até a menina, frágil, dizer para ele pegar todos os M&M’s que quisesse. Henrique ficou ainda mais confuso — não tinha dinheiro para tanto. Ao dizer isso, descobriu que podia levar aquilo tudo de graça. Como as guloseimas eram grátis, ele perguntou se podia gastar seus dois dólares em uma barra Milky Way; ela disse que podia pegar quantas quisesse também.

Henrique ficou encantado com aquele lugar mágico onde o doce parecia ser gratuito. Saiu com as mãos cheias do que conseguia carregar, pensando em como aquele dia melhorara desde que desobedecera à mãe. Pela primeira vez em muito tempo, fora um dia maravilhoso. “Se ao menos esse dia pudesse durar para sempre”, pensou.

Mas o destino nem sempre é gentil: sua mãe reapareceu e, ao ver o filho sobre três corpos adolescentes ensanguentados, com os braços cheios de chocolate, sentiu horror e fúria. Patricia costumava esperar até chegar em casa para regravar a bronca, mas aquilo era além do que ela imaginara. Henrique havia ultrapassado limites que ela jamais acreditara que ele pudesse cruzar, e despejou sobre ele uma fúria bíblica.

Pela primeira vez, Henrique não teve medo da mãe. Achou quase engraçado ver a mulher pequena diante dele, gritando em sua voz estridente, tão abaixo de sua altura. Riu, e riu alto — tanto que deixou cair todas as barras de chocolate. Isso enfureceu ainda mais Patricia, que avançou. Henrique soube o que fazer. Com uma varredura poderosa do punho, fez a cabecinha frágil da mãe voar longe de seu corpo envelhecido, do mesmo modo que havia tratado os garotos. O corpo dela tombou ao chão, sobre a pilha de doces.

E, de repente, todos os problemas de Henrique desapareceram. Ele não conseguiu se conter: bateu palmas, riu e dançou, mostrando ao mundo aquelas mãos grandes e belas. Não havia mais ninguém para dizer‑lhe que não podia sair de casa, que não podia bater palmas, dançar ou cantar sua agora quase esquecida canção favorita. Pela primeira vez, Henrique estava feliz — e sabia disso. Bateu palmas novamente.

Agora poderia viver do seu jeito, eliminando todas aquelas pessoas desagradáveis que causavam problemas para ele e para os outros. Ninguém mais ficaria em seu caminho. Aqueles velhos policiais malditos não souberam o que os atingiu.

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