Nunca aceite convite pra entrar no labirinto

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Minha primeira vez numa atração assombrada, quando eu era criança, foi em um labirinto de feno com tema de fazenda, com todos os espantalhos, celeiros antigos e corvos animatrônicos baratos com olhos vermelhos que você pode imaginar. No final, um ator amador, vestido como um caipira, nos perseguia até a saída com uma espingarda de espoleta.

— Sumam daqui, seus moleques atrevidos! — ele dizia, com um sotaque caipira exagerado de forma hilária. — Eu tô chegando! É melhor correrem!

O lugar era barato, mal-ajambrado e totalmente ridículo, mas eu me apaixonei por ele mesmo assim. Um ano depois, visitamos outro lugar – a Casa dos Horrores da Senhorita Maldosa, ou algo assim, lá em Gardersdale – e era outra mansão assombrada igualmente brega, com esqueletos que saltavam de repente e armaduras que largavam machados de borracha perto dos nossos pés, acompanhado por um barulho metálico fora de sincronia vindo de caixas de som mal escondidas. Eu também adorei a experiência, então, por minha insistência, conseguimos identidades falsas no ano seguinte e, com elas, entramos na atração ‘para gente grande’ que estava na moda. Chamava-se ‘A Hora do Horror’ — lembro-me claramente da fonte vampírica em vermelho-sangue acima da porta — e foi meu primeiro contato com atores ‘profissionais’, palavrões, corredores escuros como breu e motosserras. Ao sair, eu, com quinze anos, senti que havia me tornado um homem.

Mas, com o passar dos anos, atrações como essas perderam a graça. E eu tentei aumentar um pouco a aposta. Juro que sim — assim que tive idade, fiz viagens de carro para todos os lugares mais assustadores do estado e de outros lugares também. Entre os lugares que risquei da lista nesse período estavam várias casas que se diziam ser ‘mal-assombradas de verdade’ onde nada acontecia, algumas daquelas atrações ‘ganhe-um-prêmio-se-você-durar-a-noite’ em que eu venci simplesmente por cair no sono, e duas das infames casas mal-assombradas ‘para adultos’ em Vegas, onde você precisa assinar um termo de responsabilidade e aceitar um contato físico extenso (mas não tão extenso assim). Essas eram eficazes, com certeza, mas depois da minha segunda visita a um desses lugares, até mesmo elas perderam o valor para mim.

Aos vinte e sete anos, eu estava faminto por um susto de verdade. Foi então que, num fórum da deep web para viciados em adrenalina com a mesma mentalidade, ouvi falar pela primeira vez de uma atração chamada ‘Labirinto’. Foi mencionada quase passivamente por outro usuário, e quando o pressionei por mais informações, a resposta foi irritantemente vaga.

— Não posso contar muito — disseram eles. — Eles entram em contato se você quiser participar.

Tanto faz.

Pela minha experiência, raramente havia uma recompensa assustadora o suficiente para justificar aquele tipo de bobagem de capa e espada. Fechei o fórum e esqueci completamente o assunto até o fim da semana.

E então veio o envelope preto. Dentro havia uma carta preta, apropriadamente, e nela, digitado com bom gosto, estava a palavra Labirinto, e abaixo disso, um endereço, uma data e um horário.

Dado o nome, eu esperava que Labirinto fosse um tipo de labirinto, ou uma daquelas escape rooms com uma pegada de horror. Mas, em vez disso, me vi diante de uma propriedade palaciana, uma mansão estilo castelo, de um tamanho impossível, com torres, pináculos e alas e várias outras adições grandiosas à estrutura. Era realmente magnífico; eu já tinha visitado o castelo Biltmore na Carolina do Norte uma vez, e aquela propriedade não era mais impressionante do que a que estava diante de mim.

Na porta do lugar, havia uma segunda Carta Preta que dizia simplesmente: ‘Labirinto. Encontre o coração para escapar.’ E apesar do meu ceticismo inicial e já desgastado, agora eu me via bastante intrigado; no contexto do local, achei essas cartas vagas, mais elegantes e discretas do que apelativas. Foi com um estranho otimismo que entrei no lugar e fechei a porta atrás de mim; ela se trancou sozinha com um leve clique. Pelo que pude ver, não havia nenhum mecanismo em seu interior para destrancá-la. O interior do lugar era tão magnificamente construído e mobiliado quanto o exterior sugeria, em cada detalhe. Era majestoso e impecavelmente limpo.

E estava vazio.

— Alô? — disse. Um eco respondeu. Esperei um pouco antes de falar novamente. — Eu sou Andrew Owens. Recebi uma carta ontem pelo correio; dizia para vir aqui hoje às três, então… aqui estou!

Nada. Verifiquei a hora no meu celular, e ele confirmava minha pontualidade. Será que é este o jogo?

Pensei na carta novamente. Encontre o coração para escapar, dizia. Era curta. Era vaga. Estava aberta a interpretações. E refleti sobre seus possíveis significados, concluindo que eu teria que provar minha coragem de alguma forma — meu coração — para poder sair. O isolamento era um toque novo, assim como o pensamento inquietante de que, se algo desse errado, não haveria ninguém ali para me ajudar.

Isso me deixou um pouco assustado. E eu adorei. Decidi explorar.

Sem uma ordem específica de visita, o primeiro andar da mansão, e nas imediações de sua sala de estar principal, tinha uma chapelaria; uma sala de visitas com duas lareiras separadas e vários conjuntos de sofás e mesas redundantes; um grande escritório com uma deslumbrante escrivaninha de mogno de milhares de dólares junto à janela e mais livros em suas estantes do chão ao teto do que todas as maiores bibliotecas públicas e todas as coleções particulares de que já ouvi falar; uma sala de bilhar; um grande salão de banquetes com taças de vinho cheias em cada lugar à mesa; uma cozinha nos fundos com uma fruteira fresca na bancada; e uma galeria onde diversos retratos majestosos de pessoas jovens e bonitas estavam pendurados, que presumi serem os proprietários da propriedade ou seus parentes (embora não tenha parado para ver se havia placas informativas). Um retrato central de uma mulher de vestido azul era particularmente impressionante.

Impressionante. Mas não assustador. Isso eu não apreciei particularmente; eu tinha vindo aqui em busca de emoção, não tinha? Mas, a magnificência deste lugar à parte, eu não tinha certeza do que o tornava uma experiência assustadora e não apenas um quebra-cabeça elaborado.

Mas tive minha resposta em pouco tempo. Saí da sala de bilhar para a chapelaria, e da chapelaria para um longo corredor que, como os outros, tinha bancos acolchoados nas laterais, tapetes persas e um grande piano de cauda que tocava uma melodia agradável (e o único som além dos meus próprios passos). Então abri a porta no fim daquele corredor e me vi, por mais bizarro que fosse, de volta à sala de bilhar. Parei imóvel.

Eu não tinha feito uma única curva desde que cheguei ao edifício, muito menos no rápido minuto desde a última vez que estive naquela sala. Mas aqui estava eu, do mesmo jeito. Meu primeiro pensamento foi: ‘ok, então é essa a reviravolta: eles construíram salas idênticas para criar a ilusão de que estamos andando em círculos.’ Mas essa teoria foi frustrada pelo fato de que tudo correspondia. Tudo — desde o padrão das bolas nas mesas, à ordem dos tacos no suporte, ao modo como o giz estava sobre o parapeito da janela e a mancha que havia deixado lá.

Então, raciocinei que era um truque arquitetônico, pensei; os corredores são curvados de forma tão sutil para dar a impressão de serem retos, quando na verdade estão me fazendo virar para todas as direções e me levando de volta a outras salas. Daí o nome ‘Labirinto’. Fiquei impressionado; verdadeiro e genuinamente impressionado. Não estava assustado, na verdade, mas tinha sido enganado e surpreendido, e até um crítico experiente como eu teve que admitir que a reviravolta era realmente eficaz. Talvez este lugar não seja tão ruim, afinal. Então, atravessei a sala e abri a porta no outro extremo que levava de volta ao corredor.

E entrei direto no antigo escritório onde eu estivera quinze minutos e seis salas antes. Meu coração falhou uma batida, e pela primeira vez fui incapaz de encontrar qualquer explicação para esse fenômeno. Nenhuma torção sutil de corredor poderia explicar isso. Decidi, pelo menos, testar a extensão do truque: ainda na sala de bilhar, fechei a porta e a abri novamente, encontrando não o escritório, mas um novo corredor. Quando a fechei pela terceira vez, abri-a para encontrar um quarto, e após a quarta tentativa, estava olhando para a cozinha.

Mais revelações se seguiram: aquele lugar, embora idêntico à sua forma anterior, estava começando a decair. Deslizei meu dedo pela superfície de uma bancada da cozinha e o esfreguei contra o polegar. Poeira caiu sobre minhas calças. Poeira, e não uma quantidade insignificante, em uma sala que eu havia notado antes por sua limpeza impecável. Senti aquele velho e maldito pavor aumentando, e desta vez eu estava impotente para contê-lo.

E a porta dali não me levou ao salão de banquetes, mas novamente à sala de visitas. E como a cozinha antes dela, agora estava mais suja do que antes; não imunda, mas certamente parecia habitada. Um porta-retrato torto. Uma almofada no chão. Marcas de xícara na mesa. O cobertor que estava perfeitamente dobrado no sofá na primeira vez que estive ali agora estava amassado contra o braço do assento. Foi então, porém, que tive uma ideia — deixar a porta aberta atrás de mim para manter uma via de escape (as salas não podem mudar se as portas estiverem abertas, certo?). Então a deixei entreaberta e me movi em direção à porta no outro extremo da sala de estar.

Mas parei ao alcançá-la. O que me esperava não era a sala de bilhar, nem a cozinha, nem a galeria, nem o quarto, mas novamente a sala de visitas — a mesma sala onde eu estava — agora ainda mais imunda. E parado na porta do outro lado estava eu mesmo novamente, inclinado pela metade do batente, num espelho perfeito da minha postura e do meu semblante. Virei-me para trás, então, e de fato pude me ver ali também, olhando de volta para outra versão do que era, sem dúvida, a mesma sala da porta pela qual eu acabara de passar.

— Olá? — dissemos eu e um coro de Eus ao mesmo tempo. Bati a porta em pânico quando isso aconteceu, e coloquei em prática meu segundo plano: uma fuga forçada pela janela no fim da sala. Peguei a cadeira e gritei: — Eu estou PUTA QUE PARIU DE SACO CHEIO deste lugar!

Então arremessei a cadeira com toda a minha força contra o vidro; ela ricocheteou sem sequer arranhá-lo e caiu de lado. Virei-me para pegá-la novamente para um segundo arremesso, mas parei antes de fazê-lo.

Apoiada em suas duas extremidades, sobre a superfície da mesa e limpa em meio a toda a poeira, estava uma terceira carta preta.

Dizia: Sem trapacear. Encontre o coração para escapar.

Pisquei. Senti-me mal. Senti meu coração batendo na garganta, recuei, e depois de uma breve pausa, comecei a correr. Passei por porta após porta para encontrar a sala de estar principal, mas foi um esforço inútil; a sala de bilhar levava ao salão de banquetes, à chapelaria, à galeria de retratos, ao quarto, e cada cômodo em que eu entrava apresentava mais desordem, mais ruína e mais decadência do que os anteriores. A madeira havia apodrecido; as lâmpadas estavam queimadas; havia teias de aranha e aranhas nos cantos. Mas nem uma única vez a sala de estar principal se apresentou, e depois da terceira passagem pelo escritório, eu desabei junto à perna da escrivaninha para recuperar o fôlego.

Foi então, num golpe bizarro de sorte, que olhei para o outro lado da sala e vi que uma das grandes estantes de livros havia cedido sob o peso da idade e desabado, derramando seus livros no chão e esmagando um cadáver. Era antigo, percebi ao inspecionar o corpo de perto; parecia que a coisa estava ali há décadas quando a encontrei — tempo suficiente para o cheiro desaparecer e as roupas apodrecerem. Mas em sua mão havia o que parecia ser um tipo de livro empoeirado, ou um tomo, ou uma coleção de anotações. Peguei-o, abri-o e comecei a ler, e depois de alguma procura, encontrei a seguinte anotação relevante:

Encontrei o padrão das salas. Levei uma eternidade, mas encontrei. Só preciso ter certeza de correr para a porta quando terminar.

Abaixo disso, havia um tipo de diagrama rabiscado, onde uma tarefa em uma determinada sala levaria a outra.

Acenda a lareira na sala de estar -> cozinha.

Coma da fruteira -> sala de bilhar.

Encaçape a bola oito -> chapelaria.

Encontre a chave no bolso do casaco certo -> salão de banquetes.

Beba do cálice -> galeria de retratos.

Atravesse -> escritório.

Gire o globo para combinar co-

E as anotações cessaram nessa exata frase incompleta. Só posso imaginar que foi então que a estante caiu — talvez propositalmente por algum mecanismo, ou talvez por pura idade e falta de manutenção — e esmagou o autor. Há quanto tempo ele estava ali, eu não poderia dizer, e naquele momento, vergonhosamente, eu não me importava muito. Eu estava simplesmente preocupado em evitar o mesmo destino para mim.

Então, rastejei pelo escritório até a escrivaninha, e enquanto o fazia, o chão rangia, gemia e protestava a cada passo. Mas cheguei, por sorte, e quando o fiz, coloquei a mão no globo e o girei uma vez sem propósito.

Combinar o globo com o quê?

Procurei um pouco antes de ver um mapa antigo de cartógrafo do século XVIII — amarelado, desgastado e gasto como o globo, e um pouco rasgado nas bordas — no outro extremo da sala e acima de outra prateleira. Olhei de volta para o globo e o empurrei para a esquerda até que tanto ele quanto o mapa mostrassem o Novo Mundo no centro.

Eu… acho que está bom, não?

E foi então que algo atingiu minha cabeça — pum! — e caiu no chão. Olhei para o chão e encontrei um livro, e então olhei para cima bem a tempo de outro livro voar da outra estante bamba e me atingir na testa. Pum! Então veio outro livro, e outro, e mais outro. Rapidamente se tornou inviável desviar de todos; eu simplesmente cobri a cabeça com as mãos e corri para a saída, e enquanto o fazia, o gotejar de livros caindo virou um riacho, e esse riacho virou uma cachoeira, e essa cachoeira virou uma avalanche que consumiu a sala completamente; de todas as prateleiras de cada estante na sala, livros voavam e começaram a se acumular no chão antes de preenchê-lo e inundá-lo. E a torrente subiu como a maré do oceano, e eu escalei a montanha acumulada de coisas e fui terrivelmente castigado enquanto o fazia. Minha visão ficou turva; minhas costelas estalaram; perdi o fôlego não menos que três vezes, e quando cheguei ao extremo da sala mais próximo da saída, uma onda gigantesca de livros, enciclopédias, tomos e coleções encadernadas em couro e capa dura havia atingido seu ápice e começou a desabar na minha direção com um ESTRONDO tremendo e simplesmente ensurdecedor. Desviei para a esquerda e para a porta, e segundos antes de ser engolido, arremessei-a e caí sem cerimônia na próxima sala, chutando-a para fechar com um clique forte.

E quando o fiz, estranhamente, nenhum som podia ser ouvido do outro lado — nem livros caindo, nem prateleiras se acomodando, nem coisas quebrando. Era como se tudo o que estivera ali em primeiro lugar não fosse nada. Fiz uma rápida autoanálise e um rápido toque para ter certeza — nada quebrado ou machucado, felizmente — e me permiti descansar e respirar.

— Puta merda — disse. — Puta… ok. Ok. Eu estou bem. Eu estou aqui. Consegui.

Depois de mais um momento de descanso e recuperação, olhei ao redor da sala de visitas onde eu já havia estado várias vezes e me lembrei das instruções das anotações. Acenda a lareira na sala de estar.

Ok. Fácil o bastante, certo? Só preciso de fósforos e lenha, ou algo assim.

Olhei ao redor da sala e encontrei jornais velhos e gravetos já no chão da lareira. Acima da lareira havia fósforos; peguei o último da caixa e o risquei na borda, produzindo uma pequena chama. Joguei-o na fenda. Mas antes que eu pudesse sequer começar a me dirigir à cozinha, aquela chama pegou e rugiu com velocidade impressionante.

Então, um momento depois, houve outro som flamejante— eu me virei e descobri que a outra lareira na sala também havia sido acesa, e antes que eu pudesse processar esse desenvolvimento, suas chamas se espalharam tão rapidamente e tão ameaçadoramente quanto as da primeira, e saltaram do portão, pegaram no tapete velho e esfarrapado e começaram a subir. As chaminés daquele lugar dilapidado estavam tão entupidas de fuligem que a fumaça se espalhou direto para a sala de estar e começou a enchê-la. Eu me joguei no chão quando notei isso e comecei a rastejar. Mas o fogo era muito, muito mais rápido do que eu; em menos de um minuto, havia consumido o sofá mais próximo da porta. Então, ele alcançou a mesa, e aquela madeira velha e sem tratamento pegou fogo de uma vez, estalou, esfarelou e virou cinzas. E logo senti as chamas lambendo minhas pernas e pressionando minhas costas, e desisti de qualquer esforço para rastejar, levantei-me e comecei a correr.

Saltei sobre o segundo sofá e a mesa ali, bem quando o teto rachou e desabou atrás de mim, mas quando alcancei o outro conjunto de móveis, as chamas da segunda lareira, que já haviam consumido tudo, pegaram nas minhas calças e subiram pelo resto do meu corpo também. Fui engolido pelo fogo em questão de segundos. E todos os meus gritos e todo o meu debate não me renderam nada. Logo meu cabelo foi queimado, minhas roupas viraram cinzas, e minha própria pele começou a borbulhar, ferver, carbonizar e derreter. Era excruciante em um grau indescritível, mas eu sabia que haveria água na cozinha, então, com o último de minhas forças, tropecei até a porta, abri-a, entrei e a fechei atrás de mim…

…e eu parei. E me examinei pela segunda vez. Eu podia respirar, percebi. Eu podia respirar, e tinha cabelo, e, caramba — eu estava completa e totalmente intocado pelo fogo. Até minhas roupas estavam apenas tão desalinhadas quanto normalmente. Encostei-me à porta, fechei os olhos e me recompus novamente.

Abri os olhos. Eu estava na cozinha, como esperado, e de fato estava tão imunda e dilapidada quanto as salas anteriores, se não consideravelmente mais. As luzes haviam se apagado há muito tempo, e a madeira estava velha, mofada e podre, e as várias panelas penduradas e todos os eletrodomésticos estavam tortos e quebrados.

E então vi meu objetivo na bancada. Coma da fruteira -> sala de bilhar. E aquela tigela já não estava mais cheia de frutas frescas. Em vez disso, seu conteúdo era pouco mais do que uma papa mofada e completamente podre. Uma nuvem de moscas zumbia acima e ao redor dela.

Eu disse em voz alta: — Inferno, não. Nem pensar. De jeito nenhum! Mas eu sabia, mesmo enquanto falava, que não tinha outra maneira de escapar. Aproximei-me da tigela, fechei os olhos com força e estendi a mão para dentro, passando pelos insetos que fervilhavam e se banqueteavam, e agarrei o que parecia ter sido uma maçã um dia. Então respirei fundo várias vezes e disse a mim mesmo: ‘É temporário, como o fogo.’ E tampei o nariz, e comi a coisa, mastigando mais rápido do que podia sentir o gosto, e engoli inteiro.

Dizer que a fruta estava simplesmente estragada seria um eufemismo profundo. Estava imunda; e tão pútrida e tão completamente rançosa que pelo menos metade dela grudou nos meus dentes e exigiu que eu a lambesse ou a puxasse com as próprias mãos. Arfei. Me contorci. Quase vomitei, mas me segurei antes de fazê-lo, inseguro se isso anularia minha “conquista” e me exigiria recomeçar o jogo, ou comer mais da tigela, ou me banquetear com meu próprio vômito. Então engoli aquela coisa e corri para a porta, batendo-a atrás de mim.

Felizmente, Labirinto foi misericordioso o suficiente para purgar aquele gosto também. Mas a memória permaneceu, e assim que tive certeza de que o conteúdo daquela coisa havia saído do meu estômago, eu liberei o que ainda não tinha saído, e vomitei no chão em uma série de jatos.

Não que fizesse muita diferença para a decoração do lugar, de um jeito ou de outro. A sala de bilhar estava, como as outras antes dela, é claro, profundamente deteriorada. O teto aqui havia desabado quase por completo, e a mesa de bilhar na qual eu tinha que encaçar a bola oito, se a memória não me falhava, era velha e sem feltro. E embora tivesse um taco sobre ela, não havia nenhuma bola de bilhar.

Em voz baixa, murmurei: — Ah, pelo amor de Deus — enquanto os parâmetros da busca que se aproximava começavam a se clarear na minha mente. Mas então ouvi algo no canto mais distante da sala, que parecia algo úmido; um barulho de lamber, talvez, ou de sugar, ou de lamber. Virei-me para olhar, e lá estavam as bolas, pelo menos — aos pés de um enorme cachorro da raça Mastim, provavelmente raivoso e sarnento, que estava se banqueteando com elas na ausência de comida adequada. Felizmente, a criatura estava presa à escrivaninha nos fundos, mas eu não tinha certeza do quanto a corrente cedia.

Ele me viu um segundo depois, e quando o fez, levantou-se e encarou, e por um longo momento, fizemos pouco mais do que nos observar de cima a baixo e de lado. Eu tinha poucas ilusões sobre suas intenções, com todos os dentes à mostra, sua postura agressiva e aquelas cordas de saliva pendendo de suas bochechas.

Antes de fazer qualquer movimento, repassei uma série de planos que, idealmente, me dariam a posse da bola oito sem ter que lutar para tirá-la das patas daquela coisa maldita. Entre as ideias rejeitadas, havia uma em que eu usaria um taco de bilhar para, no mínimo, espancar o cachorro até ele desmaiar à distância antes de ir atrás da bola, e outra em que eu tentava de alguma forma distraí-lo. Eventualmente, porém, decidi usar um taco não para incomodar o Mastim, mas para tentar rolar a bola para longe dele. Qualquer direção em que eu conseguisse fazê-los mover seria uma vitória, raciocinei, então, depois de jogar um pedaço de madeira para o cachorro morder, ajoelhei-me e comecei a cutucar a pilha de peças de bilhar cobertas de baba. Eles se espalharam, mas eu estava tão focado em tocar a bola oito na cabeça e empurrá-la em minha direção que não prestei atenção suficiente ao cachorro. Ele havia ignorado a madeira, descobri, e avançou para o meu taco, agarrou-o com as mandíbulas e o arremessou — e a mim junto com ele — contra a parede. TUM! Caí de costas no chão, e antes que pudesse me recompor, aquele maldito cão rosnando e latindo estava avançando sobre mim com toda a velocidade e uma agressão monstruosa e demoníaca. Sua corrente o impedia de chegar ao meu pescoço, pelo menos, mas depois de uma luta em pânico, ele conseguiu morder meu tornozelo e me arrastar — comigo uivando e tentando me agarrar ao chão e cavando as tábuas de madeira com minhas unhas em vão — de volta ao seu canto. Duas coisas aconteceram que jogaram a meu favor então. Primeiro, nossa luta espalhou as peças de bilhar pelo chão; a bola oito entre elas, e segundo — consegui girar e acertar a mandíbula da fera com meu pé bom antes que ele me arrastasse para longe o suficiente para desferir um golpe mortal.

Consegui me libertar depois disso, e mancando, fui até a bola oito, coloquei-a na mesa e peguei um taco novo da parede. Preparei a tacada — ‘Vamos lá, meu amor. Vamos lá, vamos lá, vamos lá’ — e a encaçapei. — SIM!

Mas meio segundo depois, o cachorro se soltou da corrente e saltou em minha direção. Tive um segundo olímpico para reagir; virei a mesa para assustar o Mastim e corri desesperadamente para a saída enquanto ele corria desesperadamente para mim. Mas ele me alcançou primeiro, infelizmente, e rosnou e mordeu, e eu o segurei pela garganta a um palmo da minha. Seu hálito fedia como o fim do mundo; como carne e ossos decompostos, doença e podridão. Engasguei, empurrei e me esforcei para recuar em direção à porta, e ele saltou novamente, me derrubou de novo e começou a morder minha perna machucada pela segunda vez. Gritei, debati-me e minha mão encontrou um taco de bilhar que havia quebrado sob a mesa virada. Peguei-o e o enfiei na boca do cachorro e me libertei enquanto ele gania e arranhava sua ferida. Não esperei para ver como ou se ele largaria a madeira; simplesmente manquei para a chapelaria e bati a porta. A dor diminuiu.

Faltavam três salas. Faltavam três salas. Faltavam três salas.

Abri os olhos depois de um tempo e me examinei novamente para garantir. Eu estava intacto. O cadáver no escritório indicava que esses perigos não eram meras ilusões, mas as coisas pareciam, pelo menos, se redefinir sempre que uma porta era fechada, presumindo que o jogador estivesse do outro lado dela. Olhei ao redor da chapelaria. Uma única lâmpada exposta piscava no centro do teto e fornecia luz suficiente apenas para iluminar os casacos, mas não o chão. Não dei muita atenção a isso, porém, assim que me lembrei das instruções para prosseguir. Encontre a chave no bolso do casaco certo.

Naturalmente, havia dezenas e dezenas e dezenas de casacos pendurados naquele lugar — de couro, de tweed, trajes de negócios, corta-ventos, moletons e inúmeras outras variedades. Comecei com o mais próximo; nada naquele bolso além de fiapos. A mesma coisa me esperava nos bolsos dos próximos quatro casacos também.

Mas não foi até o quinto que entendi que não eram fiapos, afinal.

— Ai! Que diabos…? — Puxei minha mão de um bolso e encontrei ali uma pápula vermelha, anelada e com uma ferida perfurante no centro. Pisquei. Então voltei-me para o casaco, tirei-o do cabide e o segurei de cabeça para baixo até que o conteúdo de seus bolsos fosse esvaziado. Não ouvi nenhum tilintar que indicasse que uma chave havia caído no chão. Mas mesmo com a pouca iluminação, pude ver a aranha cair no chão e correr para as sombras. Olhei para minha mão. Havia começado a inchar e infeccionar, e pouco mais de dez segundos haviam se passado desde que eu fora picado.

A partir daquele momento, optei por esvaziar os casacos em vez de enfiar as mãos nos bolsos. E sem falha, cada um deles continha pelo menos uma e até quatro aranhas por bolso. No vigésimo casaco, havia um farfalhar constante ao meu redor, enquanto a horda varria o chão, para cá e para lá, por cima das minhas botas e subindo pelas minhas pernas. Ainda nenhum sinal da chave. E a essa altura, eu estava perdendo a coragem.

— Ai! Filho da p-… — Agarrei meu antebraço, fiz uma careta e encontrei outra picada; o culpado havia fugido antes que eu pudesse retribuir o favor. Na minha mão, a ferida inicial havia inchado a ponto de todo o membro parecer pesado, e em minhas pernas e tornozelos havia uma infinidade de outras incisões semelhantes. Seja qual fosse a espécie de aracnídeo, eles carregavam um veneno extremamente potente em suas presas, e de ação rápida, para completar. Fiquei lento depois de uma dúzia de picadas. E então comecei a perder o controle dos meus músculos — tropecei nos meus próprios pés, e minha respiração diminuiu, e quando encontrei a chave no bolso direito do quadragésimo primeiro casaco que eu havia verificado — contei-os enquanto prosseguia — mal conseguia enxergar direito. Agarrei a coisa, mas desabei assim que o fiz.

E então veio a horda. Das sombras atrás de mim, e na minha frente, e de ambos os lados e acima de mim, as aranhas enxameavam. Só a adrenalina me deu forças para me levantar, mas mesmo isso era um desafio além de tudo o que eu havia encontrado até agora. Meu corpo estava coberto de pápulas e picadas ardentes da cabeça aos pés. Havia aranhas nas minhas mãos. Havia aranhas nos meus sapatos. Havia aranhas nas minhas roupas também — por toda parte — e no meu pescoço, e no e dentro do meu rosto. Cada uma daquelas coisas estava mordendo e se banqueteando enquanto eu cambaleava desajeitadamente até a porta. Cada passo parecia um quilômetro. E quando bati minha mão direita na maçaneta e consegui, após um esforço excruciante, inserir a chave (milagrosamente, eu nunca a deixei cair; fazê-lo seria, sem dúvida, uma sentença de morte), as coisas estavam nos meus ouvidos, e no meu nariz, e na minha boca. Tentei cerrar os dentes, mas todos os músculos faciais necessários para essa tarefa estavam tão inflamados que não consegui impedir que as coisas se derramassem na abertura e descessem pela minha garganta. Eu nem conseguia engasgar. Tudo o que pude fazer foi usar cada centímetro de força que me restava nos ossos na tarefa de girar a maçaneta, e puxar a porta com pulsos tão machucados, vermelhos e inchados que fazê-lo parecia estilhaçar ossos. E quando ela se abriu, tive que dar passos com os pés tão inchados que meus próprios sapatos pareciam prestes a estourar. A luz da próxima sala — o pouco que havia — derramou-se na chapelaria e iluminou os ossos de pelo menos uma dúzia de outras almas que nunca conseguiram escapar.

Bati a porta atrás de mim e desabei, ofegando por ar. Como sempre acontecia, as feridas se redefiniram e eu estava em boa saúde; nem uma única aranha rastejava na minha pele, nem pelos meus ouvidos, nem por baixo das minhas roupas. Mas, assim como com a fruta rançosa, a memória permaneceu.

Gritei: — QUE PORRA DE LUGAR É ESTE?! HÃ?! Não houve resposta para isso, é claro, então, na minha raiva, caminhei até a mesa do salão de banquetes, agarrei a cadeira mais próxima e a arremessei com toda a minha força pela superfície. Pratos e copos voaram para o chão e se quebraram em mil pedaços entre todos os outros detritos. A cadeira que eu havia jogado simplesmente rolou pelo comprimento da mesa e parou, por fim, perto da outra extremidade dela. Um cálice permaneceu firme no lado mais distante, intocado e intacto.

Beba do cálice -> galeria de retratos.

Não me movi por algum tempo. Apenas encarei a coisa, e senti que ela fazia o mesmo comigo, não diferente do cachorro, e eu era incapaz de impedir minha mente de divagar pelas possibilidades do que aquilo poderia conter.

Leite rançoso, pensei. Ou um copo de insetos, talvez, ou sangue fresco.

E a essa altura, eu estava tão completamente exausto e desanimado que a mera ideia de beber um conteúdo tão vil me levou às lágrimas. Mas coloquei um pé na frente do outro de qualquer maneira, e marchei até ele, e embora fosse provavelmente desaconselhável, espiei lá dentro.

Parecia vinho, vi. Então cheirei, e tinha cheiro de vinho. Então peguei o cálice e agitei a bebida um pouco, e vi que tinha a mesma consistência de vinho também. Limpei meus olhos e reforcei minha decisão, e me certifiquei de localizar a saída — atrás de mim e à esquerda — e tampei o nariz e bebi a coisa.

Tinha um sabor doce. Não como qualquer forma de álcool, como eu esperava, mas doce e espesso e fresco e refrescante. Engoli a bebida por completo. Então limpei a boca, e mal me virei para a saída e formei o pensamento ‘Isso foi fácil demais; qual é a pegadinha?’, então percebi que agora havia, curiosamente, duas saídas.

Não duas saídas de forma concreta, mas com minha visão nadando do jeito que estava, percebi que havia duas de tudo, na verdade. Duas portas. Dois pares de pés. Quatro mãos, duas mesas, dois cálices.

Pensei: ‘Hum; isso é estranho’, e então desabei no chão e, de uma vez por todas, fui novamente completamente incapaz de coordenar meus movimentos, de pensar, de dar sentido à visão e de respirar.

Era dolorosa, angustiante e difícil de respirar, na verdade — cada inspiração trazia fogo consigo, e em pouco tempo o veneno havia inchado minha garganta até que nenhum ar pudesse passar por ela. Tentei ofegar por ar, mas não consegui; tentei alcançar minha boca e forçar a abertura das vias aéreas, mas também não tive sucesso nessa empreitada. Contorci-me, convulsionava, agarrei e arranhei minha garganta e fiz todos os movimentos de ofegar desesperadamente sem receber ar algum.

O último pensamento coerente que tive foi que, como de costume, a salvação poderia ser alcançada na saída e em nenhum outro lugar. Então, com meu corpo em revolta, comandei-o a levantar, e então tropecei, cambaleei, inclinei e caí na direção daquela porta, e me levantei e caí novamente, mas um pouco mais perto desta vez e com um joelho cheio de farpas. Logo, doía até mesmo absorver a pouca luz que havia naquela maldita sala, e cada movimento que eu fazia era agonizante, pesado e sofrido. Mas eu tinha chegado longe demais para desistir agora; bem quando comecei a desmaiar, alcancei a porta, abri-a com força e caí para o outro lado. Só quando a bati para fechar pude respirar novamente.

— Ainda não me quebraram, seus desgraçados — disse. Tossei violentamente. — Ainda não.

A galeria de retratos me esperava agora. Atravesse.

A essa altura, eu já havia me livrado das ilusões de que qualquer sala naquele lugar demente seria fácil de resolver. E quanto mais vagas as instruções, mais difíceis seriam de seguir. Então olhei ao redor em busca de perigos em potencial e não vi nenhum. Não havia aranhas, nem cachorros, nem incêndios, e nem venenos ou livros caindo; não havia sequer escuridão propriamente dita naquele lugar. Estava tão velho e quebrado quanto qualquer sala anterior, mas um buraco no teto permitia que o luar se derramasse e o banhasse. E naquela luz, tudo o que havia diante de mim era um corredor repleto de retratos envelhecidos.

Então comecei a caminhar para a frente, lenta e deliberadamente, e com cada pelo da minha nuca e dos meus braços arrepiados. A princípio, realmente não havia nada a temer.

Mas então voltei minha atenção para os próprios quadros, e percebi que eles pareciam estar envelhecendo. Quando eu parava, o processo também parava, mas se eu me movesse sequer um centímetro em direção ao final da sala (que por si só estava tão envolto em escuridão na parte inferior que eu não conseguia ver nenhuma porta), então as figuras envelheceriam. Não era profundo nem rápido, na verdade, apenas pequenas coisas aqui e ali. Uma nova ruga apareceria. Ou suas roupas perderiam um pouco do brilho.

A única que pude ver durante toda a minha caminhada, porém, era aquela poderosa peça central à frente, da mulher de azul. Ela envelhecia um ano a cada passo que eu dava; quando entrei na sala, ela era jovem, e jovial e vibrante, com o sol às costas e um vestido brilhante que combinava com o céu. Mas na metade do caminho pela sala, até mesmo aquele céu havia ficado cinza. Seu cabelo estava quase branco, seu sorriso havia se tornado uma expressão mais cansada, e seu vestido estava velho, enrugado, gasto e desbotado. Ela parecia terrivelmente, terrivelmente triste, e de repente tive a impressão de que eu mesmo a estava matando — que cada passo que eu dava a aproximava da morte. Fiz uma pausa para respirar depois disso, e por um tempo nós nos encaramos enquanto eu descansava. Quase desejei poder dizer a ela o quanto eu sentia.

Dei mais um passo doloroso à frente. ‘Quase lá’, disse a mim mesmo. ‘Quase fora’. Meu quadril doía. Minha respiração estava pesada (novamente, embora por razões completamente diferentes), e eu começara a suar. Passei a mão pela testa e pelo meu couro cabeludo liso e fiz o meu melhor para me conter…

Por que meu couro cabeludo está liso?

Passei as duas mãos no topo da minha cabeça. Nada ali além de pele. Então olhei para minhas mãos — elas haviam envelhecido profundamente nos poucos minutos desde que entrei neste lugar; enrugadas, veias saltadas, com manchas de idade e simplesmente velhas. E de repente fui tomado por pavor, medo, raiva e confusão. Olhei para trás, mas sabia que não havia nada para mim ali. Eu só podia ir para frente, mas cada passo trazia mais dor e mais angústia. Minhas articulações doíam. Meus olhos ficaram cansados. Olhei novamente para o retrato na marca de três quartos e vi que a mulher agora tinha entre oitenta e noventa anos, à beira da morte e sem sequer a força para franzir a testa. Continuei em frente e olhei para baixo e vi que minhas roupas também haviam começado a se desgastar e envelhecer. Eu agora vestia trapos, e mal isso. Era um desmoronamento exponencial: no início da sala, cada passo me envelhecia um mês. Então, um mês virou dois meses, e isso virou três. Pelo meio do lugar, eu envelhecia um ano a cada passo, e agora — agora cada pegada trazia consigo uma década ou mais.

Logo não pude mais ficar em pé, apenas rastejar; meus cotovelos tremiam e vacilavam, e por fim — ainda a meros dois ou três passos apressados de onde eu imaginava que a porta estaria (ainda estava muito escuro para discernir o que esperava nas sombras), mas a uma eternidade de distância na minha condição — eu desabei. Não restava nada. Olhei para cima uma última vez para a pintura. Toda a carne havia sumido; apenas ossos e terra restavam.

E então eu também não era muito mais do que ossos.

Eu nunca conheci a verdadeira escuridão até que morri no Labirinto. Não havia nada para ver do outro lado. Realmente nada; eu não conseguia ver minha mão na frente do meu rosto e não havia sequer uma faísca tênue para me dar um senso de direção ou contexto. Eu estava simplesmente flutuando em um espaço vazio e não construído, e embora o tempo não tivesse significado ali, senti vagamente que havia estado lá por um período muito, muito longo. Semanas talvez, ou meses, ou anos, ou décadas. Eu não tinha certeza.

Quando a porta se apresentou a mim, eu já havia há muito tempo esquecido o Labirinto ou mesmo quem ou o que eu era. Eu simplesmente a abri como se fosse a coisa mais natural do mundo, e lá dentro encontrei um pilar de luz que pulsava e batia em um ritmo constante. Como um coração. E então tudo voltou à minha mente.

Encontre o coração para escapar.

E com isso, todas as memórias daquele lugar me invadiram. As salas que mudavam. A decadência rápida. Os livros e o fogo e a comida rançosa e o cachorro e o envelhecimento até a porta da morte, tudo de uma vez. Tudo isso. Eu me forcei para a frente e para dentro da luz, e…

…E eu caí na grama. Então olhei para cima e vi estrelas, e olhei ao redor e me encontrei em frente à mansão ao anoitecer. Senti uma pontada rápida de alívio e esperança e instintivamente a reprimi até que minha autoanálise estivesse completa. Então deixei que ela cantasse. Eu estava vivo. Eu estava vivo, e respirava e era jovem novamente e ileso, e pela primeira vez em horas, ou dias, ou seja lá por quanto tempo, em nome de Deus, eu me senti livre. Comecei a rir e chorar ao mesmo tempo, e enquanto o fazia, corri para longe daquele lugar horrível, e através e para além do portão, para o campo onde meu carro ainda estava estacionado.

Cheguei em casa uma hora depois e caí num sono profundo e reparador. Basta dizer que a experiência miserável no Labirinto me curou completa e totalmente da minha necessidade de ser emocionado pelo medo. E a vocês, direi apenas isto: se algum dia receberem um envelope preto na caixa de correio, joguem a maldita coisa fora. Ou melhor ainda, queimem-no.

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Fique longe do Bosque

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Morei em algumas casas enquanto crescia, mas de todas elas só uma permaneceu na minha cabeça. Foi a casa onde meus pais morreram. Quando eu tinha 14 anos, nos mudamos para uma pequena casa de dois quartos numa cidadezinha de Oregon. A casa ficava no fim de uma estrada de meio quilômetro que serpenteava por entre abetos densos. No final havia uma clareira, e no centro dela estava nossa casa. Parecia tirada de um conto de fadas. Mal sabia eu que estava longe disso.

Na época eu era um solitário, do tipo que abafava o mundo com fones de ouvido ou se escondia dele sentado sozinho. Um dia, eu estava sentado sozinho como de costume quando uma garota chamada Emma decidiu que eu seria um bom amigo. Ela veio até mim e começou a conversar. Foi tão chocante que tudo o que pude fazer foi encarar. Só depois que ela me perguntou meu nome pela terceira vez é que consegui responder. — Eu sou Toby — disse num sussurro. — Eu sou Emma. Você é novo na cidade, né? — ela quase gritou. A energia dela sempre foi igual à de um esquilo que tomou um energético demais. — Sim, me mudei de uma cidade pequena na Califórnia — respondi, ainda sem entender por que aquela bola de fogo humana falava comigo.

Ela sentou ao meu lado. — Legal. Em qual casa você se mudou? Hesitei antes de responder. — A pequena de dois andares na beira da cidade, sabe, aquela com a entrada enorme. O rosto dela empalideceu quando eu disse qual era. — Oh. Legal — disse Emma com uma pontada de desconforto bem visível na voz. Sua expressão dizia que não era legal. Olhei em seus olhos enquanto ela procurava outro lugar para olhar. — Tem algo de errado com aquela casa? — perguntei, começando a fuçar no assunto. — Só fique longe do bosque. Confia em mim — Emma disse baixinho.

— Olha, eu preciso ir para a aula — disse ela levantando-se. — Por que eu não posso ir pro bosque? — estava confuso e um pouco inquieto, queria mais explicações. Emma parou, pensou, então virou e voltou até mim. — Me encontra no parque depois da aula. Eu explico lá. As palavras ficaram zumbindo na minha cabeça o dia todo: fique fora do bosque. Por quê? O que precisa ser explicado? Ursos? Não consegui me concentrar pelo resto do dia escolar. Quando o sinal final tocou, arrumei minhas coisas e fui para o parque. Quando cheguei, vi Emma sentada num banco debaixo de uma árvore.

— Ei, então por que eu não posso ir no bosque? — perguntei me sentando ao lado dela. — Não posso te falar aqui. Me segue. Fiquei confuso. — Te seguir para onde? — proferi. — Pro bosque — Emma respondeu. Fiquei olhando para ela por um segundo antes de dizer devagar: — Então temos que entrar no bosque pra você me contar porque eu não devo ir no bosque? Emma parecia que o cérebro dela deu um salto até processar o que eu disse. — Eu quis dizer: não vá à noite. Ah, para, só me segue.

Estava nervoso vendo Emma entrar na linha das árvores, mas decidi seguir. — Então, pra onde a gente vai? — perguntei. — Eu vou te mostrar porque você deve ficar fora do bosque. Ela não disse mais nada durante toda a caminhada. Levamos cerca de uma hora andando, até que começamos a ver sinais de vida. Bem, onde antes havia vida. Fios de lâmpadas velhos pendurados entre as árvores, alguns folhetos meio enterrados na terra, até um corrimão antigo como os que a polícia usa. À medida que avançávamos, apareciam mais sinais de que realmente houve um parque itinerante ali.

Mais adiante eu vi uma clareira onde algumas estruturas metálicas ainda se erguiam. Um brinquedo giratório genérico, enferrujado e tomado por vinhas. Uma torre de queda praticamente corroída. Uma barraquinha de lanches tombada e apodrecendo. Era arrepiante e, ao mesmo tempo, tinha algo de acolhedor, como se a memória das pessoas felizes que passaram ali tivesse impregnado a terra. Era quase viciante. — É por isso que você deve ficar fora do bosque — disse Emma numa voz sombria, nada como o tom energético dela. — Porque tem um parque de diversão abandonado? — ri, meio que em deboche.

Emma olhou pra mim. — Não. É por causa do que aconteceu aqui. Isso me pegou desprevenido. — Espera, o que aconteceu aqui? — Emma sentou num banco enferrujado antes de falar. — Esse parque existe há muito tempo. Quando ainda funcionava, o dono se chamava Edward. Ele era um homem estranho, imigrante do Reino Unido, e quase não saía do terreno do parque itinerante. Então, quando crianças começaram a desaparecer, quem a cidade ia culpar senão o estrangeiro esquisito que mora no parque? Fiquei preso à história que ela contava. — A polícia investigou e sabe o que encontraram? — lancei a primeira hipótese que me veio à cabeça. — As crianças? — Emma riu. — Não. Não encontraram nada. Parecia que Edward era inocente, mas os locais não viram assim. Então, uma noite um grupo de homens foi até o parque e, bem, Edward nunca mais foi visto.

— Eles lincharam o Edward? — perguntei, boquiaberto. — Sim — respondeu Emma, — mas a lenda diz que a alma de Edward ficou aqui, esperando a chance de se vingar de quem o matou. Um arrepio percorreu meu corpo. É uma história interessante, mas duvido que um fantasma ficasse esperando num parque de diversão enferrujado. Emma balançou a cabeça. — Se você não me ouvir, tudo bem. Você vai acabar sumindo também — disse ela com um leve cenho. — Como assim? As pessoas ainda desaparecem? Isso significa que o cara nunca foi pego? — Toby, isso aconteceu há 50 anos. E sim, pegaram o homem que matou aquelas crianças. Era um tal de Henry Beaumont. Ele morreu na prisão uns 20 anos atrás.

Voltei para casa e fui recebido por gritos de duas pessoas discutindo. Minha mãe e meu pai brigavam de novo. Era quase diário. Se eu soubesse o que ia acontecer… Subi para meu quarto. As paredes eram finas e eu ainda ouvia as vozes, então coloquei os fones e me deitei. O céu estava escuro e o ar tinha cheiro de fritura. A noite trazia as lâmpadas presas de árvore em árvore brilhando. Havia brinquedos e barracas de jogos, e ainda assim havia algo errado. O lugar deveria estar cheio de gente, mas só havia eu e outro homem. Ele estava no centro da clareira, de costas. — Alô? — chamei para o homem. — Olá — ouvi a resposta. — Sim, olá. Você não está aqui — disse o homem misterioso. — Como assim? Quem é você? — O homem se virou e eu não conseguia ver o rosto. — Não posso responder. Você não está aqui. O homem inclinou a cabeça e disse: — Venha, eu te mostro.

Acordei do cochilo com o sonho ainda vívido. A casa estava silenciosa, então achei seguro pegar algo pra comer. Fui para a cozinha e olhei pela janela: o carro do meu pai tinha sumido. Mais uma escapada raivosa até o bar. Fiz um sanduíche e voltei pro quarto. No corredor ouvia minha mãe chorando baixinho no quarto dela. Voltei ao meu quarto e, ao sentar, notei uma luz no bosque. Provavelmente alguém acampando, pensei, antes de dormir vendo um filme.

No dia seguinte, Emma veio até mim. — Ei, Toby, como foi sua noite? — perguntou. — Mais ou menos. Tive um sonho estranho, só — respondi. Emma se aproximou. — Sério? Me conta o que aconteceu. Pensei por um segundo tentando lembrar o sonho. — Sonhei que estava no parque de diversão, mas ele parecia novo, como se tivesse aberto ontem. Havia um homem que só dizia: você não está aqui. Parecia que ele tentava me levar pra lá. Não sei, foi tudo muito estranho. Emma me olhava interessada. — Você viu o que ele parecia? — Não, o rosto estava borrado. Não era coberto, só indistinto. Emma ficou pensando como se estivesse resolvendo os mistérios do mundo. — Não acho que seja coincidência. Você sonhou com o parque itinerante na mesma noite em que ele acendeu. É estranho. Eu apenas pensei no que ela tinha dito.

— Espera, o parque acendeu? — Emma me olhou como se eu fosse um idiota. — Sim, às vezes acontece. Só de vez em quando ele acende. Mas ultimamente tem acontecido duas noites seguidas. Algo está diferente.

Voltei pra casa pensando no sonho e nas luzes. Relembrando a conversa com Emma, tive uma ideia. Acho que Edward quer falar comigo. Devo ir ao parque? Por que não? Edward não machucou ninguém. Foi o Henry. Deveria estar seguro. Depois de me convencer por uma hora, decidi ir. Fugir de casa foi fácil. Meu pai não tinha voltado e minha mãe não saiu do quarto desde a briga. Saí pela porta da frente. O sol estava se pondo quando entrei na mata. Enquanto andava senti uma sensação ruim no peito, como se estivesse fazendo algo errado. Mas a curiosidade era mais forte.

Andei debaixo das luzes antigas penduradas entre as árvores enquanto o sol sumia e a noite chegava. Uma corda de luz piscou antes de ficar acesa como um velho que levanta devagar. Outra acendeu e outra. Em dez segundos todas as luzes se acenderam e me guiaram até o parque. Entrei na clareira e o parque de diversão brilhava como no meu sonho. Comecei a andar procurando qualquer coisa. Notei uma tenda no fundo. De dentro vinha algo que me gelou: uma caixinha de música tocando uma melodia antiga. Não quis olhar por medo, mas a curiosidade venceu. Espiei e vi uma mesa iluminada por uma lâmpada antiga. Papéis espalhados e, no centro, uma caixinha de música ornamentada com uma manivela de latão. Ao abrir, percebi que não eram só papéis inúteis. Debaixo da caixinha havia um diário de capa de couro. No interior da capa estava escrito: Edward Blackburn. Abri numa página qualquer e comecei a ler.

Estou tão feliz que o parque está indo bem. Em apenas uma semana tivemos a maior parte da cidade por aqui. Os lucros estão altos. Talvez eu consiga tornar isso permanente. Aquele acordo foi o melhor que fiz. Tomara que não volte pra me morder. Ao ler essa última frase ouvi o pio de uma coruja. Percebendo a hora, peguei o diário e fui pra casa. Cheguei a tempo de ver as luzes do Mazda do meu pai quando fechei a porta. Corri pro meu quarto e finji estar dormindo. Deitei e logo ouvi os passos bêbados dele tropeçando pela casa e o barulho de quando ele caiu no sofá. Conhecendo-o, em segundos estaria dormindo. Adormeci não muito depois.

Fui acordado pelo alarme. Hora de ir pra escola. Me arrumei, saí de casa passando pelo corpo ainda adormecido do meu pai no sofá. Quando saía ouvi uma voz chamar atrás. — Toby, espera. Virei e vi Emma correndo pra me alcançar. Parei pra ela me alcançar. — Ei Toby, teve outro sonho estranho? — perguntou ela. — Não — respondi. — E as luzes? Você viu? Pensei se contava tudo. — Sim, eu vi. — Emma respondeu provocando: — Você não achou que era uma fogueira de novo, né? Dei um risinho. — Não, eu sabia o que era. Emma ficou séria. — É estranho como Edward tem aparecido. — Como assim? — Eu não sou daqui, né? O parque do Edward normalmente acende só uma vez por mês, mas por algum motivo vimos as luzes duas noites seguidas. Algo está diferente.

Voltei pra casa depois da escola. O carro do meu pai tinha sumido de novo. Entrei no quarto e vi o diário do Edward aberto na minha mesa. A página estava em branco exceto por duas palavras: Volte. Em vez de me assustar, fiquei irado. Edward estava brincando comigo e eu estava cansado disso. Decidi voltar. Não preciso descrever de novo a escapada. Voltei pro bosque com o sol ainda no céu. O parque parecia exatamente como quando fui com Emma. — O que você quer? — gritei para o vazio. Só ouvi o eco da minha voz. Sentei num banco. Não ia sair até saber o que estava acontecendo. Enquanto pensava percebi como minha birra era inútil. Quando estava prestes a levantar uma luz começou a piscar. Olhei para o céu. Já era noite. Quando o parque acendeu outra vez, havia mais força. Músicas de parque começaram a tocar. O cheiro doce de comidas invadiu o ar. Senti meu sangue gelar quando uma sombra se formou no meio do parque itinerante.

O corpo humano tem um mecanismo de defesa chamado luta ou fuga. Quando colocado em situação de estresse extremo alguém luta ou foge. Algo que não falam muito é a terceira resposta: congelar. Eu estava congelado de medo. A forma era mais alta e ficou totalmente imóvel. Ficou cada vez mais escura até ficar pura escuridão. A escuridão se dissipou e então lá estava ele: Edward, tão real quanto você ou eu. Caminhou até mim. — Olá, Toby — disse ele. — Eu me apresentaria, mas parece que já nos conhecemos. — Ele sorriu gentilmente. — Você não tem nada a temer. Por favor, aproveite tudo que meu parque oferece. Edward estalou os dedos e, atrás de cada barraca, uma fumaça roxa explodiu. Quando a fumaça evaporou, em cada ponto havia uma pessoa vestindo o mesmo traje de Edward, todas com máscaras.

Fui até um jogo e olhei para um daqueles atendentes. A máscara era metade preta, metade branca. Um sorriso pintado de ouro. Quando a pessoa se inclinou, a voz do Edward veio de trás da máscara. — Toby, quer ganhar um prêmio? — O atendente estendeu quatro bolas de baseball. — Só derrube as garrafas e ganha um desses. Ele levantou um grande guaxinim de pelúcia. Passei a noite inteira lá. Joguei, comi algodão doce e bolo frito até me empanturrar. Foi uma das melhores noites da minha vida. Antes de eu ir, Edward me puxou de lado. — Bem, espero que tenha se divertido, garoto, mas receio que o parque está fechando. Sugiro que vá pra casa agora, mas não chore. Meu parque de diversão estará aqui amanhã à noite. E eu já sabia que voltaria.

Na escola mal conseguia manter os olhos abertos e Emma percebeu. — Ei Toby, tá bem? — perguntou preocupada. — Sim, tô — respondi, tentando afastar a preocupação. — Só tive sono ruim. — Emma me olhou com desconfiança. — E o parque? — Pensei de novo se contava, mas decidi não contar tudo. — Nada, só vi as luzes. Emma ficou confusa. — O parque itinerante não acendeu ontem à noite. — Talvez foi só um sonho — tentei minimizar. Ela concordou, mas não parecia acreditar.

Voltei pra casa e ouvi a briga novamente. Quando abri a porta, meu pai passou por mim e me empurrou no gramado antes de sair com o carro roncando. Entrei e minha mãe estava no sofá, não chorando desta vez, apenas olhando pra frente. Esperei o pôr do sol pra ir pro parque de novo. Eu já ia todas as noites há uma semana. O lugar que me amedrontava havia se tornado meu paraíso, uma fuga daquela casa escura. Numa das noites Edward me chamou. — Ei, Toby. Gostou do meu parque? — atirei uma bola numa pilha de garrafas antes de responder. — Eu adoro. É o melhor lugar que conheci em um tempo. — Edward sorriu. — E se você não precisasse mais ir embora? — Voltei toda minha atenção pra ele. — Como assim? — Bem, nada é melhor do que ser feliz. Por que não ser feliz para sempre? Por que não ficar aqui comigo? A oferta me deixou desconfortável. — Uh, não sei. — O canto do sorriso de Edward tremulou antes de responder. — Não precisa decidir agora. Pensa e me diz amanhã. Agora o sol está nascendo. Você deveria ir pra casa.

Disse tchau e fui embora, mas algo soou errado. No dia seguinte, Emma me abordou assim que me viu. — Toby, você está péssimo. Quando foi a última vez que dormiu? — Ri e murmurei: — Boa pergunta. Emma ficou preocupada. — O que tem feito à noite? — Em sono demais deixei escapar: — O parque. O rosto dela ficou frio. — Toby, você tem ido ao parque? — Foi aí que percebi o estrago. Tentei cobrir. — O quê? Não, por que eu iria? Você disse pra não ir. — A expressão dela estava calma, mas os olhos queimavam. — Toby, se você desaparecer, aí é por sua conta. Eu avisei. Agora me conta tudo. Depois de meia hora contei cada detalhe. — Então, o Edward quer que você fique aqui pra sempre? — Eu assenti. — Bom, resposta fácil — disse Emma. — Nunca volte. Não dê resposta alguma. Eu assenti novamente. — Sim, provavelmente é o melhor.

Cheguei em casa e sentei na cama olhando em direção ao parque. Eu sabia que seria um erro, mas queria voltar. Decidi que iria me afastar aos poucos: esperaria até ver as luzes. Naquele dia vi as luzes antes do sol se pôr. Mas não vinham do bosque — vinham do carro do meu pai descendo a entrada. Ele estacionou e ficou sentado por um tempo. Quando o sol se foi, ele saiu do carro, acabou a cerveja e pegou uma espingarda. Nunca saberei qual foi a última briga deles naquela semana, mas foi o suficiente pra fazer meu pai perder o juízo. Coloquei as botas enquanto ele cambaleava até a porta. Quando ouvi a porta abrir e fechar, comecei a passar pela janela. Quando estava na metade do caminho até a linha do bosque, escutei um som que ficou gravado na minha mente: um tiro de espingarda ecoando da casa. No escuro vi o clarão no vidro do quarto do casal. Saí correndo. Não tinha muito tempo antes do meu pai descobrir que eu havia sumido. Corri o mais rápido que pude para o bosque. Ouvia meu pai gritando meu nome atrás de mim. Enquanto corria eu sabia que estava mais perto do parque itinerante. Via as luzes, ouvia a música, sentia o cheiro da comida. Era o único lugar pra onde eu poderia ir. Algo dentro de mim dizia que eu estaria seguro ali.

Entrei no parque, mas ele permaneceu imóvel. Edward não estava em lugar nenhum. Me escondi atrás de uma barraca enquanto meu pai entrava na clareira. O ouvi chamando meu nome. De repente tudo ficou silencioso. Espiei e vi meu pai parado sobre Edward com a arma apontada pra cabeça dele. — Quem diabos é você? — Edward fez uma expressão que eu nunca tinha visto: um sorriso que mostrava raiva e ódio, não gentileza. — Sou Edward, o dono deste parque. O mesmo que você está invadindo. Meu pai foi ficando mais furioso. — Onde está meu filho, seu palhaço? — Edward riu. — Acha que eu sou um palhaço agora? Espera e vê. A boca de Edward se abriu e apareceu centenas de dentes afiados como navalhas. Meu pai puxou o gatilho, mas tudo o que conseguiu foi deixar a besta enfurecida. A criatura recém-formada agarrou a cabeça do meu pai e a mordeu. Ouvi um estalo doentio enquanto sangue espirrava pela grama. O corpo do meu pai, sem cabeça, caiu ao chão.

Edward se virou para mim e chamou: — Venha, Toby. Fique aqui pra sempre comigo. Eu posso te fazer feliz. A besta nem tentou mais esconder o ar sinistro. — Você não quer isso? Sem dizer nada eu virei e corri. Ouvi um grito de frustração atrás de mim, como um predador que perdeu a presa. Só então, agora que o encanto havia se quebrado, pude ver os corpos espalhados em vários estados de decomposição. Alguns eram esqueletos. Alguns ainda tinham carne, mas todos eram crianças. Pareciam ter entre cinco e quinze anos. Um corpo em particular me fez parar por um segundo. Não devia ter mais do que duas semanas, mas eu reconheci: era Emma. Saí correndo de novo e não olhei para trás.

Fugi para a cidade e a polícia me encontrou. Eles investigaram minha casa e o bosque. Encontraram o corpo da minha mãe na cama e o do meu pai rasgado e espalhado pela floresta, mas nunca acharam os corpos das crianças do parque de diversão. Declararam tudo homicídio seguido de suicídio. Disseram que meu pai perdeu a cabeça depois da briga, matou minha mãe e depois saiu para a mata e se matou, e que os animais selvagens dilaceraram o corpo dele. Fui enviado para morar com minha tia. Fiquei com ela até fazer 18 anos e então me mudei o mais longe possível de Oregon. Não quero voltar.

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Três folhas, dois galhos, um bico

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Isso foi a primeira coisa que o Jeremy me disse. Eu estava cuidando dos meninos há três dias, enquanto os pais deles estavam fora. E, até aquele momento, ele não tinha falado uma única palavra. Não comigo, não com os irmãos, nem para responder perguntas simples.

Os outros dois disseram que ele era só tímido. Disseram que ele sempre foi assim: doce, educado, quieto perto de gente nova.

Mesmo assim, três dias inteiros de silêncio pareciam mais do que timidez.

Eram três irmãos, cada um com cerca de três anos de diferença. Josh era o mais velho, depois o Jonathan, e o Jeremy era o caçula. Tinha oito, quase nove anos.

Os primeiros dias foram fáceis demais, quase estranhamente fáceis. Sem brigas, sem reclamações, sem bagunças que eu não conseguisse lidar. Eles brincavam juntos, faziam o dever sem que eu mandasse duas vezes e comiam tudo o que eu colocava no prato. À noite, iam para a cama sem brigar.

Dava uma sensação errada que eu não soube explicar. Cuidar de crianças nunca tinha sido tão tranquilo antes.

Naquela noite eu estava na cozinha, limpando depois do jantar, quando percebi que o Jeremy estava parado na porta. Eu não o ouvi entrar. Ele simplesmente estava ali, me observando.

Quando me virei, ele não desviou o olhar. Não piscou. As mãos pendiam ao lado do corpo. Por um momento tive a estranha sensação de que ele já estava parado ali há um tempo, esperando que eu notasse.

Comecei a falar alguma coisa, mas ele falou antes que eu pudesse.

— Você já jogou Três Folhas, Dois Galhos, Um Bico?

A voz dele era baixa e cuidadosa, como se ele escolhesse cada palavra antes de deixá‑la sair.

Soltei uma risadinha nervosa. Não era o que eu esperava que fossem as primeiras palavras dele.

— Não, nunca ouvi falar. É divertido?

O rosto dele mudou num instante. Sorria largo e de repente, como se tivesse esperado exatamente por aquela resposta.

— Sim — disse ele. — Eu adoro esse jogo.

Ele parecia tão feliz que tive que perguntar.

— Como se joga? — perguntei.

— A gente tem que ir la fora primero — ele disse. — Aí eu te digo as regras.

Olhei pro relógio. Já era tarde e os irmãos dele estavam no andar de cima se preparando pra dormir.

— Já é muito tarde pra sair — eu disse. — Você precisa ir pra cama.

Por um instante ele não reagiu. Ficou ali, me encarando com o mesmo sorriso pequeno.

— Por favor.

Ele não aumentou a voz. Não choramingou. Só repetiu, cada vez mais baixinho.

— Por favor, 

por favor, 

por favor.

Cada palavra soava mais frágil que a anterior, como se estivesse sendo arrancada dele. Hesitei.

Eu devia ter dito não, mas havia algo nele, naquele jeito de ficar parado depois de dias de silêncio, que tornou difícil recusar.

— É rápido? — perguntei. 

— Sim — ele respondeu na hora.

Respirei aliviada.

— Tudo bem. Mas depois disso você vai direto pra cama.

Ele assentiu uma vez, firme, e saiu correndo.

Fui atrás pelo corredor, chamando pra ele ir devagar, pelo menos calçar sapatos, mas não me ouviu. Quando cheguei à porta dos fundos, ele já estava lá fora, descalço, parado no meio do quintal, imóvel.

A luz da varanda piscou quando eu saí atrás dele, e uma estranha quietude pairou sobre tudo.

Não havia vento, nem insetos, nada além do som da minha respiração por alguns segundos. Nenhum de nós se moveu. Ele não parecia impaciente. Não repetiu nada. Só esperou, como se o jogo já tivesse começado e eu fosse a que o atrasava.

— Você disse que ia explicar as regras — eu disse, tentando manter leveza.

Ele assentiu.

— Você tem que achar três folhas — ele disse. — Têm que ser diferentes.

Olhei para o chão. Havia folhas por toda parte. Aquilo parecia fácil.

— E dois galhos — continuou. — Mas você não pode quebrá‑los. Têm que já estar no chão.

— Faz sentido — eu falei. — Mais alguma coisa?

Ele pausou, adicionando um tom mais claro. — Cada vez que você pegar algo, tem que dizer em voz alta o que está segurando.

Esperei que ele explicasse por quê, mas ele não explicou. Ficou apenas olhando para mim, como se aquilo fosse suficiente.

— E o bico? — perguntei.

— Esse você pega por último — ele disse, na beira do quintal.

Ele apontou para o fundo do quintal, onde a grama dava lugar a terra e mato baixo antes de abrir para as árvores.

— Vai ter mesmo um bico ali? — eu perguntei. 

— Vai. 

— De quê?

— Os caçadores deixam eles.

A resposta veio rápido demais, como algo memorizado.

Quase questionei, mas havia no jeito de dizer que qualquer pergunta parecia inútil.

— Tudo bem — eu disse. — Eu vou primeiro.

Ele assentiu.

Afastei‑me e procurei uma folha que parecesse diferente das demais. Agachei, peguei e me levantei, girando a folha entre os dedos.

— Uma folha — disse.

Jeremy assentiu, observando minhas mãos com os olhos fixos.

Afastei‑me um pouco e achei outra, mais larga e escura, com as bordas enroladas. Peguei e juntei à primeira.

— Duas folhas.

Ele assentiu de novo, quieto.

Quando cheguei à terceira, já estava consciente de como aquilo soava estranho: ficar no quintal falando alto, repetindo palavras que pareciam não importar.

Mas eu não conseguia parar. Parecia importante para ele.

— Três folhas.

O pequeno aceno foi o mesmo. Ele não desviava o olhar; acompanhava minhas mãos como se ouvisse algo preciso e, ao mesmo tempo, visse se eu fazia direito.

— Agora os galhos — ele disse.

Fiquei olhando uma das árvores e vi um galho fino e seco perto da base. Parecia estar lá há um tempo. Peguei sem pensar.

— Um galho — falei. Jeremy inclinou a cabeça.

— Tudo junto — disse ele.

Franzi a testa, ajustando a pegada.

— Tudo junto? — ele assentiu.

Respirei e me corrigi com um sorriso forçado.

— Três folhas, um galho.

Isso pareceu satisfatório.

Andei alguns passos e achei outro galho, menor, meio escondido na grama. Peguei e falei um pouco mais rápido.

— Três folhas, dois galhos.

Ele assentiu novamente, mais devagar agora, como se confirmasse algo pra si mesmo antes de pra mim.

Por um momento ficamos em silêncio. A quietude do quintal parecia pesar mais.

Ele olhou para a floresta

— Agora o bico — disse.

Segui o olhar dele. A borda do quintal deixou de ser uma linha clara; era só um lugar onde as coisas ficavam menos nítidas.

— Você tá dizendo que vai ter um bico ali largado? — perguntei. 

— Vai.

Hesitei, então olhei pra ele.

— Vem comigo.

Ele balançou a cabeça. — Você tem que pegar.

— Como assim? A gente não pode ir junto?

— Estou observando.

Não pareceu uma resposta, mas ele não disse mais nada. Balancei as folhas e os galhos nas mãos e fui em direção à mata.

O chão mudou enquanto eu andava: a grama foi rareando para manchas de terra e raízes irregulares. O ar ali parecia mais pesado, como se o calor da casa não alcançasse aquele ponto.

Havia silêncio. Não absoluto, mas suficiente pra perceber o que faltava. Nenhum inseto, nenhum movimento nas árvores. Só aquela mesma quietude apertando ao redor.

Desacelerei ao alcançar a primeira linha de árvores.

E então vi.

Estava no chão, alguns passos à minha frente. Pequeno, pálido — um bico.

Parei e olhei, tentando entender aquilo. Não havia penas em volta, nem sangue, nada que sugerisse o que teria acontecido. Parecia limpo demais, quase intacto.

Olhei ao redor esperando achar alguma coisa: um corpo, ossos, qualquer coisa.

Não havia nada. Só o bico.

— Jeremy — chamei, sem tirar os olhos dele. — Tem mesmo um aqui.

— Eu disse — ele falou.

A voz estava mais perto do que eu esperava. Virei levemente e o vi alguns passos atrás. Eu não ouvi ele se aproximar.

Abaixei‑me e peguei o bico. Era mais leve do que imaginava, liso e inteiro, não quebrado nem rasgado — apenas separado.

Por um momento fiquei só segurando aquilo.

Então me lembrei.

— Três folhas, dois galhos, um bico — falei.

Minha voz soou mais alta do que devia.

Comecei a me erguer, virando levemente em direção ao quintal.

— Pronto, está tudo — disse. — Diga de novo.

Congelei.

A voz do Jeremy estava agora bem atrás de mim.

Virei. Ele estava mais perto, parado, olhando não para mim, mas para o que eu segurava.

— Tudo junto — disse ele.

Engoli seco.

— Três folhas — falei. — Dois galhos, um bico.

Ele assentiu um pouco, mas algo na expressão não mudou.

– denovo.

— Por quê?

— Tem que falar três vezes — respondeu ele. A voz estava plana. A empolgação de antes havia sumido.

Olhei de novo para o bico na minha mão, depois para ele.

— Três folhas, dois galhos, um bico — disse baixinho.

Ele sorriu de novo, de repente, tão brilhante quanto antes.

— Perfeito. Agora uma última coisa.

Ele correu de volta pro meio do quintal, parando no lugar onde estava antes.

— Coloque tudo aqui — disse ele, quase pulando no lugar.

Voltei, me ajoelhei e depositei as coisas onde ele apontou.

Ele imediatamente se agachou ao meu lado, mexendo com rapidez e precisão surpreendentes, arrumando os itens como se seguisse um padrão conhecido. Colocou os dois galhos primeiro, um deitado e o outro encostado em ângulo. Em seguida colocou o bico numa das pontas e alinhou as folhas ao longo dos galhos, espaçando‑as com cuidado, como se já soubesse exatamente onde cada peça devia ficar.

Fiquei observando por um segundo, tentando entender.

— O que é isso? — perguntei.

Ele não levantou o rosto. — Um corvo — disse.

Franzi a testa.

— Como você sabe o que é um corvo? Não tem corvos por aqui. O gato espantou eles anos atrás.

Ele ajeitou uma das folhas e finalmente olhou pra mim.

— Isso é só uma história — disse. Por um segundo sorriu de novo, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Eles ainda estão aqui.

Ele olhou além de mim, em direção à mata escura. — Os corvos estão nos observando.

Na hora achei que era só pra me assustar. Aquelas coisas que criança fala pra parecer que sabe mais do que sabe.

Quase mandei ele parar, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa algo se mexeu.

Era pequeno, tão pequeno que eu poderia ter deixado passar se não estivesse olhando direto praquilo.

Uma das folhas se movimentou. Não do jeito de algo que cai ou desliza, mas mais devagar, deliberado. Levantou‑se um pouco, só o suficiente pra romper a forma, e depois se acomodou de novo.

Congelei.

Não havia vento. Eu sentia isso claramente. O ar estava completamente imóvel, pesado do jeito que fica à noite quando nada mais se move. Quando até as árvores parecem prender a respiração. Continuei olhando, esperando que acontecesse de novo.

Não aconteceu.

Por alguns segundos tudo ficou exatamente igual. Folhas, galhos, bico. Só um monte de coisas arrumadas no chão.

Entretanto olhei pro Jeremy. Ele não estava me olhando. Nem olhava para o chão à frente. O olhar estava fixo além dele, sobre a própria forma, como se esperasse que algo acontecesse.

— Você viu? — perguntei.

Ele não respondeu. Só sorriu. Não do mesmo jeito de antes; não empolgado, não impaciente. Mais contido, como se aquela parte fosse mais importante do que tudo o que já havíamos feito.

Olhei de novo. Por um momento nada mudou. Então um dos galhos se moveu.

Foi só um leve ajuste, só o suficiente pra mudar o ângulo. Mas foi o bastante. A forma deixou de parecer algo que havíamos montado. Começou a parecer algo sustentando a si mesmo.

Foi quando me afastei.

Falei que era suficiente, que o jogo tinha acabado, que era tarde demais e que entraríamos. Desta vez ele não discutiu. Assentiu como se já soubesse que iria acontecer assim.

Não olhei mais pra aquilo. Fechei a porta, tranquei e garanti que ele subisse.

Estou escrevendo isso agora, talvez uma hora depois, e continuo tentando convencer a mim mesma de que não foi nada.

Procurei uma explicação simples para o que vi, mas não voltei lá fora pra ver, e não acho que vou voltar.

Algo está fazendo barulho do lado de fora. Uma bicada lenta e deliberada. Não na porta, não nas paredes.

4

Não dormi. Fiquei no meu quarto com a porta trancada, ouvindo. O som não parou. Aparecia e sumia, nunca por tempo suficiente pra eu me acostumar, nunca tempo suficiente pra eu esquecer que estava lá. Lento, deliberado.

Em algum momento a luz lá fora começou a mudar. A escuridão deu lugar a algo mais suave e percebi que amanhecia.

Desci ao ouvir as crianças. O Jeremy já estava sentado à mesa tomando café. Não me olhou. Não disse nada.

Fiquei parada por um momento antes de sentar do outro lado da mesa. Ele continuou comendo, em silêncio, como nos três dias anteriores.

Eu também não disse nada. Ficamos alguns minutos sem falar.

Quando terminou, levantou e subiu.

Não me olhou ao passar.

Esperei um pouco antes de me mexer.

Mais tarde encontrei Josh e Jonathan arrumando as coisas. Fiquei à porta um segundo antes de falar.

— Ei — disse. Eles olharam pra mim. — O Jeremy já sai à noite?

— Às vezes — Josh respondeu. — Sim, — Jonathan acrescentou.

— Por quê?

balencei a cabeça.

— Não sei. Ele me perguntou uma coisa ontem.

— O quê?

Hesitei.

— Um jogo — disse. — Algo com folhas e galhos.

Ficaram em silêncio um segundo. Então Josh acrescentou: — Ah, aquilo. — Jonathan disse: — Ele joga às vezes. — “Às vezes” repeti. — De vez em quando — Josh disse. — Só à noite — Jonathan disse.

Assenti.

— Ele sempre pede pra alguém jogar com ele?

— Sim — disse Josh. — Ele não faz sozinho.

— Como assim?

— Ele não pega nada — Jonathan disse. — Ele só diz o que você tem que fazer.

— E aí no final ele ajeita — completou Josh.

Diziam como se não fosse importante, como se fosse só algo que ele fazia.

— Eu pego as coisas? — perguntei. As folhas, os galhos?

— Tá tudo lá — disse Jonathan. — Não precisa pegar nada.

Hesitei.

— Vocês sabem onde ele aprendeu isso?

— Algum garoto mostrou — Jonathan disse. — Que garoto? Não sei.

Houve uma pausa curta.

— Acho que foi alguém da escola — disse Josh. Jonathan sacudiu a cabeça. — Não, não foi.

Eles não falaram mais nada. Eu não perguntei também.

Saí pro quintal depois disso.

Estava igual ao dia anterior. Grama, terra, a borda da mata.

Fui até o lugar onde Jeremy tinha arrumado tudo.

Não havia nada. Nem folhas, nem galhos, nem bico.

Fiquei ali olhando o chão, esperando achar algo que tivesse passado despercebido.

Não havia nada sequer pra ver.

Caminhei ao redor, conferi de ângulos diferentes como se isso pudesse fazer algo aparecer.

Não apareceu.

Tentei lembrar exatamente como era, onde cada coisa havia ficado, como eu estava parada. Tinha certeza de que sabia. Mas quanto mais eu tentava, menos nítido ficava, como algo que eu já revira tantas vezes que se desgastou.

Fiquei ali mais tempo do que pretendia. Acabei desistindo.

A imagem não sumiu completamente. Mesmo quando não pensava nela diretamente, ela continuava lá. Aquele mesmo ponto no quintal, aquela forma que eu não conseguia recompor direito.

Cada vez que eu chegava perto, algo não se alinhava. Pequeno, mas perceptível.

Sentei dentro de casa e tentei de novo. Desta vez devagar. Só os galhos primeiro. Eu via um contra o chão, o outro levemente elevado. Essa parte parecia certa.

Depois as folhas. Eu sabia que eram três. Tentei colocá‑las na cabeça, mas não funcionou. Mexi nelas mentalmente, testei posições diferentes.

Nada parecia correto.

Fiquei assim mais tempo do que devia, revendo tudo repetidas vezes, tentando acertar.

Depois de um tempo ficou mais difícil focar. Não de repente, mas uma pressão lenta atrás dos olhos. Inclinei‑me pra trás e fechei os olhos um instante, mas a imagem não sumiu. Sequer clareou — estava mais nítida ali.

Os galhos, o espaço vazio onde as folhas deveriam estar.

Foi aí que notei o som. Fraco no começo, fácil de ignorar. Abri os olhos. A casa estava quieta. Fiquei imóvel, escutando.

Mexi na cadeira e tentei deixar pra lá.

Então veio de novo. Um toque suave.

Olhei ao redor tentando localizar. Não vinha das paredes. Nem do chão.

Virei a cabeça devagar. Nada.

Pressionei os dedos levemente na têmpora sem pensar. A pressão ali mudou. Mantive os dedos alguns segundos.

Aconteceu de novo. Um toque debaixo dos meus dedos.

Puxei a mão. A sala voltou ao silêncio.

Fiquei um tempo tentando achar uma razão.

Falta de sono. Tinha que ser aquilo.

Levantei, andei, escutei de novo, sentei.

O som voltou.

Dessa vez não parou em um só toque. Toque, pausa, toque — uma pausa maior — e de novo. Lento, uniforme.

Fiquei imóvel, ouvindo, tentando seguir sem pensar.

Com o tempo a coisa ficou familiar. Não o som em si, mas o espaçamento, as pausas entre cada um, como se houvesse um padrão.

Fechei os olhos outra vez, não de propósito, só pra me concentrar.

Toque, pausa, toque — pausa maior. De novo.

Fiquei ali, contando sem querer, tentando igualar a algo.

Em certo momento percebi que já tinha ouvido aquilo antes. Não exatamente igual, mas perto o suficiente.

Abri os olhos por um segundo e não consegui lembrar de onde. Aí caiu a ficha: do jeito que ele me fez falar em voz alta. Cada parte separada, cada uma espaçada.

Eu não me movi. Não disse nada em voz alta. Não mexi os lábios, mas já estava lá na minha cabeça.

Três folhas, pausa. 

Dois galhos, pausa maior. 

Um bico.

Tentei parar. Não falei. Não pronunciei, mas a frase continuou repetindo, coordenada com o som. Toque. Pausa. Toque.

Ainda está acontecendo. Não parou. Não sei se vai parar. Não sei se eu fiz algo errado ou se isso faz parte do jogo.

Fico pensando no que o Jonathan disse: que ele não pega nada, que ele só manda você fazer e no fim ajeita tudo.

Não sei o que isso significa.

Não sei se acabou ou se falta alguma coisa.

Não voltei lá fora.

Nem quero.

Acho que não deveria.

O som às vezes muda. Não fica mais rápido, nem mais alto, só parece mais perto — como se não precisasse mais viajar tanto. Não sei explicar de outro jeito.

Fico pensando naquela pergunta que ele me fez — a primeira coisa que ele disse. Antes eu não achava que importava. Agora soa diferente.

Então, acho que vou perguntar também.

Você já jogou Três Folhas, Dois Galhos, Um Bico?

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