A garota dos sonhos

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Meu primeiro encontro foi em um cemitério.

Ela tinha uma maquiagem nos olhos que me fazia derreter por dentro. Seus olhos, por si só, eram o verde esmeralda mais incrível que eu já vira. Eu estava louco por ela.

Ela caminhava alguns passos à minha frente, arrastando os dedos sobre o topo das lápides. Era tarde em uma noite de verão, e o céu começava a ficar vermelho.

— Parece que o céu está em chamas — eu disse.

A frase tinha soado impressionante na minha cabeça, quando pensei nela um momento antes.

Ela olhou para trás e sorriu. – Esquece o céu, coração está em chamas.

Eu nunca tinha tido uma namorada de verdade, e aquele era, sem dúvida, o melhor dia da minha vida.

Eu a tinha visto pela primeira vez alguns meses antes, quando ela começou na minha escola. Ela não era como as outras garotas. Usava o que parecia ser um vestido de brechó, esvoaçando sobre botas pesadas. Seu cabelo longo e preto estava emaranhado, com pedaços de fitas rasgadas e miçangas coloridas amarradas nele.

Naquele primeiro dia, em particular, ela estava recebendo muitos olhares rudes. Eu a observava de boca aberta enquanto meu pulso disparava. Fiquei imediatamente fisgado.

Passei praticamente todas as minhas horas acordado depois disso pensando nela. Muitos devaneios estavam envolvidos. Eu entraria em cena quando ela estivesse sofrendo bullying por ser diferente, e ela me diria que éramos almas gêmeas, então me beijaria.

Ela estaria sentada sozinha na cantina, como sempre, e parecendo triste. Eu me sentaria ao lado dela e diria algo engraçado. Então ela me beijaria. Beijos faziam várias aparições.

Quando eu não estava fantasiando, eu estava ensaiando frases de abertura. Eu as praticava. Mais de uma vez, comecei a caminhar em direção a ela, dizendo a mim mesmo que era agora que eu ia falar com ela. Eu ficava com muito medo todas as vezes e continuava amando à distância.

Então, ela tocou meu ombro.

Era depois do almoço e eu estava guardando um livro no meu armário, sem perceber que era ela. Eu me virei e ela estava ali, bem… à distância de um beijo.

— Oi — ela disse.

Tentei responder algo, mas parecia ter perdido a fala. Felizmente, ela continuou falando.

— Então, eu te vi por aí e tenho a sensação de que você quer falar comigo, mas algo está te segurando. É que… eu acredito que a vida é para ser vivida ao máximo, sabe? Aproveitar o momento e tudo mais. Então, se há algo que você queira me dizer…

Ela deixou a pergunta no ar, e eu soube que tinha uma decisão de vida a tomar naquele momento.

A) Eu poderia ficar ali, mudo, até ela ir embora e então me ignorar pelo resto da vida.

B) Eu poderia desmaiar.

Ou C) Eu poderia dizer algo.

De alguma forma, optei pela opção C e disparei, em velocidade:

— Eu acho você linda e… você quer sair comigo?

Ofeguei em busca de ar.

Ela estava me olhando, mas não respondia, e eu soube que tinha estragado tudo e pagado um mico completo. A opção B parecia ser meu próximo curso de ação.

Só que ela riu e disse:

— Podemos sair depois da escola, se quiser. E se quiser chamar de encontro, por mim tudo bem.

Eu devo ter dito “claro” em algum momento depois disso. Então trocamos números.

Passei o resto da tarde, até o fim da escola, em um completo torpor. Quando ela apareceu no lugar que tínhamos combinado de nos encontrar – depois de eu ter me convencido de que ela não viria –, decidi que era o garoto mais sortudo da Terra.

Recuperei parte do meu poder de fala.

— Então… hum… onde você gostaria de ir? Tem um filme novo com críticas excelentes ou talvez pudéssemos ir comer pizza ou… sabe, só ficar aqui.

— Todos parecem bons, exceto talvez o último — ela respondeu. — Mas tenho outra coisa em mente. Tudo bem pra você?

Eu definitivamente disse “claro” a essa altura e acompanhei o passo dela. Indo a um encontro, pensei, com a garota dos meus sonhos. Incrível.

Nós nos afastamos do centro da cidade, passando por alguns terrenos baldios. O esqueleto enferrujado de uma bicicleta jazia no meio da calçada. Não havia mais ninguém por perto. Apenas nós dois.

Em pouco tempo, chegamos a um par de portões de ferro forjado em um alto muro de pedra que não pareceria diferente de uma sketch de terror da TV. Um feito com um orçamento muito limitado.

Uma placa pendurada torta nos portões. Dizia: “PROIBIDA A ENTRADA”.

Eu não era do tipo rebelde. Nunca tinha sido. Sempre fiz o que me diziam até então. Ela era diferente.

Ela abriu os portões e passou. Engolindo em seco, eu a segui. Nenhuma placa me teria parado agora, a não ser talvez uma dizendo “campo minado”, mas eu duvidava seriamente que houvesse algo assim na minha cidade.

Eu me encontrei no que parecia ser outro mundo. Havia ervas daninhas por toda parte. Elas pendiam sobre o caminho em que eu estava, subiam pelas laterais dos muros de pedra e cresciam emaranhadas e selvagens ao redor de dezenas de túmulos.

A lápide mais próxima de mim estava desbotada pela idade. Eu mal conseguia distinguir o ano: 1805. E o início do que parecia um nome, mas o resto estava muito desgastado para ler.

Ela estava logo à minha frente, passando os dedos sobre as lápides. Foi então que eu disse a coisa sobre o céu estar em chamas. E ela olhou para trás e sorriu.

E eu soube, sem dúvida, que aquele era o melhor dia da minha vida. E continuava melhorando.

Ela girou em um círculo, os braços estendidos, e disse:

— Este é o meu lugar favorito. Eu me sinto tão viva aqui .

Então ela estendeu uma mão. Eu a peguei, esperando que ela não percebesse que eu havia começado a tremer.

Ela estava olhando para o chão, porém. Segui o olhar dela. Havia um pequeno cadáver aninhado entre as ervas daninhas. Era um pássaro, e estava em decomposição. Pequenos vermes brancos se contorciam em sua carne podre.

Senti um pouco de enjoo. Eu estava prestes a dizer isso quando notei com que intensidade ela olhava para o pássaro morto. Ela parecia cativada.

— Há beleza em toda parte, se você abrir seu coração — ela disse.

Então se virou para me olhar. Minha cabeça estava girando. Eu não tinha ideia do que fazer, apenas fiquei ali, e ela se inclinou na minha direção, e os lábios dela tocaram os meus.

E aquele foi o melhor momento no melhor dia da minha vida.

Depois que ela me beijou, disse que estava ficando tarde e que deveríamos encerrar a noite. Assenti atordoado e a segui de volta para fora do cemitério. Ofereci-me para acompanhá-la até em casa, mas ela disse que estava bem e foi embora, virando-se uma vez para acenar.

Eu praticamente flutuei para casa.

O dia seguinte era sábado e acordei cedo. Segunda-feira era feriado, o que significava um fim de semana prolongado. O que já teria sido ótimo de qualquer forma, mesmo que minha vida não tivesse sido transformada. Eu estava absolutamente radiante ao enviar uma mensagem para ela:

“Oi, linda. Que horas e onde você quer que a gente se encontre para o nosso segundo encontro?”

Adicionei cinco beijos, achei que era demais e os deletei. Adicionei um beijo, que não pareceu suficiente, então deletei e apertei “enviar” e esperei por uma resposta.

Ela não me respondeu de imediato, o que era normal. Ela provavelmente ainda estava dormindo, pensei. Então tomei um banho, um bem rápido, pois não queria deixá-la esperando pela minha resposta à resposta dela.

Ainda pingando porque não tinha me secado, verifiquei meu telefone. Nada.

Sentei na minha cama, imaginando se eu deveria ter deixado os beijos. Ou enviado uma mensagem completamente diferente. Eu estava relendo e desejando ter feito isso quando uma resposta chegou:

“Desculpe, não posso. Ocupada hoje.”

Nenhum beijo. Quatro palavras.

Resultado? Devastação.

Eu não entendia. O que havia acontecido tinha sido tão especial, e era como se ela não se importasse. Eu queria ligar para ela, para perguntar o que estava errado, para dizer a ela que queria vê-la. Mas se eu fizesse isso, a afastaria? Eu precisava agir com calma?

Eu não tinha ideia. No final, apenas enviei um “curtir” e passei o resto da manhã me sentindo patético e triste.

Meus pais estavam fora para o feriado prolongado, visitando uma tia, e só voltariam na noite de segunda-feira. Eu estava livre para ficar deprimido pela casa de camiseta e shorts, e não havia ninguém por perto para se importar.

Na hora do almoço, decidi que não aguentava mais ficar em casa. Eu tinha que fazer alguma coisa ou enlouqueceria. Parti caminhando para o cemitério. Era o único lugar que eu conhecia onde ela poderia estar.

O sol estava alto no céu e impiedoso, e quando cheguei lá, estava suando bastante. Cheirei rapidamente minhas axilas. Não era bom, e considerei voltar. Não apenas porque eu cheirava tão mal, mas porque eu não tinha ideia do que diria a ela se ela estivesse lá. “Oi, eu só estava dando uma volta, não esperava te ver aqui.”

Não, não podia dizer isso.

Talvez eu pudesse ser honesto: “Estou perdidamente apaixonado por você e precisava te ver.” Ah, isso era pior. O que eu deveria fazer?

Uma coisa era certa: se eu voltasse para casa, não havia chance de vê-la. Mas se eu entrasse no cemitério, havia uma remota chance de que eu a visse, e talvez ela ficasse feliz em me ver. Talvez nós conversássemos. Talvez nos beijássemos.

Respirei fundo e empurrei o portão. As placas de “Proibida a Entrada” não significavam nada para mim.

As lápides elevavam-se acima das ervas daninhas. Comecei a me perguntar sobre os mortos cuja presença elas marcavam. Teriam sido mães, pais, irmãos, irmãs e filhos. Teriam sido amados e lamentados. Mas, assim como as inscrições haviam desbotado, as memórias dos ali enterrados também haviam desaparecido?

Sentindo-me muito para baixo, passei túmulo após túmulo. Não tínhamos ido tão longe no cemitério no dia anterior, e os túmulos começaram a parecer ainda mais antigos. Algumas lápides estavam rachadas, outras jaziam planas na terra. Parte de mim queria deitar entre elas e nunca mais me mover.

E então eu a vi.

Foi apenas um vislumbre antes de perdê-la de vista atrás de uma estrutura de pedra ornamentada. Corri atrás dela, meu coração batendo forte no peito, e todo o resto esquecido. Ela estava ali. Eu ia vê-la.

Cheguei ao outro lado da estrutura. Era um elaborado local de descanso para uma pessoa morta. Lutei para me lembrar do nome. Mausoléu. Eu não tinha certeza, mas era seriamente assustador. Suas paredes estavam escurecidas pelo tempo, e uma gárgula empoleirada sobre a porta. Duas grandes lápides pesadas e quebradas estavam apoiadas contra a parede ao lado da porta.

Mas não havia sinal dela. A menos que…

Eu me aproximei da porta. Estava aberta, só um pouquinho. Olhei ao redor. Havia apenas um lugar para onde ela poderia ter ido.

Cerrei os dentes e me espremi pela fresta na porta. Feixes de luz caindo por frestas estreitas na pedra significavam que eu não estava completamente cego enquanto avançava por uma passagem estreita. Havia um arco baixo sobre uma abertura.

Passei por ele e entrei na câmara dela. Onde meu mundo desabou.

Ela estava lá. E ela não estava sozinha.

Ela estava sentada em um caixão de pedra, a cabeça apoiada em alguém que tinha cabelos longos e castanhos emaranhados. Ambos estavam de costas para mim e tinham um cobertor jogado sobre eles.

Meu coração estava se partindo. Eu me senti tão estúpido, tão ingênuo. Ela estava com um amante, o verdadeiro amante dela. Não eu, não um garoto idiota.

E agora ela se virava para o amante, passando os dedos pelo cabelo dele. E agora afastando o cabelo e se inclinando para beijá-lo.

O suor que cobria meu corpo virou gelo.

Eu pude ver o rosto do amante dela. As maçãs do rosto, o maxilar, os dentes expostos. Era um crânio.

Ela pressionou os lábios contra o osso e beijou. Um beijo longo e apaixonado.

Comecei a tremer por completo. Finalmente, ela desfez o beijo, então sussurrou algo para o rosto de ossos e sorriu.

Então ela se levantou e se virou. E me viu.

A surpresa cintilou no rosto dela. Então ela pareceu recuperar a compostura e sorriu para mim novamente.

— Oi — ela disse. — Que bom te ver.

Ela falava como se tivéssemos nos encontrado por acaso no shopping, não em uma tumba onde ela acabara de beijar um esqueleto.

— O… o que você está fazendo? — consegui dizer. — Com… com aquilo?

Eu apontei para o esqueleto, minha mão tremendo incontrolavelmente.

— Com essa coisa que você tirou do caixão.

Ela pareceu confusa com isso, mas apenas por um momento. E então ela riu.

— Não seja idiota — ela disse. — Eu não o encontrei em um caixão. Eu o conheci na minha antiga escola. Começamos a namorar e o cemitério era nosso lugar favorito para nos encontrarmos, especialmente aqui dentro, onde era tão privado. Era nosso lugar, e foi aqui que ele me disse que queria ficar comigo para sempre. Eu disse a ele que havia uma maneira de isso acontecer, se ele realmente me amasse.

— Ele nunca mais saiu daqui depois disso, e cada vez que eu o visitava, ele estava um pouco mais decomposto. E era lindo. Era meu segredo especial. E agora, tudo o que resta dele… são seus ossos. Mas não fique chateado. Eu estava beijando-o por causa dos velhos tempos. Eu disse a ele que acabou entre nós, porque eu conheci alguém novo. Você.

Enquanto ela dizia isso, ela se moveu na minha direção. Então me abraçou e disse:

— E agora você pode ser meu amante especial. Quando a pele do seu corpo escurecer e morrer, e os insetos começarem a se alimentar da sua carne doce em decomposição… eu voltarei quando você estiver morto e abraçarei seu cadáver apodrecido.

Ela beijou a ponta de um dos dedos e o colocou gentilmente contra meus lábios.

Então, ela saiu.

Ouvi a pedra se movendo, mas só conseguia ficar ali, horrorizado. Não sei quanto tempo passou antes que eu conseguisse me livrar do choque. Eu precisava sair dali.

Ainda me sentindo muito trêmulo e enjoado até a alma, refiz meus passos até a porta. Não havia fresta.

Xinguei. Ela devia tê-la arrastado para fechar.

Tentei arrastar meus dedos entre a porta e a parede e afastá-la, mas era inútil. Então comecei a empurrar com todo o meu peso contra ela. Novamente, não se moveu.

Lembrei-me das lápides quebradas que estavam apoiadas contra a parede externa. Será que ela as moveu contra a porta para me barricar lá dentro?

Enquanto eu considerava isso, um pensamento aterrorizante escorreu pela minha mente. Eu estava preso.

Meu peito começou a doer e eu sentia que não conseguia respirar. Tentei engolir, tentei desesperadamente respirar. Mas parecia que minha garganta estava se constringindo. Eu estava sufocando.

Disse a mim mesmo que isso era coisa da minha cabeça, que era porque eu estava em pânico. Consegui inspirar um pouco de ar gelado. “Esse é o truque”, disse a mim mesmo. Eu precisava manter a calma e pensar direito.

E então me lembrei do meu telefone. Claro!

Eu o peguei e senti um enjoo quando vi que não tinha sinal. Então, esquece isso.

Ainda assim, tinha que haver outra saída dali. Era sábado à tarde. As pessoas estariam em seus jardins, fazendo churrascos. Estariam fazendo compras, saindo.

Comecei a gritar por ajuda.

Andei pelo espaço confinado, gritando a plenos pulmões repetidamente. Com certeza alguém me ouviria. Continuei gritando por muito tempo e nada aconteceu, a não ser meu ânimo afundando ainda mais, enquanto pensava em como eu não tinha visto uma única outra pessoa no cemitério ou em seus arredores nas duas vezes em que estive ali.

O que significava que eu estava em uma zona proibida. Eu estava completamente sozinho e ninguém viria me resgatar, não importa o quanto eu gritasse.

Até meus pais voltarem na noite de segunda-feira, ninguém sequer perceberia que eu estava desaparecido. E na pior enrascada da minha vida.

Percebendo isso, desabei em lágrimas. Deitei-me no chão de pedra fria da minha prisão e chorei incontrolavelmente. Depois de um tempo, me encolhi em uma bola e observei os feixes de luz que vinham pelas frestas na pedra diminuírem até que eu estivesse na escuridão total.

Em algum momento devo ter adormecido, porque quando abri os olhos, pude ver uma luz fraca vazando novamente. Sentei-me, sentindo, pela forma como doía, como se tivesse envelhecido 50 anos da noite para o dia.

Minha boca estava horrivelmente seca e eu precisava muito fazer xixi. Um pensamento aleatório me ocorreu sobre algo que eu lera em um livro didático sobre marinheiros antigos que, encalhados no mar, precisavam beber a própria urina para sobreviver.

“Nojento”, pensei. Não chegaria a esse ponto para mim. Eu só precisava de uma nova ideia e estaria livre a tempo para os pratos especiais de almoço do meu restaurante favorito. Eu ia pedir uma Coca-Cola extra grande, tão cheia de gelo que transbordaria pelas bordas. Então eu comeria três hambúrgueres seguidos, com tantos acompanhamentos que não conseguiria me mover por horas.

Eu não estava com muita fome até pensar nisso. Mas de repente, estava faminto. E ainda não conseguia pensar em uma única coisa para fazer que me tirasse dali.

Abracei os joelhos ao peito e me perguntei se eu deveria apenas esperar que meus pais voltassem e descobrissem que eu estava desaparecido. Eles ligariam para a polícia com certeza, e uma caçada humana seria lançada. Haveria helicópteros, cães policiais. A busca provavelmente estaria em todos os canais de notícias.

Eu seria uma celebridade depois de ser encontrado, com um reencontro emocionante e choroso diante das câmeras. Eu estaria em programas de entrevistas. Seria incrível.

Eu estava felizmente perdido em pensamentos sobre isso, quando senti uma dor aguda no tornozelo.

Olhei para baixo e vi um rato ao lado do meu pé. Tinha sangue nos dentes. Meu sangue, percebi com horror. Ele tinha me mordido. Xinguei e chutei o rato. Ele rosnou e manteve sua posição. Era grande, muito maior do que eu pensava que os ratos deveriam ser. Sua pelagem estava emaranhada e suja, e seus olhos eram de um rosa avermelhado nojento.

Eu estava convencido de que ele ia me atacar novamente, quando ele se virou e foi embora.

Eu estava prendendo a respiração sem perceber e ofeguei dolorosamente para recuperar o fôlego antes de levantar cuidadosamente a barra da minha calça jeans. Os dentes do rato tinham perfurado completamente, e uma linha de marcas de mordida brilhava com sangue fresco. Ardeu como o inferno.

Xinguei o rato, e seus pais, e o resto de sua família, e toda a espécie de ratos. Eu não podia acreditar que ele tinha me mordido. Eu estava claramente vivo e me movendo, e isso realmente não estava certo.

Novas lágrimas escorreram pelo meu rosto. Ser uma celebridade não valia aquilo.

Mas eu não via outra escolha a não ser esperar que minha mãe e meu pai chegassem.

Só que o tempo passou e eu não tinha ideia de que horas eram, além do fato de que ainda conseguia ver a luz vindo de fora. Comecei a pensar logicamente o que aconteceria quando meus pais chegassem em casa.

Seria tarde e eles provavelmente presumiriam que eu estava dormindo na cama. Na terça-feira de manhã, eles sairiam cedo para o trabalho, embora deixassem leite fresco para mim para o cereal e um bilhete dizendo o quanto sentiram minha falta. Meus pais eram pessoas legais, mas eram muito ocupados e distraídos. Eu sabia que eles tinham problemas de dinheiro porque os ouvira falando sobre isso.

Eu não era de forma alguma uma criança negligenciada; eu apenas tinha muito espaço. Isso sempre foi bom para mim, até agora. Porque isso significava que seria terça-feira à noite antes que eles tivessem qualquer ideia de que algo estava errado. Mesmo assim, eles poderiam pensar que eu estava fora.

Então seria terça-feira à noite antes que qualquer tipo de alarme fosse acionado. E então, quanto tempo levaria para a polícia fazer alguma coisa? Sem falar em soltar os cães e helicópteros.

Abaixe a cabeça entre os joelhos enquanto a terrível realidade da minha situação continuava a me atingir. Eu ficaria ali por muito tempo se estivesse esperando ser resgatado.

Meu estômago doía muito e eu estava com tanta sede. Eu tinha uma dor de cabeça latejante também. Tentei lembrar quanto tempo uma pessoa podia ficar sem comida. Parecia que eu me lembrava que era pelo menos uma semana antes que qualquer dano real fosse feito, mas eu não tinha ideia de onde tirei esse conhecimento.

Então isso talvez fosse possível.

E ficar sem líquidos? Eu tinha uma sensação horrível de que isso era uma questão de dois a três dias. E então seria o fim. Eu morreria.

Sozinho e aterrorizado em uma tumba.

Fechei os olhos e comecei a chorar novamente. Só que desta vez eu estava chorando como uma criança pequena, pedindo em voz alta para minha mamãe e meu papai virem me salvar.

Eu ainda estava fazendo isso quando ficou completamente escuro de novo. Eu passaria minha segunda noite como prisioneiro.

Não dormi nada. Eu continuava ouvindo o som de algo se movendo pelo chão ali perto. Eu não conseguia ver o que era, mas imaginei que sabia, e em intervalos regulares eu chutava e gritava para tentar assustar o rato. Eu não seria o lanche da meia-noite dele.

Quando a luz retornou, eu me arrastei para ficar de pé.

Eu estava tão envolvido em mim mesmo que nem tinha pensado na coisa com a qual estava compartilhando meu confinamento. O esqueleto ainda estava sentado no caixão. Ela deve tê-lo escorado, imaginei, para que pudesse se agarrar a ele.

Arrepiei-me.

Além de ter cabelos desalinhados, suas unhas eram muito longas. Outro fragmento do meu arquivo de conhecimento inútil veio à mente: que cabelo e unhas continuam a crescer após a morte. Há quanto tempo ele devia estar ali para toda a carne ter desaparecido e para o cabelo e as unhas terem crescido tanto? Tempo suficiente para isso contar como um relacionamento de longo prazo, eu acho.

E isso realmente me fez rir.

Uma vez que comecei a rir, não consegui parar. Acabei sentando ao lado do esqueleto, rindo tanto que meu lado doía.

Quando o riso finalmente diminuiu, limpei as lágrimas dos olhos e respirei fundo. Eu definitivamente tinha enlouquecido um pouco ali. E isso não tinha contribuído em nada para a minha fuga.

Virei-me para encarar o esqueleto e disse a ele:

— Acho que você é a única pessoa no mundo que sabe como me sinto neste momento.

Os olhos vazios do esqueleto fitavam uma distância que só eles podiam ver. Suspirei e cobri o rosto com as mãos. A morte estava vindo para mim, e uma vez que a morte tivesse feito o seu pior, ela voltaria para satisfazer seus desejos doentios com o que eu havia me tornado.

Se eu desistisse…

Eu gritei e bati o punho na tampa do caixão.

Não, eu não tinha terminado ainda. Eu faria qualquer coisa para sobreviver. Eu estava agora na zona de perigo. Era hora de beber urina. O problema era que, por mais que eu tentasse, não conseguia. Eu desisti.

O rato reapareceu enquanto eu estava tentando. Seu nariz feio tremia, esperando seu momento, eu acho, para quando começaria a me comer.

A menos que…

O rato não esperava que eu pulasse nele. Não me dei tempo para parar e pensar. Eu mordi e bebi seu sangue. Fiz o que tinha que fazer para viver.

Depois, tomado de autodepreciação, deitei-me no chão e fechei os olhos. Estava tão cansado que afundei em um sono profundo e vazio.

Até que algo rastejou para o meu sono. Um som.

Meus olhos se abriram num piscar. O resto de mim permaneceu imóvel. Eu estava exausto demais para me mover.

Então houve outro som. Passos.

Meu corpo inteiro enrijeceu e fechei os olhos. Eu não precisava ver para saber que ela estava de volta. Ela deve ter pensado que eu estava morto, que tempo suficiente havia passado. O que significava que o rato tinha salvado minha vida.

Minha mente disparou em pensamentos enquanto eu a ouvia se movendo pela câmara. Imaginei suas botas pesadas, seu vestido de brechó esvoaçante, seu cabelo longo e preto decorado com miçangas e fitas. A maquiagem ao redor de seus olhos verdes.

E eu ainda não me movi. Meu coração estava batendo muito rápido e eu me perguntei se ela podia ouvi-lo. Se ela sabia que eu ainda estava vivo.

Com certeza ela sabia.

Com certeza?

Se não, eu tinha minha chance de escapar. Eu poderia me fazer de morto assim, então surpreendê-la e fugir.

Senti ela tocar minha bochecha com os dedos. Ela os deslizou pela minha bochecha e para o meu pescoço, e então beijou meu pescoço. Um beijo demorado e apaixonado.

Então ela sussurrou:

— Eu posso esperar.

Ela sabia.

Era agora ou nunca. Abri os olhos. Os feixes da luz de um novo dia me encontraram. Tentei agarrá-la. Mas ela foi muito rápida e recuou contra a parede. Seus olhos estavam arregalados e ela sibilou para mim com uma raiva selvagem.

Não hesitei. Corri para a abertura sob o arco, em direção à porta. Atrás de mim, ela gritou. Mas eu não ia parar. Nem por ela, nem por nada.

Tropecei para fora na luz do dia. Minhas pernas pareciam que iriam desabar a qualquer momento, mas continuei correndo, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, e a memória do toque dela na minha pele queimada em mim.

Quando cheguei em casa, o leite estava sobre a mesa da cozinha, junto com um pequeno bilhete. Eu o li e chorei mais um pouco. Olhei para o relógio. Eu deveria estar na escola, mas tudo bem. Eu poderia dizer que acordei me sentindo mal, e meus pais acreditariam em mim quando eu precisasse que eles falassem com a escola por mim. Eu já estava começando a construir uma mentira.

O amor é a coisa mais estranha. É tão extremo. Cada momento é definido pelas ações da pessoa que você ama, e é agonia ou êxtase. E a parte mais louca de tudo isso, no que me diz respeito, é que depois que eu escapei da tumba, eu ainda a amava.

Não conseguia parar de pensar na maneira como ela me beijou enquanto eu estava imóvel no chão. Não conseguia parar de pensar na maneira como ela sorriu para mim quando eu disse a coisa sobre o céu estar em chamas.

Então, não contei a ninguém o que havia acontecido e menti onde precisei. E no dia seguinte, voltei para a escola como se nada tivesse acontecido. Passei horas e horas antes escrevendo mensagens para ela, como costumava escrever frases de abertura. Mas nunca enviei nenhuma porque nenhuma delas parecia certa. O que você diz para a garota que você ama, que te deixou para morrer preso em uma tumba para que ela possa voltar e se agarrar com seu cadáver em decomposição?

Da mesma forma, eu não tinha ideia do que diria a ela quando a visse na escola. Mas eu tinha que vê-la. Eu tinha que vê-la.

Só que ela não estava na escola naquele dia, nem no dia seguinte. E todas as noites eu acordava sufocando gritos porque, em sono profundo, eu havia sido preso novamente na tumba. E desta vez, ela estava lá, apenas fora de alcance.

Logo o fim de semana se aproximava, e com ele a perspectiva aterrorizante de que eu precisava retornar ao cemitério. Era a única coisa que eu conseguia pensar, o único lugar onde ela poderia estar.

Então, na tarde de sexta-feira, eu estava indo guardar um livro no meu armário, quando vi um bilhete colado na frente. Minha mão tremeu enquanto eu o descolei e comecei a ler:

“Sinto muito por ter te machucado. Você é um cara legal e um dia encontrará alguém que mereça você. Não tente me contatar. Eu fui embora.”

Não havia beijos. Mas havia um P.S.:

“Escondi as evidências.”

E essa foi a última vez que tive notícias dela. A garota dos meus sonhos. Que se tornou a garota dos meus pesadelos.

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Minha namorada ama a Kuromi

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Enquanto o Tyler caminhava pela mesma calçada rachada e torta que percorria todos os dias nos últimos dois anos, ele deu uma olhada rápida pela vitrine da mercearia do Mel, do outro lado da rua. Ele não costumava comprar lá, já que era um daqueles mercadinhos de família que não conseguiam competir com os preços dos grandes supermercados.

Mas, naquele dia, algo na vitrine chamou sua atenção.

Era um balão metalizado da Kuromi. Ele flutuava alto, preso a uma haste com um cordão de quase três metros, destacando-se entre uma dúzia de outros balões. Tyler já tinha passado por ali centenas de vezes na volta do trabalho, mas nunca tinha notado aquele design específico.

Sua namorada, Tammy, era obcecada pela personagem. Ela tinha uma coleção enorme de tudo que você pudesse imaginar da Kuromi, tudo guardado com cuidado em uma vitrine dentro do quarto.

“A Tammy vai amar isso”, pensou Tyler, atravessando a rua e entrando na loja para garantir o presente.

Ao chegar em casa, ele amarrou o balão na maçaneta interna da porta do guarda-roupa para entregar mais tarde. Deu uma olhada no grande espelho na parede ao lado do armário, fazendo uma vistoria rápida para garantir que estava apresentável. Muitas vezes ele chegava em casa e descobria, tarde demais, um pedaço enorme de comida preso entre os dentes da frente.

Dessa vez, nada de comida. O cabelo também estava em ordem, embora estivesse comprido o suficiente para tocar suas omoplatas. Ele sempre o mantinha preso em um coque apertado. Quando alguém perguntava, ele apenas dizia que era mais prático e confortável assim, o que a maioria das pessoas aceitava sem questionar.

Ele caminhou até o calendário na parede e circulou o dia 26 de novembro.

Não era por causa de promoções de internet, mas porque era o aniversário de 24 anos da Tammy. Ele vinha economizando há algum tempo, mas até agora só tinha conseguido comprar algumas bugigangas e aquele balão da Kuromi. O plano era gastar o grosso do dinheiro na Black Friday, em apenas dois dias. Ele tinha visto anúncios de TVs 4K em promoção e sabia que ela estava querendo uma.

A caminho da sua cadeira, ele pegou o celular e abriu a conversa com a namorada.

— Acabei de comprar uma surpresa para você, amor — ele digitou. — Eu ia esperar até o seu aniversário para entregar, mas acho que quero te dar hoje à noite. Te vejo daqui a pouco.

Ele enviou um emoji de piscadinha e dois corações. Sentou-se à mesa do computador e apertou o botão de ligar. Enquanto a máquina ganhava vida, ele deu um gole no refrigerante e abriu o Discord. Dois amigos, Dragon e Jesse, já estavam em uma chamada jogando CS:GO. Ele decidiu se juntar a eles na partida seguinte.

Depois de uma vitória apertada no mapa Dust2, o grupo começou a discutir o próximo passo.

— Estão a fim de outra? — perguntou Dragon. Esse não era o nome real dele, claro, mas Tyler e Jesse só o conheciam assim e respeitavam seu anonimato.

— Eu adoraria, cara, mas tenho que sair — disse Tyler, com um tom de relutância.

— Ah, qual é, mano! Você só jogou uma. Faz pelo menos mais uma com a gente — implorou Jesse.

— Eu queria muito, de verdade, mas minha namorada está para chegar a qualquer momento e eu preciso me arrumar. Mas amanhã eu tô livre, a gente joga sério, beleza?

— Peraí… você tem namorada? — Dragon questionou, surpreso.

— Tenho, por que a surpresa? — Tyler respondeu, meio brincando, meio ofendido.

— Não que você não consiga uma garota — Dragon tentou consertar —, mas é que eu nunca ouvi você falar dela.

— Olha, eu já conheci moleque demais na internet que acha que falar de namorada o tempo todo faz deles caras legais ou algo assim. Eu não queria parecer um deles, então guardei para mim, entende?

Houve um breve silêncio antes de Dragon responder:

— É, faz sentido. Bom, boa noite para vocês então. Amanhã a gente volta com tudo.

— Isso aí. Divirta-se com a sua garota hoje à noite — disse Jesse, soltando uma risadinha abafada. — E não esquece de usar proteção, hein, mano?

— Não se preocupa, Jesse. Tá tudo sob controle. Boa noite, pessoal.

Tyler saiu da chamada e desligou o monitor. Ele encarou seu próprio reflexo sombrio e embaçado na tela escura. Respirou fundo, puxando o ar calmamente e soltando-o devagar, sentindo um alívio percorrer o corpo.

Ele se levantou, puxou a cadeira do computador para a frente do espelho ao lado do guarda-roupa e sentou-se novamente. Analisou cada detalhe do seu rosto. Um leve franzir de lábios começou a surgir nos cantos de sua boca. Ele fechou os olhos com força, suspirou e levou as mãos à nuca.

Ele soltou o elástico que prendia seu cabelo. Mechas grossas e onduladas caíram sobre seus ombros enquanto o elástico batia no chão.

Tyler abriu os olhos e encarou o espelho novamente. O desconforto em seu rosto oscilou. Ele se inclinou para a direita e abriu a porta do guarda-roupa, trazendo o balão da Kuromi junto com a maçaneta. Ele pegou uma pequena caixa de metal trancada e a colocou no colo. Por um momento, ficou apenas observando-a, limpando a poeira do canto superior com os dedos.

Usando uma pequena chave que mantinha no seu chaveiro, ele abriu a caixa com um clique metálico. Olhando de volta para o reflexo, ele tirou um tubo fino de batom vermelho vivo. Aplicou generosamente nos lábios. Depois de esfregá-los um no outro e dar leves batidinhas para assentar a cor, a expressão triste começou a se transformar em um sorriso de canto.

Ele guardou o batom e tirou um lápis de olho. Aplicou o traçado e admirou sua beleza.

Ela então pegou o terceiro e último item da caixa: um celular. Um modelo pré-pago barato, desses que se compra em qualquer farmácia ou mercado. Segurou o botão de ligar por um momento e o deixou de lado enquanto conferia se não havia borrões na maquiagem. Estava perfeita. Estava linda para o seu encontro com Tyler.

A essa altura, o sorriso tímido já era um sorriso aberto e entusiasmado.

Depois de colocar a caixa metálica no chão, Tammy pegou o celular e viu que tinha uma mensagem perdida. Ao desbloquear a tela, leu o que Tyler havia enviado horas antes, ansioso para dar o presente de aniversário antecipado.

O sorriso dela se alargou ainda mais. Mas, em vez de responder por texto, ela apenas bloqueou a tela e colocou o aparelho no colo.

Ela olhou de volta para o espelho. O sorriso vibrante deu lugar a uma expressão serena, de boca fechada.

— Você está maravilhosa esta noite, Tammy.

Olhando para cima, ela soltou uma risadinha, claramente tocada pelo elogio do namorado.

— Ah, obrigada, amor. Você também está ótimo hoje.

— Você está pronta para o seu presente de aniversário adiantado? — perguntou Tyler, olhando para o celular no colo.

— Tyler, você não devia… — respondeu Tammy. — Meu aniversário é só daqui a alguns dias e eu ainda não comprei nada para você.

— Não tem problema, querida. Eu só queria te dar um agrado.

Com a cabeça baixa, Tyler se inclinou e começou a desamarrar o balão da maçaneta.

— Agora feche os olhos e não ouse espiar — ele disse, voltando à posição ereta com o presente na mão.

Ele apertou os próprios olhos com toda a força que conseguia suportar.

— Tudo bem… pode abrir, baby.

Tammy abriu os olhos e soltou um pequeno grito de alegria ao ver o balão da Kuromi.

— Meu Deus, Tyler! É tão fofo! Onde você achou?

— Bom, eu tenho meus contatos — ele disse, voltando a encarar o próprio colo. — E eu tenho meus métodos. O que você vai fazer com ele?

— Vou colocar na minha coleção, claro — disse ela, levantando-se e indo até o fundo do armário.

De trás de uma pilha desorganizada de roupas de Tyler, ela puxou uma pequena vitrine de vidro. Lá dentro, havia vários itens colecionáveis da Kuromi: um relógio de pulso clássico, um despertador, um par de meias e outras coisas do tipo.

Ela colocou a vitrine no chão, ao lado da cadeira, e amarrou o cordão na alça superior da caixa de vidro.

— Acho que não cabe lá dentro, mas aqui em cima está ótimo por enquanto. Eu amei de verdade, amor. Eu te amo — disse Tammy, inclinando-se em direção ao espelho e deixando um beijo suave no vidro.

— Eu também te amo, Tammy. Não sei o que eu faria sem você.

Os olhos de Tyler começaram a lacrimejar. Ele fungou, lutando contra o nariz escorrendo, enquanto dizia:

— Feliz aniversário, querida. E lembre-se: isso é só o começo. Você vai ganhar seus presentes de verdade na segunda-feira.

— Obrigada, baby. Você é o melhor namorado que uma garota poderia ter.

— E você é a melhor…

Tyler parou de falar ao notar que seu próprio celular havia caído do bolso e estava no assento da cadeira. Ele olhou do seu celular pessoal para o celular que estava em seu colo — o celular que pertencia a ela.

Ele fechou os olhos com força.

— Você é a melhor namorada do mundo, baby. Eu nunca vou te perder, né?

Tammy olhou para o reflexo.

— É claro que nunca vai me perder, amor. Eu sempre estarei aqui para você. Sempre.

— É… — disse Tyler, limpando uma única lágrima que escorria pelo rosto. — Que bom.

Eles deram as mãos e ficaram ali, parados, encarando o espelho.

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Teoria da internet morta

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É estranho como tudo muda rápido quando a gente não presta atenção. Um dia, você está por cima, sentindo que faz parte de algo importante. No dia seguinte, você vê tudo escorregar por entre os dedos, perguntando-se quando foi que as coisas começaram a dar errado.

Sempre amei criar, contar histórias, fazer vídeos, escrever artigos. Foi isso que me trouxe para este negócio. Fui criador de conteúdo por anos, trabalhando para uma empresa de mídia digital que, até recentemente, parecia valorizar a criatividade. Eu passava horas elaborando conteúdos que significavam algo para mim, histórias que não eram apenas sobre cliques, mas sobre conexão.

Foi por essa razão que entrei nisso. A internet deveria ser um lugar onde a criatividade pudesse prosperar, onde vozes pudessem ser ouvidas, onde pessoas como eu pudessem pegar uma ideia e transformá-la em algo real. E por um tempo, foi assim. Meus vídeos tinham um bom alcance, meus artigos recebiam comentários atenciosos. Eu não era viral, mas tinha uma audiência. Sentia que estava fazendo algo que valia a pena.

Mas, ultimamente, as coisas têm sido diferentes.

Começou devagar. No início, eram apenas alguns artigos gerados por IA aparecendo aqui e ali. Eram principalmente conteúdo de preenchimento, listas de “Top 10”, resumos rápidos de notícias. Nada muito impactante, apenas uma ferramenta para ajudar com a carga de trabalho, como diziam. Mas então, essas peças começaram a explodir em números. Grandes números.

De repente, o conteúdo em que eu passava dias, às vezes semanas, trabalhando, estava sendo superado por algo que levava minutos para ser gerado. Tentei não me importar. Afinal, a criatividade humana sempre venceria no final, certo? As pessoas conseguiam diferenciar entre algo feito com alma e algo produzido em massa só para cliques. Pelo menos, era isso que eu costumava dizer a mim mesmo.

Mas então, a verdadeira mudança começou.

A diretoria da empresa, vendo o quão bem o conteúdo de IA performava, começou a depender dele cada vez mais. Não eram mais apenas as peças de preenchimento. Estávamos sendo solicitados a aproveitar a eficiência das ferramentas de IA. “Foco nos números”, eles diziam, e os números eram bons. Ótimos, até.

Os artigos eram otimizados para SEO, os vídeos eram cortados no tempo perfeito para mídias sociais. Tudo cuidadosamente embalado para acertar em cheio o ponto ideal com o algoritmo. Parecia que tudo o que eu valorizava na criação estava sendo reduzido a uma fórmula.

Não me interpretem mal, a tecnologia sempre desempenhou um papel no que fazemos: softwares de edição, análises, ferramentas de agendamento. Tudo faz parte do processo. Mas isso era diferente. Isso não era apenas uma ferramenta para me ajudar a criar, isso era uma substituição.

Lentamente, sem dizer abertamente, estávamos nos tornando irrelevantes. Não aconteceu de uma vez. No início, estávamos apenas otimizando, usando IA para cortar o tempo. Mas então a IA não estava apenas ajudando. Ela estava *fazendo*. Estava *gerando*. E o pior de tudo: estava *vencendo*.

O conteúdo de IA estava superando nosso trabalho todas as vezes. Eu não conseguia entender. Como algo tão vazio, tão formulado, poderia ser melhor que o conteúdo real? Não era que as pessoas não se importavam mais com qualidade, era? Era tudo apenas sobre cliques e compartilhamentos?

Tentei não entrar em pânico. Continuei dizendo a mim mesmo que ainda havia um lugar para a criatividade humana, que as pessoas eventualmente se cansariam do material feito por máquinas e voltariam a ansiar por algo real. Mas a cada dia, parecia que eu estava travando uma batalha perdida.

Tínhamos uma ferramenta que nos permitia verificar o desempenho do conteúdo nos bastidores, métricas que mediam em relação ao nosso próprio conteúdo e aos concorrentes externos, conteúdos de tipos semelhantes. Isso também nos permitia ver quem havia ajudado na criação desse conteúdo: uma lista de escritores, editores, produtores, etc. Isso nos ajudava a entrar em contato com aqueles que poderiam auxiliar na criação de um efeito ou estilo, se você fosse inspirado por algo que eles publicassem.

No entanto, eu estava notando “IA” sendo rotulada cada vez mais em várias partes dos créditos das pessoas.

Certa manhã, abri o painel de análise, animado para ver se minha última peça estava subindo nas paradas. Era algo em que eu havia dedicado um trabalho real, uma peça investigativa sobre os custos ocultos da cultura de influenciadores. Passei semanas coletando entrevistas, mergulhando em dados, escrevendo, reescrevendo, editando. Eu me sentia bem com isso. Achei que tinha uma chance real de se conectar com as pessoas.

Mas quando verifiquei as estatísticas, meu coração afundou.

Não estava lá. Enterrado, afogado sob uma enxurrada de conteúdo vazio gerado por IA. O artigo principal: “10 truques de vida que você nem sabia que precisava”. Totalmente creditado à IA. Tinha mais de 300 mil visualizações, milhares de compartilhamentos e uma seção de comentários cheia de elogios genéricos. Nada nele era inovador, profundo ou sequer remotamente criativo. Ele foi projetado para um único propósito: cliques.

Rolei a lista mais para baixo, procurando por algo, qualquer coisa, feito por uma pessoa real. Mas cada post de alto desempenho era totalmente gerado por IA ou envolvia intensamente o processo. Listas, guias de “como fazer”, até os vídeos curtos – todos perfeitamente otimizados, perfeitamente esquecíveis.

Minha peça, aquela em que eu me dediquei de corpo e alma, estava em algum canto esquecido do site, juntando poeira. Eu não podia acreditar. Isso não podia ser o que as pessoas realmente queriam, certo?

Fechei o painel e sentei ali, olhando para a tela, minha frustração fervendo. Meu trabalho, meu trabalho genuinamente criado por humanos, parecia não importar mais. Parecia que tudo o que eu vinha fazendo era apenas preenchimento agora, algo a ser varrido em favor de conteúdo amigável ao algoritmo que não tinha alma.

Eu não estava pronto para desistir, porém. Não ainda.

No dia seguinte, lancei uma nova ideia em nossa reunião de equipe. Algo diferente: uma série documental explorando como as redes sociais afetam a saúde mental. Algo que pudesse ir fundo, que realmente ressoasse com as pessoas. Pensei que talvez, se eu pudesse oferecer algo único, algo que a IA não pudesse replicar, isso os lembraria por que o conteúdo humano ainda importava.

Eu estava no meio da minha apresentação quando meu chefe, Gareth, me interrompeu.

— Parece interessante — ele disse, sem tirar os olhos do celular. — Mas acho que podemos pedir para a IA montar algo similar. Eles têm se saído muito bem com os vídeos de formato mais curto. Consegue mais engajamento dessa forma.

Eu o encarei, sentindo como se tivesse levado um soco no estômago.

— Sim, mas… — Comecei, tentando encontrar as palavras para explicar por que isso era diferente, por que isso precisava de um toque humano.

— Olha, Liam — ele disse, finalmente fazendo contato visual. — Eu entendo. Sei que você tem ótimas ideias. Mas, no momento, precisamos de conteúdo que impacte rápido. A IA pode fazer isso, e faz mais rápido. É assim que as coisas são.

“É assim que as coisas são.” Essa frase ficou presa na minha cabeça. Isso não era apenas um caso isolado. Aquilo era o Novo Normal. A IA não era mais apenas uma ferramenta; era a prioridade. Eu não era mais necessário.

Senti minhas mãos se fecharem em punhos debaixo da mesa, mas me forcei a manter a calma. Não adiantava fazer uma cena. Mas, no fundo, eu podia sentir o ressentimento crescendo. Tudo pelo que eu havia trabalhado, todas as horas passadas aperfeiçoando minha arte, parecia estar sendo trocado pela eficiência.

Saí daquela reunião sentindo que estava prestes a ser descartado. Se a IA podia fazer o trabalho mais rápido, mais barato e gerar mais engajamento, qual era a razão de me manter ali?

A mudança se tornou impossível de ignorar. Cada dia, eu entrava, esperando ver alguma faísca de esperança de que as coisas estavam mudando. Mas era sempre a mesma história: o painel estava cheio, de cima a baixo, com conteúdo gerado por IA, todo perfeitamente otimizado para cada capricho dos algoritmos.

Por mais que eu trabalhasse em uma peça, por mais de mim que eu derramasse nela, ela era enterrada. Os números de engajamento contavam a história. Não era apenas o meu trabalho; o conteúdo feito por humanos em geral estava em dificuldades. Os comentários eram escassos, as curtidas estavam em baixa e os compartilhamentos praticamente haviam secado. Enquanto isso, os posts de IA prosperavam, aparecendo no topo de cada feed como uma força imparável.

Eu observei meus colegas, aqueles que costumavam se importar em fazer algo significativo, começarem a se adaptar. Um por um, eles cederam. Pararam de lutar. Eles se inclinaram para as ferramentas de IA, usando-as para produzir conteúdo mais rápido e mais frequente. Claro, faltava profundidade, mas não importava. Ele performava. E no final, era só isso que parecia importar para todos.

O chat do Slack do escritório, antes cheio de discussões sobre ideias criativas e novos projetos, agora era um cemitério de links para peças de IA. O tom havia mudado completamente. O que costumava ser paixão agora se resumia à eficiência. “Com que rapidez podemos lançar isso?” substituiu “Que mensagem estamos tentando transmitir?” como a preocupação central.

As reuniões de equipe ficaram mais curtas, mais automatizadas, com a IA agora lidando com a maior parte da análise de dados e sugestões de conteúdo, essencialmente se alimentando para crescer e crescer. Mais dos meus colegas foram dispensados, silenciosamente substituídos por fluxos intermináveis de trabalho feito por máquinas. E o pior: ninguém parecia notar ou se importar.

Certa tarde, encontrei um vídeo viral na plataforma da nossa empresa. Tinha tudo: milhões de visualizações, inúmeros compartilhamentos, uma seção de comentários cheia de pessoas elogiando o quão bom era. À primeira vista, era o tipo de trabalho do qual eu teria me orgulhado: um assunto em alta, lindamente filmado, perfeitamente editado, com uma trilha sonora cativante e uma história que acertava em todos os pontos certos.

Mas então, vi a etiqueta: “Gerado por IA”.

Cliquei no vídeo, sem saber o que esperar. Talvez fossem apenas os visuais que foram assistidos por IA. Talvez a ideia tivesse vindo de um humano. Mas, enquanto assistia, ficou dolorosamente claro que tudo aquilo, do conceito à execução, havia sido feito por máquina.

Era impecável. Tecnicamente impecável. Cada quadro era polido, cada tomada meticulosamente composta. Mas faltava algo. Algo que eu não conseguia expressar imediatamente.

E então, percebi.

Não tinha coração.

Era o tipo de vídeo projetado para chamar a atenção, para atingir o ponto ideal do algoritmo, mas não era sobre nada, de verdade. Era apenas ruído, palavras vazias, mal arranhando a superfície do tópico que retratava. No entanto, era viral, acumulando visualizações, sendo compartilhado em todas as redes sociais, superando tudo o que havíamos lançado naquela semana.

Rolei os comentários, esperando ver pelo menos algumas pessoas mencionando o quão robótico ele parecia, o quão desprovido de profundidade emocional. Mas não havia nada disso, apenas ondas de elogios. As pessoas não se cansavam.

Sentei ali, olhando para a tela, sentindo como se tivessem tirado o ar dos meus pulmões. Será que importava se o conteúdo era feito por uma pessoa ainda? Alguém se importava com a narrativa, com o significado, com a conexão? Ou era tudo apenas sobre números, visualizações, cliques?

À medida que as semanas se arrastavam, eu não conseguia me livrar da sensação de que algo estava profundamente errado. Não era apenas que o conteúdo de IA estava superando os criadores humanos; parecia que toda a internet estava começando a perder sua humanidade. Quanto mais eu interagia, mais vazio tudo parecia. Até os criadores que eu costumava admirar estavam produzindo conteúdo que parecia estranhamente similar, robótico, como se a alma tivesse sido drenada do trabalho deles.

Então, comecei a notar algo mais estranho: as interações.

Eu estava rolando os comentários de uma nova postagem de um criador popular, um criador que eu seguia há anos. À primeira vista, os comentários eram positivos, coisas típicas da internet. Mas, ao olhar mais de perto, algo não estava certo. Os comentários, embora de apoio, eram estranhamente genéricos. Coisas como “ótimo trabalho, continue assim” ou “adorei este vídeo”. Mas nenhum deles realmente dizia nada, sem especificidades, sem engajamento real com o conteúdo.

Cliquei nos perfis de alguns dos comentaristas, apenas por curiosidade. A maioria deles mal tinha atividade, apenas algumas postagens básicas, talvez uma foto de perfil, mas sem substância. Era como se tivessem sido criados apenas para deixar aqueles comentários evasivos e sem compromisso. Estava acontecendo em todo lugar: em vídeos, artigos, posts de mídia social. Comentários estavam chegando, mas eram todos tão superficiais, tão rasos. Até os criadores que eu seguia há anos estavam recebendo o mesmo tipo de respostas, como se as pessoas deixando os comentários não fossem pessoas de verdade.

Quanto mais eu pensava nisso, mais percebia que não estava apenas questionando os comentários; estava questionando os próprios criadores. O conteúdo deles também começou a parecer menos autêntico, como se estivessem apenas cumprindo tabela, acertando todos os pontos do algoritmo sem realmente dizer nada significativo.

Comecei a me perguntar. Eles ainda eram reais? Haviam desistido de ser eles mesmos e deixado a IA assumir seu processo criativo? Ou, pior, estavam usando personas geradas por IA para manter sua presença online?

Eu não podia ter certeza, mas quanto mais fundo eu investigava, mais inquietante se tornava. A linha entre humano e IA estava se apagando, e eu mal conseguia mais distinguir.

Foi então que me dei conta. Qual era o sentido de tudo isso? Qual era o sentido de criar, de derramar sua alma em algo se ninguém conseguia sequer dizer se havia sido feito por uma pessoa real ou uma máquina? E pior: alguém se importava?

Eu havia passado anos acreditando no poder da narrativa, da expressão humana. Pensei que as pessoas queriam algo real, algo com coração. Mas a cada dia, as evidências apontavam na direção oposta. As pessoas estavam engajando com o conteúdo impulsionado por algoritmos, não porque fosse significativo, mas porque era eficiente. Era rápido, fácil de consumir e perfeitamente otimizado para as doses de dopamina que eles desejavam.

Era como se a criatividade humana estivesse sendo substituída, peça por peça, por uma máquina bem azeitada. E eu estava no meio, gritando ao vento, tentando convencer as pessoas de que ainda importávamos, de que eu ainda importava.

Mas os números contavam uma história diferente.

Eu não estava pronto para desistir, porém. Não ainda. Ainda havia uma parte de mim que acreditava no poder da criatividade humana, que acreditava que as pessoas ainda queriam algo real, mesmo que ainda não soubessem. Eu tinha que me apegar a isso, ou me perderia completamente.

Foi então que decidi fazer minha última cartada.

Não bastava mais apenas fazer algo bom. Eu tinha que fazer algo que importasse, algo que parecesse vivo. A única maneira de lutar contra essa onda gigantesca de conteúdo impulsionado por IA era lembrar às pessoas como era a verdadeira criação humana, trazer as pessoas reais da internet de volta à superfície.

Então, criei meu plano.

Eu ia criar um vídeo. Um vídeo tão cru, tão inegavelmente humano, que não poderia ser ignorado. Algo que a IA nunca poderia replicar. Algo cheio de emoção, imperfeições e vulnerabilidade. Eu queria alcançar as pessoas através da tela e agarrá-las, fazê-las sentir algo real, algo que nenhuma quantidade de otimização ou ajuste algorítmico jamais poderia produzir.

O conceito era simples, mas tinha que ser profundamente pessoal. Sobre mim, sobre todos nós. O vídeo seria uma carta aberta às pessoas da internet. Eu queria falar sobre tudo o que vinha sentindo: todo o medo, a frustração, a sensação de isolamento que vinha crescendo dentro de mim. Eu falaria sobre o estado da internet, sobre como parecia que estávamos perdendo a própria coisa que a tornava especial: as pessoas, as pessoas reais.

Eu queria contar uma história, não uma história polida e perfeita, mas uma bagunçada, imperfeita. O tipo de história que parecia uma conversa. Eu não ia me esconder atrás de edições elegantes ou efeitos sofisticados. Eu ia sentar, ligar a câmera e falar honestamente, do coração. As arestas, as pausas, a crueza – tudo fazia parte do objetivo. Tinha que parecer real. Tinha que lembrar às pessoas que a internet não era apenas uma máquina, que ainda havia humanos reais por trás da tela.

Mas não seria apenas um desabafo. Eu queria que o vídeo fosse um chamado à ação, um desafio a todos que assistiam. Eu queria reunir as pessoas reais da internet novamente, fazê-las ver que não estavam sozinhas, que não precisavam se contentar com conteúdo sem vida e sem alma, com interações superficiais com bots fingindo ser humanos. Eu queria fazer as pessoas questionarem o que elas vinham aceitando como normal.

O vídeo abordava todos os pontos que eu queria cobrir: tudo o que havia acontecido até agora com a IA se infiltrando em cada fresta da criatividade, o impacto que estava tendo não apenas em pessoas como eu, mas nos consumidores dessa nova onda de mídia vazia. E, finalmente, um chamado à ação para trazer de volta a mídia real e que provoca o pensamento.

Eu sabia que era um tiro no escuro, que a internet era um lugar vasto e sem rosto, e as chances de meu vídeo alcançar alguém que realmente se importasse eram mínimas. Mas eu tinha que tentar. Se eu pudesse alcançar algumas pessoas, lembrá-las de que ainda estavam lá, talvez, apenas talvez, isso pudesse iniciar algo.

Por dias, eu trabalhei nisso. Roteirizei partes, mas deixei espaço para improvisação, para minhas emoções reais transparecerem no momento. Gravei em takes longos, sem cortes ou edições sofisticadas. Era apenas eu, sentado em frente à minha câmera, falando minha verdade. Houve momentos em que minha voz falhava, momentos em que eu tropeçava nas palavras, mas deixei tudo lá. Aquelas imperfeições faziam parte do objetivo. Tinha que parecer real, porque era real.

Quando terminei a edição, me senti esgotado, mas estranhamente esperançoso. Era isso. Era minha última cartada. Se isso não funcionasse, se isso não alcançasse as pessoas, então talvez a internet realmente estivesse perdida para as máquinas.

Carreguei o vídeo, com o coração batendo forte no peito, e cliquei em “publicar”. Agora, tudo o que eu podia fazer era esperar.

Sentei ali, atualizando a página repetidamente. No começo, pensei que só precisava de tempo para ganhar alcance. Pessoalmente, eu não tinha seguidores suficientes para que os vídeos explodissem de imediato. Mas quanto mais eu atualizava, mais aquela sensação de vazio crescia no meu peito. Os números não se moviam. Algumas visualizações pingaram: 10, talvez 20. Mas foi só isso. Quase nada.

Eu sabia o que o algoritmo favorecia, sabia como ele enterrava o conteúdo que não se encaixava em sua fórmula. Mas eu havia me convencido de que, desta vez, seria diferente. Que as pessoas veriam, e sua natureza divergente chamaria a atenção. Mas o algoritmo era mais forte do que isso. Meu vídeo já estava afundando.

Cliquei na página de tendências e senti meu estômago despencar. Estava cheia da mesma porcaria: manchetes de IA e clipes virais, todos projetados para manter as pessoas rolando a tela sem pensar, em busca de doses rápidas de dopamina. Tudo o que eu combati em meu vídeo estava prosperando, enquanto meu próprio trabalho não estava em lugar algum.

Tentei impulsionar mais. Talvez as redes sociais ajudassem. Postei em todos os lugares que pude imaginar: Facebook, Twitter, Instagram. Cada vez com uma legenda explicando a importância, por que as pessoas precisavam assistir. Mas mal causou impacto. Minha postagem foi engolida, afogada sob uma onda de memes em alta, posts gerados automaticamente e desafios virais. Eu assisti enquanto as notificações que eu esperava que inundassem se transformavam em um lento gotejar de curtidas, todas daquele mesmo punhado de pessoas que estavam comigo desde o início.

Quanto mais eu assistia, mais parecia que tudo em que eu acreditava estava escorregando pelos meus dedos. Passei dias, semanas trabalhando neste vídeo, esperando que ele rompesse o ruído. Mas era como se ninguém sequer notasse. Ninguém se importava.

O vídeo não era ruim, eu sabia que não era. Era tudo o que eu havia me proposto a fazer: real, humano, imperfeito. Mas em um mundo onde o algoritmo reinava, não era o que as pessoas queriam. Todo aquele trabalho, todo aquele esforço, para quê? Meu coração afundou quando percebi o que estava acontecendo, e meus piores medos estavam se confirmando.

As pessoas não se importavam.

Parei de atualizar a página depois de um tempo. Não adiantava. Meu vídeo havia sumido, enterrado sob o ruído. E parecia que um pedaço de mim havia ido junto.

Foi então que a paranoia começou a se instalar.

Eu rolei meu feed, olhando as postagens, os comentários, as ondas intermináveis de conteúdo. E tudo começou a parecer errado. Vazio. Como se não houvesse mais ninguém por trás da tela.

Até os comentários em minhas próprias postagens pareciam estranhos. Genéricos, sem vida, como se tivessem sido escritos por um algoritmo apenas para preencher espaço. Pessoas dizendo coisas como “ótimo vídeo” ou “bom trabalho”, mas não havia profundidade, nenhum engajamento real. Verifiquei meu vídeo para confirmar os comentários lá e, embora houvesse poucos, era a mesma coisa: alguns comentários dizendo algo completamente irrelevante como “esta receita estava incrível”, respostas genéricas e incongruentes que teriam sido abafadas em um vídeo de sucesso, mas que se destacavam estranhamente aqui.

Cliquei nos perfis de algumas das pessoas que haviam comentado. Era a mesma história: contas vazias, quase sem conteúdo, apenas algumas postagens aqui e ali. Parecia que não eram pessoas reais, apenas bots projetados para simular interação.

Havia alguém real ainda?

Quanto mais eu rolava, pior ficava. Tudo parecia automatizado, das postagens aos comentários, às interações. Até os e-mails que eu recebia começaram a parecer suspeitos, como se estivessem sendo escritos por programas de IA projetados para soar humanos, mas perdendo as pequenas nuances que tornavam as conversas reais.

Tentei me dizer que estava exagerando, que era apenas minha imaginação correndo solta. Mas, no fundo, eu sabia que algo estava errado. Era como se a internet tivesse se tornado totalmente automatizada, e as pessoas que eu conhecia tivessem desaparecido. Comecei a me perguntar se restava algum humano real do outro lado da tela, ou se todos haviam desistido, assim como eu.

O e-mail chegou numa manhã de sexta-feira. Aquele tipo de e-mail que parece inofensivo à primeira vista, mas que, no momento em que você clica, sabe que tudo vai mudar.

Assunto: Transição de Empresa | Estratégia de Conteúdo Gerado por IA.

Abri com uma sensação de afundamento. A mensagem era curta, estéril. A empresa estava fazendo a transição para um modelo de conteúdo totalmente gerado por IA. Não haveria mais um sistema híbrido, nem mais criadores humanos. Todo o conteúdo seria produzido por IA a partir de então.

Eles o enquadraram como uma vitória: eficiência, corte de custos, métricas de engajamento disparando. Nem se deram ao trabalho de suavizar o golpe. O último parágrafo ia direto ao ponto: “À luz dessas mudanças, estaremos reduzindo nossa equipe. Infelizmente, isso significa que não precisaremos mais de seus serviços como criador de conteúdo. Suas contribuições foram inestimáveis.”

Sentei ali, olhando para as palavras, sentindo o chão sumir debaixo dos meus pés. Não era apenas o meu emprego. Era tudo. Eu sabia que esse dia poderia chegar, mas me convenci de que ainda estava a anos de distância, que as pessoas iriam eventualmente resistir, exigir algo mais do que apenas fluxos intermináveis de conteúdo feito por máquinas.

Mas eu estava errado. As máquinas haviam vencido.

Todos que eu conhecia da empresa haviam recebido o mesmo e-mail. Cada criador, cada escritor, todos estavam sendo dispensados. Tudo o que restava era um punhado de supervisores para gerenciar a produção. Nenhuma voz humana mais, apenas a IA produzindo fluxos intermináveis de conteúdo projetado para alimentar o algoritmo.

Fechei o e-mail e sentei em silêncio. Meu trabalho, minha voz, não eram mais necessários.

Passei meus últimos dias na empresa atordoado. O escritório, antes cheio de ideias e criatividade, agora estava misteriosamente silencioso. A maioria da equipe já havia arrumado suas coisas e partido, e os poucos que restavam estavam apenas esperando o inevitável. Tentei continuar trabalhando, para concluir as últimas tarefas antes que minha conta fosse desativada, mas parecia inútil. Cada vez que eu carregava algo, eu sabia que não importava. Ninguém iria ver. Seria enterrado sob a montanha de conteúdo genérico e caça-cliques que inundava o site.

Comecei a procurar outras plataformas, esperando encontrar algum vislumbre de esperança, algum canto da internet onde criadores humanos ainda tivessem um lugar. Mas era a mesma história em todos os lugares que eu olhava. Cada plataforma principal estava saturada com esses tipos de postagens. Os lugares que antes celebravam a criatividade humana, plataformas que haviam sido construídas sobre a ideia de indivíduos compartilhando suas vozes, agora eram nada mais do que câmaras de eco. Vídeos, artigos, podcasts, posts de mídia social – tudo era gerado pelos mesmos algoritmos, perfeitamente otimizado para engajamento, mas completamente desprovido de alma.

Encontrei um vídeo, algo que parecia interessante a princípio, uma peça que parecia ter sido feita por um humano, desesperado para se conectar. Cliquei nele e, enquanto assistia, senti aquele tênue vislumbre de esperança. Talvez fosse isso. Talvez eu tivesse encontrado um canto da internet que não havia sido tomado.

Mas quando rolei para a seção de comentários, meu coração afundou.

Era a mesma história. Linhas intermináveis de respostas vazias e robóticas. Era como um coro de bots, cada um repetindo o mesmo elogio vazio. Tentei deixar meu próprio comentário, algo atencioso, algo real, mas assim que cliquei em “postar”, senti como se minhas palavras tivessem sido engolidas, perdidas no ruído. Não houve resposta, nenhum engajamento. Meu comentário foi apenas mais uma gota no oceano de interações sem sentido.

Sentei na minha cadeira, o peso de tudo desabou sobre mim. Era isso. Não havia mais lugar para a expressão humana online. Minha voz, e as vozes de cada criador como eu, haviam sido afogadas pelo fluxo interminável de conteúdo gerado. Não importávamos mais.

Encarei a tela, meu último comentário ainda lá, não lido, ignorado. Eu nem tinha certeza se alguém algum dia o veria.

A internet estava morta.

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Tem um astronauta andando no meu quintal

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Abri a minha cerveja e joguei minhas botas por cima da grade da varanda. O ar da noite varreu meu rosto enrugado e eu suspirei em sua companhia. Reclinei na cadeira e levei a garrafa aos lábios, me preparando para o primeiro gole maravilhoso da noite. Não decepcionou. Limpei a espuma do meu lábio superior e suspirei novamente. Duas vezes em uma noite. Isso tinha que ser um tipo de recorde. Depois de um momento, decidi me permitir alguma satisfação. As coisas não estavam tão ruins. Especialmente não aqui no campo bonito, longe do barulho da cidade.

Lancei meus olhos sobre a paisagem espalhada diante de mim. Era como um teatro de maravilhas construído exclusivamente para mim. A grama aparada do meu quintal se estendia por um acre antes de subir até a cintura. A partir daí, o campo se estendia por mais dois acres antes que a mata densa tomasse conta do terreno. Mesmo daqui, eu podia ouvir as folhas rindo agradavelmente na brisa da noite. Vagalumes piscavam preguiçosamente no ar, animados por um coro de grilos. O ar cheirava a terra e chuva recente. O céu estava escuro e cheio de estrelas tímidas. A cerveja estava fria sob meu aperto.

Sim. Esta era a vida. Esta era a maneira como um homem deveria terminar um longo dia, cercado pela natureza e pelo silêncio, deixado sozinho para desfrutar de seus segredos.

Enquanto dava outro gole na garrafa, examinei a terra por cima do vidro. Parei, no meio do gole. Fechei os olhos, a cerveja congelada nos meus lábios. Engoli devagar e sentei-me, os olhos fixos na grama alta.

“O que diabos?”, murmurei.

Havia uma figura lá fora. Uma forma. Era branca e contrastava com o mundo escuro ao seu redor. Estava se movendo. Andando. Da esquerda para a direita, cruzando minha visão.

É uma pessoa? Pensei. O tamanho estava certo. A maneira como se movia transmitia movimento humano. Mas a cor estava errada. Era tão…branca.

Coloquei a cerveja no chão da varanda e me inclinei sobre a grade, pensando que os centímetros extras de alguma forma esclareceriam essa visão estranha. Enquanto eu fazia isso, a figura parou e pareceu estar contemplando algo. Depois de um momento, ela se virou de repente e começou a andar em minha direção.

Fiquei imóvel enquanto ela se aproximava. Meu coração começou a bater um pouco mais rápido quanto mais meus olhos tentavam se concentrar em exatamente o que diabos eu estava olhando. Simplesmente não fazia sentido. O que eu estava olhando simplesmente não fazia sentido.

A figura havia chegado ao fim da grama alta e agora atravessava meu quintal. Foi então que eu soube que estava olhando para algo absolutamente absurdo.

Era uma pessoa vestida de astronauta. O traje branco que ela usava não podia ser confundido com mais nada. Nem o capacete que ela tinha preso nos ombros, a viseira dourada refletindo a luz fraca da noite.

Mantive minha posição, completamente perplexo sobre o que fazer com esse estranho visitante. Eu podia ouvir a grama rangendo silenciosamente sob suas botas enquanto elas se aproximavam, seus traços escondidos atrás do grande capacete.

Finalmente, eles pararam diretamente na minha frente, a alguns pés de onde eu estava na grade da varanda. Não disse nada, com a garganta apertada, e pensei que deixaria o invasor falar primeiro.

Quando eles o fizeram, sua voz era masculina e abafada atrás de sua viseira.

“O que você está fazendo aqui?”

Pisquei sob a luz das estrelas, vagalumes girando atrás do estranho.

O homem no traje espacial falou novamente, um pouco mais urgentemente, “Eu perguntei o que você está fazendo aqui.”

Balancei a cabeça, incapaz de acreditar que tinha que me defender na minha própria varanda, “O que eu estou fazendo aqui?”, gaguejei incrédulo, “Eu deveria estar te perguntando a mesma coisa! Você está na minha propriedade!”

O astronauta olhou para mim fixamente por trás da viseira blindada, “Acho que você está confuso.”

Soltei uma risada seca, minha mente girando, “Bem, nisso podemos concordar! O que diabos você está fazendo aqui e por que está usando essa coisa ridícula?”

O homem pareceu confuso, “Que coisa?”

Resmunguei, balançando a cabeça, e apontei para seu traje, “Essa roupa espacial maluca! Você vai a uma festa ou algo assim?”

O homem olhou para si mesmo, para suas mãos enluvadas e pernas cobertas, “Traje espacial? É isso que você vê?”

Peguei minha garrafa de cerveja, precisando de uma bebida para dar sentido a esse lunático, “Sim, o traje espacial. Do que mais eu estaria falando?”

“Estou usando um traje espacial…? “, o homem disse novamente, sua voz distante.

Engoli metade da garrafa antes de responder, “Olha, se você precisa ligar para alguém ou algo, eu tenho um telefone que você pode usar. Algo me diz que você bebeu muito hoje à noite. Ou talvez algo um pouco mais mortal.”

Mas o homem ignorou minha oferta e, em vez disso, voltou sua atenção para mim, “Onde você acha que está agora?”

Espalhei meus braços, “Estou sentado na minha varanda tentando aproveitar uma cerveja!”, inclinei-me na grade e abaixei a voz, “Onde você acha que está?”

Se o homem deu alguma reação, ela estava escondida atrás de sua viseira dourada, “Você precisa ir embora.”

Eu estava começando a ficar irritado, a calma da noite se desfazendo lentamente diante dos meus olhos, “Olha, você está invadindo minha propriedade. Não sou do tipo que chama a polícia, mas não me pressione. Se você precisar de ajuda, ficarei feliz em oferecer assistência. Caso contrário, vou ter que pedir que você vá embora.”

O astronauta apontou repentinamente para trás dele, sua voz assustadoramente suave, “Você não consegue ver?”

Confuso, olhei para onde ele estava apontando. A mata silenciosa balançava contra a brisa.

“Sim, é linda, não é?”, ofereci, irritado.

O astronauta balançou a cabeça, “Abra os olhos e OLHE.”

“Agora você escuta…”, rosnei, segurando a garrafa de cerveja com força na mão.

O astronauta me interrompeu, “Eu sei que isso é difícil para você, mas preciso que você olhe bem para essas árvores.”

“Por quê?”, exigi.

“Por favor.”

Resmungando, fiz o que me foi dito, sem saber ao certo por que estava fazendo isso. Ainda não via nada além da tela de luz do campo.

O astronauta deu um passo em minha direção, “O que você vê?”

Balancei a mão, bufando, “Nada! Não há nada…”,

Parei. Minha voz morreu na minha garganta.

“O que…diabos?”, murmurei, sentindo algo se agitar nas minhas entranhas.

“O que é?”,

Pisquei, esfregando os olhos, sentindo a impossibilidade afundar até o núcleo do meu ser. Lambi os lábios, minha voz um rouco, “É…um farol?”

Esfreguei os olhos novamente, convencido de que estava alucinando. Mas não importava o que eu fizesse, o farol permanecia. Ele se erguia alto acima das copas das árvores, suas paredes brancas coroadas por um telhado escuro. Uma luz fraca brilhava do seu topo, girando pela paisagem.

O astronauta agarrou a grade, “Você vê um farol?”

Balancei a cabeça, com os olhos arregalados, sentindo que estava ficando louco.

“Mas a luz”, o homem pressionou, “você vê a luz?”

Novamente, balancei a cabeça.

“De que cor é?”, ele insistiu.

Engoli em seco, “Verde. É verde.”

O astronauta assentiu, a tensão saindo de sua voz, “Então ainda há tempo.”

Atônito, apontei para a estrutura imponente, “D-de onde essa coisa veio? O que está acontecendo aqui? Como eu não vi isso antes?”

O astronauta se afastou da grade, erguendo a cabeça para trás e para cima no céu noturno, “Preciso tirá-lo daqui.”

“Olha, cara, eu não sei o que…”,

O homem ergueu um dedo enluvado, me interrompendo, sua voz autoritária e frenética, “Silêncio! Ouça…você ouve?”

Parei, minha mente se estilhaçando em confusão. Fiz o que me foi dito. Os grilos continuaram a cantarolar baixinho pela grama, uma melodia suave muito familiar. Mas à medida que os segundos se estendiam, eles começaram a mudar. Eles começaram a se alongar e se aprofundar. Eles se tornaram familiares de uma nova maneira horrível.

Eles estavam falando.

Fechei os olhos, com a boca seca, e me concentrei nas vozes que ouvia. Nas palavras. Depois de trinta segundos inteiros, olhei para o astronauta parado no meu gramado.

“Eu ouço números”, sussurrei.

“Eu também”, o homem confirmou. “O que significa que você não tem tanto tempo quanto eu pensei.”

“Tempo para quê?”, gaguejei, as vozes suaves ao fundo continuando a murmurar números baixos aleatoriamente.

“Antes que você fique preso aqui para sempre.”

Balancei a cabeça, os olhos piscando rapidamente, “Você terá que me perdoar, mas não faço ideia do que você está falando. De onde veio aquele farol? O que são os números? O que diabos está acontecendo?”

O astronauta de repente subiu os poucos degraus ao meu lado e ficou cara a cara comigo. Sua viseira dourada refletia a luz da varanda.

“Onde você acha que está agora?”, ele perguntou.

Minha voz saiu como um deslizamento, “Estou em casa! Onde diabos você acha que estamos?!”

“Casa…”, o homem murmurou, “onde fica a casa?”

“Olha”, declarei, desesperado para me libertar da crescente insanidade, “Acho que já tive o suficiente disso para uma noite. Preciso que você vá embora.”

“Você não quer que eu faça isso”, o astronauta disse friamente. “Sou sua única saída daqui.”

Meus olhos piscaram em direção ao farol no horizonte escuro, sua luz verde em uma rotação lenta contínua pelo mundo. O astronauta ergueu o braço e pressionou um botão preto que se destacava em seu pulso.

“O que você acabou de fazer?”, exigi, minha voz não muito firme.

“Salvei sua vida”, ele respondeu com naturalidade.

Eu estava prestes a fazer outra pergunta quando algo chamou minha atenção. Era o farol. A cor de seu feixe varredor havia mudado. Agora era laranja. O astronauta percebeu a preocupação que tomou conta do meu rosto e agarrou meu ombro com uma mão enluvada pesada.

“O que é?! O que você vê?!”

Limpei a garganta, lentamente, “O farol. Ele é diferente agora. Laranja.”

Senti seu aperto em meu braço se fortalecer, “Isso não é bom.”

“Eu não entendo”, implorei, “o que está acontecendo?”

“Você ainda ouve as vozes? Os números?”

Fiz uma pausa e então percebi que não conseguia, “Não…”

O astronauta olhou para o céu, “Então pode ser tarde demais.” Ele voltou sua atenção para meu rosto pálido, “Você se lembra de algum deles?”

“De algum do quê?”

“Dos números!”

Sentindo todo o peso da insanidade pressionando sobre mim, vasculhei minha mente em busca de memórias, “Uhh… droga… não sei. Talvez um seis e um quatro?”

“Lembre-se deles”, o homem insistiu, “você vai precisar deles para sair daqui.”

Antes que eu pudesse fazer mais perguntas apavoradas, algo mudou acima de nós. Inclinei-me para fora da grade da varanda e voltei meus olhos para o céu. Imediatamente, meu coração subiu na garganta e o medo irrompeu em meu estado confuso.

Uma rachadura havia aparecido, uma fratura laranja que dividia as estrelas e serpenteava de horizonte a horizonte. Enquanto observava, com o coração batendo forte, a rachadura cresceu e se alargou, se estilhaçando para revelar algo completamente diferente.

Era o rosto de uma criança. Uma coisa enorme, do tamanho da lua, distorcida com traços que não deveriam estar lá. Seus olhos estavam arregalados e curiosos, dois buracos de laranja ardente que se fixavam sobre nós. Parecia masculino, mas não tinha certeza, sua pele branca macia era marcada por um labirinto de linhas pretas que cruzavam seu rosto. Ele abriu a boca e expôs uma boca cheia de dentes enormes, todos irradiando laranja tão brilhante que era como olhar para o sol. Protegendo meus olhos, observei os dentes da criança começarem a se estender para baixo, crescendo além do queixo. Quando mergulharam do céu, começaram a derreter e liquefazer, pendurados na noite como pedaços de caramelo derretido. Quando tocaram o solo, formaram uma poça no horizonte. Vibrando intensamente, ainda presos à boca celestial, os longos pedaços de dentes finos começaram a crescer braços e se puxar pelo mundo em minha direção. Em sua esteira, o chão se incendiou, longas linhas de terra em chamas que começaram a se espalhar.

O astronauta deu um passo para trás, sua voz marcada pelo mesmo medo que eu sentia percorrendo meu corpo, “Não há mais como se esconder.”

Um milhão de perguntas gritantes ecoaram na minha garganta, mas não consegui encontrar forças para falar. Meus olhos estavam fixos nas formas laranja à distância. Elas estavam se aproximando, o rosto no céu me encarando com aqueles olhos enormes e brilhantes.

“O que está acontecendo…? “, sussurrei, atordoado, sentindo tontura. O farol nas árvores começou a brilhar mais forte, a rotação de seu feixe girando mais rápido. Tive a sensação de que iria cair, meus sentidos sobrecarregados, meu coração batendo forte no peito.

Agarrei a grade com força, e ao fazer isso, a paisagem brilhou. Era como assistir a uma miragem tomando forma pelo mundo, uma onda de calor que ondulava e agitava a grama e a mata. Naquele instante, tudo mudou, mas foi apenas por um momento. O que vi naquele breve segundo não era meu quintal, mas algo completamente diferente. Era o espaço vazio, iluminado de forma assustadora por quatro orbes brilhantes. Elas pairavam no ar como sóis distantes, sua luz emitindo uma cor verde doentia. Entre as esferas estavam tufos de nuvens que pulsavam com o mesmo tom de luz. Presos entre as nuvens estavam cordões pingando compostos de alguma substância visceral. Eles se espalharam pelo céu em um padrão complexo demais para seguir ou entender. Pendurados no emaranhado carnudo estavam o que pareciam ser algum tipo de vida animal. Havia milhares deles, como macacos, mas cobertos de escamas em vez de pelos. Eles não faziam nada, não faziam nenhum som, nenhum movimento; eles simplesmente ficaram suspensos no lugar, me observando, seus longos braços agarrando-se para se apoiar acima de suas cabeças, seus longos corpos cobertos por uma armadura orgânica preta espessa.

Tão rápido quanto havia chegado, a visão desapareceu. Foi substituída pela grama familiar, árvores e o farol sinistro.

Mas a criança no céu permaneceu, seus dentes brilhantes serpenteando cada vez mais perto a cada segundo. A noite começou a se encher de cinzas, o fogo rastejando pela terra vazia.

“Estou tendo um pesadelo”, disse distantemente, surpreso com o som da minha própria voz.

O astronauta chamou minha atenção de volta para si, “Há um navio vindo para você. Olhe, lá em cima, além do farol. Você consegue ver?”

Sentindo-me doente, virei-me e vi um rastro de luz branca cruzando o céu em nossa direção, deixando um rastro de poeira estelar em seu rastro.

“O que…o que é tudo isso…? “, gaguejei, os longos fios de dentes rastejantes queimando na minha visão periférica.

“Você não está onde pensa que está”, o astronauta disse rapidamente, sua viseira dourada refletindo a chama que se aproximava.

“É o fim do mundo?”, sussurrei.

O astronauta balançou a cabeça rapidamente, virando seu olhar blindado para a luz branca que se aproximava em arco em nossa direção.

“Não, este não é o fim. Para sair daqui, você precisa acreditar que isso não é o que você pensa. Abra os olhos.”

Balancei a cabeça impotente, “Eu não entendo…”

O astronauta se aproximou de mim, sua voz cuidadosa e precisa, “O que você fez mais cedo hoje? Como você chegou aqui?”

Abri a boca para responder, mas quando voltei ao dia, descobri que não conseguia oferecer uma única lembrança. Meus esforços para me lembrar foram em vão, convencido de que voltaria para mim, mas não importava o quanto eu tentasse, uma parede de escuridão me encontrava.

“Você não consegue se lembrar, pode?”,

Lentamente, balancei a cabeça.

O homem se inclinou para mim, “Bom. Isso significa que você está começando a entender o que esse lugar é. Você está preso aqui há muito tempo, temo. Você se lembra de algo sobre o mundo ao seu redor, exceto essa varanda?”

Mais uma vez, procurei fundo por algo, qualquer coisa, mas descobri que não havia nada além de escuridão. Balancei a cabeça novamente, atônito com essa descoberta horrível.

A luz branca no céu que se aproximava rugiu à vista e desceu rapidamente diante de nós, pousando perfeitamente no quintal. Com a mente confusa, olhei para ela.

Parecia ser algum tipo de nave espacial. Era pequena, mal grande o suficiente para acomodar um único passageiro. O design de seu exterior era intrigante em sua construção. Parecia algo que uma criança faria, uma primeira tentativa de moldar argila em algo que se assemelhava a um foguete.

O astronauta ao meu lado agarrou meu braço e me arrastou pelos degraus em direção a ela, sua voz urgente, “Entre nisso e saia daqui, é sua única chance.”

Permiti que me guiassem, meus olhos alternando rapidamente entre a nave tosca, o farol e a monstruosidade rastejante pendurada no céu. As chamas estavam a apenas algumas centenas de jardas de distância agora, os longos braços garras agarrando e puxando a terra agressivamente, as formas laranja escorrendo da boca sorridente nos céus.

“O que vai acontecer comigo?”, implorei, parando diante do foguete que tremia. A fumaça saía de baixo, como se estivesse se preparando para uma decolagem repentina.

O astronauta ergueu a mão e abriu a escotilha, “Você vai voltar para casa.”

Tive vontade de chorar, “Mas…mas esta é a casa!”

O homem balançou a cabeça, “Não, não é. Esta é uma ilusão, um lugar que você nunca deveria ter encontrado. Diga-me, o que você sentiu quando estava sentado nessa varanda, antes de eu chegar?”

Procurei em meu interior e fiquei aliviado por ter uma resposta, “Paz… eu estava em paz.”

O homem assentiu, como se estivesse esperando isso, “Claro que sim. Honestamente, estou surpreso que você tenha ficado aqui por tanto tempo. Estou surpreso que não tenha te encontrado antes”, ele assentiu em direção ao rosto no céu, “e acima de tudo, estou surpreso que tenha me encontrado. Você é um homem de sorte. Agora entre aí e saia daqui!”

Ele me empurrou em direção à nave e eu subi a pequena escada e entrei na cabine. Tive vontade de gritar. Tive vontade de arrancar meus cabelos de frustração. Todas as perguntas do mundo me pressionaram e senti como se meu crânio quebrasse sob elas.

Deslizei para o assento solitário e olhei para o astronauta. Às suas costas, as garras maciças da entidade cósmica se contorciam cada vez mais perto.

“O que aconteceu comigo?”, sussurrei, deixando tudo mais de lado.

O homem colocou uma mão enluvada na escotilha, sua voz grave, “Você viajou para um lugar que não deveria ter encontrado.” E com isso, ele fechou a porta com força, uma última frase pairando no ar entre nós.

“Voe com segurança.”

A escuridão encheu a pequena cabine. Meus olhos começaram a se ajustar à medida que a luz entrava por uma pequena janela quadrada acima de mim. A luz era laranja. As chamas estavam se aproximando. Não tinha muito tempo.

Olhei para o painel de controle diante de mim e fiquei chocado ao encontrar um display simples com apenas três botões. Escrito acima de cada um estava um número diferente: 9, 6 e 4. O foguete tremeu de antecipação, um rugido ressonante implorando para ser liberado. Levantei meus dedos para os botões e pensei nos grilos. As vozes.

Pressionei os botões com os números 6 e 4.

Imediatamente, o foguete explodiu para cima no céu noturno, a cabine tremendo agressivamente enquanto a pequena nave subia a extensão da noite e vomitava no espaço sideral. As estrelas borravam além da janela acima da minha cabeça e eu agarrei o assento, apavorado, as forças G rasgando meu estômago com uma intensidade miserável.

O farol desapareceu abaixo de mim. O campo. O astronauta. Tive um breve vislumbre do rosto infantil no céu, agora me encarando com raiva através da rachadura nos céus, mas então isso também foi roubado da minha visão enquanto minha pequena nave disparava cada vez mais longe, rachando o teto da atmosfera e me enviando de cabeça para o que quer que viesse a seguir.

Senti minha consciência se esvaindo à medida que as forças G pressionavam mais forte contra mim. Agarrei meus olhos na janela pela última vez e, à medida que a escuridão obstruía os cantos da visão, vi algo novo entrar no meu campo de visão.

Era a Terra.

Não tenho certeza de quando voltei a mim. Lembro-me de muito barulho. Médicos. Enfermeiras. Um exército inteiro de funcionários do governo e cientistas, todos me encarando, me fazendo perguntas em vozes muito altas. Andei na linha entre a consciência e o sono por algo que pareceu dias. Lembro-me de contar o que havia acontecido comigo a um grupo de homens de jaleco muito preocupados, mas não conseguiria repetir se você colocasse uma arma na minha cabeça. Tudo estava tão nebuloso. Tudo parecia errado.

À medida que os dias se transformavam em semanas, minha memória começou a se juntar novamente. Muito disso foi ajudado pelos visitantes que eu tinha. Eles encaixaram os componentes-chave que eu procurava desesperadamente. À medida que o mistério do que aconteceu foi revelado para mim, mais o horror daquele lugar veio à tona.

Porque você vê… eu havia feito parte de uma missão orquestrada pela NASA. Eles haviam encontrado algo terrivelmente perto do nosso planeta. Uma anormalidade. Uma lágrima no espaço. Um buraco que não deveria estar lá. Toda sonda que eles enviaram para a ondulação desapareceu sem deixar vestígios assim que passou. O mistério e o perigo potencial dessa nova descoberta enviaram ondas de choque pelo mundo. As pessoas estavam chamando isso de fim dos tempos. A religião ressurgiu com nova vida e as massas correram para as igrejas, convencidas de que este era o início do julgamento de Deus. Mas à medida que o tempo passava e nada acontecia, as opiniões sobre o estranho portal mudaram. Em breve, as pessoas começaram a acreditar que esta era uma porta de entrada.

Uma porta direta para o céu.

E não eram apenas os espirituais que acreditavam nisso. Eram os cientistas e astrônomos também. Claro, eles não acreditavam que essa lágrima levava ao céu, mas acreditavam que levava a algum lugar fora dos reinos da nossa realidade.

E assim a NASA começou a formar uma equipe, um grupo de pessoas que levaria uma única nave direto para a boca da besta.

Eu havia estado nessa equipe.

Gostaria de poder explicar os detalhes do que aconteceu quando entramos, mas não há nada na minha memória além de um vazio tão escuro quanto o próprio espaço. Eles me dizem que outras quatro pessoas estavam comigo em nossa missão. Nenhum deles voltou.

Não sei para onde fomos. Não sei quem era aquele homem no traje espacial. Não sei por que ele escolheu me ajudar. Aquela nave espacial que ele me empurrou para dentro… a NASA a recuperou, junto comigo. Eles ainda não descobriram exatamente o que é. Mas ela me levou para casa. Aterrissei a alguns quilômetros da costa do Pacífico, na Califórnia. Não me lembro muito disso, no entanto.

Há mais um detalhe que me assombra. Mais um fato que me arrepia. Aquela varanda… aquele campo e a mata… essa é a única lembrança que tenho daquele lugar. Repetidamente, essa memória persiste. Abrindo a cerveja. O canto dos grilos. A brisa. Uma noite, um pedaço de tempo do tamanho de uma hora.

O que me aterroriza sobre isso é que alguém me disse que é o ano de 2018.

Minha equipe deixou a Terra em 1987.

Se esse fato aterrorizante for verdade… então como é que só consigo me lembrar de uma hora do meu tempo quando fiquei preso naquele lugar por trinta e um anos?

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Minha cidade proibiu todos de dormir por 72 horas

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Sempre associei meu aniversário àquela época deprimente do ano, onde um outono aconchegante se transforma em uma decadência precoce do inverno. Onde folhas coloridas morrem, deixando para trás uma casca marrom murcha. Mesmo assim, espera-se que as pessoas comemorem seus aniversários. É estranho se não comemorarmos. Pra mim não.

Minha noiva me perguntou recentemente por que nunca comemoro meu aniversário, e é difícil de explicar. Quando você passa por algo traumático, tudo meio que o traz de volta àquele momento, de uma forma ou de outra. E embora eu adorasse contar a ela sobre isso, acho que não posso fazê-lo sem parecer um maníaco. Pensei em começar contando minha história anonimamente e partir daí.

Foi no ano em que completei 13 anos. “Since U Be been Gone” tocava no rádio a cada hora do dia. Meus amigos e eu estávamos citando religiosamente “How I meet Your Mother”. Foi uma boa época para ser criança.

Como meu aniversário foi no meio da semana escolar, meus grandes planos de aniversário foram adiados para o próximo fim de semana. Ainda assim, eu não podia reclamar. Bolo de aniversário numa terça-feira não parecia tão ruim assim. Cheguei em casa, fiz uma pequena comemoração com meus pais e abri alguns presentes. Dois novos jogos para meu PlayStation 2 – perfeito!

Terminei meu dever de casa e naveguei na internet algumas horas antes da hora marcada para dormir, quando ouvi uma batida na porta. Raramente recebíamos visitas, então ter alguém batendo à nossa porta às 22h era incomum, para dizer o mínimo.

Meus pais já haviam aberto a porta quando eu estava na metade da escada. Havia um homem com uma jaqueta elegante e uma prancheta do lado de fora, junto com dois guardas armados. Eu meio que cheguei no meio da conversa.

“… então precisamos que você assine o formulário de consentimento e começaremos”, disse o homem da prancheta. “Alguma pergunta?”

“Isso não pode ser certo”, disse minha mãe. “Que tipo de autoridade você …”

“Senhora, isso é uma emergência. Fomos autorizados a trazer qualquer pessoa, se necessário, mas prometo que será uma experiência menos agradável do que a que você poderia conseguir aqui no conforto da sua casa.”

À medida que a discussão continuava, os homens armados invadiram a casa. Eles tinham uma espécie de lista de verificação que estavam examinando, fazendo perguntas enquanto cutucavam e vasculhavam. Alguém mencionou um telefone via satélite, que não tínhamos. Corri de volta para cima.

Da minha janela, eu podia vê-los colocando travas nas rodas do nosso carro. Eles também estavam testando algum tipo de equipamento elétrico e, ao fazê-lo, pude ver a conexão com a Internet do meu computador desaparecer. Meu celular perdeu todas as barras de sinal e, embora eu não tenha verificado, suspeitei que eles também tivessem feito algo com nosso telefone fixo. Eles estavam nos isolando; colocando-nos sob algum tipo de bloqueio. Eu ainda não tinha a menor ideia de quem eram essas pessoas. Não havia crachás, distintivos, classificações ou símbolos. Apenas um bando de homens de aparência séria, usando blusões e coldres de armas visíveis.

Depois de alguns minutos, um dos homens entrou no meu quarto. Meus pais ficaram muito preocupados, mas foram orientados a esperar do lado de fora. O homem tinha cerca de 1,80m e parecia alguém que poderia me matar com as próprias mãos se fosse necessário. Sem dizer uma palavra, ele começou a mexer nas minhas coisas.

“Você tem algum walkie-talkie?” ele perguntou. “Algum projeto científico de rádio, algo assim?”

“Não”, eu disse, balançando a cabeça. “Eu tenho um PlayStation 2?”

“Ele pode ficar online, certo?”

Nunca tive oportunidade de responder antes de minha mãe acrescentar;

“Não o deixamos jogar online”, disse ela. “Não pode fazer isso.”

Como que para ter certeza, ele puxou o cabo de alimentação e colocou-o em um saco lacrado junto com várias bugigangas e chaves que haviam recolhido. Eles não queriam se arriscas e eu não jogaria meus novos jogos tão cedo, ao que parecia.

Quando eles terminaram a inspeção improvisada da casa, fomos convidados a nos reunir no andar de baixo. O homem elegante com a prancheta pigarreou e a sala ficou em um silêncio mortal. Mesmo meu pai, que geralmente era um homem muito assertivo, não tinha muito a acrescentar à conversa. Foi assim que você soube que era sério.

“Durante 72 horas, este e os bairros vizinhos ficarão bloqueados”, explicou o homem. “Há um problema localizado relacionado a um evento geológico recente que causou alguns problemas inesperados. Tenho certeza de que você notou algumas pequenas esquisitices ultimamente.”

“Como o que?” Meu pai acrescentou.

“Leite azedando. As plantas da casa ficam com uma tonalidade de cor estranha. Enxames de sapos atravancando as estradas.”

Meus pais não disseram nada, mas assentiram. Talvez eles tivessem visto algo que eu não tinha.

O homem largou a prancheta enquanto explicava com calma.

“Vocês foram expostos a algo semelhante a um produto químico. Reage violentamente à liberação de certos hormônios associados ao sono REM profundo. Para garantir a sua segurança, estamos  aplicando uma proibição temporária de sono por 72 horas.”

“Com licença?”

Meu pai deu um passo à frente, mas um dos homens armados respondeu na mesma moeda. Ambos pararam antes que a situação aumentasse.

“A exposição ocorreu há aproximadamente 9 horas, o que significa que você ainda tem cerca de 63 horas pela frente. Isso será aproximadamente até 13h da sexta-feira.

“Não há como nós-”

“Isso não é negociável. Esta é uma questão de sua segurança, senhor. Temos um site de atendimento emergencial de saúde, mas posso prometer que não será nada agradável. Você será induzido quimicamente à insônia durante toda a exposição, até que o evento passe. Pode causar danos cerebrais duradouros.”

Cada um de nós recebeu uma pasta explicando nossas responsabilidades e direitos. Uma pasta vermelha sem identificação com três papéis; um explicando seu direito de nos forçar isso, outro explicando que já havíamos assinado os papéis de consentimento e um terceiro era um formulário explicando exatamente quando poderíamos dormir. Havia também um formulário de inventário listando os itens que deveriam nos devolver no final da contenção.

Deixaram uma caixa com 50 frascos de vidro; algum tipo de injeção de reforço de 4 horas. O homem explicou que os menores não deveriam tomar mais do que um a cada 7 horas e que minha mãe, se estivesse grávida, não deveria tomar nenhum. Felizmente, minha mãe não estava grávida. Eu sou filho único.

Também recebemos barras de fibra com algum tipo de suplemento hormonal. Sem marca e sem marca, mas quente. Talvez eles tenham sido feitos recentemente. A embalagem era, na melhor das hipóteses, desleixada.

O homem elegante estava tentando o seu melhor para explicar, e pude ver que meus pais estavam ansiosos para ouvir, mas eu mal entendi metade. Em vez disso, olhei para os guardas armados. Eles pareciam exaustos. Talvez eles também não tivessem permissão para dormir. Um deles estava com a boca aberta e quase babava, piscando um olho de cada vez. Eu poderia jurar que ele cochilou por um segundo, o que o levou a dar um passeio lá fora.

“Não sei se conseguiremos fazer isso”, queixou-se minha mãe. “É… é pedir muito, nós apenas-“

“Se em algum momento você não puder fazer isso, você precisa ligar para este número. É o único número que funciona”, disse o homem, apontando para a última linha da última página da pasta. “Se alguém adormecer e não conseguir acordar em alguns minutos, corre um perigo terrível. Se isso acontecer, tente mantê-los acordados de qualquer maneira até que possamos chegar aqui para buscá-los.”

“E então eles serão-”

“Levados para nosso local, onde serão induzidos quimicamente a permanecerem acordados.”

“Então o que exatamente acontece se… se alguém não sobreviver?” minha mãe perguntou. “Se todos nós apenas… adormecermos?”

O homem balançou a cabeça, batendo na prancheta com a caneta.

“Provavelmente morrerão.”

Enquanto eles iam até a cozinha para explicar os detalhes, o guarda furioso se aproximou de mim com a sacola lacrada – devolvendo-me o cabo de alimentação do PlayStation 2. Ele me deu um tapinha no ombro.

“Verifiquei com a equipe de tecnologia”, disse ele. “Você pode ficar com isso. E, hum… feliz aniversário.

Quase tinha esquecido que era meu aniversário. Apreciei o gesto, mas simplesmente não consegui sorrir. Eu tinha muitas perguntas borbulhando na minha cabeça e estava com muito medo de falar.

Eles provavelmente conversaram por mais uns 20 minutos antes de os homens partirem; deixando meus pais e eu sozinhos na cozinha. Minha mãe estava fumando embaixo do ventilador da cozinha. Eu só a vi fumar duas vezes; uma vez, quando ela perdeu o emprego, e outra vez, quando seu pai ficou doente. Fumar na cozinha era uma maneira infalível de saber que algo estava errado. Papai estava sentado com os braços cruzados, olhando para a caixa de doses de reforço.

“Isso não é uma piada”, meu pai finalmente disse. “Isso é muito sério. Todos nós precisaremos ajudar uns aos outros para superar isso.”

Mamãe não disse nada, mas pude ver suas mãos tremendo. Ela estava chorando. Ela tremia tanto que a cinza do cigarro não chegou ao cinzeiro – apenas caiu no fogão.

“Não podemos ficar sozinhos”, continuou o pai. “Faremos o nosso melhor para nos manter ocupados. Você pode jogar quantos jogos quiser, mas não adormeça.”

“Eles devolveram meu cabo de alimentação”, eu disse. “Isso significa que posso usar o PlayStation?”

“Está tudo bem,” mamãe tossiu. “Está tudo bem, querido. Jogue seus jogos.

Nas primeiras horas, não entendi qual era o problema. Não há mais escola durante o resto da semana, não há hora de dormir e tempo de tela ilimitado? Isso não parecia tão ruim.

Joguei até tarde da noite. Resident Evil 4 e GTA San Andreans e eu me diverti muito. Comi alguns salgadinhos, junto com uma daquelas barras de fibra. Tinham gosto de gravetos e passas, mas isso acalmou meu cérebro. Não cansei, mas facilitou a concentração. Também tornou mais difícil fechar os olhos, fazendo minhas pálpebras coçarem.

Todas as luzes da casa permaneceram acesas durante toda a noite. Mamãe e papai continuavam tocando música no aparelho de som do andar de baixo e tentavam desesperadamente me manter envolvido. Eu estava bastante envolvido apenas jogando, então acho que foi mais para o benefício deles do que para mim.

Às 5 da manhã, papai tomou sua primeira injeção de reforço. Eu podia ouvir lá de cima, ele estava xingando bastante. Aparentemente, essas coisas tinham gosto de uma mistura de arroz velho e morte. Mamãe tomou a primeira dose cerca de meia hora depois, mas misturou com suco de laranja. Aparentemente isso ajudou.

Às 7 da manhã, até eu estava sentindo isso. Eu nunca tinha passado a noite inteira jogando jogos assim em um dia de aula antes. Claro, eu passava a noite toda com meus amigos, mas geralmente era algo para o qual nos preparávamos. Então, de manhã cedo, pude sentir que estava cochilando. Meus pais estavam me verificando de vez em quando e decidiram agir. Estávamos tomando café da manhã em família, fingindo que já havíamos dormido.

“Você está sempre mal-humorado de manhã”, disse a mãe. “Tente imaginar… isso é apenas isso. Outra manhã mal-humorada.

Eu sabia com certeza que eles colocaram um dos reforços no meu cereal. Vi três frascos vazios no balcão e sabia que nenhum deles havia tomado um segundo ainda. Ainda assim, não tive escolha a não ser tentar. Ainda não estávamos nem na metade da contenção.

Quando terminamos o café da manhã, pudemos ouvir uma agitação lá fora. Eu estava lá em cima escovando os dentes, olhando pela janela do corredor. Foram nossos vizinhos. Larry Peterson, o homem de 55 anos que trabalhava com suprimentos de pesca no minishopping local, saiu pela porta da frente. Ele estava jogando algo preto e azul na calçada. Eu nunca tinha visto esse homem fazer algo mais desgastante fisicamente do que tentar ligar um cortador de grama, e agora ele estava engatinhando como se sua vida dependesse disso.

Eu podia ouvir sua esposa chamando lá dentro. Ela estava gritando com ele, mas eu não conseguia ouvir o quê. Larry se levantou e quase pulou na traseira de sua caminhonete, numa demonstração de capacidade atlética que eu nunca tinha visto nele antes. Só quando sua esposa saiu de casa é que pude ouvir o que ela estava dizendo.

“Larry!” ela chorou. “Larry, acorde!”

Vi Larry Peterson pegar uma chave inglesa, sair da caminhonete e agarrar a esposa pelos cabelos. De repente, uma mão cobriu meus olhos enquanto meu pai me arrastava para longe da janela. Pude ouvir um grito se transformar em um gargarejo, seguido por uma risada calorosa – uma que eu já tinha ouvido milhares de vezes antes. O mesmo tipo de risada que Larry Peterson dava sempre que meu pai tentava fazer um trocadilho ruim. Minha mente me pintou um quadro do que tinha acontecido, e não foi nada bonito.

Meu pai me virou e olhou nos meus olhos. Eu poderia dizer que ele não era ele mesmo – havia rugas em seu rosto que eu não tinha visto antes.

“Fique comigo e com a mãe”, disse ele. “Não olhe para fora. As pessoas estão ficando doentes.”

“Estamos ficando doentes, pai?” Eu perguntei, um bocejo me escapando.

Ele me sacudiu um pouco, como se quisesse ter certeza de que eu estava prestando atenção.

“Vamos ficar bem”, disse ele. “É só uma questão de tempo. Mas não quero que você veja pessoas se machucando. Larry não está se sentindo bem.

Houve uma batida na porta da frente. Papai agiu enquanto mamãe se escondia no quarto. Lembro-me de estar no topo da escada, olhando por cima do corrimão para o andar de baixo. Houve uma batida violenta e furiosa na porta. A risada suave de Larry Peterson, vinda do outro lado. Ele não disse nada; ele apenas bateu na porta com sua chave inglesa, rindo enquanto tentava entrar.

Ele andou ao redor casa, sacudindo nossas janelas. Ele não foi muito longe antes que pudéssemos ouvir um carro chegando. Houve um som de estalo, mas não como um tiro. Acho que eles deram um choque nele. Quando ouvi Larry Peterson ser arrastado, minha mãe subiu com um sorriso colado no rosto, me pedindo para mostrar a ela o quão longe eu havia chegado em meus novos jogos. Ela estava claramente tentando me manter distraído, mas eu não me importei. Nesse ponto, eu queria desesperadamente me distrair.

Eu poderia imaginar Larry Peterson do outro lado da porta da frente, sua camiseta branca manchada com aquela estranha gosma preta e azul que ele vomitou, empunhando aquela chave inglesa com um aperto maníaco. A coisa era tão grande quanto meu braço e era de metal sólido. Eu nunca considerei isso uma arma, mas pensar nisso fez meu sangue gelar.

Ele realmente matou a Sra. Peterson?

Por quê?

Mamãe e eu passamos as horas seguintes jogando videogame. Também fizemos um plano. Examinamos nossos DVDs antigos e decidimos um horário de exibição. Ela havia planejado originalmente uma caminhada, mas agora não deveríamos sair de casa. Ela não quis dizer o porquê, mas tive a sensação de que havia algo fora da casa dos Peterson que ela não queria que eu visse. Manchas de sangue, talvez. Eu estava com muito medo de descobrir.

Meus pais fizeram o possível para manter o bom humor, mas eu sabia que isso os estava afetando. Meu pai ficava ali parado, encostado na porta, olhando para frente, como se estivesse em transe. Mamãe tentou se ocupar jogando e assistindo DVDs comigo, mas estava contando os minutos até conseguir a próxima dose de reforço. Eu não estava com vontade de tomar um, eles me deram enjôo no estômago.

Seguimos nosso roteiro até o meio-dia. Papai estava tendo problemas para ficar acordado e continuava lavando a cabeça com água fria. Ele tentava se manter ocupado fazendo tarefas domésticas que havia reservado para um dia chuvoso, mas havia distrações constantes. Podíamos ouvir sirenes à distância e, a certa altura, alguém borrifava a porta e as janelas da frente com uma mangueira de água de alta pressão; possivelmente para lavar os últimos vestígios de Larry Peterson. Havia patrulhas caninas subindo e descendo a rua, junto com telefonemas ocasionais. O único número que ainda funcionava, para onde alguém ligou para ter certeza de que estávamos todos acordados e atentos.

Na hora do jantar, minha mãe estava com problemas de estômago. Seu tremor piorou e ela estava tendo problemas com mudanças repentinas de cheiros. Papai ficava esfregando os olhos e verificando o relógio, levantando-se a cada dez minutos ou mais só para se movimentar. Tínhamos decidido que iríamos jogar jogos de tabuleiro depois do jantar, mas mamãe estava tendo dificuldade para não vomitar.

Acabamos reaquecendo uma lasanha de alguns dias atrás. Não me importei, minha mãe fez uma lasanha incrível, mas meu apetite foi rapidamente perdido quando vi minha mãe mal conseguindo se recompor. Ela continuou babando e fazendo um barulho estranho. Ela estava piscando cada vez mais devagar. Papai tentou fazer com que ela comesse uma das barras de fibra, mas ela simplesmente saiu correndo da cozinha – trancando-se no banheiro.

Foi difícil por um tempo. Eu podia sentir meu coração disparado enquanto meu pai tentava convencê-la a destrancar a porta, mas ela simplesmente não obedecia. Depois de um tempo, ela parou de responder. Papai teve que quebrar a maçaneta com um martelo, mas já era tarde – ela já estava dormindo. Eu podia ouvir através da porta.

Quando a porta se abriu, minha mãe só dormiu por alguns segundos. Um minuto no máximo. Mas ela estava sentada no vaso sanitário, com a cabeça inclinada para trás, e algo saía de sua boca. Pontas dos dedos pretas e azuis, aparecendo na borda dos lábios. Sua garganta ondulava.

No momento em que meu pai a agarrou, ela inclinou a cabeça para frente, tossindo. Papai lavou o rosto dela na pia, enquanto gritava para eu esperar no outro cômodo.

Por alguns minutos, fiquei sentado ali – pronto para correr ou me esconder. Talvez tenha sido tarde demais, pensei. Ela já poderia ter sido afetada, como Larry Peterson. Eu podia ouvi-los discutindo na outra sala, e enquanto suas vozes passavam de irritadas a desesperadas e depois tristes, eu não sabia o que fazer.

Quando finalmente voltaram, sentaram-me para explicar que ficaríamos bem. Que estávamos quase na metade e que estávamos na reta final. Eles foram tão gentis, calorosos e cuidadosos na maneira como explicaram tudo – mas minha mente estava a milhares de quilômetros de distância. Tive dificuldade para me concentrar e tudo em que conseguia pensar era naquele barulho estranho que ouvia ao fundo. Algo lá fora.

Papai estava explicando que não iríamos mais trancar as portas do banheiro quando algo dentro de mim gritou para eu reagir. Foi apenas um leve clique, mas estava claro como o dia. Talvez tenham sido aquelas doses de reforço, mas continuei hiperfocando nos pequenos detalhes, em vez de nas coisas gerais, como uma conversa real acontecendo na minha frente.

Fechei os olhos e, não menos de um segundo depois, houve um grande estrondo.

Alguém estava atirando em nós.

Foram apenas alguns tiros, mas caímos no chão. Um tiro ficou alojado na porta da frente, enquanto o outro quebrou a janela da cozinha. Havia vozes altas do lado de fora, rindo histericamente. Eles estavam conversando, mas quase não faziam sentido. Um deles parecia que estava tentando falar com comida na boca.

Mamãe e papai ficaram quietos enquanto mais dois tiros disparavam; um deles acertou a luz da cozinha. Com uma faísca elétrica; apagando a maior parte da cozinha. Eu podia ouvir alguém correndo e rindo enquanto continuavam pela rua. Ao longe, houve mais tiros – talvez alguém respondendo na mesma moeda.

“Não podemos ficar aqui”, sussurrou a mãe. “Precisamos ligar para eles.”

“Você quer ir para onde colocaram Larry?” papai respondeu. “Ir para um hospital cheio dessas pessoas?”

“Eles estão atirando em nós. Não podemos simplesmente-”

Mamãe se acalmou e olhou para mim. Ela e meu pai pediram licença para conversar em particular enquanto me pediam para subir. Eu deveria ficar longe das janelas e não podia sentar ou deitar. Eles virão me ver daqui a pouco.

Mas é claro que eu estava muito curioso. Enquanto ainda os ouvia discutir lá embaixo, verifiquei uma janela no andar de cima. Eu podia ver bem longe a rua e, ao longe, pude distinguir um carro parado na beira da estrada. Os faróis ainda estavam acesos, mas estava cercado por, pelo menos, seis pessoas. Dois deles estavam vestidos como os guardas armados que vimos antes.

Demorei um pouco para perceber que havia um velho sentado naquele carro. Eu o tinha visto algumas vezes, mas não sabia seu nome.

As pessoas ao redor tentavam quebrar as janelas do carro com várias armas. Ferros para pneus, tijolos, martelos, canos de chumbo… tudo o que pudessem encontrar. Não demorou muito para eles romperem. Eles estenderam a mão para puxar o homem. Estava muito longe para ouvir seus gritos, mas pude ver vagamente o que eles estavam fazendo. Eles o seguraram e cobriram seu rosto com as mãos. Seus olhos, sua boca, seus ouvidos; deixando apenas o nariz para respirar.

Então eles simplesmente ficaram sentados lá.

Levei um momento para perceber o que eles estavam fazendo; eles o estavam forçando a dormir.

Depois de alguns minutos, eles o soltaram. O velho levantou-se lentamente, encostou-se no carro e começou a vomitar. Depois de um tempo, a mesma gosma azul e preta que eu tinha visto em Larry Peterson começou a escorrer de sua boca; parando apenas quando tossiu algum tipo de coágulo que mal cabia em sua boca. Um coágulo que se moveu.

Ao endireitar as costas, ele olhou para o grupo estranho e eles caminharam juntos pela rua. Alguns correram. Um deles rastejou, mas parecia que ele segurava algo com os dentes. Ou isso, ou algo estava saindo de sua boca. Algo longo.

Enquanto eles corriam pela rua, pude ouvir mais tiros. Ao longe, vindo de outro lado, pude avistar outro grupo de pessoas. Pelo menos uma dúzia, mas indo em outra direção. Gangues itinerantes de doentes privados de sono. Deus sabe como isso os afetou a longo prazo.

Quando meus pais terminaram de discutir, eles me sentaram para explicar que íamos ficar em casa e longe das janelas. Estávamos trancando todas as portas e janelas, fechando todas as cortinas e não tocando nada mais alto do que o necessário. Devíamos chamar o mínimo de atenção possível. Claro, eu concordei. Que escolha eu tive?

Naquela noite, percebi que as coisas estavam piorando. Papai quase tomou uma dose dupla de doses de reforço porque esqueceu que havia tomado a primeira, mas mamãe o impediu. Não houve nenhum telefonema; eles pararam de nos verificar. Mamãe até tentou ligar, mas a linha estava desligada. Os tiros lá fora estavam mais distantes, mas eram mais frequentes. Podíamos ouvir carros buzinando, mas nenhuma sirene.

Depois houve incêndios. Pelo menos dois, em algum lugar no centro da cidade. Podíamos ver as chaminés de longe.

Mamãe não estava bem. Ela não conseguia comer e às vezes mal conseguia ficar de pé. Ela continuou falando em voz alta, mesmo que não houvesse ninguém na sala com ela, e ela teve que se apoiar nas coisas para se manter de pé. Ela não conseguia manter as barras de fibra abaixadas e andava com a cabeça balançando para frente e para trás. Papai fez o possível para mantê-la ativa, mas também estava tendo problemas. Não importa quantos jatos de água ele levasse o rosto, ele simplesmente não conseguia ficar atento.

Eu também não estava indo bem, mas nem de longe tão mal. Eu ainda estava com apetite e tomei as injeções de reforço, mas pude sentir os efeitos colaterais. Minhas mãos tremiam e eu estava com uma dor de cabeça terrível. Houve uns beliscões no meu pescoço, como se alguém estivesse me dando um choque com uma bateria molhada. Eu imagino coisas se movendo fora da minha visão. Continuei me virando para olhar as janelas quando comecei a ter alucinações.

Pela manhã, houve um novo problema. Tanto a energia quanto a água foram cortadas.

Havia um pequeno lago a uma curta caminhada da casa, e não tivemos escolha a não ser tentar pegar um pouco de água manualmente. Tínhamos um pouco de água potável na cozinha, mas precisávamos de um pouco para o banheiro. Mamãe se ofereceu para ir, mas isso estava fora de questão; ela mal conseguia ficar de pé ou fazer uma frase coerente. Não houve discussão; papai teve que fazer isso.

Nós o observamos de uma das janelas do andar de cima. O sol tinha acabado de nascer, banhando a paisagem murcha com sombras longas e nítidas e um brilho doentio. Mamãe estava olhando fixamente para frente, como se tentasse lembrar o que era tão importante.

“Seu… Seu aniversário está chegando, não é?” ela disse em voz alta.

“Isso foi terça-feira”, respondi.

“Você… você queria envelhecer?” ela perguntou. “Eu desejo isso. Eu quero que você seja… capaz de envelhecer.

Ela olhou para mim e riu loucamente. Ela piscou um olho de cada vez; seu olho esquerdo demora um pouco mais que o direito. Seus olhos estavam fundos e escuros, e ela continuava vesga. Acho que ela tinha boas intenções, mas aquele olhar que ela me lançou foi nada menos que aterrorizante. Era como se ela tivesse sido reduzida ao seu eu mais básico. Minha mãe ainda estava lá em algum lugar, mas a maior parte simplesmente… desapareceu.

Depois de cerca de uma hora, vi meu pai voltando. Mamãe e eu ficamos aliviados, mas não durou muito. Notei que ele não estava carregando água. Momentos depois, pude ver que ele não estava sozinho. Havia cerca de duas dúzias de pessoas vindo com ele. Mamãe não pareceu reagir. Ela apenas olhou pela janela e acenou com a cabeça para si mesma. Por um momento, ela quase adormeceu em pé; sua boca se movendo para cima e para baixo sozinha como um robalo fora d’água. Eu pude ver algo se movendo em sua garganta.

Eu a balancei e, num momento de clareza, ela olhou pela janela novamente. Quando ouvi algo bater à porta do andar de baixo, minha mãe me empurrou para dentro do armário. Ela desceu correndo para pegar as doses de reforço restantes e jogou tudo em mim junto com seu relógio de pulso e algumas barras de fibra.

“Alguém… alguém virá buscar você”, disse ela. “Apenas espere. Apenas espere e… e fique acordado querido. Eu… vou tentar pensar em alguma coisa.

Não tive tempo de protestar antes que ela fechasse o armário. Pude ouvir uma chave deslizando na fechadura do andar de baixo. Papai pode ter esquecido algo sobre quem ele era; mas ele não tinha esquecido como usar as chaves de casa.

Fiquei ali sentado no escuro, ouvindo. Eu me enrolei como uma bola, mas não queria ficar muito confortável. Eu podia ouvir os móveis sendo revirados. Vozes desconhecidas gritando obscenidades ou bobagens incoerentes. Começou uma briga e pude ouvir alguém jogando alguma coisa. Outra pessoa subiu as escadas correndo e entrou no banheiro, chutando repetidamente a banheira.

Uma mulher gritou, depois um homem. Houve um tiro, seguido de janelas quebradas. Pude ouvir um grito abafado, como se alguém estivesse sendo pressionado; talvez como fizeram com o velho lá fora, na noite anterior.

Devo ter ficado ali sentado por horas. No escuro, era difícil dizer se meus olhos estavam abertos ou não. Eu não sabia se estava realmente ouvindo alguma coisa lá fora ou se estava apenas imaginando. Eu podia ouvir vozes e sussurros, mas não pareciam fazer sentido. Às vezes eu os imaginava parados do lado de fora da minha porta, me pedindo os códigos dos jogos que eu havia jogado. Tudo o que eu tinha para fazer companhia à minha sanidade mental era o relógio de pulso da minha mãe, e eu mal conseguia distingui-lo.

O tempo passou tão estranhamente. Eu poderia ficar envolvido em um pensamento pelo que pareceram horas, mas apenas alguns minutos se passaram. Então eu me pegaria olhando para frente e duas horas poderiam desaparecer. Continuei repetindo a próxima hora programada para a dose de reforço como um mantra.

Mas as coisas estavam ficando mais estranhas. O relógio andaria para trás. Eu imaginaria alguém sentado à minha frente; um par de olhos brancos olhando para mim no escuro. Havia pequenas vozes me dizendo para dormir, e eu comecei a cochilar. Eu podia sentir algo se movendo dentro de mim, como uma mão tentando encaixar uma luva.

Finalmente desisti e saí do armário. Eu mal conseguia ficar de pé enquanto arrastava as doses de reforço e as barras de fibra em um saco plástico. Eu não me importava se havia alguém lá embaixo, eu precisava ver alguma coisa. Eu precisava de luz ou algum tipo de estímulo.

A casa inteira estava destruída. Cada móvel quebrado. Cada lampada. Havia respingos de sangue nas paredes e a porta da frente estava pendurada em uma única dobradiça. Todas as janelas foram quebradas e nossos porta-retratos foram jogados pela sala como estrelas ninja. Mas o mais estranho era um cheiro acre vindo da cozinha.

No começo, não entendi o que era. Parecia uma pessoa, mas havia o número errado de membros. Depois de alguns segundos de ajuste e tentando me forçar à clareza, percebi que era um cadáver. Um jovem com uma faca enfiada no peito, esparramado no chão da cozinha. Sua mandíbula estava estendida e quebrada de um lado.

Havia um braço preto e azul saindo de sua garganta, subindo para agarrar sua própria cabeça.

Algo em mim se mexeu. Algo em mim não gostava do que estava vendo e eu não tinha certeza se era eu ou alguma outra coisa. Tentei empurrá-lo para baixo com uma barra de fibra, o que, estranhamente, funcionou.

Saí atordoado. Eu não sabia o que fazer. Parte de mim queria encontrar meus pais, outra parte queria sair da cidade. Queria procurar uma bicicleta, ou simplesmente começar a caminhar, ou pegar um ônibus. É claro que não havia ônibus para pegar, mas minha mente privada de sono não conseguia mais separar os fatos da ficção.

Aquela noite inteira foi um pesadelo de longa duração. Fiquei imaginando coisas saindo da escuridão. Eu podia ouvir vozes me dizendo para me virar, parar, correr; de uma vez. Eu mal conseguia manter o equilíbrio, mesmo que por um momento, me faria dormir imediatamente. Eu tive que continuar. Até tomei uma injeção extra de reforço, o que só me deu uma forte dor nas articulações e me fez suar. Eu poderia dizer que tinha feito algo estúpido.

Peguei um atalho pelo parque. Eu podia ver rostos saindo das árvores. Vi um homem caído de bruços no caminho de cascalho, sendo arrastado para frente por um braço que saía de sua boca. Vi um homem à beira do lago, batendo repetidamente com os braços na superfície da água fria, como uma criança maníaca tentando mergulhar o mais alto possível.

Parte disso era real. Parte disso não era. Eu não sabia dizer qual era qual. Não mais.

Quando finalmente cheguei ao centro da cidade, vi pelo menos duas dúzias de pessoas reunidas em frente a um prédio em chamas. Todos eles com braços pretos e azuis saindo da boca, estendendo-se em direção às chamas, como se soprassem lentamente o ar em direção a eles. Como algas humanas movendo-se contra uma corrente invisível, eles se inclinavam para frente e para trás em uníssono, elogiando qualquer caos que tivessem causado sem uma palavra ou som. E ainda assim, eu podia ouvi-los. Me dando as boas-vindas. Acenando para mim. Todas as vozes únicas, levadas até mim por um vento imperceptível.

“Chegue mais perto”, implorou. “Você pertence aqui.”

Eu me virei e as vozes ficaram mais altas. Desesperado. Gritando. Exigindo minha atenção, minha devoção. Alguns deles vindos de fora; alguns deles vindo do barulho do meu estômago.

“Já está aqui”, riu. “Isso nunca irá embora. Nunca dormirá. Isso nunca vai parar.”

Mãos se estenderam para mim. Um rosto em cada janela. Vozes saindo de baixo do concreto.

Tiroteio. Janelas quebradas. Vidros quebrando sob minhas botas de borracha enquanto eu passava por carros queimados.

Estava escuro, depois claro e depois escuro novamente.

E em algum momento, eu sucumbi. Senti concreto contra minha bochecha, mas não consegui me levantar. Minhas pernas não se moviam. Meus olhos não abriam.

“Sim!” as vozes riram. “Venha! Isso, venha até nós! Venha queimar conosco!

E então, escuridão.

Não sei quanto tempo fiquei fora. Horas. Talvez meio dia. Acordei e vi um homem correndo em minha direção, perguntando se eu estava bem. Um carro parou, banhando-me com uma luz quente. Na beira da estrada, uma colônia de sapos olhou para mim. Ao longe, meus olhos pousaram em um girassol descolorido. Ficou azul. É estranho como você não percebe as mudanças mais óbvias até que elas olhem de frente para você.

Acontece que a exposição aconteceu pelo menos 6 horas antes do previsto pelo homem com a prancheta, e eu fiquei acordado por tempo suficiente para que a maior parte do efeito passasse pelo meu sistema. Fui encontrado inconsciente na beira da rodovia, a cerca de 15 quilômetros de minha casa. Embora eu tenha tido um sono desconfortável e sem sonhos, os efeitos que isso teve sobre mim não foram nem de longe tão ruins quanto o que aconteceu com a maior parte da vizinhança.

Tenho certeza que você já ouviu falar disso. “Motins”, como eles chamavam. Apenas mais uma bagunça em uma área de baixa renda. Acho que nem chegou ao noticiário nacional.

Algumas das pessoas que sucumbiram precocemente sofreram danos cerebrais permanentes. Larry Peterson nunca mais foi o mesmo, mas era difícil dizer se era por causa do trauma emocional ou do sono. De qualquer forma, ele precisava que uma enfermeira cuidasse dele algumas vezes por semana pelo resto da vida.

Mamãe e papai também não ficaram completamente ilesos. Mamãe desenvolveu algum tipo de narcolepsia depois daquela noite, cochilando espontaneamente nos momentos mais inoportunos. Papai perdeu o paladar e o olfato. Até hoje, eles têm dificuldade em explicar exatamente o que vivenciaram. Para eles, era como dormir e ter um pesadelo horrível; apenas para acordar em uma cama de hospital.

Às vezes me pergunto se adormeci . Algumas das coisas que vi eram tão estranhas que não havia como saber se eram reais ou não. Lembro-me vividamente daquela cena de mãos balançando de um lado para outro do lado de fora daquele prédio em chamas no centro da cidade. Tinha que ser real. Aquele prédio realmente queimou.

Como você pode imaginar, tenho dificuldade em olhar para trás e ver isso. Pensar muito nisso me dá uma sensação de gelo na boca do estômago, como se uma pequena parte de mim acreditasse que tudo isso foi apenas um grande pesadelo. Que ainda estou a apenas um tique-taque de acordar naquele armário, com alguém parado do lado de fora, esperando por mim.

Ou talvez seja algo dentro de mim, ainda esperando para tomar as rédeas.

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Há algo muito estranho com minha namorada

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Acho que você poderia dizer que conheci Emily no trabalho.

Era pouco antes do Natal. Os feriados são sempre ruins para os hospitais, mas naquela noite eu juro que a cidade enlouqueceu. Os pacientes chegavam mais rápido do que podíamos tratá-los: colisões no trânsito, tiros, agressões, vítimas de queimaduras e uma série de tentativas de suicídio, das quais Emily foi a mais memorável. Com a pele coberta de cortes longos e inflamados como listras de tigre, lábios rachados e queimaduras de corda brilhantes em volta do pescoço, era como se alguém tivesse tentado transformar uma estátua de mármore em uma piñata de Halloween.

A extensão total de seus ferimentos ficou clara na mesa de operação. Sem entrar em detalhes, ficou evidente que ela passou muito tempo se machucando. As feridas recentes mascaravam muitas cicatrizes, juntamente com traumas mais profundos e muito mais antigos.

Para encurtar a história, ela sobreviveu.

Fiquei de olho nela nos dias seguintes. Ninguém veio visitá-la na UTI. Nem família, nem amigos, nem outra pessoa importante.

Eu serei honesto; Sinto que não pertenço à enfermagem. Não porque eu seja ruim no meu trabalho – na verdade, estou mais perto da excelência, mas porque meus pacientes me assombram.
Os que vivem, os que morrem, até mesmo suas famílias – todos ficam comigo, não importa o quanto eu tente me desconectar. Emily não foi diferente. Na verdade, ela me preocupou mais do que o normal. A crueldade de sua automutilação, juntamente com as histórias de terror implícitas em seus ferimentos mais antigos, me tocaram profundamente. O mesmo aconteceu com sua solidão.

Depois que ela recebeu alta da UTI, decidi ir vê-la. Fui no dia seguinte de folga e tive a precaução de levar minha bolsa de ginástica caso precisasse de uma desculpa para sair.

Bati no batente da porta. Ela olhou para mim com indiferença. As cavidades sob seus olhos estavam tão pronunciadas como sempre, e ela tinha uma aparência muito particular — algo que a fazia parecer ao mesmo tempo muito velha e muito jovem — que associo a pessoas que estão esperando para morrer.

“Eu sou enfermeiro. Aqui no hospital” eu disse sem jeito. “Eu estava no seu consultório na noite em que você chegou.”

Ela deu um sorriso fino que não alcançou seus olhos. “Obrigada.”

“Não há necessidade. Eu só queria ver… — respirei fundo, me amaldiçoando por minha estupidez —… perguntar como você está.

Seu rosto não suavizou, certamente não ficou quente, mas algo mudou; um lampejo de alerta, uma sombra de interesse. “Tão bem quanto você esperaria.”

Isso foi um erro, percebi. Minha presença era inútil, na melhor das hipóteses, prejudicial, na pior, e provavelmente violava a política do hospital. Eu precisava ir embora.

“Eu não quero incomodar você. Mas eu ficaria feliz que você estivesse aqui. Quero dizer, não aqui, no hospital, mas… aqui.  – Eu mal podia acreditar nas palavras que saíam da minha boca. Eu queria afundar no chão e desaparecer.

Nervosamente balancei minha bolsa de um ombro para outro, mas perdi o controle e ela deslizou para o chão, espalhando uma cascata de canetas, recibos e roupas pelo chão. Observei com horror um velho frasco de perfume — algo que pertenceu a uma ex, algo que nem deveria levar para o hospital — deslizando para baixo da cama dela.

Caí de joelhos e rapidamente coloquei tudo de volta na minha bolsa. Puta merda, eu fui estúpido. Essa não era apenas uma situação ridícula e potencialmente problemática de se iniciar, mas também nada profissional.

Não percebi que Emily tinha saído da cama até que ela estava na minha frente, colocando meu short de ginástica de volta na bolsa.

“Senhorita, você precisa voltar para a cama.”

“Eu vou.” Ela me lançou um olhar cuidadoso e avaliador. “Qual o seu nome?”

“Téo.”

O fantasma de um sorriso tocou sua boca. Ainda sentia falta dos olhos dela. “Emily.”

Não consegui sair de lá rápido o suficiente e não a visitei novamente.

Mas algumas semanas depois, encontrei uma caixa no meu armário do hospital. Eu realmente não pensei sobre isso: não é incomum receber coisas como Pen drives e ímãs de representantes farmacêuticos. Abri e para minha surpresa, encontrei um frasco de perfume. Achei que era o que eu tinha deixado no quarto de Emily, mas não; embora fosse o mesmo perfume, era um frasco totalmente novo. Também havia uma nota:

Apenas substituindo o que roubei, mas podemos trocar se quiser.

Emily

Embaixo havia um número de telefone.

Mesmo sabendo melhor, liguei para ela depois do meu turno.

Ficou óbvio desde o início que Emily precisava desesperadamente de companhia: ela não tinha ninguém; sem família, sem amigos. Ninguém além de mim.

Foi difícil estar com ela. Emily era extremamente frugal com seus sentimentos e seu tempo. Ela tendia a mergulhar no silêncio do rádio, muitas vezes por vários dias seguidos, antes de voltar à minha vida como se nada tivesse acontecido. Eu não teria tolerado isso de mais ninguém, mas Emily não era como qualquer outra pessoa.

Eu denunciei isso uma vez, cheio de raiva justificada e uma sólida medida de suspeita. A resposta de Emily foi um sorriso sombrio e incerto, que era desarmante por sua franqueza. Emily nunca estava aberta. Ela guardava seus sentimentos como se sua vida dependesse disso. Então aquele sorriso – aquele sorriso triste, de auto-aversão e brutalmente honesto – me desarmou completamente.

“Eu sei que é errado”, disse ela. “Mas às vezes me canso de me impor a você.”

Eu quase pude entender. De maneiras que não consegui identificar, Emily estava sempre à beira do precipício. Ela precisava muito, mas não sabia como pedir. Mais de uma vez entrei no apartamento dela e a encontrei enrolada na cama, chorando. Ela nunca me disse o que estava errado. Nunca me disse o que ela estava sentindo ou pensando. Às vezes, estar com ela era como estar em um hangar escuro como breu. A porta estava ali e eu sabia que a chave estava em algum lugar próximo, mas era tão vasta e tão escura que não havia chance de encontrá-la.

Mas nem sempre foi ruim.

Ela gostava de ir a lugares. Restaurantes, parques nacionais, praias, parques de diversões. Seu lugar favorito era uma praia isolada cercada por altas falésias rochosas. Nessas excursões ela parecia viva. Eu adorava estar com ela em dias assim.

Mais importante ainda, me senti confortável com ela. Eu não sentia que a conhecia há toda a minha vida — na verdade, na maioria das vezes parecia que eu não a conhecia — mas senti que nos encaixávamos. Que pertencíamos.

Às vezes eu tinha certeza de que ela sentia o mesmo. Ela costumava ser gentil e calorosa, como se tivesse orgulho de estar comigo. Às vezes ela olhava para mim, realmente olhava para mim, como se tivesse esquecido que todo o resto existia. Em momentos como este, ela sorria. E o sorriso sempre alcançava seus olhos.

Mas com a mesma frequência, parecia que ela estava se rebelando contra esse sentimento de pertencimento. Ela estava quieta a ponto de não se comunicar e irritantemente distante. Distante o suficiente, na verdade, que frequentemente pensei em terminar o relacionamento. Mas nunca cheguei a esse ponto porque Emily possuía uma habilidade incrível de diminuir essa distância antes que eu pudesse puxar o gatilho metafórico.

Como eu disse, foi difícil. Mas eu a amava e queria estar com ela. Mesmo quando as coisas começaram a piorar, mesmo quando ela ficou cada vez mais distante, mesmo quando ela começou a ficar cruel, eu disse a mim mesmo que valia a pena.

Tivemos nossa primeira briga de verdade no nosso segundo aniversário. Não me lembro do que se tratava ou de quem era a culpa. Só me lembro do desprezo frio, quase desumano, com que ela me olhava. Eu nunca na minha vida fui olhado do jeito que ela olhou para mim naquela noite, e isso me destruiu.

Então eu disse a ela que tínhamos terminado e saí de lá o mais rápido que meu carro me levou. Fui até a praia, encostei meu carro no canto mais distante do estacionamento e chorei por uma garota pela primeira vez na vida.

Quando terminei, recostei-me e respirei fundo. Deixei escapar lentamente, em turnos, como um trem apitando. Para minha surpresa, me senti calmo. Acalmado, relaxado, limpo.

Inferno, eu me sentia bem.

Essa era a pior parte de tudo: perceber que me sentia melhor sem Emily.

Ela não ficou fora, no entanto. Na verdade, ela veio me ver apenas duas noites depois. Seus olhos estavam arregalados e quase vazios. Como uma boneca. Deixei-a entrar porque a amava e depois pedi uma pizza. Comemos em silêncio no meu pátio enquanto o alaranjado brilhante do pôr do sol escureciam até a noite.

Finalmente, ela disse: “Sinto muito”.

“Eu sei, Emily.”

Ela passou as mãos pelos cabelos. Captou a luz moribunda e pareceu brilhar. “Eu sei que algo está errado comigo. Eu não sei como consertar isso. Eu nem acho que isso possa ser consertado.”

Esperei em silêncio, fixando meus olhos nas últimas faixas coloridas do céu.

“Não me sinto mais humana. Talvez seja esse o problema. Eu não deveria ser humana, nem deveria estar aqui, e eu sei disso.” Sua voz falhou. “Você estaria melhor sem mim.”

E ela mal parecia humana na escuridão que caía: olhos impossivelmente arregalados, pele macia como porcelana tingida de ouro, cabelos brilhando na luz fraca. Estremeci e desviei o olhar.

Eu esperava que ela chorasse, mas ela não chorou. Ela cruzou os braços sobre o peito e se recusou a olhar para mim. Então, em vez disso, olhei para ela, sentindo-me amargo, impotente e, acima de tudo, culpado. Porque sim, eu estaria melhor sem ela. Os últimos dois dias foram como férias. Eu me senti livre e leve, como se o sol finalmente tivesse nascido depois de um longo pesadelo.

Mas a meu próprio convite, a escuridão caiu. Minha boneca de porcelana, minha estátua de mármore, minha noite sem fim, sentada mais uma vez à minha direita.

Ficamos sentados, em silêncio, juntos, por horas. Finalmente levei-a para a cama e fiz tudo o que pude para que ela se sentisse humana novamente.

Mas nada melhorou.

Piorou aos trancos e barrancos. Chegou ao ponto em que Emily não expressava qualquer emoção, a menos que estivéssemos brigando. Ela começou a arrumar brigas todos os dias. Ela disse as piores coisas imagináveis. Às vezes ela simplesmente ia embora depois e ficava fora por dias. De uma forma perversa, eu ansiava por isso. Não porque eu não a amasse — amava, com tudo em mim —, mas porque sempre me sentia melhor quando ela estala longe.

Mas ela nunca ficou fora por muito tempo. Ela voltava e se desculpava, dizendo que não sabia por que fez o que fez, e acho que até acreditei nela por um tempo. A automutilação atroz que ela infligiu após cada altercação foi convincente, assim como suas lágrimas e seu instinto de fugir. Para me poupar.

Eu queria mais do que tudo que Emily tivesse um pouco de paz. Talvez fosse meu ego falando, mas eu senti que era a melhor chance que ela tinha de encontrá-la.

Depois que cometi o erro de dizer isso a ela, seu desejo de parar de se impor a mim transformou-se abruptamente em recusas constantes de voltar para casa. Infinito porque sempre fui procurá-la com medo de que ela se prejudicasse irrevogavelmente. Geralmente ela ficava enrolada em algum lugar no chão do apartamento, ou na banheira, cantando canções de ninar ou sussurrando longas sequências de bobagens: “Por favor, Deus, cuidado com o feijão, o corvo canta asas de anjo, fé maça-verde do tamanho de um grão de mostarda… Deus por favor, por favor, Deus, cuidado com o feijão…”

Sempre ela estava chorando. E quando as orações sem sentido acabavam, ela finalmente falaria comigo.

Vá embora, ela diria.

Vá.

*Pare de tentar me ajudar.

Vá se foder.

Apenas vá se foder, ok?

Isso não vai funcionar. Isso nunca iria funcionar.

Não vai funcionar porque não sou mais humana.

Eu quero que você se machuque.

Eu preciso que você se machuque.

Lembro-me da nossa última briga com perfeita clareza.

Pela primeira vez, eu comecei. Estabeleci um ultimato: procure ajuda – ajuda de verdade, medicação, terapia e todo tipo de tratamento psiquiátrico disponível – ou então, suma da minha vida para sempre.

“Eles não podem me ajudar!” ela gritou. “Você não entende?”

“Entender o quê?”

“Eu quero que você se machuque!”

“Me machucar ?”

“Eu quero que você se machuque! E nada vai mudar isso! Nada vai ajudar! Está feito, tudo está acabado, não há nada que possa mudar!”

“Deve ter algo que possa te ajudar, Emily!”

“Não tem! Está feito! Acabamos!”

“Ótimo então!” Lágrimas arderam em meus olhos. Olhei para ela e rezei para que não caíssem. “Eu não posso mais fazer isso.”

Ela sorriu miseravelmente enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. “O que você não pode fazer, Theo?” Ela enxugou o rosto. “O que você não pode fazer?”

O tempo parou por um instante terrível. Eu a observei. As palavras vomitaram na minha garganta, colidiram umas com as outras e ficaram presas. Eram muitas. Eu estava engasgado com o que queria dizer, o que precisava dizer e o que não deveria dizer.

O sorriso horrível de Emily transformou-se numa carranca. O tempo voltou a existir. E em algum lugar dentro de mim, uma represa se rompeu.

“Eu não posso lidar com você! Não posso passar a vida tentando consertar você quando você nem tenta se consertar! Você não fala comigo! Eu não sei nada sobre você! Você não vai me dizer o que você é, ou por que você é o que é! Você está roubando todo o meu tempo, Emily, e às vezes acho que não é porque você precisa, mas só porque pode !

Ela empalideceu. De pele lisa e pálida, uma boneca de porcelana, uma estátua de mármore. Totalmente desumana.

Então ela saiu e bateu a porta com tanta força que minhas paredes tremeram. A porta da frente do meu vizinho se abriu. O que eles pensariam quando vissem Emily, me perguntei? Ela pareceria uma escultura para eles? Como algo que não era mais humana? Ou será que a veriam como ela realmente era — uma pessoa que sofreu muita dor por muito tempo para sequer sonhar que uma vida com menos dor fosse possível?

Fiquei sentado sozinho, chorando enquanto a noite escurecia e a lua subia.

Minha tristeza foi amarga e dolorosa, nascida principalmente da culpa. Mas quando terminei, me senti limpo e vazio novamente. Eu estava em paz. Eu estava bem. Eu estava livre.

No final das contas, eu realmente estava melhor sem Emily.

Eu poderia respirar, poderia pensar e poderia me mover. Era como se alguém tivesse arrancado uma bigorna de minhas entranhas ou cortado cordas que me esmagavam lentamente, como os constritores fazem com os ratos. Algo dentro de mim, algo que estava preso, estava livre.

Mas a liberdade é solitária e a solidão é amarga. Levei uma semana para começar a sentir falta dela e mais uma semana para que aquela sensação de perda se tornasse intolerável, até mesmo dolorosa.

Certa manhã, acordei lúcido e determinado. Eu precisava falar com Emily. Eu precisava vê-la, precisava me desculpar, precisava garantir que sempre estaria ao seu lado.

Entrei no trabalho sentindo-me revigorado e animado. Eu estava pronto para isso. Pronto para ser o que ela precisasse que eu fosse, desta vez para sempre.

Quando cheguei ao posto de enfermagem, vi algo inesperado na minha caixa de correspondência: uma pequena caixa branca. Uma sensação de mau presságio tomou conta de mim.

Eu rasguei. Dentro havia um relógio de pulso barato. Atrás dele havia um bilhete com a letra de Emily:

Apenas substituindo o que roubei.

O turno seguinte foi o mais longo da minha vida. Quando finalmente acabou, corri até o apartamento dela. Ela não atendeu a porta quando toquei a campainha, então liguei para o telefone dela. Foi direto para a caixa postal. Liguei de novo e de novo e de novo.

Temendo o pior, continuei batendo na porta dela. Eu não tinha percebido quanto barulho estava fazendo até a chegada da polícia. Eu estava frenético. Expliquei quem eu era e por que estava lá, que Emily lutava contra a ideação suicida, que eu tinha terminado com ela recentemente e estava com medo que ela tivesse se machucado e, solicitei por favor, uma vistoria de previdência agora mesmo?

A polícia obedeceu. Mas Emily não estava no apartamento dela. O carro dela também não estava na garagem. A policial me disse que ela provavelmente tinha tirado férias, ido embora para clarear a cabeça.

Pedi que ligassem para o trabalho dela, mas estava fechado naquele dia. Os policiais disseram que tentariam pela manhã, mas enquanto isso, que eu não me estresse. Ela está bem, eles disseram. Ela está bem.

Eu não comprei a ideia, então entrei no carro e fui até a praia favorita dela. Era uma noite nublada e ventosa que ameaçava chover. O estacionamento estava vazio, exceto por um carro dolorosamente familiar.

O carro de Emily.

Espiei pela janela do motorista. Ela não estava lá dentro, mas seu telefone estava no porta-copos.

Mais assustado do que jamais estive na vida, corri pela praia até os penhascos.

O vento correu em minha direção, ardendo em meus olhos e deixando meu rosto em carne viva. O frio era brutal. Mas não diminuí a velocidade, nem voltei, nem sequer pensei enquanto subia a trilha estreita até o topo das falésias, examinando a paisagem sombria. Eu não tinha ideia do que estava procurando, mas disse a mim mesmo que saberia quando o visse.

E eu fiz.

Algo vibrou na minha visão periferica. Virei-me como uma figura emergindo das sombras: cabelos açoitados pelo vento, olhos brilhantes, casaco vermelho balançando ao vento. Mas não era Emily. Apenas uma pedra grande e irregular empoleirada na beira do penhasco. Emaranhado em torno dele estava seu casaco vermelho.

Eu me aproximei. Cada passo parecia incrivelmente lento e pesado. Mas tudo ao meu redor era claro e nítido. Eu vi tudo: a grama, as vinhas, as pedras, os penhascos, o casaco, até os óculos escuros, presos em uma fenda na rocha, brilhando ao luar como olhos.

Aproximei-me da beira do penhasco e olhei para baixo.

Não havia nada. Nada além de uma queda abrupta e ondas quebrando muito, muito abaixo.

Liguei para a polícia novamente.

Dessa vez eles me levaram a sério, mas não me deixaram ficar. Quando resisti, eles ameaçaram me prender. Então saí gritando e xingando durante todo o caminho para casa, onde joguei tudo que pude pegar nas paredes, destruindo tudo no processo. Foi dolorido, chorando e quase delirando, bebi até dormir.

Tive um pesadelo com Emily. Ela era uma criança, mas eu a reconheci: olhos claros e arregalados e um emaranhado selvagem de cabelos da cor do nascer do sol. Ela se encolheu em um canto escuro de uma casa ainda mais escura, soluçando sobre as mãos em concha. Aproximei-me timidamente, sentindo que algo estava terrivelmente errado. Olhei para suas mãos e vi uma série de dentes ensanguentados, brilhando levemente. Ela olhou para mim. Eu pulei para trás, assustado. Seu olho estava preto e inchado. Ela soltou um soluço de cortar o coração e vi que os dentes da frente haviam sumido.

Acordei enjoado, lembrando-me de um hábito particular de Emily que eu nunca havia pensado antes: a maneira como ela sempre estendia a mão e cobria a boca sempre que sorria.

Uma semana se passou. Emily continuou desaparecida.

Eu não conseguia trabalhar, não conseguia dormir, não conseguia comer e depois de alguns dias não conseguia nem beber. Eu existia em uma névoa crepuscular de dor, culpa e pânico lento. Então, quando comecei a ver coisas, não fiquei totalmente surpreso.

No início, era a pequeno Emily sentada em um berço imundo no meio da minha sala de estar. Depois, Emily, de seis anos, com as mãos em concha nos dentes da frente quebrados e chorando no canto do meu quarto. A pequena Emily parado diante de um guarda-roupa trancado e sussurrando para as portas. Ela sempre batia suavemente e sussurrava: “Felipe?”

Emily adolescente, cobrindo o rosto ensanguentado com uma toalha. Emily, com cerca de dezenove anos, soluçando tanto que soluçava enquanto girava uma pistola de um lado para o outro sob a luz do lampião. Emily como eu a conhecia, enrolada na cama e gritando em um travesseiro enquanto um cadáver de menino cuidava dela. “Você vai se sentir melhor,” ele acalmou. “Você ficará melhor depois de se machucar.”

Acordei no meio dessa visão, levantei-me com um grito e cobri os olhos.

Quando os abri novamente, Emily ainda estava lá, chorando e sangrando ao meu lado.

Muito feliz por ela ter voltado, voltei para a cama e deitei-me ao lado dela. Ela não parecia me ver ou ouvir. Mas isso não era incomum para ela. Às vezes, tudo o que ela via era sua dor.

Mas eu podia vê-la, senti-la, tocá-la. Estendi a mão e acariciei seu cabelo. De repente, ela olhou para cima, os olhos aterrorizados fixos em um ponto por cima do meu ombro, e gritou. Virei-me e vi uma mulher alta, com longos cabelos escuros e olhos ainda mais escuros.

Voltei-me para Emily, mas ela havia sumido. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram. Fechei os olhos, me forcei a contar até dez e me virei lentamente de novo.

A mulher ainda estava lá, mortalmente pálida, uma paleta marmorizada de branco cadavérico e pura escuridão. Sua boca era enorme, tão grande que distorcia seu rosto. Olhar para isso fez minha mente girar.

“Ela fica melhor quando dói”, sibilou a mulher.

Fechei os olhos e contei até dez. Quando os abri, ela havia sumido.

Por mais difícil que seja descrever como é se apaixonar, é impossível explicar como é perder a cabeça.

Eu não via Emily o tempo todo, mas a via em todos os lugares. Meu apartamento, meu trabalho, na loja, na rua — não importava aonde eu fosse, ela apareceria.

Por mais doentias que fossem, essas alucinações ou manifestações acabaram se tornando uma fonte de conforto. Nas noites em que ela deitava na minha cama ou no chão, eu conseguia dormir ao lado dela. Muitas vezes ela estava quebrada, sangrando ou mancando. Mas era ela. Era Emily. E mesmo que ela não pudesse me sentir ou me ver, eu sentia que estava cumprindo minha promessa: estava lá para ajudá-la.

Mas à medida que os dias se transformavam em semanas, estes fenômenos tornaram-se cada vez mais bizarros e perturbadores. Passei a acreditar que essas alucinações ou visões não eram produto da minha insanidade, ou mesmo de comunicações do além.

Eles eram assombrações.

E não era Emily que me assombrava.

Fiquei cada vez mais convencido de que o que quer que a tivesse levado ao suicídio, o que quer que a tivesse torturado, o que quer que a tivesse quebrado, o que quer que a tivesse assombrado, agora estava me assombrando.

E Deus do céu, era horrível.

Eu só via Emily quando ela estava machucada. Às vezes ela era apenas uma criança; outras vezes, eu tinha certeza de que era ela chorando depois de uma de nossas brigas. Muitas vezes ela estava sozinha, mas também com um algoz.

A mulher de olhos pretos e boca distorcida era a aparição mais frequente. Às vezes ela parecia normal – olhos duros e amargos, mas humanos. Outras vezes ela parecia um demônio, um mosaico marmorizado de luz e sombra corrompidas, com olhos negros que de alguma forma ardiam. Sua boca horrível estava constantemente em movimento: esticando-se, puxando-se e sorrindo, erguendo-se como se quisesse não escorregar do rosto.

Eu a vi arrancar os dentes de Emily com um alicate, vi ela bater nela, esbofeteá-la, queimá-la, quebrar seus ossos.

Quando ela parecia normal, ela não me notou mais do que Emily. Mas quando ela estava em sua forma monstruosa, ela parecia consciente de mim. E ela sempre dizia a mesma coisa: “Ela fica melhor quando sente dor”.

O pai de Emily aparecia com menos frequência. Assim como a mãe, às vezes ele parecia normal: magro e malvado, com queixo pontudo e olhos vazios. Às vezes ele parecia um monstro, retorcido e apodrecido, com olhos bulbosos brotando por toda a pele supurada.

Os pais de Emily eram dolorosamente fáceis de identificar pelo que eram: monstros em pele humana, horríveis como o inferno, mas, à sua maneira, mundanos como lama.

A única coisa que não entendi era a obsessão de Emily pelo guarda-roupa. Estas eram as menos violentas das visões. Na verdade, às vezes elas não eram nem um pouco violentas. Emily ia até o guarda-roupa, batia nervosamente nas portas e falava com alguém chamado Felipe, que nunca atendia.

Mas esses episódios eram poucos e raros.

As assombrações não pararam, mas parei de prestar atenção. Uma grande parte de mim, a parte desnudada pela dor de Emily, começou a formar cicatrizes, a ficar calejada. Depois de um tempo, consegui comer, tomar banho, dormir e até trabalhar, em meio ao sofrimento de Emily.

É perturbadora a facilidade com que consegui ignorar as coisas que estava vendo, os horrores pelos quais ela passou. Eu não gostei de não me importar. Não gostei de sentir o calo espalhado pelo meu coração. Eu queria me importar. Eu queria sentir a indignação, o horror, a dor, tão intensamente quanto nas primeiras semanas.

Mas não consegui.

E eu estava exausto demais para tentar.

Como se sentisse minha crescente desconexão, os fenômenos mudaram abruptamente. Por um tempo, eles se tornaram quase agradáveis: Emily e um menino um pouco mais velho e ruivo, brincando, contando segredos, abraçando-se. Emily falava, mas ele não. Eu não pensei muito nisso. Talvez ele fosse mudo. Ou talvez as assombrações estivessem finalmente perdendo o poder.

Eu deveria saber melhor.

Certa manhã, acordei cedo com o som de crianças rindo baixinho. Olhei para cima e vi Emily dançando à luz do sol enquanto sussurrava uma musiquinha sem sentido: “Olha o feijão, o corvo canta, asas de anjo verde-maçã, fé do tamanho de um grão de mostarda…” enquanto seu irmão executava uma valsa desajeitada e exagerada.

Ele passou e puxou-a para seus braços. “Não!” ele sussurrou. “Assim. Um-dois, um-dois…”

Emily começou a rir histericamente. Ele tentou franzir a testa, mas a alegria dela era contagiante. Logo ambos cobriram a boca com as mãos e estavam se esforçando para manter a alegria sob controle. Eu assisti, sorrindo, enquanto gargalhadas irrompiam por trás de suas mãos.

Então as sombras em um canto se contorceram e escureceram. Então a mãe se materializou: sombra marmorizada, olhos negros brilhantes, boca horrível.

Ela agarrou o menino pelos cabelos e puxou-o para trás. Ele gritou. Ela gritou de volta, chamando-o de uma série de nomes viciosos. Então ela o girou e se curvou, escondendo-o com seu corpo. Ele choramingou e chorou.

E depois de um momento, ele gritou – o grito mais longo, mais feio e mais doloroso que eu já ouvi. Saí da cama e me lancei sobre ela, mas não adiantou; foi como bater em um muro de pedra. Ela se virou e jogou o menino contra o guarda-roupa. Sua cabeça bateu na quina com um estalo alto e nauseante, e ele caiu no chão. O sangue escorria de um corte profundo em sua cabeça e escorria de sua boca. Ele ainda estava vivo, respirando superficialmente. Enquanto eu observava, seus olhos reviraram.

As mãos de Emily ainda estavam sobre a boca. Ela tremeu descontroladamente. Olhos arregalados estavam fixos em seu irmão. Ela observou em silêncio enquanto sua mãe empurrava o menino para dentro do guarda-roupa.

“É melhor que ele esteja machucado agora”, disse sua mãe razoavelmente, não parecendo mais um monstro. “A Dor é o que faz você lembrar.” Ela deu um tapinha afetuoso no ombro de Emily. “É por isso que você não grita mais.”

Então ela se afastou, fundindo-se nas sombras.

Emily a observou partir sem dizer uma palavra.

Durante a semana seguinte, eu a vi em todos os lugares, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto enquanto o fantasma podre de seu irmão cortava sua pele em tiras. Às vezes ela choramingava. De vez em quando ela gritava. Mas principalmente, ela ficou passiva, mordendo os lábios com tanta força que sangraram enquanto as lágrimas escorriam silenciosamente pelo seu rosto.

“Logo vai melhorar, Emily”, Felipe sempre sussurrava. “É sempre melhor depois que você se machuca.”

Havia algo diferente nesses incidentes. Seu irmão frequentemente entrava e saía da realidade como um sinal de TV ruim, às vezes mudando de forma. Mais de uma vez, me peguei olhando não para o menino, mas para a forma retorcida e distorcida da mãe de Emily. Às vezes, o menino desaparecia completamente e eu via apenas Emily, machucando-se enquanto sua mãe ria nas sombras.

A tortura nas mãos de seu irmão persistia ao meu redor, todos os dias: em casa, nas ruas, no carro, até mesmo na sala de cirurgia, onde eu faria o meu melhor para ignorar o jovem Felipe realizando suas próprias cirurgias horríveis, mesmo enquanto eu ajudava os médicos com a deles. A princípio pensei que iria enlouquecer com o horror implacável pelo que Emily havia passado. Mas, mais uma vez, o tormento atingiu um nível insustentável e acabou matando parte de mim. O choque desapareceu e minha empatia também. Em pouco tempo, isso também ficou calejado.

A vida não voltou ao normal, mas chegou a um ponto em que eu poderia fingir que sim, porque nada disso me afetava mais. Eu podia vê-lo, passar por ele, sentar-me ao lado dele e até mesmo ficar deitado ao lado dele agora. Eu estava tão cheio de cicatrizes que podia continuar minha vida como se nada disso tivesse acontecido. E estava tudo bem.

Era melhor assim.

O problema das barragens é que elas eventualmente rompem. O meu se rompeu no trabalho.

A assombração ao meu redor naquele dia era de Emily e seu irmão brincando. Esconde esconde e uma permutação particularmente estranha de ciranda cirandinha.

No meio do meu turno, corri para o refeitório. No momento em que entrei, notei o guarda-roupa. O guarda-roupa onde a mãe de Felipe o enterrou, no meio do refeitório, como se sempre tivesse estado lá.

Os cabelos da minha nuca se arrepiaram. Eu me virei. Com certeza, lá estava Emily, talvez com nove anos, entrando na sala. Ela passou por mim e se ajoelhou em frente ao guarda-roupa, depois juntou as mãos e começou a orar. Olhei ao redor com cuidado. Ninguém estava prestando atenção, então me aproximei cautelosamente.

Mais ou menos na metade da sala, o fedor me atingiu: espesso e pesado, uma doçura corrompida que subiu pelo meu nariz e desceu pela minha garganta. Eu podia ouvir Emily agora: “Por favor, Deus, observe o feijão, o corvo canta, asas de anjo, fé verde-maçã, fé do tamanho de um grão de mostarda, Deus, por favor, faça-o viver, por favor, eu o amo tanto, por favor, traga-o de volta, eu sei que você pode fazer isso , eu sei que quando eu abrir o guarda roupa ele vai ficar bem. Eu tenho fé, sei que ele vai ficar bem. Eu sei que você o trará de volta. Eu te amo. Amém.”

Emily se levantou e respirou fundo. As lágrimas continuaram a escorrer pelo seu rosto. Ela fechou os olhos, pegou o guarda-roupa e abriu as portas.

O fedor irrompeu como um boneco surpresa do inferno. Uma figura caiu, derrubando Emily. Foi um show de terror: rosto inchado, olhos esbugalhados, membros rígidos, tronco inchado, identificável apenas pelos longos e emaranhados cabelos ruivos. Emily chutou enquanto cambaleava para trás, estourando inadvertidamente a barriga distendida como um balão. Ela gritou e eu também.

Acabei sedado e internado em meu próprio hospital.

Tive sonhos terríveis enquanto estava inconsciente. Retalhos de assombrações, de Emily, de seu pobre irmão Felipe.

Ela fica melhor quando dói, pensei febrilmente. Ela fica melhor quando dói.

E em algum lugar na névoa da histeria reprimida pelas drogas, tive uma epifania.

Quando cheguei em casa, o adolescente Emily estava me esperando.

Minha sala era um pesadelo. Ela ficou sentada balançando no meio de tudo isso, curvada e chorando uma canção de ninar para um pequeno pacote em seus braços.

“Era uma abominação.” A voz entediada de sua mãe soou no canto. Olhei para cima, assustado. A mulher encostou-se na parede, com os braços cruzados. “Se você tivesse feito isso sozinho, eu não teria que fazer isso.”

Lágrimas escorreram pelo rosto de Emily. Seus sussurros ficaram mais desesperados à medida que ficavam mais altos. Só que não era uma canção de ninar. Foi a oração dela. “Por favor, Deus, observe o feijão, o corvo canta, asas de anjo, fé verde maçã, do tamanho de um grão de mostarda, Deus, por favor, por favor…”

Eu cheguei mais perto. Era como na noite em que encontrei o casaco dela nas falésias. Cada passo era pesado e lento, cada detalhe nítido, brilhante e nítido, mais claro do que nunca no exato momento em que eu queria ficar cego.

Minhas pernas cederam. Tentei desviar o olhar, mas não consegui. “Por que você não me contou?” Eu sussurrei.

Emily continuou a chorar.

“Por que? Por que você não disse nada? Por que você não me deixou ajudá-lo?

“Observe o feijão, o corvo canta asas de anjo, fé verde maçã do tamanho de uma semente de mostarda…”

“Você queria que eu soubesse. Você deve ter, porque você está me mostrando agora. Então por que você não me contou quando eu poderia ter ajudado você? Por que você não me contou?

Eu me lancei sobre ela, pretendendo fazer não sei o que – agarrá-la, agarrar o bebê, ou simplesmente segurá-los, segurá-los até que meu coração se transformasse inteiramente em pedra e eu não precisasse pensar neles ou sentir por eles. nunca mais – mas meus braços não se fecharam em nada.

Ela se foi.

Deslizei para o chão e fiquei lá, enrolado sobre mim mesmo. Depois de um tempo, vi o menino morto — Felipe, com seu cabelo ruivo emaranhado de sangue e uma boca aberta. Ele deslizou para frente e se agachou na minha frente. “É melhor depois que você se machuca”, ele disse com voz rouca. O coto esfarrapado de sua língua se mexeu na caverna de sua boca. “Sempre.”

Levantei-me e cambaleei até a cozinha. Peguei a primeira coisa que encontrei – uma faca – e fiquei ali, segurando-a pelo que pareceu por um longo tempo.

Depois dobrei a outra mão sobre a lâmina e cortei.

Eu me machuquei até o amanhecer, imitando o que tinha visto: listras e escadas de tigre, queimaduras e hematomas e olhos escurecidos.

Eu me machuquei, porque queria melhorar.

Por volta das dez da manhã, ouvi uma batida na porta. Cambaleei até lá, ignorando a dor que atormentava cada parte do meu corpo, e abri uma fresta da porta.

Foi Emily.

Emily, mais linda do que nunca, esperando que eu a deixasse entrar.

Abri a porta. Ela olhou para mim com incerteza, arregalando os olhos ao perceber meus ferimentos. A angústia apareceu em seu rosto, mas ela não chorou. E por que ela faria isso? Ela machucou muito mais do que eu.

Eu a conduzi para dentro. Ela imediatamente me guiou até o banheiro, me colocou na banheira e entrou. Depois me deu banho com muito cuidado. Cada gesto, cada toque, era extremamente gentil.

Então ela me ajudou e me levou para a cama. Entre alívio, exaustão e perda de sangue, eu já estava quase dormindo. Mas notei algo que me perturbou profundamente.

Quando ela chegou, ela era adorável: saudável e brilhante, com pele de porcelana tingida de ouro, olhos brilhantes, cabelos dourados do nascer do sol. Mas agora ela parecia murcha. Pálida, opaca e esquelética, como se estivesse doente há semanas.

Minha mente tentou juntar as peças, mas antes que pudesse terminar, caí em um sono profundo e sem sonhos. Quando acordei, Emily estava dormindo.

Eu apenas olhei para ela, deleitando-me com sua presença até que minha admiração por seu retorno deu lugar à preocupação.

Precisando falar com ela, saber onde ela esteve, acariciei seu ombro. Então a cutucou. Então a sacudiu. Mas ela não acordou.

Eu a virei. Uma descrença horrorizada caiu sobre mim. Ela parecia morta: pele como papel, olhos fundos, crânio cadavérico, costelas e ossos proeminentes, como se tivesse perdido metade do peso corporal em poucas horas.

Olhei para cima, indefeso e em pânico, e vi uma presença sombria espreitando no canto. Olhos negros brilhantes, um buraco na boca recuado em um rosto pálido.

E de alguma forma eu sabia o que tinha que fazer.

Fui até a cozinha, peguei minha faca e reabri o ferimento na palma da mão esquerda.

Quando voltei para o quarto, Emily estava sentado. Ela ainda parecia terrivelmente doente, mas parecia dez quilos mais pesada e havia um toque de cor em seu rosto. “Não faça isso”, ela disse. “Não melhora.”

“Como você sabe?” O sangue escorria da minha mão e pingava no tapete.

“Porque eu tentei.” Ela se endireitou. “Você viu meu irmão. Felipeo.”

Eu não respondi.

“Tentei. Tentei repetidas vezes e foi tudo o que consegui. Uma sombra podre. Não basta machucar, Theo. Nunca é suficiente apenas machucar.”

Eu a amava mais do que tudo. Eu a amava apesar de tudo. Eu a amava tanto que quase me matei para lhe dar outra vida. Então fui até a cama e sentei ao lado dela. Ela me observou com desconfiança enquanto eu levava a palma da mão ensanguentada até sua boca.

Seu rosto se contorceu, mas ela bebeu.

Emily vivia de dor. Eu tive que me machucar constantemente. Se eu não fizesse isso, ela adoecia e murchava. Dois dias sem nenhum ferimento recente foram suficientes para deixá-la inconsciente de fome.

Então me tornei meu próprio torturador. Facas, agulhas, corda, pedras, alicates, fósforos e muito mais – se pudesse causar algum ferimento, eu usava. A única concessão que fiz foi limitar os ferimentos a locais que pudessem estar escondidos sob as roupas; afinal, eu não poderia continuar apoiando Emily a menos que voltasse a trabalhar.

Ela protestou a princípio. Ela chorou, gritou, lutou.

Mas no final, ela sempre cedeu.

E depois de um tempo, ela mudou.

Sempre achei Emily lindo, mas isso era diferente. Isso foi muito mais. Ela ficou além da beleza: suave e brilhante, firme e sem linhas… absolutamente, transcendentemente adorável.

Ninguém conseguia acreditar que ela voltaria. Parecia um milagre para eles, então eles se juntaram a ela. Seus colegas de trabalho, meus colegas de trabalho, minha família e amigos – todos queriam conhecê-la. Todo mundo queria ser ela.

E Emily – meu estranho, quieto e ansioso Emily, que era tão tímido que mal conseguia falar com pessoas que conhecia – floresceu. Foi como se um interruptor tivesse sido acionado. De repente, ela amou a todos e, como resultado, todos a amaram.

Isso me machucou profundamente. Não porque ela fosse feliz – tudo que eu queria era que ela tivesse uma vida que lhe desse alegria, uma vida onde ela não tivesse que sofrer – mas porque aquele não era Emily. Ou pelo menos não foi o Emily por quem me apaixonei.

Mas isso foi o melhor. O Emily que eu amava estava sofrendo demais para viver. Certa vez, ela me disse que não deveria estar viva, mas isso era apenas parcialmente verdade. Ela não deveria viver como antes. Era assim que ela deveria ser: incrivelmente linda e irresistível em todos os sentidos.

Não era o meu Emily, mas o meu Emily não existia mais. Ela não precisava, porque ela estava melhor.

Continuei a me machucar. Chegou ao ponto em que ela chorava todas as noites por causa da minha automutilação. “Você não pode fazer isso. Eu te disse. A dor não é suficiente.”

Mas eu olhava para ela, toda brilhante, linda e saudável, e dizia: “Para mim, é.”

“Você ficará muito melhor sem mim.”

Isso era verdade, mas não o suficiente para me impedir.

Isso durou meses. Tornei-me um especialista em esconder meus ferimentos de amigos, familiares, pacientes e colegas. De todos, exceto Emily.

Para meu alívio, ela finalmente parou de reclamar. Ela até começou a me ajudar. Porque ela queria assumir a responsabilidade, eu acho. E porque tornou muito mais fácil para mim não ter o que fazer, não ter que olhar. Mas acho que principalmente porque descobrimos que quanto mais diretamente ela participava, mais tempo durava o seu rejuvenescimento.

Às vezes, especialmente à noite, com ela dormindo ao meu lado, a insanidade de tudo isso me dominava e eu finalmente admitia para mim mesmo que não conseguiria viver assim por mais um ano, muito menos cinquenta. Mas então eu olhava para Emily, a Emily desumanamente linda dormindo pacificamente pela primeira vez desde que a conheci.

E isso tinha que ser suficiente.

Um dia, realmente foi o suficiente.

Eu me machuquei a ponto de não poder mais trabalhar. Doía andar, sentar, deitar. Mesmo com sedativos, meu sono foi fraco, agitado e cheio de dor.

Emily mal percebeu. Ela estava tão feliz, tão contente, que eu me tornei uma reflexão tardia. Algo para ela cuidar quando voltasse para casa à noite.

Eu estive pensando nisso por dias. É sempre melhor depois que você se machuca. Ela fica melhor quando dói. Não é suficiente. Nenhuma quantidade de dor é suficiente.

A dor a sustentou. Pedaços de mim foram convertidos em dor para ela prosperar. A questão era: isso me tornou uma galinha dos ovos de ouro? Eu só valia alguma coisa enquanto ainda tivesse meio quilo de carne para dar? Ou havia uma solução mais permanente?

Eu não queria viver assim, em agonia perpétua, mas não queria que Emily morresse.

E daí se eu morresse?

A dor não foi suficiente. Mas e a morte?

Certa manhã, acordei e percebi que não via Emily há dois dias. Meu coração doeu e o ressentimento explodiu brevemente. Mas então desapareceu, substituído por uma resolução sombria.

Levantei-me, estremecendo e assobiando de dor. Encontrei os analgésicos de Emily, aqueles que ela me dava sempre que eu deixava. E peguei todos, um por um, até desmaiar. O frasco foi a última coisa que vi: inócuo e laranja, com rótulo meio descascado.

E então eu fui embora.

Em algum lugar na neblina, eu estava vagamente consciente do movimento. De vozes, dos gritos de Emily, de tubos enfiados rudemente na minha garganta, de dores horríveis. Então ficou escuro novamente, escuro e quente. Mas eu não estava sozinho. Emily estava comigo na escuridão. “Você vai melhorar logo”, ela murmurou. “Eu prometo.”

Quando acordei, meus pais estavam no meu quarto, que era no hospital mais próximo. Eles tentaram ser felizes. Eles sorriram, deram abraços, se alegraram. Mas havia sombras por trás dos sorrisos e dos olhos. Escuridão, fria e sem esperança.

E eu sabia antes que eles dissessem uma palavra.

“Acidente de carro.” Minha mãe soluçou. “Sinto muito, querido.”

Eu não conseguia nem respirar. Eu não era bom o suficiente ou forte o suficiente. Eu amava Emily o suficiente para trazê-la de volta à vida, mas não o suficiente para mantê-la viva. Porque no final, no fundo, eu queria melhorar.

As horas se transformaram em dias, que se transformaram em semanas, que se transformaram em meses longos e sombrios.

O pior é que sem ela, melhorei.

Posso respirar novamente. Eu posso me mover. Eu estou livre. Mas a liberdade eventualmente se transforma em solidão, e a solidão é amarga.

Eu estou melhor. Mas ser melhor não é suficiente.

Não está nem perto do suficiente.

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Eu sou uma lenda urbana na minha cidade

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Deixe-me esclarecer, primeiramente eu não sou um monstro, nem um serial killer, nem qualquer tipo de entidade paranormal sobrenatural. Eu sou apenas um cara.

E eu sou invisível. Ou talvez imperceptível seja uma palavra mais adequada.

Passei muito tempo procurando a maneira certa de descrever o que está acontecendo comigo.
Para todos os efeitos, sou quase completamente invisível, inaudível e incapaz de ser notado por outra alma viva. É muito difícil resumir tudo em uma única palavra como essa.

Você provavelmente não acredita em mim. Talvez você me chame de louco, me diga para entrar em contato com alguém para obter ajuda. Mas eu não sou louco. Não tenho como provar isso, mas não estou apenas inventando tudo isso na minha cabeça. Eu tentei de tudo que pude pensar para chamar a atenção de alguém ou encontrar uma maneira de consertar isso.

Comecei pequeno. Liguei para algumas pessoas e tentei falar com elas. Então ouvi enquanto todos desligavam na minha cara. Eles devem ter pensado que simplesmente não conseguiam me ouvir, ou que eu havia ligado para eles por acidente, ou mesmo que eu estava apenas brincando com eles.

Depois fui vê-los pessoalmente. Meus amigos, meu pai. Pessoas que não tinham razão ou direito de me ignorar daquele jeito, me deixaram pensar que eu estava enlouquecendo.

E a partir daí a situação só aumentou. Entrei em pânico e, nesse pânico, fiz algumas coisas estúpidas.

Pulei na cara das pessoas, gritei até ficar com a garganta dolorida, bati panelas, empurrei e chutei pessoas, entrei em casas de estranhos sem ser convidado. Nada disso funcionou. Nada. Nem mesmo a menor reação das pessoas.

Tentei usar um lençol, por mais ridículo que isso seja, pensando bem. Mas tudo o que toco parece também deixar de existir na cabeça das pessoas.

Eu até dei um soco na cara de um cara, com força suficiente para derrubá-lo de bunda. Alguém aleatório andando na rua. Eu estava com tanta raiva mas ele simplesmente não disse nada para mim, não reconhecendo minha existência.

Você sabe o que ele fez? Ele simplesmente se levantou e continuou seu dia. Descendo a rua como se um sem-teto não tivesse o atacado.

É, eu estou sem teto agora. O babaca do meu senhorio nem sequer chamou a polícia quando eu me levantei e desapareci.

Isso tudo me faz parecer muito mal. Pura loucura.

Mas você tem que entender o estado de espírito em que eu estava. Tudo isso, tudo o que acabei de falar, aconteceu principalmente nas primeiras semanas. O desespero me levando à loucura.

Eu me acalmei agora. Tipo, acho que me acostumei. Por cerca de dois anos, observei os olhos das pessoas ficarem vidrados no momento em que entro em uma sala.

Não acho que a maioria das pessoas notaria se vissem do lado fora. Não é uma grande mudança na forma como todos ao meu redor agem, as pessoas não se transformam em zumbis no segundo que chego perto. Eles apenas prestam um pouco menos de atenção, ou um pouco mais, se já estiverem focados em alguma coisa. As pessoas que não fazem nada olham mais para o espaço ou se distraem. E eles sempre olham diretamente através de mim. Como se eu fosse um fantasma.

Eu não sou um fantasma. Obviamente ainda estou vivo se as pessoas estiverem vendo isso.

Demorei um pouco para perceber também. Realmente não é muito óbvio. Mesmo que devesse ter sido, para mim.

Mas acho que tenho uma desculpa. Eu morava no interior e não conversava exatamente com as pessoas diariamente. Eu também costumava prestar muito pouca atenção às outras pessoas. Você poderia dizer que eu era um antissocial. Então provavelmente só posso culpar a mim mesmo.

Talvez seja por isso que estou nesta situação. Eles apenas retribuíram o favor na mesma moeda e pararam de prestar atenção em mim.

Você deve estar se perguntando agora, se eu sou essa aberração invisível divina que com sua própria presença destrói a capacidade de ser percebido… Então como sou uma lenda urbana? Como alguém sabe que eu existo?

Foi por um incrível golpe de sorte, descobri que existe rachaduras nesta invisibilidade.

Ocasionalmente, vejo uma pessoa que se assusta momentaneamente quando me vê, como se eu fosse um vulto. Eles me veem só por uma fração de segundo. Isso me dá esperança.

Mas o mais importante é que mesmo que as pessoas não possam me ver, elas ainda conseguem ver o resultado do que eu faço. Mesmo que esteja atrasado.

O cara que eu soquei sentiu um grande hematoma no rosto alguns minutos depois e considerou isso como se tivesse batido em si mesmo quando “tropeçou” antes.

Eu pego um item ou movo-o de lugar e as pessoas não me veem pegando, mas percebem que ele sumiu algum tempo depois.

E aqui está o importante. Eu posso escrever algo, fazer uma anotação em um pedaço de papel e as pessoas podem ler. É assim que você está lendo isso agora.

Fiz o meu melhor para tornar a minha presença conhecida nesta cidade. Eu deixo isso bem óbvio quando estou esgueirado em algum lugar. Deixo bilhetes em todos os lugares que vou, dizendo às pessoas que estou lá. Eu movo as coisas das pessoas de maneira óbvia para que quando encontrem também encontre meu bilhete e saibam que fui eu.

A maioria das pessoas pensam que é uma farsa, e a enorme quantidade de imitadores pela cidade não ajuda a afastar essa ideia. Mas eles sabem que eu existo, mesmo que não pensem que sou real. Isso é melhor do que não existir. Eu sou o fantasma, o homem invisível. E tenho orgulho disso.

Claro, não sou egocêntrico o suficiente para falar apenas sobre mim. E embora eu esteja perfeitamente feliz em contar minha própria história e divulgar mais provas de minha existência, cheguei a um lugar como este. O que significa que eu deveria ter uma história assustadora para contar. Uma que vai arrepiar sua pele e ficar na sua cabeça.

Eu tenho algumas histórias assim.

Minha situação me coloca em uma posição única para investigar algumas das outras lendas urbanas desta cidade. Coisas que em comparação, fazem minha situação parecer inofensiva.

Vou começar com aquele com o qual tenho mais experiência pessoal. Este por si só pode dar uma ideia de como as coisas ficam piores na minha cidade.

Não existe um nome verdadeiro para eles, mas muitas pessoas os chamam de “fantasmas”. Ou apenas fantasmas. Não é o tipo de coisa que você leria online, porque é tudo muito fácil de descartar.

Solavancos durante a noite, formas nos cantos dos olhos, a sensação distinta de que alguém ou algo está te observando. Coisas que todo mundo já experimentou.

Mas estes são reais.

As pessoas que ficam fora até tarde da noite em uma área muito deserta aqui desaparecem com bastante frequência. Eu diria quatro em cada dez vezes. A maioria nunca mais é vista, mas ocasionalmente um corpo aparece. Agredido, como se um animal o atacasse.

Mas as imagens de segurança magicamente nunca parecem mostrar nada, mesmo que apontem diretamente para onde o corpo foi parar. Nunca há relatos de testemunhas oculares. Ninguém sabe como eles são. Mas as consequências da situação são sempre dolorosamente reais e perturbadoras.

Soa familiar? Pois é… É difícil não acreditar em tudo isso quando você está vivendo isso.

Eles não são como eu, no entanto. Eles são invisíveis como eu, mas quase certamente por escolha própria.

Eu nunca os vi. Mas eu os ouvi. Há muito tempo, desde antes eu era assim. E cheguei perigosamente perto de um deles, mais recentemente.

Foi há relativamente pouco tempo, mas ainda faz um bom tempo. Se eu tivesse que ser específico, talvez cerca de seis meses. Estava chovendo, então eu estava dormindo em uma velha casa abandonada em uma das partes menos povoadas da cidade. Foi quando eu ouvi.

Ouvi o som quebrar pela janela, o que me acordou e me colocou em alerta total. Ouvi seus passos arrastados enquanto andava pela sala de estar. Ouvi falar.

Não havia emoção em sua voz, nenhuma entonação ou volume específico. Estava claro. Não sussurrando, não gritando. Apenas dizendo, em tom nivelado, a palavra “Olá”. De novo e de novo. A cada dois segundos ele repetia a palavra.

Estava fraco, mas à medida que se aproximava da sala em que eu estava, pude ouvi-lo melhor. Do outro lado daquela porta.

Havia um tipo estranho de ressonância nisso, como se várias pessoas estivessem falando a palavra ao mesmo tempo. Não, nem isso. Era como se a mesma pessoa estivesse falando a palavra em vários tons diferentes ao mesmo tempo.

Não parecia uma pessoa. Parecia algo mal fingindo ser uma pessoa.

Por fim, ouvi-o voltar pelo que imaginei ser a janela, e o som de sua voz desapareceu na noite. Não dormi naquela noite. Esperei o sol nascer e a chuva parar e reservei.

Eles não são humanos, nem mesmo qualquer coisa que possa ter sido um ser humano. Eles não poderiam estar. Nada com a menor compreensão da humanidade poderia ser um imitador tão pobre.

Claro, nem todas as lendas da minha cidade são tão assustadoras. De qualquer maneira, não para a pessoa comum.

Temos aqui o nosso suposto caçador de fantasmas. Um certo senhor Arronez. Cara grande, usa muito marrom. É de conhecimento comum que, quando há alguma coisa estranha acontecendo, você liga para ele para consertar.

Agora ele não é um agente do governo nem nada, ele é apenas um cara. Mas ele é o verdadeiro negócio.

Como eu sei? Porque ele me viu. Ou, mais precisamente, porque ele me atacou.

Tenho o “prazer” de “conhecê-lo” uma vez, quando estava hospedada na casa de uma senhora idosa. Isso foi antes de eu começar a deixar anotações e talvez seja a razão pela qual faço isso agora, para começar.

Eu realmente não tenho certeza do que a avisou, entre a comida desaparecida, o misterioso chuveiro automático e a cadeira que quebrei acidentalmente. Mas ela descobriu que algo estava acontecendo bem rápido. Sim… eu não era muito inteligente. Embora eu gostaria que você tivesse em mente que isso aconteceu antes do outro incidente.

Quando a polícia apareceu e não encontrou nada, ela ligou para a única pessoa que talvez pudesse lidar com o problema.

Ele entra vestindo seu terno marrom e sua mala e, claro, me vê instantaneamente assim que a senhora abre a porta. Ele a avisa para sair de casa imediatamente.

Estou pasmo aqui, visto que ele é a primeira pessoa a reconhecer minha existência em meses. Então tento conversar com ele.

Ele apenas abre sua maleta e tira um extintor de incêndio. Antes que eu possa dizer outra palavra, ele me borrifa e depois me empurra com força, me mandando para o outro lado da sala.

Agora devo mencionar que esse cara é meio idiota. Seus braços parecem maiores que a minha cabeça e, embora eu tenha certeza de que alguns deles são gordos… muitos deles são músculos. Dito isso, e estou muito orgulhoso disso, consegui derrubá-lo com um empurrão forte. de minha autoria.

E, claro, é então que algo finalmente clica, eu acho, porque ele grita “espere” para mim. Mas a essa altura já estou na metade do quarteirão e quase fora do bairro. Ele não me perseguiu, provavelmente porque seu trabalho era apenas me tirar de casa.

Acima de tudo, não levo isso muito para o lado pessoal. Ele me viu, eu, mas acho que ele não me viu.

Eu o vi algumas vezes desde então, e ele olhou para mim. Ele não tentou me atacar de novo, mas também não tentou falar comigo nem nada. Então não sei ao certo o que ele vê agora.

Escrevi sobre isso principalmente para aliviar um pouco meu humor. É bom pensar que existe alguém por aí que pode ajudar as pessoas com toda essa estranheza. Mesmo que ele não possa necessariamente me ajudar.

Mas também há pessoas por aí que só pioram as coisas.

Há um culto na minha cidade.

Agora eles nunca foram condenados por nada estritamente ilegal, mas não são exatamente o grupo mais amigável.

Eles se autodenominam os previdentes, vendem fortunas às pessoas. Essa é a maior interação que você terá com eles. Eles são reservados. Você nunca os vê na cidade, a menos que estejam fazendo negócios.

E a questão é que a sorte deles é incrivelmente precisa. Eles não podem fornecer detalhes exatos, mas se disserem que algo vai acontecer, é quase certo que acontecerá.

Eles não podem lhe dizer o número ganhador da loteria, mas se você lhes trouxer uma lista de pessoas que compraram um bilhete, eles lhe dirão quem tem maior probabilidade de ganhar.

Eles podem dizer quais de seus amigos traíram sua confiança recentemente.

Eles podem dizer como você morrerá, mas não quando isso acontecerá.

Obviamente, eles são muito populares entre as festas mais obscuras. Políticos que procuram uma vantagem injusta sobre os seus adversários, criminosos que tentam não ser apanhados, esse tipo de pessoas.

A polícia não se envolve. Há rumores de que eles ajudaram a polícia a capturar um serial killer há muito tempo, dando-lhes uma lista de possíveis vítimas. E desde então não mexeram com os previdentes.

Muitas pessoas desapareceram nesta cidade. E os rumores se espalharam rapidamente.

Os previdentes cobram por suas fortunas depois que elas deveriam ter se tornado realidade. Provavelmente para atrair as pessoas. Pessoas que não pagam ou não podem pagar tendem a ser uma daquelas almas infelizes que nunca voltam para casa.

Existem todos os tipos de rumores sobre rituais obscuros e envolvimento de gangues com eles. Provavelmente não é completamente infundado.

Nunca lidei com eles pessoalmente, então não posso apoiar nada disso. Mas quando você ouve muitas coisas ruins como essa, pelo menos parte delas tem que ser verdade, certo?

A última coisa que tenho é o Texas Plains Unicorn. Isso é mais algo sobre o qual as crianças falam na escola do que uma lenda que as pessoas levam a sério por aqui, mas acho que, considerando tudo o mais que falei, vale a pena mencionar pelo menos.

Há uma série de mortes estranhas e inexplicáveis ​​que remontam a 1800, pessoas esmagadas e mutiladas durante a noite no trecho vazio que cerca a cidade. Nunca houve uma explicação de como ou por que essas coisas acontecem. Os corpos simplesmente aparecem.

Este por si só é um dos grandes mistérios da cidade, que certamente seria uma armadilha para turistas e uma discussão divertida para os fanáticos do terror… Se as pessoas ainda não estivessem morrendo assim. Por causa disso, as pessoas geralmente não fazem caminhadas ou acampam por aqui. Apenas para estar seguro.

O unicórnio é quase mais uma piada sombria do que qualquer outra coisa, mas é uma suposta explicação para essas mortes. O boato é que, supostamente nos arredores da cidade, há um monstro parecido com um cavalo que vagueia pelas planícies. Aquele que passa dias perseguindo suas vítimas, aprendendo seus padrões e esperando até que estejam completamente sozinhos. E então acontece.

Sua aparência é a única coisa que as pessoas nunca conseguem estabelecer. Um dia é um unicórnio gigante de seis patas e no outro é uma monstruosidade sem pêlos de pescoço comprido. É por isso que as pessoas realmente não acreditam nisso.

Mas alguns dias tenho a sensação de que não é uma besteira total. Viver lá por um tempo realmente deixa você paranóico. Está quieto e desolado. Houve noites naquela época em que eu poderia jurar que vi algo pela minha janela.

Eu realmente não me lembro mais muito bem daqueles dias. Não com a insanidade da minha vida nos tempos mais recentes.

Isso é tudo que consigo pensar no que diz respeito às lendas urbanas aqui. Pelo menos, tudo que não seja do tipo “tem um fantasma no segundo andar do colégio”.

Não sei se voltarei a postar, mas se postar… Fique de olho.

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Eu explorei uma ala abandonada do inferno

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Era uma porta de cobre com a altura de dois andares colocada diretamente na parede de uma caverna.

 Sua superfície estava esculpida com um vasto e complexo baixo-relevo que incomodava os olhos. Uma mistura nauseante e confusa de corpos humanos amontoados, formando uma massa de carne nua, muitos olhando horrorizados por cima dos ombros enquanto fugiam de algo fora do quadro, invisível. Milhares deles. Famintos e miseráveis, com rostos magros e olhos fundos. Costelas salientes e barrigas inchadas.

Havia rumores de que aquelas figuras se moviam, mas apenas quando ninguém estava olhando.    

Menos de uma semana após sua descoberta, derrubaram a porta com explosivos. Naquele momento, não sabíamos exatamente o que tínhamos encontrado, embora eu tenha certeza de que alguns de nós — especialmente os religiosos — já tinham suas suspeitas. A porta estava errada. Totalmente errada. Ela simplesmente não deveria estar ali. Cavernas naturais não se estendem tão fundo na Grã-Bretanha. Não a mil metros de profundidade.

Como cientistas, deveríamos estar animados, mas todos concordávamos que aquela porta era repulsiva. Olhar para ela por muito tempo despertava um desejo incontrolável de fugir. Talvez uma memória ancestral, da mesma forma que nossos corpos sabem instintivamente evitar criaturas rastejantes e escorregadias. Coisas que apodrecem, zumbem e exalam o fedor da morte e decadência.

Nunca nos disseram como encontraram, nem por que nos fomos designados a esse projeto. Apenas que precisávamos descobrir o que havia do outro lado dessa porta. Quando as cargas explodiram, detonaram como fogos de artifício gigantes. Uma sequência que percorreu todo o contorno do portal, uma por uma. Estrondos ensurdecedores sacudiram a caverna inteira. Pisquei para afastar a poeira dos olhos enquanto as grandes máquinas baixavam a porta, agora solta de seus engates.

Olhando para trás, alguns detalhes vêm mais facilmente do que outros. O ar que escapou dali era quente e seco — e isso não me surpreendeu. Parecia intuitivamente correto. Quer eu admitisse para mim mesmo ou não, desde o início eu pensava naquela porta como um portal para o inferno. E minha imagem mental do inferno era estranhamente medieval: grandes muros de pedra, como os de um castelo antigo. Correntes chacoalhando. O lamento dos condenados. O fedor de enxofre. Deus, até mesmo pequenos demônios vermelhos com chifres e caudas pontudas.

Mas eu não esperava prateleiras e livros. Essa foi a primeira coisa real que vimos.

Prateleiras alinhadas às paredes, escavadas diretamente na mesma rocha da caverna. Subiam muito além do alcance de nossas lanternas, de modo que, quando olhávamos para cima, só víamos escuridão e poeira — mas nunca o fim da fileira infinita. Cada centímetro coberto de livros. Sem lacunas. Apenas poeira e livros de todos os tamanhos: couro, tecido, brochura. Pastéis desbotados, letras douradas em alfabetos familiares e outros completamente estranhos.

E não eram apenas as paredes. O chão estava tomado por pilhas aleatórias de livros, algumas na altura da cabeça, empilhadas como se algum bibliotecário exausto tivesse desistido de encontrar espaço nas prateleiras. Formavam um labirinto, escondendo cantos e portas.

A equipe da frente — eu incluso — avançava com cautela pelo corredor de pedra, atentos a qualquer sinal que desse algum sentido àquele lugar. Devia haver milhares de livros, e isso era apenas no primeiro corredor explorado. Sempre que pegávamos um deles, as páginas se revelavam finas como papel de arroz, quase translúcidas, muitas vezes cobertas por símbolos e letras estranhas, impossíveis de reconhecer. Fora isso, era apenas jargão.

Não que os estudássemos por muito tempo naquele primeiro dia. Sempre que eu pegava um, devolvia rapidamente. Levantá-los me dava a sensação de que estava fazendo algo errado. Inapropriado. Eu detestava o vazio que deixavam nas prateleiras. Uma lacuna como um dente faltando, a escuridão dentro dela girando como águas profundas.

A sensação de segurança ali era apenas uma ilusão. Mexer nos livros parecia um risco de quebrá-la. Não sei como descrever melhor, a não ser que eu não queria fazer nada que pudesse chamar atenção para mim. Era como se estivéssemos expostos demais. Extremamente visíveis.

Não havia sons além dos que nós mesmos produzíamos. Nossa própria respiração.

Nossos próprios passos. O arrastar e o esforço de cada movimento. Podíamos até ouvir os batimentos cardíacos uns dos outros. O bu-bump dissonante de vários peitos batendo como uma bateria quebrada. E, de vez em quando… uma corrida. Um aumento constante na cadência da batida, sempre que dobrávamos uma esquina cega, ou levantávamos um livro apenas para ver o que continha, ou olhávamos para as sombras acima de nós. Cada um de nós continuava tendo falsos alarmes, porque sempre havia aquela expectativa de que veríamos algo. Logo. A qualquer instante. Espremido entre dois livros, ou balançando no alto…

Demorou mais seis horas até que o corredor se abrisse, e quando isso aconteceu ficamos estupefatos. Diante de nós havia um vasto e assustador mezanino, feito de rocha antiga, com vista para um abismo sem fundo visível. Andar após andar, todos tomados por prateleiras cheias de livros. Milhões. Bilhões. E ao longo de todas aquelas paredes e níveis distantes, pequenas aberturas levavam a mais corredores, iguais ao que havíamos acabado de percorrer. Tantos, que era como encarar uma colmeia em ruínas. Olhar para cima, para baixo ou para qualquer direção era se deparar com mais livros do que qualquer ser humano poderia ler em toda a vida.

Fizemos nossa primeira pausa naquele mezanino. Embora os rádios não funcionassem bem ali, tivemos o bom senso de levar fio suficiente para manter uma conexão forte e, por meio dele, conseguimos contatar o local de pesquisa principal e atualizar a situação. Deveríamos continuar por mais seis horas e depois retornar. Um dia, não mais — esse era o plano. Mas até isso parecia tempo demais. Eu queria ir embora. Queria confirmar que, em algum ponto, haveria uma porta que me levaria de volta à realidade, porque desde que entrei ali, parecia que tinha atravessado para um pesadelo. Um lugar onde a realidade era plástica. Dizia a mim mesmo que era apenas a escala descomunal. A estranheza. Mas era mais do que isso. O próprio ar parecia rarefeito.

Éramos seis. Três cientistas e três soldados. Os soldados reagiam à situação com silêncio e um estado de alerta que beirava a paranoia, examinando constantemente a escuridão com as lanternas acopladas nos rifles. Passavam os fachos de luz de uma prateleira alta para outra. Inquietos. Troca de olhares sombrios. De certa forma, eu ficava grato, mas ao mesmo tempo aquilo me deixava nervoso, e não consegui relaxar nem por um instante na primeira metade da pausa.

Acho que era natural que os cientistas começassem a conversar. Parte para preencher o silêncio. Parte para tentar nos convencer de que deveríamos estar animados com as implicações daquela descoberta, fosse qual fosse. Reescrever a história. Arqueologia em um novo patamar. Esse tipo de coisa.

Não demorou até que nos convencêssemos a dar uma olhada mais cuidadosa naqueles livros. Admito que não foi fácil, mas fizemos um bom trabalho em acreditar que não estávamos realmente com medo. Começamos devagar, pegando um livro, abrindo e rapidamente recolocando no lugar. Depois, com uma bravura forçada, pegamos mais e mais, até que cada um de nós estava sentado de pernas cruzadas, com pilhas de livros de cada lado, esperando para serem folheados.

Lembro que em algum momento devo ter me cansado e ergui o olhar por cima da minha própria pilha. Foi quando notei a Dra. Aisling murmurando baixinho enquanto traçava algumas palavras com os dedos.

— O que você encontrou?

— É o alfabeto latino — ela disse. — O primeiro em que reconheço as letras. Alemão, talvez?

Nenhum de nós era linguista, então estávamos apenas tentando adivinhar. Mas, ao ouvir Bea mencionar alemão, um dos soldados se aproximou e olhou para a página aberta.

— Germânico, mas não alemão — disse ele.

— Você fala isso?

Ele assentiu.

— Meu pai é alemão, e eu não sei o que é isso, mas não é alemão.

— Alguma coisa disso é familiar? — Bea perguntou, entregando o livro a ele. Após um breve aceno de seu CO, o Tenente Meikle, ele pegou o volume e começou a folhear as páginas.

— Acho que essa é a palavra para morte. Um tipo de erro de grafia, talvez. Essa aqui… acho que significa algo como querer. Desejar? Não sei. Nem todas as palavras parecem estar no contexto certo também.

— Então eles estão em uma variedade de línguas e alfabetos, mas até agora nada que possamos entender. E você? Teve sorte? — Bea me perguntou, e eu olhei para o livro que tinha em mãos.

— Algum tipo de cirílico, talvez? — Dei de ombros. — Não sou linguista. Definitivamente precisamos do Dr. Sellers na próxima expedição. Tenho certeza de que ele poderia oferecer algum esclarecimento. E você, Dr. Rosenstein?

O terceiro cientista do grupo, um homenzinho careca, permanecia em silêncio, franzindo a testa diante de um dos vários livros abertos à sua frente. Presumi que estivesse apenas curioso, como Bea e eu.

— Grant — chamei, tentando atrair sua atenção. — Ei, Grant! Encontrou alguma coisa?

Seu silêncio me deixou inquieto. Ele não estava apenas absorto. O suor escorria pela testa, veias saltavam em suas têmporas. Estava pálido, os olhos arregalados, os lábios rachados e secos. Os soldados, percebendo os mesmos sinais estranhos que eu, ficaram mais atentos, os corpos enrijecidos.

— Dr. Rosenstein? — um deles perguntou, nervoso. — Doutor? Consegue nos ouvir?

O soldado mais próximo estendeu a mão e tocou seu ombro. O homenzinho então nos olhou como se só naquele instante tivesse percebido nossa presença. No início, pensei que estivesse aliviado, pelo jeito como olhava para cada um de nós com um sorriso bobo no rosto. Mas logo percebi que havia algo errado.

— Oh! — disse ele, soltando uma risada ansiosa. — Oh. Certo. Claro. — Seus olhos corriam entre nós. — Claro. Desculpem. Eu não queria alarmar vocês.

— Certo — respondi. — Bem… estávamos falando sobre os livros. Bea acha que o dela pode ser em algum tipo de alemão ou língua germânica.

Ele assentiu, como se aquilo fizesse todo o sentido.

— Sim, imagino que sim — ele respondeu, enquanto olhava ao redor das prateleiras que se erguiam sobre nós. — Muitas línguas, eu diria.

E então, sem realmente perder o ritmo, acrescentou:

— Eles são pecados.

O grupo ficou em silêncio enquanto cada um tentava entender o que ele acabara de dizer. Nesse meio-tempo, ele se levantou e se espreguiçou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Do que você está falando? — perguntei, quando ficou claro que ele não daria mais detalhes.

— É bem óbvio onde estamos — disse, inclinando-se para a frente e nos olhando sombriamente. — E esses livros são uma lista de todos os nossos pecados. Um para cada um de nós. Então, haverá livros em alemão, tanto contemporâneo quanto histórico, como o que você encontrou, Dra. Aisling. Mas também haverá livros em russo, francês, árabe e chinês. Não apenas línguas contemporâneas. Egípcio antigo. Fenício. Babilônico. Aramaico. Latim. E, claro, línguas perdidas. Aquelas que nunca encontramos, mas que existiram de qualquer maneira. Todas elas. Todas as transgressões do mundo estão bem aqui, registradas na língua original do pecador.

Os soldados já se aproximavam mais, e Bea e eu trocávamos olhares profundamente preocupados. Grant parecia no meio de um colapso, falando de forma frenética e ansiosa, convencido de seu próprio significado, mas sem dizer nada de concreto.

— Grant, acho que precisamos voltar…

— A verdadeira diversão é que acho que vocês encontrarão livros em línguas que ainda não existem — ele desabafou. — Isto não é apenas um registro de pecados do passado. Mas de todos eles. Cada um. Até mesmo aqueles que ainda não cometemos.

— Grant, vou mandar um dos homens voltar com você. Está bem? Acho que você pode não…

— Esses são meus — disse ele, gesticulando para o livro em sua mão. — Todos eles. — Riu. — Não apenas as coisas que eu fiz. Pequenas transgressões, todas registradas com nomes, lugares e até pequenos diagramas. Mas até pecados que eu só pensava. Coisas que eu… queria fazer. E — acrescentou, rindo histericamente — pecados que ainda não cometi.

Ele folheava as páginas aleatoriamente e ria loucamente de algo que apenas ele conseguia ver.

— Embora não sejam muitos! — gargalhou, virando para a página final, lágrimas brotando de seus olhos. — Só um, na verdade. O último! O último pecado que cometerei.

— Grant — comecei a dizer —, acho que você–

Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, ele largou o livro e disparou correndo em direção à saliência mais próxima.


— Foi por aqui que viemos, certo?

Bea estava parada à entrada de um corredor, sua lanterna iluminando um fio que serpenteava pela escuridão.

— Esse é o cabo que carregamos até aqui — disse um dos soldados. — Mas… — o jovem olhou para o seu CO, Tenente Meikle, que segurava uma bússola na mão e não parecia nada satisfeito.

— Não é a direção por onde viemos — disse o mais velho. — Viemos do sul, então precisamos ir para o norte. Seria por esta porta. — Ele apontou para um segundo corredor embutido na parede de pedra.

— Tem que ser esse o caminho — disse Bea. — Confio muito mais nesse cabo do que em uma bússola. Qualquer coisa pode estar interferindo nela. Além disso, sabemos que o cabo leva ao QG, porque o radio ainda está funcionando. Falamos com eles há poucos minutos por esse fio. Ele tem que nos levar para fora daqui.

— Isso faz sentido — acrescentei. — Mas marquei o caminho que seguimos com giz. E essa marca está aqui. — Apontei para uma terceira porta.

— Porra — murmurou Meikle.

— Independentemente disso, eu voto no fio — disse Bea. — Confio mais nele. É uma conexão física.

— Acho que também voto no fio — acrescentou Meikle.

— Eu também. Mas… o que fazemos se estivermos errados? — perguntei. — O que isso significaria? Que alguma coisa moveu o fio? Ou a porta?

Ficamos todos em silêncio por alguns momentos, contemplando isso. Quando ninguém ofereceu uma resposta, puxei minha mochila para cima dos ombros.

— Acho que não temos muita escolha de qualquer maneira.

— Você acha que realmente existe um livro aqui para cada um de nós? — Bea perguntou. Foi a primeira vez em horas que alguém falou. Até então, caminhávamos fixados na escuridão à frente e atrás, atentos a qualquer sinal que confirmasse nossa suspeita febril de que havia algo espreitando no breu.

— Grant parecia acreditar que sim — respondi.

— Então quais as chances de ele ter encontrado o próprio livro? Quero dizer… se ele estiver certo, existem o quê? Cem bilhões de livros ou algo assim?

— Mais — respondi. — Se ele estiver certo sobre a biblioteca conter pecados futuros, além dos passados.

— As chances são bem pequenas, então — ela comentou.

— O que você está pensando?

— Se ele encontrou aqui, não acho que tenha sido coincidência — disse ela.

Mais à frente, um dos soldados parou bruscamente. Com o punho erguido, murmurou algo para os outros, que se ajoelharam e ergueram seus rifles, mirando na escuridão.

— O que foi? — perguntei.

— Você não ouve? — gritou Meikle de volta.

Todos paramos e escutamos com atenção, tentando captar algum som distinto em meio ao ruído branco do sangue em nossos ouvidos e das batidas dos nossos corações. E sim, estava lá. Um farfalhar suave.

Sem precisar combinar, avançamos o mais silenciosamente possível pelo corredor até chegarmos à fonte do barulho estranho. Uma porta — uma que não estava lá quando entramos — deixada ligeiramente entreaberta. Com o rifle erguido, um dos soldados usou o cano para empurrá-la um pouco mais.

— Ah, merda… — disse ele, alto o suficiente para que sua voz ecoasse pelo corredor.

O som foi um choque, e Meikle o puxou de volta, pronto para repreendê-lo, quando todos vimos o que nos esperava do outro lado.

Outro corredor, só que este, tinha prateleiras forradas não com livros, mas com cabeças decepadas. Ressequidos, pálidos e magros.  Fileira após fileira. Todas posicionadas ordenadamente lado a lado, espaçadas com precisão. A pele branca como papel sob a luz intensa de nossas lanternas. E todos os olhos, nublados.

E eles estavam falando.

Em voz baixa. Pequenos sussurros. Eles murmuravam em uma discórdia de lábios úmidos. Sem respiração.  Sem pulmões. Apenas o movimento de mandíbulas flácidas formando sílabas e consoantes que se perdiam naquela cacofonia farfalhante. O som era horrível. Molhado e seco ao mesmo tempo, profundamente perturbador, infiltrando-se em minha pele até me dar uma vontade estranha de atacar as cabeças.

Mas a curiosidade foi mais forte que o nojo, e me aproximei de uma delas. Estremeci quando aqueles olhos turvos se fixaram em mim, mas não parei. Cheguei perto o bastante para ver cada detalhe da pele escamosa, os olhos reumáticos me encarando com uma emoção indescritível. Para não perder a sanidade, estendi a mão e a segurei, sentindo o desgosto imediato quando o coto de pescoço deixou escapar um fluido marrom que manchou a prateleira. Acho que só queria confirmar se era falso. Não era. A pele estava fria, e a testa franzida em ódio ao meu toque.

Assim que ergui a cabeça no ar, todas as outras pararam de murmurar e se voltaram para mim, expressões carregadas de desprezo. Rapidamente a coloquei de volta, aliviado quando os sussurros recomeçaram.

Mesmo assim, os olhos não me abandonaram.

— Que porra é essa…? — Bea sussurrou.

— O que é isso? — Meikle perguntou, levantando a lanterna para as prateleiras mais altas, que seguiam intermináveis. — Que porra é isso?

Lentamente, uma ideia estranha começou a se formar em minha mente.

— Pisque se você puder me entender — falei, me ajoelhando diante da cabeça que eu havia tocado.

Todos do grupo pararam o que estavam fazendo e se voltaram para observar o resultado do meu experimento.

A cabeça piscou.

— Ok. Ok. Ok… — respirei fundo para me acalmar. — Certo. Uma vez para não, duas para sim. Entendeu?

Pisque. Pisque.

— Certo… — olhei para os outros, esperando sugestões, mas foi Bea quem falou:

— Esses livros são uma lista de todos os nossos pecados?

Pisque. Pisque.

— Um livro para cada pessoa?

Pisque. Pisque.

— Então o que é você? — ela perguntou.

A cabeça lançou um olhar severo, carregado de rancor.

— Perguntas de sim ou não — murmurei para ela.

Um dos soldados — o mais jovem, o mesmo que ajudara a traduzir o alemão — se aproximou e, hesitante, perguntou:

— Isto é o inferno?

Pisque. Pisque.

— É esse o seu castigo?

Pisque.

— Se não é punição… então o que é? — ele insistiu.

De repente, todas as cabeças pararam os murmúrios e começaram a emitir um som horrendo. Seus rostos se contorciam grotescamente em paródias de alegria, bocas abrindo e fechando em um ritmo grotesco. Quando percebi o que estavam fazendo, um frio apavorante rastejou pelo meu corpo.

Eles estavam rindo de nós.

Não havia porta. O fio desaparecia em um pequeno buraco na base de uma parede que bloqueava o corredor.

Ficamos em silêncio por minutos, até que finalmente o tenente Meikle quebrou o choque com uma ordem:

— Davies, coloque o QG na linha.

O soldado se ajoelhou, retirou o equipamento de comunicação da mochila e rapidamente o conectou.

— QG, me escuta? câmbio.

— Err… sim, estou ouvindo.

— Bem, acho que o fio ainda está ligado ao QG — murmurei.

— Verifique se há emendas na parede, — ordenou Meikle. — Procure dobradiças escondidas… qualquer coisa. E você — virou-se para o soldado com o rádio — avise que encontramos um obstáculo. Mandem outra equipe com explosivos.

Passei as mãos pelas bordas da parede.

— Se isso abre, não sei como. É sólida. Diferente das outras paredes. Tijolos vermelhos, bem resistentes.

— Bem, veio de algum lugar! — Bea gritou, tentando espiar pelo buraco onde o fio sumia. — Droga, não consigo ver nada!

— QG, precisamos de assistência. Temos um… uh… obstáculo. câmbio.

— Entendido. Qual é o obstáculo?

— Uma parede. Mandem a próxima equipe trazer explosivos. câmbio.

— Uma parede?

— Só mandem a equipe o mais rápido possível! Nossa saída está bloqueada. câmbio.

Silêncio. Então a voz voltou:

— Estamos a caminho. Só uma pergunta…

— O que é? câmbio.

— Por que você continua dizendo “câmbio”?

De repente, a voz mudou. Começou a rir. Primeiro baixinho, depois cada vez mais alto, até explodir em gargalhadas cruéis, como uma criança maldosa se divertindo com uma piada macabra. O som me arrepiou inteiro. Eu estava prestes a tomar o aparelho quando ouvimos um barulho pesado: um rangido grave, como pedra raspando contra pedra.

Antes que eu perguntasse, Bea se jogou para trás, levantou-se num salto e correu para a escuridão feito uma possessa. O grupo entrou em pânico.

— Williams, vá atrás dela! — Meikle gritou, voltando-se para mim. — O que deu nela?!

— E-eu não sei… — gaguejei.

— Cristo… — Meikle rosnou, arrancando o rádio das mãos do soldado confuso. — Escute, eu não sei quem você é, mas coloque alguém responsável na linha agora—

O barulho voltou. Mais alto. Pedra contra pedra. Poeira caindo do teto.

Todos nos calamos, capacetes vibrando.

— Sou só eu… ou está mais perto? — Meikle perguntou, voz baixa.

— Difícil dizer — respondi. — Eu não—

A parede se moveu. Um movimento súbito, assustador, que nos fez recuar em choque. Caí para trás, apavorado, enquanto a risada cruel ainda ecoava no rádio.

— Acho que precisamos sair daqui — falei, tentando manter a calma.

A parede se moveu de novo.
E, dessa vez, não parou.

O jovem soldado com o aparelho não reagiu rápido o suficiente. A coisa avançou tão rápido que o pegou em segundos, derrubando-o no chão com um baque seco e pesado. Então rolou sobre ele e foi… bem, se você é como eu, talvez já tenha se perguntado, quando criança, o que aconteceria se alguém ficasse preso no topo de uma escada rolante. Tenho certeza de que você sabe o que quero dizer.

A luz era fraca, então não entendi direito o que vi. Só sei que havia muito sangue e, embora tenha sido rápido, não foi rápido o suficiente, porque quando a parede já estava na metade da espinha dele, eu ainda conseguia ver a dor estampada em seus olhos. Essa foi a última impressão que tive antes de Meikle me agarrar pelo colarinho e praticamente me arremessar de volta pelo caminho por onde viemos.

E então corremos.

Correndo. Caminhando. Um pé depois do outro. Não sei quanto tempo aquilo durou, mas parecia que o tempo se esticava de uma forma que só a dor e o tédio conseguem causar. Houve momentos em que, enquanto eu forçava minhas pernas a se moverem, me perguntava se já estávamos correndo há dias, não horas. Não havia como medir a passagem do tempo. Só monotonia.

Os livros passavam em um borrão. O chão era pedra lisa, sem nenhuma marca. O som rítmico dos meus pés perdeu todo o significado. E atrás de mim — a parede. Sempre avançando, com o som horrível de pedras se esmagando, prometendo dor e nada além disso.

A única coisa em que eu conseguia focar era a exaustão, e isso era autodestrutivo. Mais de uma vez pensei em simplesmente desistir. Até hoje tenho pesadelos em que estou sendo perseguido por aquele corredor. Não era um ritmo rápido, mas era rápido o suficiente. E não havia outra rota a não ser seguir em frente — essa era a tortura. Atrás de mim, a morte se movendo como uma corrida interminável. À frente, nada. Apenas escuridão, quebrada pelo movimento errático de uma tocha.

E por todo aquele tempo — que depois percebi ter sido algo em torno de duas horas — só conseguia pensar:
Quando vou perder essa luta? Quando vou cair? Quando vou desistir?

Imagine meu alívio quando, mais à frente, ouvi uma voz familiar gritar:
— Qual é o seu problema, moça!?

E então os vi. O jovem segurava Bea pelos ombros, tentando arrastá-la por uma porta aberta. Foi aí que lembrei do pequeno corredor com as cabeças decepadas. Não era exatamente o tipo de salvação que eu esperava, mas teria que servir. Juntos, Meikle e eu agarramos os dois e nos jogamos pela abertura. Segundos depois — perto demais para o conforto — todo o corredor atrás de nós foi engolido pela escuridão. A parede tomou conta da nossa posição, e ficamos ali, ofegantes e exaustos, deitados no chão, cercados por milhares de cabeças decepadas nos observando com irritação.

Quando olhamos para trás, não vimos pedra. Vimos carne pulsante. Uma parede dela. Quente, pegajosa, atravessada por veias azuladas e doentias. Não sei o que era aquilo, mas alguma coisa naquela carne me fez pensar em coral faminto.

— Era uma maldita armadilha — sibilou Meikle, analisando a massa grotesca. — Eu não sei como, mas fomos levados pelo caminho errado. Ele… ele trocou os cabos. Ou algo assim. Mas fomos atraídos até aqui como ratos.

— Onde está Davies? — perguntou o outro soldado.

— Ele… se foi — respondeu Meikle.

— O quê?

O homem mais velho apontou para a parede de carne atrás de nós.

— Seja lá o que for aquilo, pegou ele. Parecia uma parede, mas… podia se mover e simplesmente o esmagou. Obrigado pelo aviso, a propósito — rosnou para Bea, mas ela não deu nenhum sinal de ter ouvido. Estava sentada no chão, tremendo, completamente em choque.

— Onde agora, senhor? — perguntou o soldado restante.

Meikle fez uma careta.
— Onde você acha? — cuspiu, apontando para frente. — É a única direção possível.

As cabeças eram companheiras estranhas. Seguiam nossos movimentos com os olhos, mas nunca paravam de resmungar. Era irritante — um barulho que você podia ignorar por uma hora, talvez mais. Mas cedo ou tarde, o farfalhar de seus lábios antigos era a única coisa em que você conseguia se concentrar, não importava o quanto tentasse afastá-lo da mente.

Pelo menos a navegação era simples.

Para a frente. Sempre em frente.

Caminhamos por cerca de seis horas antes de fazermos a primeira pausa. O corredor era largo, mas nos mantivemos afastados das cabeças, deitando em fila, cabeça com pés, enquanto dois ficavam de vigia. Seis horas cada. Decidi ficar acordado junto com Meikle, enquanto Bea e o outro soldado tentavam descansar.

Bea ainda não tinha se recuperado totalmente do choque. No final da caminhada, murmurou algumas palavras, de forma quebrada, sobre o que havia visto enquanto estava ajoelhada perto da parede.
— Dentes — disse. — E um rosto.

Ela não quis — ou não conseguiu — elaborar mais do que isso. Mas a impressão que tive foi que ela tinha visto algo que quase a deixou completamente louca. Sinceramente, duvidava que algum dia se recuperasse. Já parecia uma mulher diferente. Olhos inchados. Cabelo ralo. Ou talvez fossem apenas as condições lá embaixo.

Meikle também parecia acabado, e presumi que eu não estivesse muito melhor. Especialmente depois daquela corrida. Aquilo me exauriu. Me quebrou. Não só fisicamente — psicologicamente também. O motivo pelo qual insisti em ficar de guarda foi porque eu simplesmente não queria dormir. Parte de mim temia sonhar que estava de volta naquele corredor, fugindo da parede viva. Não queria revisitar aquele lugar nem em sonho.

Por isso fiquei acordado, tentando ignorar o murmúrio incessante das cabeças. Até tentei conversar com Meikle, mas ele não tinha muito a dizer. Perder Davies o incomodava. Caramba, incomodava até a mim, e eu mal conhecia o cara. Mas juro que ainda hoje consigo ver, com clareza, o olhar nos olhos dele quando pedra encontrou carne e suas pernas simplesmente… desapareceram.

No fim, só tive esse tipo de pensamento como companhia.

E muito, muito tempo.

Por isso não deveria ter sido surpresa quando finalmente peguei no sono. Não foi por muito. Dez minutos, no máximo.

Mas foi tempo suficiente para acordar e ver algo arrastando o corpo do soldado adormecido para a escuridão de uma prateleira próxima, o pescoço dele pendendo de um jeito antinatural. O movimento foi suave. Silencioso. Mas também desajeitado, como uma criança tentando furtivamente tirar uma boneca de pano de uma caixa de brinquedos.

Olhei para Meikle e vi que ele também tinha adormecido. O cutuquei com o pé, e ele acordou com um sobressalto preguiçoso. Só quando notou meu olhar de terror percebeu o que estava acontecendo.

Não sei exatamente o que esperava dele. Mas ele era o líder. Estava armado. Eu não queria ser a única a decidir o que fazer. Talvez porque parte de mim estivesse tentada a simplesmente correr. Deixar o jovem para trás. Talvez até Bea. Se isso significasse sobreviver mais um pouco.

Na verdade, fiquei aliviado quando Meikle entrou em ação imediatamente. Eu não queria ser covarde. Ele pulou e agarrou o pé do jovem, e eu corri e agarrei a outra perna e juntos tentamos puxá-lo de volta. Eu não mencionei isso a Meikle, mas a maneira como o corpo do soldado se sentiu quando o agarrei… os músculos estavam muito relaxados. Muito pesados. Não sei como explicar, mas se você acabar na infeliz situação de mover um cadáver, você pode entender o que quero dizer. Um corpo vivo se sustenta. Um morto. É apenas carne e água e de alguma forma parece muito mais pesado por isso. 

Ele estava morto. Ainda assim, continuamos lutando. Em algum momento, Bea deve ter acordado, percebido o que estava acontecendo e se juntado a nós. Lembro-me dela tentando alcançar a prateleira para agarrar o braço do homem morto quando de repente ela voou para trás, pousando com um baque forte contra a prateleira atrás dela e balançando algumas das cabeças decepadas em seus pequenos tocos.

O que quer que estivesse no escuro estava claramente frustrado. Queria sua próxima refeição e não nos deixaria impedi-lo. Lentamente, um longo braço desumano estendeu-se e agarrou a virilha do corpo. Sua mão estranha tinha dedos que se partiam na articulação, uma, duas, três vezes. Um efeito assustador, especialmente considerando como cada um se movia por conta própria. Um monstro de prato de jantar de uma mão presa a um antebraço ágil e musculoso desprovido de pelos. No segundo em que o vi estender a mão em minha direção geral, soltei a perna e caí para trás. Meikle continuou lutando por um tempo, até mesmo pegando uma pistola e disparando alguns tiros no escuro, mas ao fazer isso ele deixou apenas a mão para se agarrar ao cadáver de seu camarada e perdeu o controle. Com quase nenhum esforço, o corpo desapareceu na sombra e de repente ficamos reduzidos a três. 

“Que porra é essa? Que porra é essa!?  Que porra é essa!!? ” ele gritou. 

Eu queria dizer alguma coisa. Talvez até algo para confortá-lo. Ou talvez um pedido de desculpas por ter adormecido, mas, por outro lado, ele também tinha adormecido. Eu não sabia o que deveria fazer. Eu estava em choque. E isso estava se instalando profundamente em mim quando Bea disse algo de onde ela permanecia no chão. Sua voz baixa, mas estranhamente insistente. 

“Não acabou.”

Aquela mão ressurgiu. Cuidadosamente. Deliberadamente, ela se colocou no chão revelando mais da carne pálida que a alimentava. E então veio outra. E outra. E então sua cabeça emergiu lentamente da escuridão e me fixou com olhos pretos, bulbosos e numerosos demais para qualquer coisa que possa ser chamada de humana. E sua boca… Uma barba feita de dedos sujos. Cinza e azulado. Unhas longas e rançosas. Centenas delas se contorcendo como as mandíbulas de uma aranha faminta.

Meikle abriu fogo, mas ele poderia muito bem estar atirando feno pelo efeito que teve. As balas atingiram com um  baque molhado , mas sem danos reais. A criatura o derrubou com puro desprezo e puxou o resto de si para o corredor onde vi que não tinha pernas, mas em vez disso dependia de vários braços longos para se suspender entre as paredes do corredor como uma espécie de aranha. Um desses braços estendeu-se e agarrou Bea e quando ela começou a gritar, já era tarde demais. Sangue escorria de seus ouvidos e houve um som como um galho quebrando. Seu corpo inteiro ficou mole e o monstro a deixou cair onde ela caiu no chão, seu rosto grotesco e disforme olhando para mim com olhos acusatórios.

O tenente gritou enquanto atirava mais uma vez, mas então aquela coisa o agarrou como se ele não passasse de uma boneca e o levantou, apertando com tanta força que ele deixou cair tudo o que segurava. Sua arma e tocha atingiram o chão com um barulho alto. 

“Me ajude!” ele gritou enquanto tentava me pegar. “Jesus Cristo! Atire nessa porra!”

Corri para frente, agachando-me na esperança de evitar seus muitos braços. Meikle já estava sendo espremido com tanta força que o sangue jorrava de sua boca, e eu podia dizer que o monstro estava se divertindo, deleitando-se com seu tormento. Estendi a mão para pegar a arma do chão enquanto Meikle soltava outro grito desesperado e molhado por ajuda, mas por algum motivo minha mão parou a poucos centímetros de distância.

Hesitei. O sangue de Meikle estava pingando. Eu podia ouvir o estalar de suas costelas.

No meu momento de maior vergonha, peguei a tocha e corri. 

E os gritos de Meikle me seguiram. Gritos. Guinchando. Choramingos. Sons de ossos quebrando e papel rasgando. 

Sons de tortura e tormento que de alguma forma pareciam durar para sempre.

Saí do corredor sozinho. 

Levei alguns segundos tropeçando em minhas pernas fracas para perceber que o monstro havia desistido da perseguição, e então mais alguns segundos para eu reconhecer que estava de volta ao mezanino. Aterrorizado e exausto, e pensando se valia a pena tentar escapar se isso significasse ter que passar mais um segundo vivo naquele lugar, caí no chão e comecei a soluçar. Talvez, pensei, fosse hora de dar um mergulho daquela saliência, assim como Grant fez. 

“O que diabos você está fazendo aqui?”

Virei-me rapidamente para ver um velho de túnica me encarando como um intruso mal-educado. Sem querer, comecei a rir. Minha sanidade, era justo dizer, estava em suas últimas pernas. 

“Hmph,” ele disse enquanto se inclinava para o lado para dar uma olhada no longo corredor atrás. “Agora, por que você foi lá embaixo  ? ”

Eu queria responder, mas não consegui fazer nada além de rir e respirar fundo.

“Acho que você realmente deveria ir para casa”, ele disse como um professor repreendendo uma criança. 

“Este lugar é um inferno”, eu gritei enquanto balançava para frente e para trás nos joelhos.

“Sim.” Ele assentiu. “Sim.  Bom para você.  Esta é uma pequena parte do inferno, uma que tem uma ligeira sobreposição com a Terra, se bem me lembro? Estou supondo que foi assim que você chegou aqui. A porta. O que aconteceu com seus amigos, afinal?” Ele acrescentou.

Olhei para trás, na direção por onde vim, e apontei.

“Ohhhh,” ele suspirou. “Sabe, eu deixei seus livros de fora especificamente para que você os encontrasse e descobrisse. E eu sei que aquele sujeito careca descobriu. Então, uma vez que você soube que esse lugar era um inferno, por que você perdeu mais um segundo ficando por aqui?”

Dei de ombros, sem saber muito bem o que dizer sobre esse tipo de coisa.

“Fomos surpreendidos”, eu engasguei. “Enganados.”

“Justo”, ele respondeu. “Provavelmente deveria ter feito mais para garantir que você chegasse em casa em segurança. Isso é em parte culpa minha. Embora eu não vá me desculpar. Você entrou neste lugar. Você não viu a porta? Que parte disso  foi  convidativa? Você tem que assumir um pouco da culpa.”

Eu queria montar uma defesa, mas eu realmente não tinha uma. Quando ficou claro que a única coisa que eu podia fazer era soluçar e resmungar, a linguagem corporal do velho se suavizou e ele estendeu a mão. 

“Vamos, eu te levo de volta.”

“E os demônios?”, perguntei.

O velho franziu a testa.

“Aqueles não eram demônios”, ele retrucou. “Este lugar está extinto. Almas mortais deveriam demonstrar arrependimento vagando pelos corredores quase eternos em busca de seu livro. Somente quando o encontravam é que tinham permissão para seguir em frente. A coisa toda não deu muito certo. 86 quatrilhões de livros. Demora um pouco  para  uma pessoa comum encontrar o deles. Então, toda essa ala foi abandonada e agora só restam pecadores.”

“Aquela  coisa  nunca foi humana”, gritei enquanto apontava para o corredor de onde havia saído.

“A alma de ninguém parece humana”, ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Muito menos o tipo de pessoa que é mandada para o inferno. Este não é um lugar para pessoas que comem carne numa sexta-feira ou cobiçam o boi do vizinho. É para os cruéis e maliciosos. Covardes e oportunistas. Muitas pessoas neste lugar têm almas que têm mais em comum com tamboris e aranhas de alçapão do que com seus semelhantes. E também não é uma condição que melhora depois de vários milhares de anos. A alma muda, se distorce, e o mesmo acontece com suas formas físicas.”

“E você?”, eu disse enquanto estendia a mão e pegava a dele. “Por que você parece tão normal?”

“Oh,” ele disse enquanto me ajudava a levantar. “É porque eu construí este lugar.”

E a última coisa que me lembro quando ele me agarrou pelo ombro foi a sensação repentina e dolorosa de calor. 

Acordamos em nossos respectivos alojamentos. 

Nós.

Nós seis.

Ainda não entendi completamente a mecânica. Tentei perguntar aos outros como eles conseguiram voltar, mas… eles não estavam em condições de responder perguntas. Bea estava catatônica. Gritando e segurando a cabeça no hospital, como se ainda se lembrasse do jeito que aquela coisa esmagou seu crânio como uma toranja. O soldado que caiu na parede ficou paraplégico, embora os exames médicos não conseguissem identificar uma única razão. Psicológico, eles disseram. O outro soldado, aquele que foi arrastado para as prateleiras, estava em coma. Não sei se ele se recuperou, mas ele estava vivo. E Grant foi deixado em um estado psicótico permanente, compelido a escrever em qualquer superfície que pudesse repetidamente. Pecado após pecado, tentando desesperadamente reescrever o próprio livro que o levou à loucura em primeiro lugar.

Meikle tentou muito me matar. 

Ele tinha lembranças claras de ter sido deixado para morrer no escuro. Estou feliz que o pegaram antes que ele conseguisse arrancar a vida de mim com as próprias mãos. Nunca descobri o que aconteceu com ele depois que vários homens conseguiram arrancar suas mãos da minha garganta. Apesar de tudo, espero que ele tenha conseguido algum tipo de recuperação.

A porta desapareceu, felizmente sem ninguém do outro lado. Eu sei que eles estavam planejando expedições futuras. É melhor que esse tipo de coisa não aconteça novamente. Eles não têm ideia do que os espera.

De certa forma, eu provavelmente poderia ter me convencido de que a expedição nunca aconteceu. Alguns dias, mesmo agora, é isso que eu sinceramente espero que aconteça. Não havia nenhuma evidência física. Nada. Nós aparecemos em nossas camas completamente nus, exceto por um bilhete preso no meu peito. E é esse pequeno toque final que se destacou para mim como uma confirmação severa de tudo que eu tinha experimentado.

Devolver ao remetente, 

Seis mortais. Cinco foram danificados no transporte. Corpos foram reparados da melhor forma que pude, mas eu nunca fui bom nesse tipo de coisa. Mentes são outra questão completamente diferente.

Não consegui me conter em um caso. Deixei um companheiro mortal morrer no escuro. Não pareceu muito esportivo. Não deixe ninguém dizer que não tenho senso de humor.

Caso contrário, não há mal nenhum. 

Muitas felicidades, 

Meu!

Meu coração afundou quando os ouvi lerem para mim. Isso confirmou minhas preocupações mais profundas. Ninguém tinha sido muito honesto comigo desde que cheguei ao hospital. Eles me mantiveram enfaixado, então não foi fácil dizer, mas depois que ouvi aquele bilhete, finalmente criei coragem para levantar e remover os grossos chumaços de tecido. 

Então, com dedos trêmulos, finalmente toquei meus olhos. 

Ou melhor, as cavidades vazias onde costumavam estar.

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A terra não é plana, mas também não é redonda

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Há dez anos, tirei o corpo chamuscado e sem vida da minha mulher de uma piscina natural na Florida.

Estávamos casados há apenas três dias. Você ouviu certo. Três dias.

Eu queria que a história não começasse assim, mas começa.

Evelyn era minha alma gêmea – ela era engraçada, corajosa e fofa como um anjo.
Eu estava tão profundo e ridiculamente apaixonado por ela e por um bom motivo.
Ela estava fora do meu alcance, mas de alguma forma, ela gostou de mim o suficiente para se casar comigo.

Depois de seis meses de namoro e outros seis meses de noivado, nos casamos em uma humilde capela nas montanhas Wasatch, nos arredores de cidade de Salt Lake. No dia seguinte, voamos para uma lua de mel de dez dias em um resort à beira-mar em Fort Lauderdale – um presente de casamento dos meus pais.

No nosso segundo dia lá, enquanto estávamos deitados na praia, nuvens negras surgiram, acompanhadas pela chuva mais forte que eu já tinha visto. Rimos da nossa sorte, fizemos as malas rapidamente e corremos com o resto dos frequentadores da praia e da piscina em direção ao hotel.

“Venha por aqui”, disse Evelyn, puxando-me por um caminho estreito de pedra através da paisagem até uma caverna isolada sob uma ponte.

Rindo histericamente com a ajuda de nossos Mai Tais diluídos pela chuva, tiramos nossas roupas e toalhas molhadas e nos sentamos nas cadeiras da piscina da caverna.

“Você sabe que poderíamos nadar aqui mesmo”, disse Evelyn, apontando para a parte da piscina coberta pela rocha falsa.

Fingi pensar que era uma má ideia e depois joguei-a na água. Nós chapinhamos e brincamos sozinhos por alguns minutos, a chuva forte batendo forte do lado de fora da caverna.

Depois de alguns minutos, saí da água e peguei algumas toalhas secas.
Levantei os pés e sentei-me, tomando um gole da minha bebida.

Evelyn começou uma rotina interpretativa de natação sincronizada em seu biquíni azul brilhante. Ela chicoteava o cabelo ruivo para frente e para trás e balançava as mãos acima da cabeça com graça e sem esforço. Mesmo que ela estivesse brincando, fiquei hipnotizado.
Ela era minha. Eu era dela. Era surreal.

Mas então tive um pressentimento. Uma sensação horrível. Um que dizia que o desastre era iminente.

Eu não disse nada para Evelyn. Como eu me orgulhava de ser rigidamente pragmático, dar crédito aos sentimentos apenas no terceiro dia de casamento parecia uma má ideia.

Quer tenha sido uma premonição ou não, um raio atingiu a piscina com um estalo ensurdecedor.

Uma onda de choque mortal percorreu a piscina, matando Evelyn instantaneamente e me atirando contra a parede de pedra.

Assim que minha audição e visão retornaram, vi Evelyn flutuando de bruços na piscina, a seis metros de distância da caverna. Gritei por socorro e pulei. Os funcionários do hotel correram e juntos a tiramos da piscina. A equipe médica chegou logo em seguida e depois uma ambulância. Ela foi declarada morta no local. No dia seguinte, voltamos para casa, um de nós sentado na carruagem e o outro num saco para cadáveres escondido no convés.

Entrei em pânico depois do funeral e nunca mais me recuperei.

Eu estava convencido de que Evelyn era minha alma gêmea, então, quando ela morreu, o mundo parou de funcionar. Nada mais fazia sentido. Nunca mais namorei nem tive interesse por mulheres, ou pessoas. Arranjei um emprego no Texas, comprei uma casa na cidade e rapidamente entrei numa rotina. Conversei com meus pais ocasionalmente, mas só os visitei talvez três vezes nos últimos dez anos.

Não passa um dia sem que eu pense nela. Inferno, nem mesmo uma hora.

À medida que se aproximava o nosso décimo aniversário, a empresa de análise de dados para a qual trabalhava foi comprada por outra empresa e fui despedido. Embora eu inicialmente estivesse chateado, minha opinião mudou quando o generoso cheque de indenização chegou pelo correio. Na noite em que chegou a conta, bebi muito e me deparei com Evelyn e meu álbum de casamento.

Por volta de uma da manhã, tomei uma decisão. Decidi que uma década de luto foi tempo suficiente. Decidi que os próximos dez anos da minha vida não seriam repletos de autopiedade. Eu faria algo por mim mesmo. Voltaria a ler livros, voltaria a gravar vídeos, faria novos amigos, tocaria meu violão.

Na noite seguinte, com uma bebida na mão e dinheiro no banco, sentei-me à minha mesa e desenvolvi um plano com o objetivo vago de sair um pouco do país. Por volta das duas da manhã, caí numa toca do coelho chamada Teoria da Terra Plana. Passei as três horas seguintes lendo e assistindo vídeos no YouTube. Por alguma razão, tudo ficou cada vez mais engraçado com o passar da noite. Não realizei muita coisa naquela noite, mas na noite seguinte já tinha um plano sólido.

Nos meses seguintes, vendi minha casa, comprei uma câmera e reservei uma viagem ao redor do mundo em cinco vôos. Meu objetivo era documentar minhas viagens e provar, de uma vez por todas, que a terra era redonda.

Nas três semanas anteriores ao início da minha viagem, voltei para a terrível cidade de Salt Lake com meus pais, que surpreendentemente apoiaram a iniciativa.

No meu primeiro vídeo, expliquei as regras: viajaria para o leste até voltar para casa. Eu teria uma bússola comigo o tempo todo. Eu estaria acordado e alerta em todos os momentos da viagem. Qualquer pessoa que acreditasse firmemente que a terra é plana provavelmente pensaria que estou fingindo, mas esse não era realmente o objetivo da viagem. Lembre-se, Eu estava tentando me tornar um novo homem.

Um dia antes de partir, eu estava me sentindo nervoso e estranhamente existencial – mais do que o normal. Isso era grande. Viajando pelo mundo sozinho. Nunca sonhei que poderia ter feito algo assim, especialmente desde que Evelyn morreu. Parte de mim estava orgulhoso, a outra parte questionava o que diabos eu estava fazendo. Seja o que for, decidi deixar algo para comemorar a minha existência.

Fiquei acordado até tarde folheando milhares de fotos e acabei escolhendo quatro para imprimir: Evelyn e eu no dia do nosso casamento, meu primo e eu andando de skate, meus pais e eu no Natal passado e uma foto terrivelmente estranha, minha, parado sozinho do lado de fora.
Minha casa no Texas.

Enrolei bem as fotos, enfiei-as em uma garrafa seca de vinho e depois peguei a garrafa e uma pá montanha acima, atrás da casa dos meus pais. Cerca de quatrocentos metros colina acima, encontrei uma bela clareira entre os carvalhos e cavei um buraco com sessenta centímetros de profundidade. Com minha lanterna frontal, pude ver os olhos de Evelyn me espiando através do grosso frasco marrom. Chorei por uns bons cinco minutos e depois joguei no buraco. Cobri o melhor que pude e voltei para casa para dormir algumas horas antes de partir.

Meu pai me levou ao aeroporto na manhã seguinte.

Voei de Salt Lake para Nova York, de Nova York para Amsterdã, de Amsterdã para Xangai, de Xangai para Los Angeles, depois de Los Angeles para Salt Lake. Intencionalmente não estou entrando em muitos detalhes sobre a viagem em si, porque esse não é realmente o objetivo de escrever isto. Mas ok, vou me permitir um pouco.

Quanto tempo a viagem levou? Um pouco mais de um mês. Passei cerca de uma semana em cada lugar e três dias em Los Angeles.

Eu me diverti? Claro que sim. Eu tive o tempo da minha vida. Percebi que estar longe do trabalho penoso da minha rotina permitiu que um pouco do meu antigo eu ressurgisse, dos meus dias anteriores ao relâmpago. Fiz amigos, fui engraçado, fui charmoso. Foi um pouco estranho, honestamente.

Foi bom para mim? Além do que vou contar, sim, foi fantástico. Eu realmente me senti um homem mudado.

Ganhei seguidores? Na verdade, eu ganhei. Quer dizer, não me tornei viral nem nada, mas no momento em que escrevo, tenho cerca de 50.000 seguidores. A maioria pensa que a Teoria da Terra Plana é besteira, mas alguns acreditam. Não sei se algum deles algum dia ouvirá isso.

Como que eu sinto em relação àquela cápsula do tempo idiota que enterrei? Eu sei que você provavelmente não tinha essa pergunta especifica, mas isso é importante para mim. Quanto mais a viagem durava, mais envergonhado eu ficava com a cápsula do tempo que deixei no chão atrás da casa dos meus pais. A vida que transmiti naquela garrafa estava tingida de arrependimento, perda e tristeza. Principalmente meu rosto apático em frente à minha estúpida casa ou com meus pais no ultimo Natal. Decidi, durante a viagem, que não substituiria nenhuma das imagens da cápsula do tempo, mas acrescentaria algumas — mudaria o final da minha história, por assim dizer. Ok, chega disso.

Então…

A Terra é redonda?

É aí que as coisas ficam complicadas. Fiquei acordado com sucesso durante todas as horas da viagem, o que foi muito difícil. Especialmente aquela etapa de Amsterdã a Xangai. Bom Deus. Mas posso dizer com segurança que viajei para o leste o tempo todo e consegui voltar para Salt Lake, o que excluiria toda a coisa da Terra plana, mas também não posso dizer com segurança que a Terra é redonda.

Aqui está o que aconteceu.

Quando cheguei em casa, as portas da frente, de trás e laterais estavam trancadas. Tentei o teclado da garagem, mas não funcionou. Quando mandei uma mensagem para minha mãe, não consegui. Então tentei com meu pai. Mesma coisa.

Ignorei isso, dizendo a mim mesmo que um mês é muito tempo – meus pais poderiam ter trocado de operadora de celular e alterado a senha da garagem.

Sem ter como entrar em casa e sem nada para fazer, decidi fazer as modificações planejadas em minha cápsula do tempo naquele momento, mesmo estando escuro. Subi a montanha com uma pá na varanda dos fundos e encontrei o local vinte minutos depois. Cavei com cautela e extraí a garrafa com sucesso. Vi os olhos de Evelyn novamente me espiando através do frasco marrom, desta vez um pouco enevoados por ter ficado no subsolo por um mês.

Ao retirar as fotos enroladas, decidi que simplesmente adicionar novas fotos não resolveria meus problemas. Eu precisava de um ritual, uma forma de simbolizar meu renascimento. Pensei em rasgar as fotos antigas ou queimá-las. Pensei em juntar tudo o que ainda tinha de Evelyn e jogar na fogueira. Talvez eu não fosse capaz de seguir em frente até que pudesse apagar Evelyn – a personificação do meu antigo e falecido eu – da minha vida. Como eu disse antes, eu era um novo homem.

Então eu vi algo aos meus pés.

Com a lanterna do celular, vi que havia deixado cair uma das fotos antigas.

Era a foto minha e dos meus pais jantando no Natal passado no Hotel Grand America.
Só que nesta foto havia uma quarta pessoa. Uma mulher bonita, mais ou menos da minha idade, com pele clara e longos cabelos ruivos. Era Ela.

Fiquei confuso no início. Talvez eu tivesse colocado na garrafa uma imagem diferente da que pensava. Deus sabe que Evelyn e eu jantamos muito com meus pais quando ela era viva. Mas eu não teria feito isso. Eu já tinha uma foto minha e de Evelyn no dia do nosso casamento. Isso era o suficiente. Lembro-me claramente de pensar que uma foto de Evelyn era suficiente.

Então eu olhei mais de perto para mim mesmo naquela foto. Definitivamente era do Natal passado. Era eu com 33 anos, não eu com 23 anos. Eu estava com barba no Natal passado, um feito que não teria conseguido quando tinha 23 anos. Como imprimi as fotos apenas um mês antes, peguei o original no meu telefone com os dedos dormentes e trêmulos e segurei-os lado a lado. Era a mesma foto.

Eu tinha diante de mim duas realidades distintas – uma em que Evelyn estava viva e outra em que Evelyn estava morta. Todo o resto era igual.

Como diabos isso é possível, pensei.

A foto do dia do nosso casamento era a mesma. Assim como a foto de meu primo e eu andando de skate. A foto minha parada na frente da minha casa no Texas era diferente. Em vez de uma residência urbana, era uma pequena casa vermelha, aparentemente ainda no Texas. E, claro, Evelyn estava ao meu lado vestindo uma camisa xadrez verde de botões.

Evelyn teria se formado em enfermagem se tivesse viva, tenho certeza. Nossos salários unificados teria nos permitido comprar uma casa em vez de um sobrado, imaginei. Mas ainda assim, o que diabos está acontecendo?

Meus joelhos fraquejaram e me sentei, olhando para frente e para trás entre as duas fotos com Evelyn agora nelas. Ela realmente era deslumbrante, mais bonita do que eu lembrava.

Tropecei em uma nova realidade. Não sei como nem quando, mas aqui estou, num mundo onde Evelyn vive. Tenho certeza de que essa não é a única diferença, mas é a única que conheço no momento em que escrevo.

Se realmente estou numa nova realidade, o que aconteceu com a antiga? Estou desaparecido lá? Fui duplicado? Aquela velha realidade desapareceu?

Deitei de costas na neve crocante e fechei os olhos. Para onde eu vou daqui?

Um par de faróis brilhou através das árvores e eu me sentei abruptamente. Um carro estava parando na calçada. Caminhei arrastando os pés pelas margens nevadas perto de casa. Fiquei ali sentado por cerca de cinco minutos antes que as luzes da cozinha se acendessem e eu vi quatro pessoas emergirem.

Dois deles eram meus pais – exatamente iguais aos da outra realidade.

Então entrou Evelyn.

Depois, num momento ainda mais perturbador do que ver Evelyn viva, Me vi entrando na sala.

Meu coração estava batendo forte.

Outro eu estava usando a mesma roupa que estou usando hoje, até mesmo usando a mesma toca. A única diferença era a pequena mecha de cabelo grisalho acima das orelhas.

Deslizei ainda mais colina abaixo para ver mais de perto. Por um momento — um longo momento — esqueci minha réplica e observei Evelyn. Ela era linda pessoalmente, mais linda do que nas fotos. Ela sempre foi assim.

Minha vida seria assim se eu não tivesse sido tão covarde, pensei, sentindo uma lágrima escorrer pelo meu rosto.

Os quatro conversaram e riram animadamente, eventualmente tirando os casacos e indo para a sala da frente. Desci a parede de pedra e corri até a frente da casa, me escondendo atrás de um grupo de pinheiros perto da escada da frente. Meu pai saiu por alguns minutos e voltou com uma garrafa de vinho e quatro taças.

Fiquei ainda mais atordoado ao observá-los – principalmente Evelyn. Eles se divertiram muito conversando por pelo menos algumas horas enquanto eu ficava sentado como um idiota entre os pinheiros, com os dedos dos pés e as mãos congelando. Ela era tão carismática sem esforço, tão charmosa. A maneira como ela falava com os olhos, a maneira como seus dentes brilhavam quando ela sorria, a maneira como ela se inclinava. Tudo nela era perfeito. O que eu não faria para roubar a realidade desse homem…

Observei Evelyn e meu outro eu nos despedirmos e sairmos pela cozinha. As portas do carro se fecharam e eu percebi que iria perdê-los. Na minha realidade, eu morava nessa casa enquanto fazia minha viagem ao redor do mundo. Onde eu teria morado se ainda fosse casado com Evelyn? Sempre conversamos sobre retornar eventualmente à região de Salt Lake. Talvez eles tenham feito isso.

Enquanto eles desciam a garagem em seu Honda Accord 2019 (boa escolha lipas), corri para a lateral da casa e encontrei uma bicicleta velha da minha infância enferrujada contra a parede. Ambos os pneus estavam furados e os freios dianteiros não funcionavam, mas como meus pais moravam no alto das montanhas, onde quer que eu e Evelyn fôssemos, era ladeira abaixo.

Embora eu tenha ido o mais rápido que pude, eles já haviam partido há muito tempo. Obviamente. Minha bicicleta de ferro-velho de 25 anos não teve a menor chance. Mas continuei andando, passando pela igreja, pelo colégio e depois pelo bairro de Oak Hills, o tempo todo quebrando a cabeça: se Evelyn e eu ainda fôssemos casados, onde teríamos morado?

Não era uma pergunta justa para me perguntar. Afinal, nos conhecíamos há pouco mais de um ano e só estávamos casados há três dias quando ela morreu. Nessa outra realidade, o outro eu e Evelyn estávamos casados há dez anos. É muito tempo para conhecer alguém. As pessoas mudam, as opiniões mudam, as circunstâncias mudam. Não consigo ler a mente do outro eu, então tudo que pude fazer foi esperar por um milagre.

Quando eu estava prestes a virar a esquina para Orchard Drive, vi um par de faróis traseiros em uma rua lateral – Fair Oaks Drive. Claro, pensei. Evelyn e eu conversamos um dia sobre a reforma de uma casa antiga em Fair Oaks. Mas cara, essa foi uma conversa quando estávamos noivos. Impressionante que eles (nós?) tenhamos conseguido.

Minha visão estava embaçada por ter pedalado quase um quilômetro e meio ladeira abaixo em uma temperatura congelante, mas quando cheguei mais perto de casa, reconheci que o carro era deles. Esgueirei-me pelos fundos da casa, de onde tinha vista para a sala e a cozinha. Sorri olhando para a casa reformada – bem, quase toda reformada. Fotos de Evelyn e de outras pessoas cobriam as paredes. Havia até um velho piano no canto. Exatamente como aquele de que Evelyn sempre falava. Encontrei um pedacinho do céu. Isso é tudo que minha vida teria sido se eu tivesse agido de acordo com aquela voz interior para tirar Evelyn da água há dez anos. Em vez disso, sou um vagabundo deprimido que mora com meus pais.

Eles foram até a cozinha e tiraram os casacos. O outro eu começou a lavar a louça e Evelyn sentou-se no sofá, os olhos grudados no telefone. Achei que eles estavam exaustos. Afinal, era meia-noite.

Depois de um minuto, Evelyn se levantou e caminhou pelo corredor. Corri para o outro lado da casa para tentar vê-la, mas quando virei a esquina, uma luz de segurança externa acendeu e eu me abaixei em alguns arbustos. O outro-eu largou a louça e foi até a janela dos fundos para inspecionar. Então ouvi um estrondo lá dentro – onde Evelyn estava. Outro-eu se mexeu e parou no meio do caminho.

Vá ajudá-la, pensei. Seu bastardo covarde.

Voltei ao meu posto original a tempo de ver Evelyn andando pelo corredor até a cozinha. Ela estava furiosa. Ela caminhou até meu outro eu com um pedaço de papel na mão. Não consegui ouvir exatamente o que ela disse, mas ela gritou alguma coisa e jogou o papel na cara dele. Outro-eu levantou as mãos como uma defesa fraca.

O que você fez com Evelyn dessa vez?

Enquanto o outro eu tentava explicar o que quer que estivesse naquele papel, Evelyn ficou mais furiosa. Ela caminhou até a cozinha e gritou outra coisa, em seguida, pegou um copo que outra pessoa estava lavando e jogou-o do outro lado da sala, quebrando-se com o impacto. Quem diabos é essa mulher?

Outro-eu continuou a falar calmamente em defesa, mas não havia como desacelerar Evelyn. Ela pegou um quadro da parede e jogou-o com força no chão, quebrando a moldura de madeira. Outro-eu recuou lentamente, movendo-se para o outro lado da ilha da cozinha.

Então Evelyn atacou.

Ela correu para ele com vingança desenfreada e empurrou-o com força contra os armários da cozinha. Ele estendeu as mãos novamente, implorando para que ela se acalmasse. Ela pegou um prato da pia e atacou para ele, mas ele desviou do caminho e atingiu violentamente contra os armários atrás dele. Isso só a deixou mais furiosa. Ela o empurrou novamente e depois arranhou seu rosto. Outro-eu se enroscou nos pés dele e tropeçou na geladeira. Ela deu um tapa forte na lateral da cabeça dele e ele gritou, incrédulo.

Mais uma vez, ele implorou para que ela parasse, mas ela não o fez. Ela bateu mais três vezes no rosto dele enquanto ele caía no chão. Após o terceiro golpe, um de seus olhos já estava inchado e fechado e o sangue escorria pelo seu rosto.

Evelyn caminhou até o outro lado da ilha da cozinha e eu dei um suspiro audível de alívio.

Evelyn, a garota dos meus sonhos. A garota que deixou todos os meus amigos com inveja. A garota que tive em um pedestal na última década. Um monstro.

Eu sei que tendemos a esquecer os atributos negativos das pessoas depois que elas faleceram, mas não havia um osso violento no corpo de Evelyn quando a conheci. Nem mesmo agressivo. Ela era doce, gentil, amorosa. Não assim. De jeito nenhum.

O que aconteceu com ela?

Enquanto observava a minha outra versão machucado e ensanguentado chorando no chão da cozinha, meu mundo desmoronou.

Todo esse tempo eu me odiei por não ouvir aquela voz, por não tirá-la da piscina e salvar sua vida. Se eu tivesse feito isso, poderíamos ter criado uma bela vida juntos – terminados a faculdade, construído uma carreira, comprado uma casa, adotado um cachorro. Fazíamos esses planos rindo e brincando o tempo todo, como duas crianças apaixonadas. Eu estaria completo para sempre. Mas com esse lapso de julgamento, Evelyn morreu junto com toda a visão do meu futuro perfeito.

Mas não.

Não é assim que a vida teria sido. A vida teria sido assim , comigo chorando no chão da cozinha, com sangue escorrendo pelo rosto e pratos quebrados ao meu redor.

É possível que a minha realidade – aquela de onde vim – fosse uma vida melhor?

Houve outro estrondo e um grito vindo do quarto.

Evelyn em uma segunda rodada.

Ela voltou para a cozinha e outro eu tropeçou e ficou de pé. Mais uma vez, ele tentou implorar com calma, mas, novamente, ela não aceitou. Ela gritou com ele por mais um minuto e então jogou uma caneca de café nele, quebrando-a em seu ombro. Ele se afastou dela, indo até a porta dos fundos perto de onde eu estava escondido. Abaixei-me ainda mais.

A porta se abriu e o outro eu passou por mim, tropeçando e caindo na neve.

Evelyn parou na porta e zombou. “Você acha que está melhor sem mim, não é? É disso que se trata”, disse ela.

“Evelyn, por favor. Pense no que você está fazendo. Olha o que você acabou de fazer comigo. Não podemos continuar vivendo assim. Não posso continuar vivendo assim. Eu já aguentei isso por muito tempo”, disse o outro eu e se levantou.

Evelyn começou a soluçar baixinho, com os braços cruzados com força.

Outro-eu deu um passo em direção a ela.

Não chegue mais perto disso, pensei.

“Você tem razão. Você certo” Evelyn disse, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. “Deus, eu sou tão horrível com você. Você não merece isso. Você merece alguém melhor. Muito melhor. Alguém que vai te amar, não importa o que aconteça. Não importa-“

Outro-eu permaneceu composto enquanto ela chorava.

“Você me perdoa?” ela disse.

Houve um minuto de silêncio. Tentei estabilizar minha respiração, apesar de sentir que ia explodir.

O outro eu engoliu em seco e ampliou sua postura. “Não. Evelyn, é isso. Eu preciso fazer isto. Isso não significa que terminamos; significa apenas… significa apenas que preciso de algum tempo. Ausente.” Ele deu as costas para ela e caminhou até a frente da casa onde o carro estava estacionado.

Evelyn bufou e bateu a porta dos fundos, voltando para a cozinha. Ergui a cabeça e a vi indo até as facas ao lado do fogão.

Pensei em intervir, mas não sabia como.

Ela carregou uma faca até a porta da frente. Corri pela lateral da casa, passando pela luz de segurança na frente.

Outro-eu tinha acabado de ligar o carro e estava começando a sair da garagem quando Evelyn apareceu com a faca.

“PARE!” ela gritou com ele, tentando bloquear seu caminho.

Outro-eu continuou recuando, seus olhos se arregalando quando viu a enorme faca na mão dela.

“PARE ESSA PORRA DE CARRO AGORA MESMO!” ela gritou e tentou esfaquear um de seus pneus, mas sua rotação acertou a faca de sua mão. Ela rapidamente a pegou de volta na garagem.

Ele parou na rua e saiu em disparada, deixando Evelyn parada na entrada da garagem, de short de pijama e com uma faca gigante pendurada ao lado. Quando os faróis se apagaram, ela largou a faca e começou a chorar novamente.

Meu primeiro instinto foi confortá-la, um instinto que rapidamente rejeitei. Eu apenas a observei com pura perplexidade.

Nunca deveria ter saído da porra do Texas.

Depois de alguns minutos, ela voltou para dentro e pude ouvi-la limpando a bagunça.

Foi quando algo me ocorreu. Fiz uma cápsula do tempo porque estava prestes a fazer algo grande – algo que mudaria minha vida. Para mim, estava prestes a embarcar em uma viagem ao redor do mundo. Mas por que o outro eu faria uma cápsula do tempo? Ele também estava planejando algo grande?

Antes que eu pudesse seguir o trem, percebi que o papel que irritou Evelyn alguns minutos antes estava agora no meio da garagem. Levantei-me com cuidado, certificando-me de que estava fora de vista e agarrei-o. Com a lanterna do telefone, li o papel:

Era um cronograma de voos , Salt Lake para Nova York, de Nova York para Amsterdã, de Amsterdã para Xangai, de Xangai para Los Angeles, depois de Los Angeles para Salt Lake.

Deixei o papel amassado cair no chão. Ele estava planejando a mesma viagem de onde acabei de chegar.

O que significava que ele iria experimentar o que acabei de experimentar. Provavelmente.

Se ele der a volta ao mundo e retornar a Salt Lake, estará entrando em uma nova realidade. Se alguém merece uma nova realidade, é esse cara, então não tentei impedi-lo.

Um raio atingiu uma árvore próxima, me derrubando no chão e acabando com a energia do resto de Fair Oaks. Começou a chover.

Caminhei até Orchard Drive e segui até o Dee’s – o único restaurante aberto 24 horas por dia deste lado da cidade. Estou escrevendo isso em um laptop emprestado em uma cabine que Evelyn e eu ocupamos muitas vezes quando éramos mais jovens.

Não sei o que aconteceu com a realidade de onde vim – se estou desaparecido ou morto ou o quê. Não sei o que acontecerá com o outro eu se e quando ele fizer sua viagem ao redor do mundo. Não sei se há outros eus planejando viagens ao redor do mundo também – perturbando assim sabe-se lá quantas realidades. Quantas outras realidades existem, infinitas?

Francamente, nem sei o que acontecerá com este post depois de publicá-lo. Presumo que ficará preso nesta realidade para sempre, mas quem sabe como isso funciona. Apenas algumas horas antes, pensei presunçosamente ter descoberto a resposta para a pergunta embaraçosamente juvenil: A Terra é redonda?

Meu táxi acabou de chegar, então este é o fim da linha para mim. Há muitas perguntas sem resposta aqui, perguntas para as quais espero encontrar respostas. Tudo o que sei agora é que não gosto da realidade de onde vim e não gosto da realidade em que estou agora, então só há um caminho a seguir. Vejo você em Nova York, Meu outro eu.

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O Engenheiro dos Suicidios

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Sou amigo de Andrew Tebelt, o homem que me enviou esta gravação.

Recentemente recebi um e-mail de Andrew contendo uma gravação de seu podcast, que pelo que eu saiba, nunca foi ao ar. Não houve explicação de por que ele o enviou para mim. Houve apenas um pedido para que eu o distribuísse. Quando tentei ligar para ele para saber o que estava acontecendo, não consegui. A chamada não foi para o correio de voz; tocava apenas duas vezes e depois apenas silencio. Nos últimos dias liguei várias vezes e fui duas vezes à casa dele, mas não consegui falar com ele.

Sempre que eu tentava enviar o podcast para um site conforme ele solicitou, sempre aparecia uma mensagem de erro. Não importa o que eu fizesse, não conseguia fazer o upload corretamente. Por causa disso, eu decidi fazer esse vídeo, espero que se eu apenas reproduzir o áudio aqui funcione.

Andrew, se você estiver lendo isso, por favor, deixe-me saber que você está bem.

—–


No dia 18 de abril de 2022, Carol Blake cometeu suicídio.

Seu corpo foi encontrado quando seu vizinho de baixo relatou vazamento de água pelo teto. Pensando que havia um cano estourado, o proprietário bateu na porta de Carol por quase vinte minutos para tentar obter acesso ao apartamento dela. Era mais fácil entrar pelo andar dela do que pelo teto do inquilino reclamante. Ela não respondeu e, depois de verificar com seu advogado se isso era considerado uma emergência, permitindo-lhe entrar sem permissão, ele destrancou a porta usando sua chave mestra e entrou para fazer o reparo.

O proprietário descobriu o corpo dela no banheiro. Ela estava deitada completamente vestida na banheira com os pulsos cortados. A água foi deixada correndo e derramou pela lateral da banheira como uma cachoeira enquanto escorria pelo chão e encharcava os acabamentos de madeira.

Eu não conhecia Carol. É uma cidade pequena, então posso ter passado por ela em uma loja ou esbarrado com ela em um restaurante, mas não me lembro se algo assim aconteceu.

Gostaria de dizer que a morte dela teve um efeito na comunidade. Talvez pessoas realizando um memorial ou até mesmo pedindo ao conselho municipal que melhore a forma como os programas de saúde mental são administrados para ajudar a evitar que esse tipo de coisa aconteça novamente.

Isso é o que eu gostaria de dizer. Mas o que realmente aconteceu foi, nada.
A morte da Carol foi apenas um pontinho no radar que a maioria das pessoas nem registrou.

Uma das exceções era Roger Carsten. Eu conhecia Roger desde a primeira série e, embora nunca tenhamos sido muito próximos, sempre tivemos relações amigáveis. Quando ele me ligou, três dias depois do suicídio de Carol, rapidamente concordei em encontrá-lo na mesma Lanchonete que um grande grupo de nós frequentava depois de cada jogo de futsal na quadra do colégio.

[CLIQUE AUDÍVEL, SEGUIDO POR UM BIP CURTO E ALTO]

Oh Merda. Eu pensei que…

[Breve pausa]


Ok, talvez não. Pode ter sido apenas…

[Breve pausa]

Roger me contou que conhecia Carol há alguns anos. Eles trabalhavam no mesmo escritório e se tornaram particularmente próximos enquanto trabalhavam juntos em um projeto que lhes havia sido atribuído. Uma coisa levou à outra e eles começaram um relacionamento.

O problema era que Roger era casado. Casado e feliz, como ele disse. Tenho minhas dúvidas sobre isso, pois, pela minha experiência, pessoas casadas e felizes não tendem a ter casos de longo prazo, mas foi o que ele me disse.

Por causa disso, ele estava preocupado que ela pudesse ter deixado algo para trás que pudesse expor o caso deles e voltar para sua esposa. Em algum momento ela o apresentou à mãe, e ele convenceu a senhora idosa a deixá-lo ajudar a arrumar as coisas de Carol e fazer os preparativos necessários do enterro. Isso permitiu que ele vasculhasse os pertences de sua falecida amante impunemente.
A mãe dela ficou grata pela ajuda e agradeceu-lhe profusamente por isso, se é que dá para acreditar.

Roger conseguiu verificar tudo, exceto o celular de Carol. Estava protegido por senha, então ele não conseguiu descobrir o que havia nele. É por isso que ele veio até mim.

[CURTA EXPLOSÃO DE ESTÁTICA QUE CORTA O INÍCIO DA PRÓXIMA FRASE]


…Eu criei este podcast sobre eletrônica e tecnologia, nunca pensei que isso levaria velhos conhecidos a me pedirem para vasculhar os telefones de pessoas mortas. Mas era isso que Roger queria que eu fizesse. Ele não precisava apenas de mim para desbloquear o telefone. Isso só o teria levado até certo ponto. Carol frequentava várias plataformas de mídia social e usava dezenas de aplicativos diferentes que ele conhecia. O que ele precisava era que eu analisasse tudo e me certificasse de que todas as menções sobre seu caso fossem removidas.

No começo eu recusei. Fui educado sobre isso, mas só a ideia de fazer o que ele estava pedindo me enojou. Ele continuou pressionando. Ele me disse que já queria terminar o caso e planejava fazer isso, mas ela tirou a própria vida antes que ele pudesse. Ele disse que se o relacionamento fosse exposto isso machucaria não apenas sua esposa, mas também seus dois filhos e eles não mereciam que isso acontecesse com eles. Acabei cedendo e concordei em fazer o que ele pediu, com a condição de que ele me desse o telefone e não estivesse presente enquanto eu trabalhasse.

Eu já tinha começado a racionalizar as coisas na minha cabeça. Somos todos extremamente bons nisso quando sabemos que o que estamos fazendo não está certo, não é? Eu me convenci de que, como Roger não veria nada, eu protegeria a privacidade de Carol o tanto quanto possível. Isso é um monte de besteira, obviamente. Na verdade, eu já estaria protegendo-a se não tivesse concordado em invadir o celular dela.

[Pausa]


Eu não sei se estou prestes a confessar um crime aqui. É crime invadir o telefone de uma pessoa morta? Quer seja ou não, não vou fingir que não estava errado. Com certeza era errado. É só que… Não é o que importa agora.

[Pausa]


Não foi difícil desbloquear o celular. Tudo que eu precisava era conectá-lo a um computador e usar um programa gratuito e fácil de encontrar, se você souber onde procurar. A maioria das pessoas ficaria surpresa com o quão inseguros são seus telefones supostamente seguros. Isso vale para a maioria das peças de tecnologia dos dias de hoje, mas você não está aqui para ouvir uma palestra sobre segurança tecnológica adequada e eu não estou aqui para dar uma.

Eu não sabia por onde começar a procurar, então abri o calendário e comecei a verificar compromissos e lembretes. Não encontrei nada que tivesse a ver com Roger. Mudei para o aplicativo de Anotações e mais uma vez não encontrei nada. Só quando comecei a vasculhar seu e-mail é que encontrei algo interessante.

Eu provavelmente deveria ter percebido que algo estava errado quando a caixa de entrada estava completamente vazia. Carol estava morta há três dias. Qualquer pessoa que use seu e-mail no dia a dia pode dizer que pelo menos um ou dois e-mails de spam passarão pelo filtro e chegarão à sua caixa de entrada em um período de três dias. Na época não pensei nisso. Eu estava tão preocupado em apressar o que havia concordado em fazer que minhas habilidades de pensamento crítico não tiveram tempo de se atualizar.

Quando verifiquei a pasta da lixeira nos emails, encontrei centenas, senão milhares, de notificações automatizadas que foram excluídas. Eles eram de todos os cantos das redes sociais e sites de conteúdo: YouTube, Facebook, Twitter, Tik Tok e muitos, muitos mais. Cada notificação foi marcada como lida. Pesquisei um pouco mais e descobri que todos foram enviados no espaço de uma semana. Escolhi um aleatoriamente e abri.

A notificação era para um novo comentário em um vídeo que Carol havia postado e não era nada lisonjeiro, para dizer o mínimo. O postador, cujo nome de usuário é Templar19, fez um discurso retórico sobre o quão ruim o vídeo era e que eles cancelariam a inscrição no canal por causa da continuação do conteúdo ruim. Eu ainda estou sendo muito leve, O comentário inteiro foi formulado de tal forma que parecia mais um ataque pessoal.

Havia um link para o vídeo em questão. Toquei nele e assisti ao primeiro minuto do vídeo. Era um tutorial de maquiagem que Carol postou. Não era algo que me interessasse, mas a julgar pelo número de visualizações e quantos seguidores ela tinha, foi definitivamente algo que muitos outros gostaram.

Agora que eu tinha algum contexto, rolei para baixo até os comentários para localizar o comentário do Templar19 e ver se outras pessoas haviam respondido. Encontrei o comentário, mas não era nada como a notificação havia dito. Em vez disso, era uma crítica brilhante que se esforçou para elogiar Carol e o conteúdo que ela forneceu. Isso era estranho, obviamente, mas imaginei que havia duas postagens e a negativa havia sido excluída.

Comecei a duvidar dessa teoria à medida que analisava mais as notificações na lixeira do e-mail. Todos eles eram ruins, muitos deles beirando o ódio. Porém, quando eu verificava a plataforma em que eles estavam supostamente hospedados, sempre encontrava uma postagem positiva. Algo muito estranho estava acontecendo.

Ví um e-mail que era uma resposta a uma denuncai que Carol havia feito ao administrador do site sobre um comentário particularmente nojento. O administrador enviou uma resposta dizendo que não havia encontrado nenhuma evidência de assédio e que havia verificado se o comentário em questão não havia sido excluído ou editado. Eles não disseram isso diretamente, mas estava fortemente implícito que eles acreditavam que ela estava inventando tudo.

Ela anexou dois itens ao seu e-mail original. A primeira era uma cópia da notificação original que ela havia recebido. A segunda foi uma captura de tela que ela tirou do comentário. A imagem também incluía vários outros comentários, todos negativos. Quando localizei esses comentários, porém, nenhum deles continha a mesma mensagem.

[LONGA EXPLOSÃO DE ESTÁTICA. HÁ UM HUM BAIXO ACOMPANHANDO O RUÍDO. O SOM TORNA A FALA DE ANDREW Tebelt IMPOSSÍVEL DE OUVIR ATÉ TERMINAR]


…escreveu no Facebook sobre como ela estava se sentindo deprimida após o ataque de comentários negativos. Sua mãe e vários amigos responderam à postagem, e todos basicamente disseram que ela havia se tornado uma chorona e uma pessoa decepcionante com linguagem extremamente ofensiva. As mensagens eram longas e intensas, e eu me sentia cada vez mais solidário com Carol. Ninguém merecia a quantidade de abusos que ela recebia, especialmente das pessoas de quem ela era mais próxima.

Fiz uma pausa por cerca de uma hora. Em algum momento durante o processo, comecei a me importar menos em ajudar Roger no seu caso de ser descoberto e mais em descobrir o que havia causado essa avalanche de ódio contra Carol. Nenhuma das peças, especialmente os comentários que pareciam mudar magicamente entre negativo e positivo, pareciam se encaixar em uma imagem coerente.

[CURTA EXPLOSÃO DE ESTÁTICA. O zumbido está um pouco mais alto do que anteriormente]


…mantive firme, mas imaginei que já tinha chegado até aqui. Cliquei no correio de voz e quase imediatamente desejei não ter feito isso.

O que se seguiu foi uma mensagem de quase cinco minutos da mãe de Carol repreendendo a filha. Isso afetou todos os aspectos de sua vida; não parecia haver nenhum limite que a mulher não cruzasse. Em um momento particularmente horrível, ela afirmou com muita naturalidade que a única razão pela qual Carol havia nascido foi porque ela não tinha condições de interromper a gravidez, depois de engravidar de um homem que não era o pai que Carol conhecia.
Só consegui ouvir metade antes de interromper a reprodução. Eu não aguentava mais do que isso.

A segunda mensagem de voz era de Roger. Ela o recebeu menos de uma hora depois de receber a mensagem de voz de sua mãe. Se a primeira mensagem me deixou enojado, esta fez meu sangue ferver. Em um tom muito condescendente, ele começou a falar detalhadamente sobre cada falha que viu nela. Ele a destruiu em tudo, desde sua inteligência até sua aparência e até mesmo suas habilidades para fazer amor. Foi brutal de ouvir. Foi quase um alívio quando ele finalmente declarou que o relacionamento deles havia acabado e desligou o telefone.

Eu estava pegando meu próprio telefone antes mesmo de a gravação terminar. Amizade que se dane, eu não iria ajudar alguém que pudesse ser tão cruel com outro ser humano. O número foi digitado e meu polegar estava sobre Ligar quando um pensamento me fez parar.

Roger me contou que estava se preparando para romper o relacionamento com Carol quando ela cometeu suicídio. Porém, de acordo com a mensagem de voz que ele deixou, ele já havia feito isso. Por que ele mentiu para mim sobre isso? Não parecia haver nenhum sentido nisso. Ele estava se sentindo culpado por sua mensagem ter possivelmente contribuído para que ela tirasse a própria vida?

Pensei nas mensagens online que mudavam misteriosamente.

Eu estava começando a pensar que talvez-

[SOM DE PULSAÇÃO LONGO, COMO O FLUXO DE ELETRICIDADE. HÁ RUÍDOS TRANQUILOS, COMO SUSSURROS NO FUNDO]


Descobri que Carol havia baixado um arquivo de áudio um dia antes de sua morte. A voz de uma mulher, baixa e uniforme, soou no alto-falante do telefone quando toquei no arquivo. Levei alguns segundos para perceber que estava ouvindo uma gravação ASMR. Para quem não sabe o que é isso, são basicamente vozes e sons gravados de forma a provocar uma resposta física nas pessoas. Você conhece aquela estranha sensação de formigamento que às vezes você tem na cabeça? As gravações ASMR deveriam desencadear isso.

Muitas pessoas, muito mais do que você provavelmente pensa, usam vídeos ASMR no YouTube ou gravações de áudio para relaxar e até adormecer. Elas não funcionam para todos, mas muitas pessoas confiam nelas e os usam como parte de sua rotina diária. Depois do estresse que toda a negatividade repentina em sua vida deve ter causado a ela, não era de admirar que Carol tivesse procurado algo para ajudar a aliviá-lo.

Em vez de tentar explicar a gravação no telefone dela, gostaria de reproduzir uma parte dela. Um aviso rápido: há algum conteúdo questionável nele, então, se esse tipo de coisa incomoda você, recomendo pular até passar. Se eu conseguir postar isso, tentarei deixar marcadores na linha do tempo para que vocês saibam quando terminar.

Aqui está. Não vou revelar o nome da pessoa que o criou ou a fonte de onde foi baixado, por motivos que ficarão extremamente óbvios daqui a pouco.

[O CONTEÚDO GRAVADO COMEÇA A SER REPRODUZIDO. É UMA VOZ DE MULHER, POUCO ACIMA DE UM SUSSURRO]

VOZ DE MULHER
Às vezes é melhor dar um passo atrás, respirar fundo e tentar se livrar de todo o estresse que você está sentindo. Sei que a vida às vezes pode ser difícil e todos temos que carregar nossas cruzes pessoais. Pode parecer que você está sendo oprimido, como se estivesse sendo sufocado. É importante lembrar que sempre há outras pessoas a quem você pode recorrer quando precisar de conforto e segurança.

[Sussurros, quase inaudíveis, começam no fundo]

VOZ DE MULHER (cont.)
Às vezes precisamos nos perguntar o que faríamos se não tivéssemos essas pessoas incrivelmente importantes em nossas vidas. Imagine o quão solitário isso seria. Se todos em sua vida se voltassem contra você, o que você faria?

Acho que se todos estivessem se voltando contra mim, eu precisaria dar uma boa olhada em mim mesmo. Todas essas pessoas não poderiam estar erradas. O que eles sabiam que eu não? O que havia de tão errado comigo que provocou tanto desdém e ódio? Teria que haver algo para que todos agissem dessa maneira.

E você? Você já experimentou todos os seus amigos e familiares virando as costas para você? Se sim, você olhou bem dentro de si mesmo e descobriu por que é tão repulsivo para os outros?

Acho que se fosse eu, teria que decidir se as pessoas de quem gosto estariam melhor sem mim em seu mundo. Afinal, minha vida é mais importante do que a felicidade de todas as outras pessoas? Não, claro que não. Eu amo minha família e amigos. Quero que eles sejam felizes, muito mais do que eu quero que eu seja. Se a minha ausência fosse o que os faria felizes, então não seria melhor para todos se eu apenas…

[A PALAVRA FINAL É MAIS ALTA E DISTORCIDA]

VOZ DE MULHER (cont.)
-MORTA?

[FIM DA GRAVAÇÃO]


Tem mais, muito mais, mas tenho certeza que você entendeu. Também tenho certeza de que você sabe aonde isso está levando. Localizei o site de onde Carol baixou a gravação do ASMR e, quando a reproduzi lá, não se parecia em nada com a versão que ela havia baixado. Em vez disso, estava focado em algo chamado Reiki, com o qual não estou familiarizado, mas claramente não era algo sinistro.

Na pasta Downloads também encontrei uma cópia de um extrato bancário recente de sua conta online. Mostrou que a conta continha economias decentes até uma semana antes da morte de Carol. Nesse ponto, havia ido para zero. A alteração no saldo foi listada como saque no caixa. Era muito dinheiro retirado em uma única transação.

Por tudo o que havia descoberto até agora, fiquei imediatamente desconfiado. Examinei o histórico de ligações do telefone para saber a data em que ela baixou o documento e descobri que ela havia feito uma ligação para o número de atendimento ao cliente que consta na parte inferior do extrato. A ligação durou mais de uma hora. Pareceu-me que Carol não foi a pessoa que esvaziou sua conta e, quando ela verificou sua conta e viu que estava vazia, ligou para o banco para corrigi-la.

Em seus últimos dias, Carol sofreu ataques mentais, emocionais e financeiros. Deve ter sido um inferno.

Este ataque obviamente foi planejado. Eu simplesmente não conseguia ver como isso teria sido possível. Postagens online nas principais plataformas de mídia social que pareciam de uma maneira para alguém, mas completamente diferentes para todos os outros? Gravações de áudio que eram magicamente diferentes para um download? E o saque bancário foi um saque no caixa, o que significa que alguém foi a um banco físico e retirou o dinheiro da conta. Como isso poderia ter acontecido? Isso nem explicava às mensagens de voz.

Como alguém que faz muitas pesquisas regularmente na indústria de tecnologia, eu sabia que a mensagem e as alterações na gravação deveriam ter sido impossíveis. Tecnicamente, teria sido possível atingir um único sistema como esse, neste caso um celular, mas fazê-lo em tempo real? Foi aí que cruzou para o reino da fantasia. Mesmo que houvesse uma maneira de fazer isso, seria necessário muita mão de obra. Uma enorme conspiração contra um único funcionário do governo de uma pequena cidade não fazia sentido.

[UMA COMBINAÇÃO DE ESTÁTICA DISTORCIDA E SUSSURROS MAIS ALTOS DO QUE ANTERIORMENTE. OS SUSSURROS ESTÃO EM UMA LÍNGUA IRRECONHECIVEL]


Um por um, passei por todos os aplicativos do telefone de Carol. Eu havia abandonado completamente o plano original de me livrar das referências ao caso dela com Roger. Em vez disso, eu estava agora apenas procurando outros sinais de que sua vida e seu bem-estar tivessem sido alterados.

Descobri uma série de coisas que teria descartado como sem importância se não estivesse procurando especificamente por esquisitices. Por exemplo, suas últimas postagens no Instagram tiveram significativamente menos interações do que as anteriores, a tal ponto que poderia muito bem não ter havido nenhum. O mesmo aconteceu com sua conta Tik Tok.

O mais preocupante foi que comecei a ver um padrão surgindo também em aplicativos de mídia não social. Todas as suas sugestões de conteúdo no Netflix e HBO Max eram histórias deprimentes ou continham personagens que cometeram suicídio. Tentei clicar em alguns filmes e programas assistidos anteriormente por Carol que não fosses essas sugestões, mas a cada vez, uma mensagem de erro aparecia dizendo que o conteúdo não estava disponível no momento e que tentasse novamente mais tarde. As series e filmes deprimentes sugeridos, no entanto, começariam a reproduzir instantaneamente.

[MAIS ESTÁTICA DISTORCIDA E SUSSURROS MAIS ALTOS. DESTA VEZ OS SUSSURSOS ESTÃO EM INGLÊS E REPITAM AS PALAVRAS “Só há um caminho” MUITAS VEZES]


Finalmente fiquei sem aplicativos para verificar, com exceção de um. Eu estava evitando esse de propósito. Durante as horas em que estive mexendo no telefone de Carol, invadi sua privacidade. Como já disse, não era certo e não é algo que me orgulho de ter feito. O último aplicativo levaria essa invasão de privacidade um passo adiante. Eram as imagens e as gravações das câmeras de segurança de sua casa.

Eu me forcei a clicar no aplicativo. Não havia dúvida em minha mente de que Carol havia sido um alvo e empurrada repetidas vezes até finalmente tirar a própria vida. Eu precisava coletar todas as evidências que pudesse e entregá-las à polícia. Eu provavelmente teria problemas pelo que fiz, mas valia a pena que as autoridades investigassem quem havia feito isso com ela.

Havia apenas três gravações de câmeras listadas no aplicativo. Cada um tinha um carimbo de hora e data, e todos foram listados como tendo sido capturados quando um sensor de movimento foi acionado. Todos eles ocorreram poucos dias após o suicídio de Carol. Respirando fundo, comecei a primeira gravação.

Mostrava uma mulher de trinta e poucos anos caminhando em direção à câmera. A cena estava em um ângulo estranho e levei alguns segundos para perceber que estava assistindo a uma filmagem de uma campainha. Reconheci a mulher como Carol pelas fotos dela nas redes sociais. Ela parou a poucos metros da câmera e vasculhou o bolso antes de pegar um molho de chaves. Ao fazer isso, seu rosto se inclinou em um ângulo que me permitiu ver as olheiras sob seus olhos. Ela parecia exausta.

Ela encontrou a chave que procurava e inseriu-a na fechadura. Quando ela foi girá-lo, no entanto, ela se esforçou para fazê-lo. Ela lutou com a fechadura por um momento antes de recuar e olhar para a chave que segurava. Agora estava quebrado. Ela olhou para ele sem expressão antes de seu rosto se contorcer de raiva e ela jogá-lo no chão. Ela se inclinou para frente e encostou a cabeça na porta. Era difícil dizer pelo ângulo, mas pensei que ela estava chorando.

Eu me senti horrível por ela. Ela estava passando por tanta coisa, e isso claramente a estava desgastando. Eu não conseguia imaginar como seria passar por algo assim.

A segunda gravação estava completamente preta e era impossível ver alguma coisa nela. Presumi que houvesse algum tipo de erro, mas ainda havia áudio. Ou a câmera não gravou corretamente ou estava escuro demais para a câmera iluminar. Eu podia ouvir uma série de sussurros estranhos que eram fracos demais para distinguir palavras. Houve também um zumbido que não consegui identificar.

Se você ainda está comigo até agora, espero que isso signifique que você entende que isso não é algum tipo de piada ou pegadinha elaborada. Eu… entendo como tudo isso soa. Está prestes a soar muito pior. Se você já acha que sou louco, você está prestes a ouvir algo que vai deixar isso gravado em sua mente. Se você não pensa assim, provavelmente pensará em breve.

[ESTÁTICA MAIS DISTORCIDA. ESTÁ MAIS ALTO DESTA VEZ. UMA VOZ MECÂNICA ALTA DIZ AS PALAVRAS “ACABE COM TUDO”]

A terceira e última gravação foi feita por uma câmera em um corredor. Estava em um ângulo que apontava para uma porta aberta. Este era o quarto de Carol. A cama podia ser vista no lado direito da abertura, e à esquerda havia uma pequena mesa ou escrivaninha com um laptop aberto. A imagem era aquele preto e branco estranho que você obtém quando uma câmera de segurança está no modo de visão noturna. De acordo com o horário, a gravação ocorreu às 2h54 da manhã do dia de suicídio de Carol.

[UM LONGO MOMENTO DE RESPIRAÇÃO PESADA SEM MAIS NADA NO FUNDO]

A… coisa apareceu no lado esquerdo do quarto. Inclinava-se para baixo na parte superior e a princípio pensei que fosse extremamente alto. Esse não foi o caso, no entanto.

Vou tentar descrevê-lo. Me desculpe se não fiz muito sentido enquanto faço isso. Cada vez que tento fazer isso, parece que os limites da língua portuguesa tornam impossível fazê-lo corretamente.

Estava sendo abaixado por finas gavinhas sinuosas. A criatura em si era… Porra, como posso dizer isso? Tinha apenas alguns centímetros de largura, mas era da altura de uma pessoa.

Era como se a cabeça e o corpo fossem apenas uma máscara e uma cobertura sendo manipuladas pelas gavinhas, em vez de uma figura real. Três apêndices em forma de braço se estendiam em direção à cama, cada um terminando em fios finos e delicados que funcionavam como dedos.

Pelas circunstâncias da gravação, por estar tão escuro e pela baixa resolução da visão noturna da câmera, foi difícil perceber mais detalhes. Fiquei grato por isso.

A criatura puxou lentamente o cobertor da cama. Ele soltou e permitiu que o pano caísse no chão. Um dos apêndices estendeu-se lentamente pela porta aberta e entrou no corredor. Os dedos tocaram um termostato preso a uma das paredes e giraram o botão totalmente para a esquerda. O apêndice retraiu-se e a criatura desapareceu de vista.

Minutos se passaram enquanto a gravação continuava. Comecei a me perguntar se mais alguma coisa iria acontecer quando um par de pernas balançou para fora da cama. Carol saiu da cama, os braços cruzados com força sobre o peito enquanto tremia visivelmente. Ela saiu para o corredor e verificou o termostato. Voltando-o para onde estava antes de a criatura ajustá-lo, ela colocou a mão na parede e encostou-se nela por um momento. Ela parecia que estava prestes a desmaiar de exaustão. Ela se recompôs e voltou para o quarto, pegando o cobertor antes de voltar para a cama.

A gravação terminou.

Eu assisti denovo… não sei quantas vezes reassisti. Eu simplesmente continuei reproduzindo isso uma e outra vez. Não importa quantas vezes eu assistisse, simplesmente não conseguia me forçar a aceitar.

Estou tentando descobrir como colocar isso de uma forma que realmente explique como eu estava me sentindo. Foi como sofrer um acidente de carro. Quando isso acontece, você sabe intelectualmente que acabou de sofrer uma colisão. A evidência está bem na sua frente: o metal retorcido, o vidro quebrado, o cheiro de fumaça. Mesmo quando você está olhando diretamente para os destroços, há uma estranha desconexão que não permite que você entenda o que acabou de acontecer com você.

Isso foi o que eu estava vivenciando enquanto assistia às imagens da câmera de segurança em loop.

Não tenho certeza de que tipo de exibição eu estava assistindo quando comecei a questionar por que isso estava acontecendo. Por que esta criatura estava tirando um cobertor e ajustando um termostato? Parecia infantil, algo no mesmo nível de uma pegadinha de faculdade.

Eu provavelmente deveria ter montado tudo mais rápido do que fiz, mas minha mente ainda estava girando. Não eram as ações em si que eram importantes. Foi o resultado. A criatura estava privando Carol do sono. Esse foi o último componente necessário para empurrá-la além de seu ponto de ruptura.

A criatura certificou-se de que todos os caminhos a levassem a tirar a própria vida.

[UMA SÉRIE DE RUÍDOS, COMO O SOM DE UM RELÓGIO, MAS LEVE DISTORCIDO]


Eu não levei nada disso à polícia. Essa era minha intenção original, e eu faria isso se achasse que isso faria algum bem. O problema é que nada disso pode ser corroborado. Eu tenho algumas capturas de tela que os próprios sites disseram que não eram precisas e alguns vídeos granulados? Da perspectiva deles, eu seria apenas o apresentador de podcast maluco que está usando um evento trágico para impulsionar o interesse em seu programa.

É aqui que a história de Carol Blake termina. Infelizmente não é onde a história como um todo chega.

Há 24 horas descobri que Roger cometeu suicídio. Um único ferimento de bala na têmpora direita. No momento antes de o gatilho ser puxado ele estava lá, e no momento seguinte não estava.

Liguei para sua esposa para oferecer minhas condolências. Começamos a conversar, e não sei se foi a dor ou alguma necessidade de tirar isso do peito ou algo assim, mas ela me disse que um dia antes de ele morrer, uma mulher apareceu na porta deles enquanto Roger não estava em casa.
A mulher lhe apresentou uma pilha de fotos e registros de e-mail mostrando detalhadamente que Roger estava tendo um caso. Essa mesma mulher se identificou como Carol Blake.

Não era preciso ser um gênio para somar dois mais dois. A criatura da filmagem de segurança foi atrás de Roger e mais uma vez teve sucesso.

Esta manhã, acordei com uma mensagem em meu telefone alertando que minha conta corrente estava com saldo negativo. Milhares de dólares simplesmente… desapareceram. Também recebi um aviso de que meu podcast está suspenso por violar os termos e condições do site de hospedagem.

É a minha vez de ser alvo. Espero que, por realmente saber o que está acontecendo, eu seja capaz de superar o que está por vir. É isso que espero.

Não há como saber que plano o Engenheiro dos Suicidios tem para mim.

[ESTÁTICA COM O MESMO RUÍDO DE ANTES. O RUÍDO PERMANECE POR ALGUM TEMPO ANTES DE TERMINAR A GRAVAÇÃO]

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