Morei em algumas casas enquanto crescia, mas de todas elas só uma permaneceu na minha cabeça. Foi a casa onde meus pais morreram. Quando eu tinha 14 anos, nos mudamos para uma pequena casa de dois quartos numa cidadezinha de Oregon. A casa ficava no fim de uma estrada de meio quilômetro que serpenteava por entre abetos densos. No final havia uma clareira, e no centro dela estava nossa casa. Parecia tirada de um conto de fadas. Mal sabia eu que estava longe disso.
Na época eu era um solitário, do tipo que abafava o mundo com fones de ouvido ou se escondia dele sentado sozinho. Um dia, eu estava sentado sozinho como de costume quando uma garota chamada Emma decidiu que eu seria um bom amigo. Ela veio até mim e começou a conversar. Foi tão chocante que tudo o que pude fazer foi encarar. Só depois que ela me perguntou meu nome pela terceira vez é que consegui responder. — Eu sou Toby — disse num sussurro. — Eu sou Emma. Você é novo na cidade, né? — ela quase gritou. A energia dela sempre foi igual à de um esquilo que tomou um energético demais. — Sim, me mudei de uma cidade pequena na Califórnia — respondi, ainda sem entender por que aquela bola de fogo humana falava comigo.
Ela sentou ao meu lado. — Legal. Em qual casa você se mudou? Hesitei antes de responder. — A pequena de dois andares na beira da cidade, sabe, aquela com a entrada enorme. O rosto dela empalideceu quando eu disse qual era. — Oh. Legal — disse Emma com uma pontada de desconforto bem visível na voz. Sua expressão dizia que não era legal. Olhei em seus olhos enquanto ela procurava outro lugar para olhar. — Tem algo de errado com aquela casa? — perguntei, começando a fuçar no assunto. — Só fique longe do bosque. Confia em mim — Emma disse baixinho.
— Olha, eu preciso ir para a aula — disse ela levantando-se. — Por que eu não posso ir pro bosque? — estava confuso e um pouco inquieto, queria mais explicações. Emma parou, pensou, então virou e voltou até mim. — Me encontra no parque depois da aula. Eu explico lá. As palavras ficaram zumbindo na minha cabeça o dia todo: fique fora do bosque. Por quê? O que precisa ser explicado? Ursos? Não consegui me concentrar pelo resto do dia escolar. Quando o sinal final tocou, arrumei minhas coisas e fui para o parque. Quando cheguei, vi Emma sentada num banco debaixo de uma árvore.
— Ei, então por que eu não posso ir no bosque? — perguntei me sentando ao lado dela. — Não posso te falar aqui. Me segue. Fiquei confuso. — Te seguir para onde? — proferi. — Pro bosque — Emma respondeu. Fiquei olhando para ela por um segundo antes de dizer devagar: — Então temos que entrar no bosque pra você me contar porque eu não devo ir no bosque? Emma parecia que o cérebro dela deu um salto até processar o que eu disse. — Eu quis dizer: não vá à noite. Ah, para, só me segue.
Estava nervoso vendo Emma entrar na linha das árvores, mas decidi seguir. — Então, pra onde a gente vai? — perguntei. — Eu vou te mostrar porque você deve ficar fora do bosque. Ela não disse mais nada durante toda a caminhada. Levamos cerca de uma hora andando, até que começamos a ver sinais de vida. Bem, onde antes havia vida. Fios de lâmpadas velhos pendurados entre as árvores, alguns folhetos meio enterrados na terra, até um corrimão antigo como os que a polícia usa. À medida que avançávamos, apareciam mais sinais de que realmente houve um parque itinerante ali.
Mais adiante eu vi uma clareira onde algumas estruturas metálicas ainda se erguiam. Um brinquedo giratório genérico, enferrujado e tomado por vinhas. Uma torre de queda praticamente corroída. Uma barraquinha de lanches tombada e apodrecendo. Era arrepiante e, ao mesmo tempo, tinha algo de acolhedor, como se a memória das pessoas felizes que passaram ali tivesse impregnado a terra. Era quase viciante. — É por isso que você deve ficar fora do bosque — disse Emma numa voz sombria, nada como o tom energético dela. — Porque tem um parque de diversão abandonado? — ri, meio que em deboche.
Emma olhou pra mim. — Não. É por causa do que aconteceu aqui. Isso me pegou desprevenido. — Espera, o que aconteceu aqui? — Emma sentou num banco enferrujado antes de falar. — Esse parque existe há muito tempo. Quando ainda funcionava, o dono se chamava Edward. Ele era um homem estranho, imigrante do Reino Unido, e quase não saía do terreno do parque itinerante. Então, quando crianças começaram a desaparecer, quem a cidade ia culpar senão o estrangeiro esquisito que mora no parque? Fiquei preso à história que ela contava. — A polícia investigou e sabe o que encontraram? — lancei a primeira hipótese que me veio à cabeça. — As crianças? — Emma riu. — Não. Não encontraram nada. Parecia que Edward era inocente, mas os locais não viram assim. Então, uma noite um grupo de homens foi até o parque e, bem, Edward nunca mais foi visto.
— Eles lincharam o Edward? — perguntei, boquiaberto. — Sim — respondeu Emma, — mas a lenda diz que a alma de Edward ficou aqui, esperando a chance de se vingar de quem o matou. Um arrepio percorreu meu corpo. É uma história interessante, mas duvido que um fantasma ficasse esperando num parque de diversão enferrujado. Emma balançou a cabeça. — Se você não me ouvir, tudo bem. Você vai acabar sumindo também — disse ela com um leve cenho. — Como assim? As pessoas ainda desaparecem? Isso significa que o cara nunca foi pego? — Toby, isso aconteceu há 50 anos. E sim, pegaram o homem que matou aquelas crianças. Era um tal de Henry Beaumont. Ele morreu na prisão uns 20 anos atrás.
Voltei para casa e fui recebido por gritos de duas pessoas discutindo. Minha mãe e meu pai brigavam de novo. Era quase diário. Se eu soubesse o que ia acontecer… Subi para meu quarto. As paredes eram finas e eu ainda ouvia as vozes, então coloquei os fones e me deitei. O céu estava escuro e o ar tinha cheiro de fritura. A noite trazia as lâmpadas presas de árvore em árvore brilhando. Havia brinquedos e barracas de jogos, e ainda assim havia algo errado. O lugar deveria estar cheio de gente, mas só havia eu e outro homem. Ele estava no centro da clareira, de costas. — Alô? — chamei para o homem. — Olá — ouvi a resposta. — Sim, olá. Você não está aqui — disse o homem misterioso. — Como assim? Quem é você? — O homem se virou e eu não conseguia ver o rosto. — Não posso responder. Você não está aqui. O homem inclinou a cabeça e disse: — Venha, eu te mostro.
Acordei do cochilo com o sonho ainda vívido. A casa estava silenciosa, então achei seguro pegar algo pra comer. Fui para a cozinha e olhei pela janela: o carro do meu pai tinha sumido. Mais uma escapada raivosa até o bar. Fiz um sanduíche e voltei pro quarto. No corredor ouvia minha mãe chorando baixinho no quarto dela. Voltei ao meu quarto e, ao sentar, notei uma luz no bosque. Provavelmente alguém acampando, pensei, antes de dormir vendo um filme.
No dia seguinte, Emma veio até mim. — Ei, Toby, como foi sua noite? — perguntou. — Mais ou menos. Tive um sonho estranho, só — respondi. Emma se aproximou. — Sério? Me conta o que aconteceu. Pensei por um segundo tentando lembrar o sonho. — Sonhei que estava no parque de diversão, mas ele parecia novo, como se tivesse aberto ontem. Havia um homem que só dizia: você não está aqui. Parecia que ele tentava me levar pra lá. Não sei, foi tudo muito estranho. Emma me olhava interessada. — Você viu o que ele parecia? — Não, o rosto estava borrado. Não era coberto, só indistinto. Emma ficou pensando como se estivesse resolvendo os mistérios do mundo. — Não acho que seja coincidência. Você sonhou com o parque itinerante na mesma noite em que ele acendeu. É estranho. Eu apenas pensei no que ela tinha dito.
— Espera, o parque acendeu? — Emma me olhou como se eu fosse um idiota. — Sim, às vezes acontece. Só de vez em quando ele acende. Mas ultimamente tem acontecido duas noites seguidas. Algo está diferente.
Voltei pra casa pensando no sonho e nas luzes. Relembrando a conversa com Emma, tive uma ideia. Acho que Edward quer falar comigo. Devo ir ao parque? Por que não? Edward não machucou ninguém. Foi o Henry. Deveria estar seguro. Depois de me convencer por uma hora, decidi ir. Fugir de casa foi fácil. Meu pai não tinha voltado e minha mãe não saiu do quarto desde a briga. Saí pela porta da frente. O sol estava se pondo quando entrei na mata. Enquanto andava senti uma sensação ruim no peito, como se estivesse fazendo algo errado. Mas a curiosidade era mais forte.
Andei debaixo das luzes antigas penduradas entre as árvores enquanto o sol sumia e a noite chegava. Uma corda de luz piscou antes de ficar acesa como um velho que levanta devagar. Outra acendeu e outra. Em dez segundos todas as luzes se acenderam e me guiaram até o parque. Entrei na clareira e o parque de diversão brilhava como no meu sonho. Comecei a andar procurando qualquer coisa. Notei uma tenda no fundo. De dentro vinha algo que me gelou: uma caixinha de música tocando uma melodia antiga. Não quis olhar por medo, mas a curiosidade venceu. Espiei e vi uma mesa iluminada por uma lâmpada antiga. Papéis espalhados e, no centro, uma caixinha de música ornamentada com uma manivela de latão. Ao abrir, percebi que não eram só papéis inúteis. Debaixo da caixinha havia um diário de capa de couro. No interior da capa estava escrito: Edward Blackburn. Abri numa página qualquer e comecei a ler.
Estou tão feliz que o parque está indo bem. Em apenas uma semana tivemos a maior parte da cidade por aqui. Os lucros estão altos. Talvez eu consiga tornar isso permanente. Aquele acordo foi o melhor que fiz. Tomara que não volte pra me morder. Ao ler essa última frase ouvi o pio de uma coruja. Percebendo a hora, peguei o diário e fui pra casa. Cheguei a tempo de ver as luzes do Mazda do meu pai quando fechei a porta. Corri pro meu quarto e finji estar dormindo. Deitei e logo ouvi os passos bêbados dele tropeçando pela casa e o barulho de quando ele caiu no sofá. Conhecendo-o, em segundos estaria dormindo. Adormeci não muito depois.
Fui acordado pelo alarme. Hora de ir pra escola. Me arrumei, saí de casa passando pelo corpo ainda adormecido do meu pai no sofá. Quando saía ouvi uma voz chamar atrás. — Toby, espera. Virei e vi Emma correndo pra me alcançar. Parei pra ela me alcançar. — Ei Toby, teve outro sonho estranho? — perguntou ela. — Não — respondi. — E as luzes? Você viu? Pensei se contava tudo. — Sim, eu vi. — Emma respondeu provocando: — Você não achou que era uma fogueira de novo, né? Dei um risinho. — Não, eu sabia o que era. Emma ficou séria. — É estranho como Edward tem aparecido. — Como assim? — Eu não sou daqui, né? O parque do Edward normalmente acende só uma vez por mês, mas por algum motivo vimos as luzes duas noites seguidas. Algo está diferente.
Voltei pra casa depois da escola. O carro do meu pai tinha sumido de novo. Entrei no quarto e vi o diário do Edward aberto na minha mesa. A página estava em branco exceto por duas palavras: Volte. Em vez de me assustar, fiquei irado. Edward estava brincando comigo e eu estava cansado disso. Decidi voltar. Não preciso descrever de novo a escapada. Voltei pro bosque com o sol ainda no céu. O parque parecia exatamente como quando fui com Emma. — O que você quer? — gritei para o vazio. Só ouvi o eco da minha voz. Sentei num banco. Não ia sair até saber o que estava acontecendo. Enquanto pensava percebi como minha birra era inútil. Quando estava prestes a levantar uma luz começou a piscar. Olhei para o céu. Já era noite. Quando o parque acendeu outra vez, havia mais força. Músicas de parque começaram a tocar. O cheiro doce de comidas invadiu o ar. Senti meu sangue gelar quando uma sombra se formou no meio do parque itinerante.
O corpo humano tem um mecanismo de defesa chamado luta ou fuga. Quando colocado em situação de estresse extremo alguém luta ou foge. Algo que não falam muito é a terceira resposta: congelar. Eu estava congelado de medo. A forma era mais alta e ficou totalmente imóvel. Ficou cada vez mais escura até ficar pura escuridão. A escuridão se dissipou e então lá estava ele: Edward, tão real quanto você ou eu. Caminhou até mim. — Olá, Toby — disse ele. — Eu me apresentaria, mas parece que já nos conhecemos. — Ele sorriu gentilmente. — Você não tem nada a temer. Por favor, aproveite tudo que meu parque oferece. Edward estalou os dedos e, atrás de cada barraca, uma fumaça roxa explodiu. Quando a fumaça evaporou, em cada ponto havia uma pessoa vestindo o mesmo traje de Edward, todas com máscaras.
Fui até um jogo e olhei para um daqueles atendentes. A máscara era metade preta, metade branca. Um sorriso pintado de ouro. Quando a pessoa se inclinou, a voz do Edward veio de trás da máscara. — Toby, quer ganhar um prêmio? — O atendente estendeu quatro bolas de baseball. — Só derrube as garrafas e ganha um desses. Ele levantou um grande guaxinim de pelúcia. Passei a noite inteira lá. Joguei, comi algodão doce e bolo frito até me empanturrar. Foi uma das melhores noites da minha vida. Antes de eu ir, Edward me puxou de lado. — Bem, espero que tenha se divertido, garoto, mas receio que o parque está fechando. Sugiro que vá pra casa agora, mas não chore. Meu parque de diversão estará aqui amanhã à noite. E eu já sabia que voltaria.
Na escola mal conseguia manter os olhos abertos e Emma percebeu. — Ei Toby, tá bem? — perguntou preocupada. — Sim, tô — respondi, tentando afastar a preocupação. — Só tive sono ruim. — Emma me olhou com desconfiança. — E o parque? — Pensei de novo se contava, mas decidi não contar tudo. — Nada, só vi as luzes. Emma ficou confusa. — O parque itinerante não acendeu ontem à noite. — Talvez foi só um sonho — tentei minimizar. Ela concordou, mas não parecia acreditar.
Voltei pra casa e ouvi a briga novamente. Quando abri a porta, meu pai passou por mim e me empurrou no gramado antes de sair com o carro roncando. Entrei e minha mãe estava no sofá, não chorando desta vez, apenas olhando pra frente. Esperei o pôr do sol pra ir pro parque de novo. Eu já ia todas as noites há uma semana. O lugar que me amedrontava havia se tornado meu paraíso, uma fuga daquela casa escura. Numa das noites Edward me chamou. — Ei, Toby. Gostou do meu parque? — atirei uma bola numa pilha de garrafas antes de responder. — Eu adoro. É o melhor lugar que conheci em um tempo. — Edward sorriu. — E se você não precisasse mais ir embora? — Voltei toda minha atenção pra ele. — Como assim? — Bem, nada é melhor do que ser feliz. Por que não ser feliz para sempre? Por que não ficar aqui comigo? A oferta me deixou desconfortável. — Uh, não sei. — O canto do sorriso de Edward tremulou antes de responder. — Não precisa decidir agora. Pensa e me diz amanhã. Agora o sol está nascendo. Você deveria ir pra casa.
Disse tchau e fui embora, mas algo soou errado. No dia seguinte, Emma me abordou assim que me viu. — Toby, você está péssimo. Quando foi a última vez que dormiu? — Ri e murmurei: — Boa pergunta. Emma ficou preocupada. — O que tem feito à noite? — Em sono demais deixei escapar: — O parque. O rosto dela ficou frio. — Toby, você tem ido ao parque? — Foi aí que percebi o estrago. Tentei cobrir. — O quê? Não, por que eu iria? Você disse pra não ir. — A expressão dela estava calma, mas os olhos queimavam. — Toby, se você desaparecer, aí é por sua conta. Eu avisei. Agora me conta tudo. Depois de meia hora contei cada detalhe. — Então, o Edward quer que você fique aqui pra sempre? — Eu assenti. — Bom, resposta fácil — disse Emma. — Nunca volte. Não dê resposta alguma. Eu assenti novamente. — Sim, provavelmente é o melhor.
Cheguei em casa e sentei na cama olhando em direção ao parque. Eu sabia que seria um erro, mas queria voltar. Decidi que iria me afastar aos poucos: esperaria até ver as luzes. Naquele dia vi as luzes antes do sol se pôr. Mas não vinham do bosque — vinham do carro do meu pai descendo a entrada. Ele estacionou e ficou sentado por um tempo. Quando o sol se foi, ele saiu do carro, acabou a cerveja e pegou uma espingarda. Nunca saberei qual foi a última briga deles naquela semana, mas foi o suficiente pra fazer meu pai perder o juízo. Coloquei as botas enquanto ele cambaleava até a porta. Quando ouvi a porta abrir e fechar, comecei a passar pela janela. Quando estava na metade do caminho até a linha do bosque, escutei um som que ficou gravado na minha mente: um tiro de espingarda ecoando da casa. No escuro vi o clarão no vidro do quarto do casal. Saí correndo. Não tinha muito tempo antes do meu pai descobrir que eu havia sumido. Corri o mais rápido que pude para o bosque. Ouvia meu pai gritando meu nome atrás de mim. Enquanto corria eu sabia que estava mais perto do parque itinerante. Via as luzes, ouvia a música, sentia o cheiro da comida. Era o único lugar pra onde eu poderia ir. Algo dentro de mim dizia que eu estaria seguro ali.
Entrei no parque, mas ele permaneceu imóvel. Edward não estava em lugar nenhum. Me escondi atrás de uma barraca enquanto meu pai entrava na clareira. O ouvi chamando meu nome. De repente tudo ficou silencioso. Espiei e vi meu pai parado sobre Edward com a arma apontada pra cabeça dele. — Quem diabos é você? — Edward fez uma expressão que eu nunca tinha visto: um sorriso que mostrava raiva e ódio, não gentileza. — Sou Edward, o dono deste parque. O mesmo que você está invadindo. Meu pai foi ficando mais furioso. — Onde está meu filho, seu palhaço? — Edward riu. — Acha que eu sou um palhaço agora? Espera e vê. A boca de Edward se abriu e apareceu centenas de dentes afiados como navalhas. Meu pai puxou o gatilho, mas tudo o que conseguiu foi deixar a besta enfurecida. A criatura recém-formada agarrou a cabeça do meu pai e a mordeu. Ouvi um estalo doentio enquanto sangue espirrava pela grama. O corpo do meu pai, sem cabeça, caiu ao chão.
Edward se virou para mim e chamou: — Venha, Toby. Fique aqui pra sempre comigo. Eu posso te fazer feliz. A besta nem tentou mais esconder o ar sinistro. — Você não quer isso? Sem dizer nada eu virei e corri. Ouvi um grito de frustração atrás de mim, como um predador que perdeu a presa. Só então, agora que o encanto havia se quebrado, pude ver os corpos espalhados em vários estados de decomposição. Alguns eram esqueletos. Alguns ainda tinham carne, mas todos eram crianças. Pareciam ter entre cinco e quinze anos. Um corpo em particular me fez parar por um segundo. Não devia ter mais do que duas semanas, mas eu reconheci: era Emma. Saí correndo de novo e não olhei para trás.
Fugi para a cidade e a polícia me encontrou. Eles investigaram minha casa e o bosque. Encontraram o corpo da minha mãe na cama e o do meu pai rasgado e espalhado pela floresta, mas nunca acharam os corpos das crianças do parque de diversão. Declararam tudo homicídio seguido de suicídio. Disseram que meu pai perdeu a cabeça depois da briga, matou minha mãe e depois saiu para a mata e se matou, e que os animais selvagens dilaceraram o corpo dele. Fui enviado para morar com minha tia. Fiquei com ela até fazer 18 anos e então me mudei o mais longe possível de Oregon. Não quero voltar.
