Categoria: jogo

Três folhas, dois galhos, um bico

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Isso foi a primeira coisa que o Jeremy me disse. Eu estava cuidando dos meninos há três dias, enquanto os pais deles estavam fora. E, até aquele momento, ele não tinha falado uma única palavra. Não comigo, não com os irmãos, nem para responder perguntas simples.

Os outros dois disseram que ele era só tímido. Disseram que ele sempre foi assim: doce, educado, quieto perto de gente nova.

Mesmo assim, três dias inteiros de silêncio pareciam mais do que timidez.

Eram três irmãos, cada um com cerca de três anos de diferença. Josh era o mais velho, depois o Jonathan, e o Jeremy era o caçula. Tinha oito, quase nove anos.

Os primeiros dias foram fáceis demais, quase estranhamente fáceis. Sem brigas, sem reclamações, sem bagunças que eu não conseguisse lidar. Eles brincavam juntos, faziam o dever sem que eu mandasse duas vezes e comiam tudo o que eu colocava no prato. À noite, iam para a cama sem brigar.

Dava uma sensação errada que eu não soube explicar. Cuidar de crianças nunca tinha sido tão tranquilo antes.

Naquela noite eu estava na cozinha, limpando depois do jantar, quando percebi que o Jeremy estava parado na porta. Eu não o ouvi entrar. Ele simplesmente estava ali, me observando.

Quando me virei, ele não desviou o olhar. Não piscou. As mãos pendiam ao lado do corpo. Por um momento tive a estranha sensação de que ele já estava parado ali há um tempo, esperando que eu notasse.

Comecei a falar alguma coisa, mas ele falou antes que eu pudesse.

— Você já jogou Três Folhas, Dois Galhos, Um Bico?

A voz dele era baixa e cuidadosa, como se ele escolhesse cada palavra antes de deixá‑la sair.

Soltei uma risadinha nervosa. Não era o que eu esperava que fossem as primeiras palavras dele.

— Não, nunca ouvi falar. É divertido?

O rosto dele mudou num instante. Sorria largo e de repente, como se tivesse esperado exatamente por aquela resposta.

— Sim — disse ele. — Eu adoro esse jogo.

Ele parecia tão feliz que tive que perguntar.

— Como se joga? — perguntei.

— A gente tem que ir la fora primero — ele disse. — Aí eu te digo as regras.

Olhei pro relógio. Já era tarde e os irmãos dele estavam no andar de cima se preparando pra dormir.

— Já é muito tarde pra sair — eu disse. — Você precisa ir pra cama.

Por um instante ele não reagiu. Ficou ali, me encarando com o mesmo sorriso pequeno.

— Por favor.

Ele não aumentou a voz. Não choramingou. Só repetiu, cada vez mais baixinho.

— Por favor, 

por favor, 

por favor.

Cada palavra soava mais frágil que a anterior, como se estivesse sendo arrancada dele. Hesitei.

Eu devia ter dito não, mas havia algo nele, naquele jeito de ficar parado depois de dias de silêncio, que tornou difícil recusar.

— É rápido? — perguntei. 

— Sim — ele respondeu na hora.

Respirei aliviada.

— Tudo bem. Mas depois disso você vai direto pra cama.

Ele assentiu uma vez, firme, e saiu correndo.

Fui atrás pelo corredor, chamando pra ele ir devagar, pelo menos calçar sapatos, mas não me ouviu. Quando cheguei à porta dos fundos, ele já estava lá fora, descalço, parado no meio do quintal, imóvel.

A luz da varanda piscou quando eu saí atrás dele, e uma estranha quietude pairou sobre tudo.

Não havia vento, nem insetos, nada além do som da minha respiração por alguns segundos. Nenhum de nós se moveu. Ele não parecia impaciente. Não repetiu nada. Só esperou, como se o jogo já tivesse começado e eu fosse a que o atrasava.

— Você disse que ia explicar as regras — eu disse, tentando manter leveza.

Ele assentiu.

— Você tem que achar três folhas — ele disse. — Têm que ser diferentes.

Olhei para o chão. Havia folhas por toda parte. Aquilo parecia fácil.

— E dois galhos — continuou. — Mas você não pode quebrá‑los. Têm que já estar no chão.

— Faz sentido — eu falei. — Mais alguma coisa?

Ele pausou, adicionando um tom mais claro. — Cada vez que você pegar algo, tem que dizer em voz alta o que está segurando.

Esperei que ele explicasse por quê, mas ele não explicou. Ficou apenas olhando para mim, como se aquilo fosse suficiente.

— E o bico? — perguntei.

— Esse você pega por último — ele disse, na beira do quintal.

Ele apontou para o fundo do quintal, onde a grama dava lugar a terra e mato baixo antes de abrir para as árvores.

— Vai ter mesmo um bico ali? — eu perguntei. 

— Vai. 

— De quê?

— Os caçadores deixam eles.

A resposta veio rápido demais, como algo memorizado.

Quase questionei, mas havia no jeito de dizer que qualquer pergunta parecia inútil.

— Tudo bem — eu disse. — Eu vou primeiro.

Ele assentiu.

Afastei‑me e procurei uma folha que parecesse diferente das demais. Agachei, peguei e me levantei, girando a folha entre os dedos.

— Uma folha — disse.

Jeremy assentiu, observando minhas mãos com os olhos fixos.

Afastei‑me um pouco e achei outra, mais larga e escura, com as bordas enroladas. Peguei e juntei à primeira.

— Duas folhas.

Ele assentiu de novo, quieto.

Quando cheguei à terceira, já estava consciente de como aquilo soava estranho: ficar no quintal falando alto, repetindo palavras que pareciam não importar.

Mas eu não conseguia parar. Parecia importante para ele.

— Três folhas.

O pequeno aceno foi o mesmo. Ele não desviava o olhar; acompanhava minhas mãos como se ouvisse algo preciso e, ao mesmo tempo, visse se eu fazia direito.

— Agora os galhos — ele disse.

Fiquei olhando uma das árvores e vi um galho fino e seco perto da base. Parecia estar lá há um tempo. Peguei sem pensar.

— Um galho — falei. Jeremy inclinou a cabeça.

— Tudo junto — disse ele.

Franzi a testa, ajustando a pegada.

— Tudo junto? — ele assentiu.

Respirei e me corrigi com um sorriso forçado.

— Três folhas, um galho.

Isso pareceu satisfatório.

Andei alguns passos e achei outro galho, menor, meio escondido na grama. Peguei e falei um pouco mais rápido.

— Três folhas, dois galhos.

Ele assentiu novamente, mais devagar agora, como se confirmasse algo pra si mesmo antes de pra mim.

Por um momento ficamos em silêncio. A quietude do quintal parecia pesar mais.

Ele olhou para a floresta

— Agora o bico — disse.

Segui o olhar dele. A borda do quintal deixou de ser uma linha clara; era só um lugar onde as coisas ficavam menos nítidas.

— Você tá dizendo que vai ter um bico ali largado? — perguntei. 

— Vai.

Hesitei, então olhei pra ele.

— Vem comigo.

Ele balançou a cabeça. — Você tem que pegar.

— Como assim? A gente não pode ir junto?

— Estou observando.

Não pareceu uma resposta, mas ele não disse mais nada. Balancei as folhas e os galhos nas mãos e fui em direção à mata.

O chão mudou enquanto eu andava: a grama foi rareando para manchas de terra e raízes irregulares. O ar ali parecia mais pesado, como se o calor da casa não alcançasse aquele ponto.

Havia silêncio. Não absoluto, mas suficiente pra perceber o que faltava. Nenhum inseto, nenhum movimento nas árvores. Só aquela mesma quietude apertando ao redor.

Desacelerei ao alcançar a primeira linha de árvores.

E então vi.

Estava no chão, alguns passos à minha frente. Pequeno, pálido — um bico.

Parei e olhei, tentando entender aquilo. Não havia penas em volta, nem sangue, nada que sugerisse o que teria acontecido. Parecia limpo demais, quase intacto.

Olhei ao redor esperando achar alguma coisa: um corpo, ossos, qualquer coisa.

Não havia nada. Só o bico.

— Jeremy — chamei, sem tirar os olhos dele. — Tem mesmo um aqui.

— Eu disse — ele falou.

A voz estava mais perto do que eu esperava. Virei levemente e o vi alguns passos atrás. Eu não ouvi ele se aproximar.

Abaixei‑me e peguei o bico. Era mais leve do que imaginava, liso e inteiro, não quebrado nem rasgado — apenas separado.

Por um momento fiquei só segurando aquilo.

Então me lembrei.

— Três folhas, dois galhos, um bico — falei.

Minha voz soou mais alta do que devia.

Comecei a me erguer, virando levemente em direção ao quintal.

— Pronto, está tudo — disse. — Diga de novo.

Congelei.

A voz do Jeremy estava agora bem atrás de mim.

Virei. Ele estava mais perto, parado, olhando não para mim, mas para o que eu segurava.

— Tudo junto — disse ele.

Engoli seco.

— Três folhas — falei. — Dois galhos, um bico.

Ele assentiu um pouco, mas algo na expressão não mudou.

– denovo.

— Por quê?

— Tem que falar três vezes — respondeu ele. A voz estava plana. A empolgação de antes havia sumido.

Olhei de novo para o bico na minha mão, depois para ele.

— Três folhas, dois galhos, um bico — disse baixinho.

Ele sorriu de novo, de repente, tão brilhante quanto antes.

— Perfeito. Agora uma última coisa.

Ele correu de volta pro meio do quintal, parando no lugar onde estava antes.

— Coloque tudo aqui — disse ele, quase pulando no lugar.

Voltei, me ajoelhei e depositei as coisas onde ele apontou.

Ele imediatamente se agachou ao meu lado, mexendo com rapidez e precisão surpreendentes, arrumando os itens como se seguisse um padrão conhecido. Colocou os dois galhos primeiro, um deitado e o outro encostado em ângulo. Em seguida colocou o bico numa das pontas e alinhou as folhas ao longo dos galhos, espaçando‑as com cuidado, como se já soubesse exatamente onde cada peça devia ficar.

Fiquei observando por um segundo, tentando entender.

— O que é isso? — perguntei.

Ele não levantou o rosto. — Um corvo — disse.

Franzi a testa.

— Como você sabe o que é um corvo? Não tem corvos por aqui. O gato espantou eles anos atrás.

Ele ajeitou uma das folhas e finalmente olhou pra mim.

— Isso é só uma história — disse. Por um segundo sorriu de novo, mas o sorriso não chegou aos olhos. — Eles ainda estão aqui.

Ele olhou além de mim, em direção à mata escura. — Os corvos estão nos observando.

Na hora achei que era só pra me assustar. Aquelas coisas que criança fala pra parecer que sabe mais do que sabe.

Quase mandei ele parar, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa algo se mexeu.

Era pequeno, tão pequeno que eu poderia ter deixado passar se não estivesse olhando direto praquilo.

Uma das folhas se movimentou. Não do jeito de algo que cai ou desliza, mas mais devagar, deliberado. Levantou‑se um pouco, só o suficiente pra romper a forma, e depois se acomodou de novo.

Congelei.

Não havia vento. Eu sentia isso claramente. O ar estava completamente imóvel, pesado do jeito que fica à noite quando nada mais se move. Quando até as árvores parecem prender a respiração. Continuei olhando, esperando que acontecesse de novo.

Não aconteceu.

Por alguns segundos tudo ficou exatamente igual. Folhas, galhos, bico. Só um monte de coisas arrumadas no chão.

Entretanto olhei pro Jeremy. Ele não estava me olhando. Nem olhava para o chão à frente. O olhar estava fixo além dele, sobre a própria forma, como se esperasse que algo acontecesse.

— Você viu? — perguntei.

Ele não respondeu. Só sorriu. Não do mesmo jeito de antes; não empolgado, não impaciente. Mais contido, como se aquela parte fosse mais importante do que tudo o que já havíamos feito.

Olhei de novo. Por um momento nada mudou. Então um dos galhos se moveu.

Foi só um leve ajuste, só o suficiente pra mudar o ângulo. Mas foi o bastante. A forma deixou de parecer algo que havíamos montado. Começou a parecer algo sustentando a si mesmo.

Foi quando me afastei.

Falei que era suficiente, que o jogo tinha acabado, que era tarde demais e que entraríamos. Desta vez ele não discutiu. Assentiu como se já soubesse que iria acontecer assim.

Não olhei mais pra aquilo. Fechei a porta, tranquei e garanti que ele subisse.

Estou escrevendo isso agora, talvez uma hora depois, e continuo tentando convencer a mim mesma de que não foi nada.

Procurei uma explicação simples para o que vi, mas não voltei lá fora pra ver, e não acho que vou voltar.

Algo está fazendo barulho do lado de fora. Uma bicada lenta e deliberada. Não na porta, não nas paredes.

4

Não dormi. Fiquei no meu quarto com a porta trancada, ouvindo. O som não parou. Aparecia e sumia, nunca por tempo suficiente pra eu me acostumar, nunca tempo suficiente pra eu esquecer que estava lá. Lento, deliberado.

Em algum momento a luz lá fora começou a mudar. A escuridão deu lugar a algo mais suave e percebi que amanhecia.

Desci ao ouvir as crianças. O Jeremy já estava sentado à mesa tomando café. Não me olhou. Não disse nada.

Fiquei parada por um momento antes de sentar do outro lado da mesa. Ele continuou comendo, em silêncio, como nos três dias anteriores.

Eu também não disse nada. Ficamos alguns minutos sem falar.

Quando terminou, levantou e subiu.

Não me olhou ao passar.

Esperei um pouco antes de me mexer.

Mais tarde encontrei Josh e Jonathan arrumando as coisas. Fiquei à porta um segundo antes de falar.

— Ei — disse. Eles olharam pra mim. — O Jeremy já sai à noite?

— Às vezes — Josh respondeu. — Sim, — Jonathan acrescentou.

— Por quê?

balencei a cabeça.

— Não sei. Ele me perguntou uma coisa ontem.

— O quê?

Hesitei.

— Um jogo — disse. — Algo com folhas e galhos.

Ficaram em silêncio um segundo. Então Josh acrescentou: — Ah, aquilo. — Jonathan disse: — Ele joga às vezes. — “Às vezes” repeti. — De vez em quando — Josh disse. — Só à noite — Jonathan disse.

Assenti.

— Ele sempre pede pra alguém jogar com ele?

— Sim — disse Josh. — Ele não faz sozinho.

— Como assim?

— Ele não pega nada — Jonathan disse. — Ele só diz o que você tem que fazer.

— E aí no final ele ajeita — completou Josh.

Diziam como se não fosse importante, como se fosse só algo que ele fazia.

— Eu pego as coisas? — perguntei. As folhas, os galhos?

— Tá tudo lá — disse Jonathan. — Não precisa pegar nada.

Hesitei.

— Vocês sabem onde ele aprendeu isso?

— Algum garoto mostrou — Jonathan disse. — Que garoto? Não sei.

Houve uma pausa curta.

— Acho que foi alguém da escola — disse Josh. Jonathan sacudiu a cabeça. — Não, não foi.

Eles não falaram mais nada. Eu não perguntei também.

Saí pro quintal depois disso.

Estava igual ao dia anterior. Grama, terra, a borda da mata.

Fui até o lugar onde Jeremy tinha arrumado tudo.

Não havia nada. Nem folhas, nem galhos, nem bico.

Fiquei ali olhando o chão, esperando achar algo que tivesse passado despercebido.

Não havia nada sequer pra ver.

Caminhei ao redor, conferi de ângulos diferentes como se isso pudesse fazer algo aparecer.

Não apareceu.

Tentei lembrar exatamente como era, onde cada coisa havia ficado, como eu estava parada. Tinha certeza de que sabia. Mas quanto mais eu tentava, menos nítido ficava, como algo que eu já revira tantas vezes que se desgastou.

Fiquei ali mais tempo do que pretendia. Acabei desistindo.

A imagem não sumiu completamente. Mesmo quando não pensava nela diretamente, ela continuava lá. Aquele mesmo ponto no quintal, aquela forma que eu não conseguia recompor direito.

Cada vez que eu chegava perto, algo não se alinhava. Pequeno, mas perceptível.

Sentei dentro de casa e tentei de novo. Desta vez devagar. Só os galhos primeiro. Eu via um contra o chão, o outro levemente elevado. Essa parte parecia certa.

Depois as folhas. Eu sabia que eram três. Tentei colocá‑las na cabeça, mas não funcionou. Mexi nelas mentalmente, testei posições diferentes.

Nada parecia correto.

Fiquei assim mais tempo do que devia, revendo tudo repetidas vezes, tentando acertar.

Depois de um tempo ficou mais difícil focar. Não de repente, mas uma pressão lenta atrás dos olhos. Inclinei‑me pra trás e fechei os olhos um instante, mas a imagem não sumiu. Sequer clareou — estava mais nítida ali.

Os galhos, o espaço vazio onde as folhas deveriam estar.

Foi aí que notei o som. Fraco no começo, fácil de ignorar. Abri os olhos. A casa estava quieta. Fiquei imóvel, escutando.

Mexi na cadeira e tentei deixar pra lá.

Então veio de novo. Um toque suave.

Olhei ao redor tentando localizar. Não vinha das paredes. Nem do chão.

Virei a cabeça devagar. Nada.

Pressionei os dedos levemente na têmpora sem pensar. A pressão ali mudou. Mantive os dedos alguns segundos.

Aconteceu de novo. Um toque debaixo dos meus dedos.

Puxei a mão. A sala voltou ao silêncio.

Fiquei um tempo tentando achar uma razão.

Falta de sono. Tinha que ser aquilo.

Levantei, andei, escutei de novo, sentei.

O som voltou.

Dessa vez não parou em um só toque. Toque, pausa, toque — uma pausa maior — e de novo. Lento, uniforme.

Fiquei imóvel, ouvindo, tentando seguir sem pensar.

Com o tempo a coisa ficou familiar. Não o som em si, mas o espaçamento, as pausas entre cada um, como se houvesse um padrão.

Fechei os olhos outra vez, não de propósito, só pra me concentrar.

Toque, pausa, toque — pausa maior. De novo.

Fiquei ali, contando sem querer, tentando igualar a algo.

Em certo momento percebi que já tinha ouvido aquilo antes. Não exatamente igual, mas perto o suficiente.

Abri os olhos por um segundo e não consegui lembrar de onde. Aí caiu a ficha: do jeito que ele me fez falar em voz alta. Cada parte separada, cada uma espaçada.

Eu não me movi. Não disse nada em voz alta. Não mexi os lábios, mas já estava lá na minha cabeça.

Três folhas, pausa. 

Dois galhos, pausa maior. 

Um bico.

Tentei parar. Não falei. Não pronunciei, mas a frase continuou repetindo, coordenada com o som. Toque. Pausa. Toque.

Ainda está acontecendo. Não parou. Não sei se vai parar. Não sei se eu fiz algo errado ou se isso faz parte do jogo.

Fico pensando no que o Jonathan disse: que ele não pega nada, que ele só manda você fazer e no fim ajeita tudo.

Não sei o que isso significa.

Não sei se acabou ou se falta alguma coisa.

Não voltei lá fora.

Nem quero.

Acho que não deveria.

O som às vezes muda. Não fica mais rápido, nem mais alto, só parece mais perto — como se não precisasse mais viajar tanto. Não sei explicar de outro jeito.

Fico pensando naquela pergunta que ele me fez — a primeira coisa que ele disse. Antes eu não achava que importava. Agora soa diferente.

Então, acho que vou perguntar também.

Você já jogou Três Folhas, Dois Galhos, Um Bico?

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