Minha namorada ama a Kuromi

Enquanto o Tyler caminhava pela mesma calçada rachada e torta que percorria todos os dias nos últimos dois anos, ele deu uma olhada rápida pela vitrine da mercearia do Mel, do outro lado da rua. Ele não costumava comprar lá, já que era um daqueles mercadinhos de família que não conseguiam competir com os preços dos grandes supermercados.

Mas, naquele dia, algo na vitrine chamou sua atenção.

Era um balão metalizado da Kuromi. Ele flutuava alto, preso a uma haste com um cordão de quase três metros, destacando-se entre uma dúzia de outros balões. Tyler já tinha passado por ali centenas de vezes na volta do trabalho, mas nunca tinha notado aquele design específico.

Sua namorada, Tammy, era obcecada pela personagem. Ela tinha uma coleção enorme de tudo que você pudesse imaginar da Kuromi, tudo guardado com cuidado em uma vitrine dentro do quarto.

“A Tammy vai amar isso”, pensou Tyler, atravessando a rua e entrando na loja para garantir o presente.

Ao chegar em casa, ele amarrou o balão na maçaneta interna da porta do guarda-roupa para entregar mais tarde. Deu uma olhada no grande espelho na parede ao lado do armário, fazendo uma vistoria rápida para garantir que estava apresentável. Muitas vezes ele chegava em casa e descobria, tarde demais, um pedaço enorme de comida preso entre os dentes da frente.

Dessa vez, nada de comida. O cabelo também estava em ordem, embora estivesse comprido o suficiente para tocar suas omoplatas. Ele sempre o mantinha preso em um coque apertado. Quando alguém perguntava, ele apenas dizia que era mais prático e confortável assim, o que a maioria das pessoas aceitava sem questionar.

Ele caminhou até o calendário na parede e circulou o dia 26 de novembro.

Não era por causa de promoções de internet, mas porque era o aniversário de 24 anos da Tammy. Ele vinha economizando há algum tempo, mas até agora só tinha conseguido comprar algumas bugigangas e aquele balão da Kuromi. O plano era gastar o grosso do dinheiro na Black Friday, em apenas dois dias. Ele tinha visto anúncios de TVs 4K em promoção e sabia que ela estava querendo uma.

A caminho da sua cadeira, ele pegou o celular e abriu a conversa com a namorada.

— Acabei de comprar uma surpresa para você, amor — ele digitou. — Eu ia esperar até o seu aniversário para entregar, mas acho que quero te dar hoje à noite. Te vejo daqui a pouco.

Ele enviou um emoji de piscadinha e dois corações. Sentou-se à mesa do computador e apertou o botão de ligar. Enquanto a máquina ganhava vida, ele deu um gole no refrigerante e abriu o Discord. Dois amigos, Dragon e Jesse, já estavam em uma chamada jogando CS:GO. Ele decidiu se juntar a eles na partida seguinte.

Depois de uma vitória apertada no mapa Dust2, o grupo começou a discutir o próximo passo.

— Estão a fim de outra? — perguntou Dragon. Esse não era o nome real dele, claro, mas Tyler e Jesse só o conheciam assim e respeitavam seu anonimato.

— Eu adoraria, cara, mas tenho que sair — disse Tyler, com um tom de relutância.

— Ah, qual é, mano! Você só jogou uma. Faz pelo menos mais uma com a gente — implorou Jesse.

— Eu queria muito, de verdade, mas minha namorada está para chegar a qualquer momento e eu preciso me arrumar. Mas amanhã eu tô livre, a gente joga sério, beleza?

— Peraí… você tem namorada? — Dragon questionou, surpreso.

— Tenho, por que a surpresa? — Tyler respondeu, meio brincando, meio ofendido.

— Não que você não consiga uma garota — Dragon tentou consertar —, mas é que eu nunca ouvi você falar dela.

— Olha, eu já conheci moleque demais na internet que acha que falar de namorada o tempo todo faz deles caras legais ou algo assim. Eu não queria parecer um deles, então guardei para mim, entende?

Houve um breve silêncio antes de Dragon responder:

— É, faz sentido. Bom, boa noite para vocês então. Amanhã a gente volta com tudo.

— Isso aí. Divirta-se com a sua garota hoje à noite — disse Jesse, soltando uma risadinha abafada. — E não esquece de usar proteção, hein, mano?

— Não se preocupa, Jesse. Tá tudo sob controle. Boa noite, pessoal.

Tyler saiu da chamada e desligou o monitor. Ele encarou seu próprio reflexo sombrio e embaçado na tela escura. Respirou fundo, puxando o ar calmamente e soltando-o devagar, sentindo um alívio percorrer o corpo.

Ele se levantou, puxou a cadeira do computador para a frente do espelho ao lado do guarda-roupa e sentou-se novamente. Analisou cada detalhe do seu rosto. Um leve franzir de lábios começou a surgir nos cantos de sua boca. Ele fechou os olhos com força, suspirou e levou as mãos à nuca.

Ele soltou o elástico que prendia seu cabelo. Mechas grossas e onduladas caíram sobre seus ombros enquanto o elástico batia no chão.

Tyler abriu os olhos e encarou o espelho novamente. O desconforto em seu rosto oscilou. Ele se inclinou para a direita e abriu a porta do guarda-roupa, trazendo o balão da Kuromi junto com a maçaneta. Ele pegou uma pequena caixa de metal trancada e a colocou no colo. Por um momento, ficou apenas observando-a, limpando a poeira do canto superior com os dedos.

Usando uma pequena chave que mantinha no seu chaveiro, ele abriu a caixa com um clique metálico. Olhando de volta para o reflexo, ele tirou um tubo fino de batom vermelho vivo. Aplicou generosamente nos lábios. Depois de esfregá-los um no outro e dar leves batidinhas para assentar a cor, a expressão triste começou a se transformar em um sorriso de canto.

Ele guardou o batom e tirou um lápis de olho. Aplicou o traçado e admirou sua beleza.

Ela então pegou o terceiro e último item da caixa: um celular. Um modelo pré-pago barato, desses que se compra em qualquer farmácia ou mercado. Segurou o botão de ligar por um momento e o deixou de lado enquanto conferia se não havia borrões na maquiagem. Estava perfeita. Estava linda para o seu encontro com Tyler.

A essa altura, o sorriso tímido já era um sorriso aberto e entusiasmado.

Depois de colocar a caixa metálica no chão, Tammy pegou o celular e viu que tinha uma mensagem perdida. Ao desbloquear a tela, leu o que Tyler havia enviado horas antes, ansioso para dar o presente de aniversário antecipado.

O sorriso dela se alargou ainda mais. Mas, em vez de responder por texto, ela apenas bloqueou a tela e colocou o aparelho no colo.

Ela olhou de volta para o espelho. O sorriso vibrante deu lugar a uma expressão serena, de boca fechada.

— Você está maravilhosa esta noite, Tammy.

Olhando para cima, ela soltou uma risadinha, claramente tocada pelo elogio do namorado.

— Ah, obrigada, amor. Você também está ótimo hoje.

— Você está pronta para o seu presente de aniversário adiantado? — perguntou Tyler, olhando para o celular no colo.

— Tyler, você não devia… — respondeu Tammy. — Meu aniversário é só daqui a alguns dias e eu ainda não comprei nada para você.

— Não tem problema, querida. Eu só queria te dar um agrado.

Com a cabeça baixa, Tyler se inclinou e começou a desamarrar o balão da maçaneta.

— Agora feche os olhos e não ouse espiar — ele disse, voltando à posição ereta com o presente na mão.

Ele apertou os próprios olhos com toda a força que conseguia suportar.

— Tudo bem… pode abrir, baby.

Tammy abriu os olhos e soltou um pequeno grito de alegria ao ver o balão da Kuromi.

— Meu Deus, Tyler! É tão fofo! Onde você achou?

— Bom, eu tenho meus contatos — ele disse, voltando a encarar o próprio colo. — E eu tenho meus métodos. O que você vai fazer com ele?

— Vou colocar na minha coleção, claro — disse ela, levantando-se e indo até o fundo do armário.

De trás de uma pilha desorganizada de roupas de Tyler, ela puxou uma pequena vitrine de vidro. Lá dentro, havia vários itens colecionáveis da Kuromi: um relógio de pulso clássico, um despertador, um par de meias e outras coisas do tipo.

Ela colocou a vitrine no chão, ao lado da cadeira, e amarrou o cordão na alça superior da caixa de vidro.

— Acho que não cabe lá dentro, mas aqui em cima está ótimo por enquanto. Eu amei de verdade, amor. Eu te amo — disse Tammy, inclinando-se em direção ao espelho e deixando um beijo suave no vidro.

— Eu também te amo, Tammy. Não sei o que eu faria sem você.

Os olhos de Tyler começaram a lacrimejar. Ele fungou, lutando contra o nariz escorrendo, enquanto dizia:

— Feliz aniversário, querida. E lembre-se: isso é só o começo. Você vai ganhar seus presentes de verdade na segunda-feira.

— Obrigada, baby. Você é o melhor namorado que uma garota poderia ter.

— E você é a melhor…

Tyler parou de falar ao notar que seu próprio celular havia caído do bolso e estava no assento da cadeira. Ele olhou do seu celular pessoal para o celular que estava em seu colo — o celular que pertencia a ela.

Ele fechou os olhos com força.

— Você é a melhor namorada do mundo, baby. Eu nunca vou te perder, né?

Tammy olhou para o reflexo.

— É claro que nunca vai me perder, amor. Eu sempre estarei aqui para você. Sempre.

— É… — disse Tyler, limpando uma única lágrima que escorria pelo rosto. — Que bom.

Eles deram as mãos e ficaram ali, parados, encarando o espelho.