Não durmo mais com a janela aberta. Não importa o calor lá fora, aquela desgraça de janela fica fechada. Tem sido assim por muito tempo. Desde que eu era muito jovem. Não é exatamente um sucesso com as garotas durante verão. As pessoas geralmente recomendam ar-condicionado, e eu geralmente aceito a ideia quando tenho visitas. Mas quando está ligado, não durmo bem.
Existe uma única vantagem no ar-condicionado, bem, além do alívio da pegajosa umidade do verão: o zumbido constante que abafa o silêncio. Eu não gosto do silêncio.
Houve um tempo em que o silencio me trazia uma paz e tranquilidade quase zen, mas agora, o considero invasivo, perigoso. O silêncio nunca vem sozinho. De vez em quando, ainda consigo ouvir o canto, da minha juventude, consigo ouvir todos eles, sem palavras e ainda assim com uma notável sincronia e harmonia entre si, suas vozes conjuntas ecoam da mata como a brisa suave e ao mesmo tempo ameaçadora que precede uma violenta tempestade de granizo, rítmica e sem sentido. Nunca foi embora, e ainda assim sei que todos seguiram em frente ou morreram. Sei muito bem disso.
Quando eu tinha uns nove anos, meu pai e eu morávamos nesta antiga casa geminada alugada em uma cidade chamada Bridgewater, no estado de Massachusetts. Morávamos no andar de baixo. O segundo andar não era usado. Tinha sido recentemente desocupado pelos moradores anteriores. Era um bairro muito tranquilo, bem suburbano e com bastante mata. Atrás da nossa casa, havia um quintal que se estendia até uma grande floresta que se espalhava por quilômetros. Eu costumava brincar nela.
Meu pai e minha mãe tinham se divorciado recentemente, então éramos apenas nós três morando lá. Eu, ele e o cachorro Cash, que recebeu o nome do falecido cantor country Johnny Cash. Ele era um velho Scottish Terrier. Sabe aqueles, que mordem o tornozelo e têm uma barba bem feia no rosto. Eles o pegaram quando eu ainda usava fraldas, e ele foi meu amigo por toda a vida. Ele podia ser meio bobo, mas na época, era tudo o que eu tinha. Chorei muito quando minha mãe tentou levá-lo. No final, ele ficou sob os cuidados do meu pai por minha causa.
Cash e eu passávamos muito tempo brincando na mata. Quando você é jovem, sua imaginação é uma coisa muito poderosa, e a mata tinha uma qualidade quase mágica para alimentar minha imaginação. Eu brincava de exército, construía fortes, subia em árvores. Uma vez, eu e Cash fomos tão longe que eu realmente me perdi. Estávamos perdendo a luz do dia, pois era outubro e a luz estava sumindo muito mais rápido. Comecei a entrar em pânico, com medo de ficar preso ali no breu. Enquanto caminhávamos, procurando freneticamente por pontos de referência, qualquer coisa familiar, foi quando eu vi. A clareira, com uma grande rocha no centro.
Não era exatamente incomum ver grafites e atos de vandalismo na mata. Uma floresta pública é bem conhecida por árvores com mensagens entalhadas nelas, nomes, suásticas, ‘Brad e Jen para sempre’ dentro de um coração fofo. Coisas assim, sem contar os nomes de pseudo-gangues pichados em rochas. Essa foi a impressão que tive daquele lugar, um ponto de encontro para garotos mais velhos. Mas algo não estava certo. Sendo eu apenas uma criança de 9 anos, minha mente não era exatamente capaz de compreender as conotações de símbolos e outras coisas, e ainda assim, havia algo realmente estranho nessas imagens. Nunca tinha visto nada parecido antes. As árvores ao redor tinham imagens grosseiramente desenhadas do que parecia ser um híbrido de homem-cabra, como um boneco palito, com uma cabeça de cabra desnecessariamente detalhada imposta onde se esperaria ver um rosto de boneco palito muito básico.
Essas imagens estavam desenhadas repetidamente, por todas as árvores que cercavam a clareira, quase obsessivamente, e não apenas na altura básica de uma pessoa, mas por toda a extensão das árvores, como se quem as entalhou tivesse usado uma escada. A própria rocha tinha marcas vermelhas por toda parte, letras que eu nunca tinha visto antes. Por baixo, porém, estava escrito em tinta spray preta uma mensagem que eu realmente conseguia ler. Dizia: “Contemple a sabedoria do Chifrudo”, e abaixo disso, havia cinco linhas pintadas. Todas tinham a mesma altura, exceto as duas linhas externas que eram duas vezes mais altas e se espiralavam para fora no topo.
O que realmente me assustou naquele lugar, porém, foram os bonecos. Eles estavam pendurados nos galhos ao redor da clareira. Pareciam ter sido tecidos com gravetos, e de forma bem precária. Olhando mais de perto, percebi o que havia de tão assustador neles. Enquanto os bonecos de graveto eram claramente construídos com a graça de alunos de artes e ofícios ruins, as cabeças deles eram crânios de animais secos e limpos.
Eu não sabia de que tipo de animais, mas eram brancos como cal, secos e limpos, e suas órbitas ocas… Não consigo explicar isso eficazmente sem parecer um louco, mas havia algo senciente nelas, vigilante e suplicante. Eu podia sentir os olhos deles em mim, embora não tivessem olhos para ver. Senti medo, não o meu próprio medo, veja bem, mas algo, uma aura de emoção que não fazia o menor sentido. Você já esteve em uma festa de menores que foi invadida pela polícia? É esse tipo de medo. O medo que vem junto com o problema.
Não sei explicar por que fiz isso, mas estendi a mão e toquei em um deles. Talvez tenha sido a natureza inquisitiva geral de uma criança que me impeliu, talvez fascinação, ou um desejo intenso de acalmar meu medo e me convencer de que eram apenas bonecos e não os espíritos vigilantes que eu eventualmente viria a acreditar que eram. Quando o toquei, o crânio caiu. O boneco se desenrolou. Apenas um pedaço dele permaneceu preso à corda de couro cru de onde estava suspenso. O crânio rachou quando atingiu o chão. Quando isso aconteceu, uma certeza se instalou dentro de mim. Por mais ingênuo que um menino de nove anos pudesse ser, uma certeza que permanece comigo até hoje. Eu não pertenço a este lugar.
Cash imediatamente começou a latir quando o boneco caiu, e isso me assustou tão efetivamente que soltei um grito. Olhei para cima, o céu estava brilhando em vermelho com a escuridão não muito longe. O sol estava se pondo, e eu tinha que sair dali. Cash estava me encarando, olhos pretos bem abertos e rabo abanando violentamente. Ele estava latindo para mim, insistentemente. Começou a rosnar para algo, talvez o ar, talvez fantasmas. Quando me aproximei dele, ele se virou e correu. Cash era meu único companheiro naquele lugar antinatural, e eu seria condenado se o deixasse me trair para a solidão ali, então fui atrás dele. Corri para salvar minha vida.
A última coisa que vi antes de correr atrás de Cash foi algo que realmente me perturbou. Todos os outros bonecos que estavam pendurados, quando cheguei, estavam balançando, alguns até girando preguiçosamente com a brisa, e ainda assim, enquanto corria atrás de Cash, vi que cada boneco à vista estava completamente imóvel, me encarando e apontando diretamente para mim. Descartei esse detalhe, pois estava mais assustado em ficar sozinho.
Nunca tirei Cash de vista. Ele me levou direto para casa. Nunca amei tanto meu cachorro quanto quando percebi o que ele tinha feito por mim. Cães nunca se perdem, eles sempre sabem o caminho.
Antes de ir para a cama, contei ao meu pai o que vi. Ele deu risada e me disse que eram apenas adolescentes sendo encrenqueiros, e que eu deveria deixar para lá. Achei reconfortante e estava quase disposto a esquecer. Cheguei até a adormecer sem problemas.
Naquela noite, foi quando ouvi pela primeira vez. O barulho que me assombraria até hoje. Acordei e podia ouvir um barulho vindo da minha janela. Levantei e olhei para fora para ouvir mais de perto. Foi então que percebi que era um canto. Vozes, talvez dezenas. Vinham da mata. Eu podia ouvi-las, alto e ritmicamente. Não sabia o que estavam dizendo, mas podia perceber que era algo cerimonial, como um hino que as pessoas cantam em igrejas, exceto que parecia sombrio, até violento.
Imediatamente pensei na clareira com a rocha. Nos bonecos. No medo. Eu sabia, no fundo da alma, que o canto vinha de lá. O que mais me assustou foi que não estava longe. Não estava nada longe. O canto continuou por horas. Eu apenas fiquei ali na cama, de olhos arregalados de medo, ouvindo, rezando para que parasse. Mas não parou. Durou até as quatro da manhã, quando os primeiros pássaros começaram a acordar.
Parei de brincar na mata. Meu pai notou a mudança de comportamento imediatamente e perguntou se eu estava bem. Contei a ele sobre o canto e, novamente, ele deu de ombros e disse que eram provavelmente adolescentes bebendo cerveja e fazendo uma festa. Perguntei a ele por que beberiam cerveja e cantariam o mesmo som por cinco horas. Ele me disse que eles não estavam cantando, que eu tinha imaginado, e que eu deveria fechar a janela dali em diante. Eu provavelmente deveria ter escutado, mas não o fiz. A curiosidade foi maior.
Na noite seguinte, o canto começou novamente exatamente às onze horas. Parecia mais alto do que antes. Eu não conseguia dormir ouvindo aquilo, mas não conseguia me convencer a fechar a janela. Não sei por que pensava assim, provavelmente porque eu era apenas uma criança. Bobamente, pensei na época que, se eu fechasse a janela, não conseguiria ouvi-los chegando se decidissem invadir a casa. A lógica é falha, eu sei, pois eles ainda estariam cantando ao emergirem da mata e atravessar meu quintal, e não fariam isso de forma agradável e silenciosa, mas era assim que eu pensava naquela época. Por isso não conseguia fechar a janela, porque eu tinha que saber se eles estavam vindo.
Isso continuou por vários dias. Todas as noites, das onze às quatro, pontualmente. Às vezes, eu podia ver na mata, bem, bem lá no fundo, um brilho fraco, como a luz de uma fogueira. Mas era tão fraco e esporádico que eu não sabia se devia reconhecê-lo ou descartá-lo como um truque dos meus próprios olhos. Outras vezes, eu conseguia adormecer devido à exaustão, apenas para acordar várias horas depois em pânico, ainda capaz de ouvir aquilo. Pedi ao meu pai se Cash podia dormir no meu quarto na terceira noite, e ele disse que tudo bem. Sentia-me melhor sabendo que tinha o cachorro para me fazer companhia enquanto ouvia o barulho. E melhor ainda, se eu pudesse ouvi-los vindo, ele também ouviria e, então, agiria como um cachorro, latindo para eles pela janela. Antecipei uma boa noite de sono e até me senti bobo por não ter pensado nessa solução antes. Adormeci às oito, com Cash dormindo aos pés da minha cama.
Acordei às onze e quinze, com Cash latindo. Ele estava nas duas patas traseiras, abanando o rabo espasticamente, e latia para fora da janela, com as orelhas apontadas para cima. Latindo, rosnando, uivando para fora da janela. Saí imediatamente da cama e olhei pela janela em direção à mata. Nada. Absolutamente nada. Cash estava muito agitado, rosnando e olhando para mim, depois de volta para a janela e latindo. O canto ainda continuava, assim como nos últimos dias. Lembro-me de me sentir desconfortável com Cash latindo para o barulho, com medo de que ele chamasse a atenção deles. Tentei acalmá-lo.
Foi então que meu pai entrou, tropeçando sonolento. Pegou o cachorro e se virou para sair com ele, resmungando para que Cash calasse a boca. Chamei o nome dele, mas meu pai estava tão adormecido que praticamente caminhava como um zumbi. Gritei para ele: — PAI, A MATA! Isso chamou a atenção dele. Ele se virou e veio até mim, olhou pela janela e depois de volta para mim.
— De novo isso? — ele resmungou. — Escuta, garoto, é só sua imaginação.
— Não, escuta, foi por isso que Cash estava enlouquecido, tem gente cantando na mata! Escuta só.
Ele olhou cuidadosamente pela janela. Cash rosnava em seus braços enquanto sua cabeça se virava para fora da janela. Eu também escutei, mas não havia nada. Nenhum som. Silêncio total. Não pude acreditar, teria sido uma coincidência?
Meu pai mandou-me dormir e saiu do quarto, resmungando insultos para Cash.
O silêncio me arrepiou muito mais do que o canto jamais fizera. Pelo menos quando eles estavam cantando seus hinos maliciosos, havia um senso de distância entre eles e eu, mas agora, eu sabia que eles estavam lá fora, mas não sabia onde. Não tinha a menor ideia. O que era ainda pior, o que me causou um terror sem precedentes, era que não havia nenhum som noturno naquela mata. Nenhum grilo. As noites os traziam em bandos nesta época do ano, e mesmo quando eles estavam cantando, eu ainda conseguia ouvi-los… mas agora estava mais silencioso do que uma noite de inverno gélida. Puro silêncio. Por quanto tempo fiquei olhando pela janela para aquela mata atrás do meu quintal, não faço ideia. Mas quando acordei no dia seguinte, ainda estava sentado na cadeira que havia colocado bem ao lado dela.
Naquela manhã, durante o café da manhã, insisti que realmente havia um canto lá fora, mas meu pai não queria saber de nada. Ele bateu o pé e me disse que não ouviria mais nada disso, que eu precisava crescer, assumir responsabilidade e parar de ter tanto medo o tempo todo. Sabe, aquela coisa de pai durão, típica. Nem me preocupei em mencionar a falta de grilos, sabendo perfeitamente que ele teria inventado uma explicação para isso também. Então, fiquei quieto e comi meu café da manhã.
Mais tarde naquele dia, eu estava esperando minha mãe me buscar no final da entrada da garagem do meu pai para me levar para a casa da minha avó, onde ela morava atualmente. Era sexta-feira e minha mãe me levava nos fins de semana. Enquanto esperava, uma grande caminhonete preta passou pela casa muito devagar. Parou bem na minha frente. Havia dois homens na caminhonete, mais velhos, da idade do meu pai. A princípio, pensei que talvez fossem amigos dele, mas esse pensamento não durou. O motorista baixou a janela e olhou para mim; ele era careca e usava óculos de sol anormalmente finos.
Ele fumava um charuto fino ou um cigarrilho; lembro-me do cheiro forte. Ele olhou para mim, como se estivesse me avaliando, investigando por um momento até que finalmente sorriu para mim, alcançou e deu um tapa no ombro do amigo, apontando-me para ele. Ele também era careca e usava os mesmos óculos de sol. Eles disseram algo um ao outro e então o motorista olhou de volta para mim com um sorriso terrível e foi embora, acenando lentamente enquanto fazia isso. Eles passaram por mim mais três vezes antes que minha mãe finalmente me buscasse. Não dei atenção a esses dois, e apenas me consolei com o pensamento de que dormiria em outro lugar nas próximas noites.
O fim de semana passou sem problemas, e dormir na casa da vovó foi um grande alívio. Quando contei a ela e à minha mãe sobre as vozes na mata, elas apenas se entreolharam e me disseram para contar ao papai. Frustrado, argumentei que já havia feito isso, mas foi inútil. Ela também usou a desculpa do “É só sua imaginação”, o mesmo que o papai. Nenhuma vez, durante toda a experiência, a memória dos dois homens na caminhonete ou do canto distante me deixou. Logo eu teria que voltar.
A noite de domingo chegou e fui deixado de volta na casa do meu pai, onde passaria o dia inteiro temendo a inevitável chegada da noite, temendo a resposta se eu ouviria ou não o canto na mata, ouviria aquelas pessoas estranhas cantarem suas canções sombrias em uníssono. Implorei ao meu pai para me deixar Cash no quarto comigo naquela noite, mas ele disse não, deixando-me para enfrentar o que aconteceria a seguir sozinho. Então, na hora de dormir, eu estava sentado na minha cadeira, perto da janela, olhando para a escuridão até a hora chegar, fiquei acordado até as onze, esperando ouvi-lo, mas o que obtive foi silêncio. Nenhuma cantoria. Nenhum grilo também. Apenas puro silêncio. Eu não sabia dizer se estava aliviado ou apavorado, talvez todos tivessem ido embora. Talvez tivessem ido para outro lugar para jogar seus jogos assustadores. Levei um tempo para me convencer, mas consegui me acalmar a ponto de realmente conseguir dormir, sabendo que estava seguro. Relutantemente, rastejei para a minha cama e fechei os olhos.
Acordei com a coisa mais horripilante e fudida que já tinha visto. Era surreal, a imagem daquilo, toda vez que durmo…
Meu cérebro imediatamente entrou em pleno funcionamento, além da consciência e direto para o modo de lutar ou fugir, enquanto uma mão fria e áspera forçou seu caminho sobre minha boca e empurrou meu rosto contra meu próprio colchão. Senti um corpo muito maior que o meu pesar sobre mim. Senti a joelheira pontuda se chocar diretamente contra meu estômago enquanto era puxado para fora da cama e arrastado para uma posição de pé, a mão fria ainda segurando minha boca fechada, outra mão prendendo minha mão esquerda diretamente atrás das minhas costas e puxando para cima até a dor se tornar tão insuportável que pensei que meu braço ia se soltar.
— SHHH! — sussurrou uma voz no meu ouvido. O hálito dele era gélido.
— Sim — disse outra voz do outro lado do quarto. Meus olhos já estavam bem ajustados à escuridão, e pude ver, através da luz da lua que entrava pela minha janela agora aberta, um homem usando uma máscara horrível, horrível. A princípio, pensei que ele tivesse a cabeça de uma cabra, mas logo percebi que não era. A cabra olhava com bolas de gude sem vida onde deveriam estar seus olhos; sua cabeça era uma máscara feita de uma cabeça de cabra ou carneiro decepada, mal empalhada e meio podre. Seus chifres se enrolavam em espirais saindo da cabeça, e manchas aleatórias de pelo estavam faltando, simplesmente mostrando pele crua e com bolhas. Tentei gritar, mas a mão sobre minha boca apertou o aperto, meu braço atrás das costas, puxado quase até o ponto de quebrar.
— Grite, e nós o mataremos — sussurrou a voz no meu ouvido. Meus olhos não conseguiam, não, eles não se desviavam daquela pessoa horrível usando a cabeça de cabra decepada como máscara. Ele estava sem camisa, usando um colar do que pareciam ser ossos, estava horrivelmente emaciado e havia marcas por todo o seu torso. Na mão direita, segurava uma faca do tamanho do meu antebraço. Sua construção não era como a de nenhuma faca que eu já tivesse visto. Ele deu um passo mais perto de mim e a encostou na minha garganta; o aço estava amargamente frio, e a ponta da lâmina era mais afiada do que qualquer coisa que eu já tivesse sentido. Seriam necessários menos de cem gramas de pressão para abrir minha garganta, e eles sabiam que eu sabia disso. Eu não conseguia chorar, nem mesmo respirar. Na outra mão, ele segurava uma vela comum.
— Amanhã — disse a coisa, sua voz abafada pela máscara de cabra morta e sem vida — você sairá de sua casa à meia-noite, acenderá esta vela, a colocará no chão no centro do seu quintal, e você se sentará atrás dela, de pernas cruzadas, pé direito sobre o joelho esquerdo, e vice-versa.
— Se não fizer isso — sussurrou a voz no meu ouvido —, o sangue dos seus entes queridos estará em suas mãos.
O homem-cabra rapidamente recuou a lâmina do meu pescoço. Não lembro o que aconteceu depois.
Lembro-me de acordar na minha cama, ofegante e chorando. Meu pai entrou para ver o que havia de errado comigo e, quando contei a ele, disse que era apenas um pesadelo. Neste ponto, ele sentou-se na ponta da minha cama, parecia muito cauteloso, como se não quisesse dizer o que estava prestes a dizer. Esfregou os olhos com os punhos e explicou-me, cansadamente, que tudo aquilo era apenas eu estressado com o divórcio, que talvez devêssemos procurar um terapeuta para falar sobre essas vozes e alucinações que eu estava tendo.
Lembro-me de me sentir tão traído, tão sozinho pela injustiça daquilo. Argumentei com ele que tudo o que estava vendo e ouvindo era verdade, mas era tarde demais. Ele e minha mãe conversaram sobre isso, meu comportamento, minhas afirmações. Eles achavam que eu estava enlouquecendo por causa do divórcio. As mentes deles estavam feitas; nada do que eu dissesse os convenceria do contrário. E, claro, em retrospectiva, tudo fazia perfeito sentido. Quem acreditaria em um menino de nove anos quando ele diz que havia vozes…
Fiquei em silêncio o dia todo. Cash ficou comigo no meu quarto enquanto eu gastava a luz do dia jogando videogame. Não falei com meu pai nem uma vez. Eu podia ver os olhares cansados no rosto dele quando passava pelo meu quarto, mas ele não queria insistir no assunto. Ele parecia tão derrotado quanto eu. Passou a maior parte do tempo ao telefone.
Não foi até mais tarde naquele dia que me lembrei do que a coisa-cabra havia me dito antes que tudo escurecesse. Que eu tinha que acender uma vela à meia-noite. Mas quando acordei naquela manhã, não havia nada no meu quarto. Houve uma súbita sensação de esperança, porque quando procurei a vela por todo o quarto, ela não estava em lugar nenhum. Nunca, nem mesmo até hoje, procurei algo com tanta intensidade para depois ficar freneticamente satisfeito com os resultados finais.
Tinha sumido. Eu havia sido aliviado dos deveres impostos a mim por aqueles estranhos invasores? O alívio foi inacreditável, como se eu tivesse sido libertado de um fardo horrível. Mesmo a ideia de ser forçado a ver um psicólogo não parecia tão dura comparada à perspectiva de que talvez esses atacantes fossem apenas um pesadelo, um sonho severamente realista, é verdade, mas um sonho, não obstante. Talvez, talvez toda a situação realmente tivesse acabado. Talvez essas pessoas horríveis tivessem realmente seguido em frente, e que o homem-cabra fosse simplesmente uma projeção mental da minha própria expectativa imaginativa em relação ao que quer que fossem aqueles acontecimentos antinaturais além do meu alcance. Sabe… especulação.
A noite caiu, e pela primeira vez em uma semana, não senti medo da sua perspectiva. Aquilo foi bom, como se as coisas estivessem voltando ao normal. Mas eu estava errado. Eu estava muito errado.
Quando encostei a cabeça no travesseiro, com os olhos já se fechando, a consciência já se afastando, senti um volume embaixo do travesseiro. Curioso, estendi a mão e senti algo, algo longo e liso. Puxei uma vela, uma vela de cera alta e fina com um pavio longo e bonito. Era vermelha, exatamente como a que o homem-cabra estava segurando. Meu coração afundou, minha boca secou, lágrimas escorreram pelas minhas bochechas, e naquele momento, revivi a noite anterior inteira, até o último detalhe em que o cara que me segurava sussurrou no meu ouvido como o sangue dos que eu amava estaria nas minhas mãos. De repente, eu estava de volta ao inferno. Eu estava de volta ao reino do terror. Como eles colocaram a vela debaixo do meu travesseiro? Eu a teria ignorado todo esse tempo?
Fiquei deitado na cama até meia-noite. Não ousei fechar os olhos por medo de ser novamente ameaçado com uma faca, por medo de ficar cara a cara com aquela horrível criatura-cabra. A noite estava silenciosa, sem grilos, sem pássaros, nada, silêncio total. Pude ver que já eram doze e um. A memória da máscara de cabra na minha mente proferindo suas instruções repetidamente: saia, acenda a vela, sente-se atrás dela, faça isso ou o sangue dos meus entes queridos estará nas minhas mãos… na época eu não sabia o que significava ter sangue nas mãos. No dia seguinte, eu aprenderia exatamente o que significava.
Cerca de dez minutos depois, reuni coragem para ir até a janela e olhar para fora. O que vi me sufocou na hora. Lado a lado, na entrada da mata, vi homens. Sombreados pela noite, parados lado a lado. Deviam ser uns vinte deles. Nenhum estava dizendo nada. Todos estavam em silêncio mortal, e eu podia sentir os olhos deles em mim. Era tão forte quanto quando senti os olhos dos bonecos em mim lá no lugar deles. De certa forma, sentia que era a mesma presença, a mesma inteligência. Não sei explicar… e então o vi, o homem-cabra. Ou melhor, a silhueta dele, parado no centro das figuras. Ele estava imóvel, parado como uma pedra, mas eu podia distinguir o formato do rosto, os chifres salientes… eu podia distinguir tudo.
Fiquei com medo. Eu não conseguia sair lá fora. Simplesmente não conseguia. Escondi-me na minha cama, com os cobertores sobre a cabeça e fechei os olhos com força, chorando a noite toda. Só adormeci quando ouvi os pássaros da manhã cedo.
Eu estava acordado às onze e meia. Pouco depois do café da manhã, ouvi meu pai gritando no quintal da frente. Saí para verificar o que estava acontecendo, o que o deixava tão chateado. Ao sair pela porta da frente, pude ouvi-lo mais claramente, pude ouvir dor em sua voz. Um nó se formou na minha garganta, e uma sensação angustiante rastejou pela minha pele. Eu não estava pronto para saber sobre os eventos que aconteceram, e essa era realmente a parte mais assustadora, o momento antes da concretização. Essas pessoas mencionaram sangue nas minhas mãos, eu não sabia o que significava, mas tinha uma ideia muito vaga de que significava minha família se machucando. Pensei que tinham pego meu pai.
Quando cheguei até ele, vi que estava de joelhos, chorando. Cash foi morto. Foi atropelado por um carro. Lá estava ele, orelhas pontudas e desengonçadas, sua barba de cachorro absurdamente boba, olhos pretos arregalados e língua para fora, imóvel… para sempre. Vi que seu tronco central havia desabado, e pude ver aberturas na parte traseira, suas costelas saltando, suas entranhas—
— FILHO! — meu pai gritou ao se virar para me abraçar. — Está tudo bem! Ele rapidamente me levou de volta para dentro de casa, longe do corpo sem vida de Cash. Longe do meu melhor amigo, morto e mutilado na beira da estrada. A última coisa que me lembro de ver enquanto eu era levado para casa foi uma grande caminhonete passando lentamente. Vi os mesmos dois homens carecas, da idade do meu pai, me encarando através de óculos de sol estranhamente finos. Vi sangue no pneu dianteiro direito deles… e vi o motorista apontar diretamente para mim.
A morte de Cash foi minha culpa. Enquanto eu dizia isso em voz alta, meu pai me abraçou apertado e disse com uma certeza fria como pedra que não foi minha culpa, que às vezes essas coisas acontecem. Ele me disse exatamente o que você esperaria que um pai dissesse ao seu filho quando seu animal de estimação é morto em um acidente aleatório e aparentemente sem sentido. Mas eu sabia melhor. As pessoas na floresta mataram Cash, e tudo foi porque eu não fiz o que elas disseram. Foi porque eu fui um covarde. O sangue dele estava nas minhas mãos. Exatamente como eles disseram que estaria.
Quando entrei no meu quarto para chorar, vi, do lado de fora da minha janela, um homem no centro do quintal dos fundos. Um homem sem camisa. Ele usava uma máscara feita de uma cabeça de cabra decepada, oca por dentro. À luz do dia era muito mais perturbador de ver, porque eu quase podia sentir a falta de higiene que ela devia exalar. Pude ver que estava cercado por moscas, mas pior ainda, vi um bilhete que ele segurava. Um pedaço de papel com uma única palavra escrita.
MEIA-NOITE
Não consegui suportar. Corri para fora, para persegui-lo, mas quando cheguei lá fora, ele tinha sumido. Meu ódio e raiva de alguma forma superaram minha culpa e tristeza porque corri para dentro da mata antes de perceber que, desta vez, se eu me perdesse, não teria Cash para me guiar de volta para casa. Eu estaria completamente sozinho, não, eu teria o que quer que estivesse ali comigo. Podia sentir olhos ali dentro. Podia sentir olhos em toda parte. Cada movimento meu estava sendo observado, desde o dossel outonal até os arbustos a poucos metros de distância, eu sabia que estava cercado ali, e à medida que meus sentidos se tornavam mais claros da raiva impulsionada pela adrenalina que eu estava sentindo, percebi que estava ficando mais forte a cada minuto.
Então notei o cheiro. O fedor. Naquela época, eu achava que cheirava a leite azedo, ou mortadela deixada na geladeira por muito tempo. Era forte, muito forte. Meus olhos começaram a lacrimejar, e senti meu estômago começar a revirar. Como um cheiro podia ser tão doloroso de suportar?
Foi então que me ocorreu… Eles mataram meu melhor amigo. Havia apenas mais uma vida que eles podiam tirar: a do meu pai. A presença se tornou mais forte, eu podia ouvir sussurros no vento, o cheiro ficou mais poderoso a cada respiração. A qualquer segundo, eu tinha certeza de que seria dominado por Deus sabe o quê. Percebi que, se eu não fizesse o que eles exigiam de mim, eu seria levado ali e agora. O que eu poderia ter feito? Balancei a cabeça e comecei a chorar. — Ok, eu farei…
O alívio foi instantâneo. A mata ficou mais brilhante, o cheiro sumiu, a sensação de estar sendo observado, substituída pelo que só poderia ser descrito como sereno. A floresta passou de um covil de terror indizível para um lugar de… bem, era apenas mata novamente. Exatamente como sempre foi.
Voltei para casa e ajudei meu pai a cavar a cova de Cash. Dissemos nossos adeus e o enterramos. Ele fez uma lápide fofa em formato de osso de cachorro com sobras de madeira de sua antiga oficina, e foi isso. Minha mãe veio naquele dia, e todos saímos para jantar no Local Não Divulgado. A comida foi a melhor que já comi. Fizemos um brinde a Cash, e foi isso. No fundo da minha mente… meia-noite… meia-noite…
Passei mais uma noite silenciosa, olhando para o meu relógio, observando os números se transformarem no próximo a cada sessenta segundos. A espera era agonizante. Cada minuto que passava era como um minuto tirado da minha vida. Naquela noite, eu tinha certeza de que ia morrer. E eu estava preso. Eles teriam matado meus pais se eu tentasse qualquer coisa. Matar Cash deixou isso totalmente claro para mim.
Onze e cinquenta e cinco
Onze e cinquenta e seis
Onze e cinquenta e sete
Onze e cinquenta e oito
Onze e cinquenta e nove
Olhei pela janela. Lá estavam todos eles. Lado a lado, sombras de pessoas, e o homem-cabra no centro. Todos os olhos deles estavam em mim. Olhei para o relógio.
Meia-noite.
Olhei de volta para fora da janela; todos tinham ido embora. Eles sabiam, sabiam que eu iria sair naquela noite. Eles mataram meu cachorro e depois ameaçaram me matar na hora depois que eu os segui para a mata, eles sabiam que eu estava quebrado. Meu espírito despedaçado, e que eu tinha mais medo do que aconteceria se eu não saísse do que do que aconteceria se eu saísse.
Peguei a vela e fui para o meu quintal. A escuridão era densa, mais densa do que o usual, e o cheiro. Leite azedo, frios estragados, sangue, podridão, decomposição, fezes, vômito, bílis, morte… minha pele começou a arrepiar, e um calafrio me percorreu. Respirar tornou-se difícil. Mal conseguia distinguir a floresta à minha frente. Não era apenas uma entrada ou uma fronteira; era uma coisa viva e respirando, e estava antecipando cada movimento meu. Ao dar um passo no meu quintal, um choque de terror me atravessou quando passei pelos sensores de movimento e ativei a luz do quintal. Havia alívio na luz. Segurança, pelo menos por um tempo.
Usei o isqueiro do meu pai para acender a vela, finquei-a na grama fria e orvalhada e sentei-me devagar, pronto para cruzar as pernas. Nunca me sentei na posição completa que me foi instruída, porque enquanto estava no processo de me sentar, eu a vi.
Dois olhos verdes.
Você já acendeu sua luz diretamente no rosto de um animal bem ao longe no meio da noite? A uma distância em que era muito longe para distinguir o que parecia, mas não tão longe para que seus olhos não capturassem e refletissem a luz? Foi exatamente isso que vi. Exceto que parecia estar muito acima do chão, mais alto do que a altura de um coiote, e até mais alto do que a altura de um humano.
Parecia estar andando de um lado para o outro na mata. Eu podia ouvir as folhas se arrastando a cada passo que dava. Constantemente surgindo e desaparecendo devido às árvores invisíveis que eclipsavam aqueles fragmentos de luz brilhantes, aqueles olhos penetrantes. Eles deviam estar refletindo a luz do quintal. Eu podia ouvi-lo respirar. Parecia doloroso para mim. O ar saía em respirações curtas e esporádicas, e quando isso acontecia, senti os baforadas de ar gelado, rançoso com aquele cheiro podre, passarem direto por mim. Não lembro por quanto tempo ele andou assim, nunca saindo dos arredores da mata, nunca quebrando o contato visual comigo. De vez em quando, parava e descia mais perto do chão, até que seus olhos ficassem no meu nível. Permanecia nessa posição, como um gato rente ao chão, preparando-se para pular em sua presa. Só ficava nessa posição por dez segundos de cada vez antes de se levantar novamente e continuar andando. Depois de fazer isso várias vezes, percebi que algo o estava impedindo.
A luz.
Fiquei mudo de espanto, congelado no lugar. Minha garganta estava tão apertada que o ar mal entrava e mal saía de mim. Uma sensação poderosa estava gravada na minha alma de que qualquer movimento brusco teria levado essa coisa indizível a um frenesi contra mim, com ou sem luz. Eu não sabia se ia me matar ali mesmo no quintal, ou se ia me arrastar para a mata e me comer vivo lá. Não sabia qual era a relação entre isso e os psicopatas que me ordenaram a ir para lá. O que eu sabia era que, a cada momento que não me pegava, ficava mais bravo.
Eu não podia deixar que me pegasse. Não podia deixar que me levasse. Teoricamente, eu estava seguro na luz, exceto que essa luz com sensor de movimento funcionava com um temporizador. Eu sabia que o temporizador logo acabaria, e quando isso acontecesse, a luz se apagaria e nada o impediria de me pegar. Com toda a minha coragem, toda a minha força de vontade, forcei-me a levantar, soltando um suspiro rouco. Os olhos pararam de se mover imediatamente quando me viram de pé. Não posso dizer com certeza, mas tinha quase certeza de que eles se estreitaram. A perspectiva de eu escapar o enfureceu a tal ponto que ele começou a vir na minha direção. Pude perceber que estava avançando, ameaçadoramente, mostrando uma disposição para enfrentar a luz. Dei um passo para trás, e quando o fiz, ele deu um passo rápido para frente. Quase pude ver sua forma, alta, magra, ossuda, escura demais para distinguir quaisquer características específicas, exceto, bem, tinha chifres. Grandes chifres encaracolados em espiral. Ou pelo menos parecia ter.
Não lembro de correr de volta para casa. Não lembro de ter conseguido entrar. Não lembro de nada depois do momento em que a luz se apagou. Foi repentino, como se a morte me tivesse pego. O temporizador havia acabado, a luz se apagou e me envolveu na escuridão, e lembro de ouvi-lo gritar. Parecia uma criança a quem negaram um brinquedo. Ou fui eu? Quando a luz morreu, eu corri pra caralho!
Horas depois foi quando recuperei os sentidos. Meu pai estava me segurando. Minha mãe também estava lá; eu estava chorando. Mais tarde, eles me diriam que eu estava gritando: “Não deixe me pegar!”, repetidamente, “Não deixe me pegar!” Eu mesmo não lembrodisso.
Nunca mais vi aquela criatura. Nunca mais vi o homem com a máscara de cabra. Os dois homens velhos na caminhonete, também nunca mais os vi. Daquele dia em diante, sempre dormi com a janela fechada.
No dia seguinte, meu pai e minha mãe me levaram para fora para explicar que nada havia acontecido. Vimos grama deslocada, misturada com lama. Vimos até marcas de sangue nas árvores. Pensei que isso seria prova suficiente para defender meu caso, mas não foi. Meu pai imediatamente riu de mim, dizendo que havia descoberto tudo. Eu tive um encontro com um cervo. Aquelas marcas na árvore eram de chifres, e ele avançou contra mim porque se sentiu ameaçado. Essa foi uma explicação tão conveniente que eu desejei a Deus que fosse verdade. Mas eu sabia que não.
Várias semanas depois, soube que uma busca por uma pessoa desaparecida havia ocorrido naquelas matas, mas eu mesmo não vi nem ouvi nada na época. Meu pai e meu terapeuta insistiram que esse conhecimento apenas “alimentaria minhas tendências como esquizofrênico”, então me impediram de investigar.
Sim, fui diagnosticado com transtorno de esquizofrenia paranoide; disseram que o adquiri devido à minha incapacidade de lidar com o divórcio. Disseram-me que eu havia me retraído em um delírio porque me sentia responsável pelo colapso da família e que minha mente jovem e subdesenvolvida não conseguia processar a culpa adequadamente, que esses cultistas e sua besta eram apenas agentes de simbolismo pessoal. Algo assim. Por um tempo, acreditei em tudo o que me disseram. As mentiras pareciam seguras. As mentiras eram confortáveis.
Vários anos depois, eles me diriam que eu teria tido uma recuperação completa. Foi um processo fácil, já que nunca mais tive outro encontro. Naquele momento, eu estava com tanta raiva que apenas lhes disse o que queriam ouvir.
Quando tive idade suficiente, cortei todos os laços com meus pais e me mudei do estado. Uma vez por conta própria, pesquisei nos arquivos da cidade e obtive o máximo de informações que pude sobre aquela época em que eu tinha nove anos. O relatório de pessoa desaparecida, a caçada humana naquelas matas durou vários dias, e tudo o que encontraram foi um homem. Ele foi estripado, seus membros removidos, seus órgãos faltando. Descobriram que ele usava uma máscara peculiar. A cabeça de um carneiro, mas suas entranhas foram cuidadosamente esculpidas e esvaziadas para caber na cabeça de um humano. Quando removeram o capacete, viram que ele havia morrido com uma expressão de horror absoluto. Tirei prazer disso.
Gostaria de acreditar que esses homens eram cultistas, que estavam tentando aplacar algum deus invisível e sem nome. Um deus que absolutamente não deveria existir, um deus que não tinha o direito de andar entre os homens. E que, durante sua tentativa de aplacá-lo, eu estraguei seu ritual quebrando uma peça importante do processo: o boneco, e em sua tentativa de salvá-lo, eles me forçaram a me oferecer como sacrifício a ele. Mas sua falha em fazer o que quer que fosse fazer comigo naquela noite destruiu toda a operação. Prefiro acreditar que, em nome da vingança, essa coisa zangada se voltou contra seus próprios adoradores. Matando todos eles e arrastando-os de volta para onde quer que tenha vindo. É a única coisa que faz sentido para mim.
Há apenas uma coisa que ainda não consigo entender. Por que, não importa para onde eu vá, quando estou sozinho, em lugares silenciosos, no meio da noite, por que ainda consigo ouvi-los entoando aquele sermão profano que ouvi há tanto tempo na mata quando eu tinha nove anos?