A tempestade transformava a visão noturna da rua da cidade em um borrão para Tim Averys enquanto ele caminhava lentamente pela calçada. A chuva caía forte o suficiente para fazer as pessoas correrem para seus destinos ou buscarem abrigo debaixo dos toldos das lojas. Para Tim, no entanto, caminhar sob a chuva parecia o certo a fazer. Dava a impressão de que talvez pudesse esse banho natural da tempestade gelada pudesse esfriar a raiva silenciosa que fervilhava em seu peito. Teria ajudado, se não fosse pelo caos do trânsito à sua esquerda. Era a hora do rush, e os motoristas não viam necessidade de dirigir com cuidado. Luzes piscavam. Buzinas soavam. A cada poucos segundos, um pneu passava por uma poça e a água espirrava sobre a calçada.
Dentro de sua cabeça, Tim revia a última hora de sua vida.
Ele tinha acabado de voltar para casa, de férias antes do seu último ano de faculdade. Seus pais estavam tão orgulhosos de que ele estava prestes a obter seu diploma em administração de empresas. Parecia que esse havia sido o plano para toda a sua vida. Ele deveria conseguir um diploma perfeitamente respeitável, encontrar um emprego perfeitamente respeitável e ter uma família perfeitamente respeitável. Mas, depois de quatro anos, Tim havia percebido algo. Ele odiava administração de empresas.
Então, ao visitar seus pais, ele informou aos pais que planejava se matricular em uma escola de arte e seguir seu sonho de ser artista. Não saiu como ele imaginava.
Ele escutou “Você estará jogando sua vida fora” e “você não é tão talentoso assim”.
Foi então que ele saiu e decidiu dar uma caminhada, apesar da tempestade lá fora.
Um trovão trouxe Tim de volta ao presente agora.
Olhando ao redor da rua, ele percebeu que, enquanto estava perdido em pensamentos, havia pegado o caminho errado em algum lugar. Os prédios pareciam vagamente familiares, mas ele não conseguia identificar exatamente em que rua estava. Havia um bar com uma aparência duvidosa, uma lan house de aspecto genérico e uma casa de penhor com uma placa meio apagada .Nenhum dos outros prédios parecia habitado. Eram apenas fachadas de lojas abandonadas com janelas escuras que pareciam encará-lo.
Enquanto Tim estava parado olhando para uma das janelas escuras, uma pequena figura surgiu do nada e correu em sua direção, quase o derrubando na calçada molhada. Recuperando o equilíbrio, Tim olhou ao redor procurando a criança, esperando que estivesse bem. Ele ouviu passos nas poças atrás dele. Virando-se, Tim os viu correndo. Por uma fração de segundo, o menino virou a cabeça para trás e olhou Tim diretamente nos olhos. Ele não sabia dizer o que era, mas algo nos olhos do garoto parecia muito errado. Antes que pudesse descobrir o que, a criança já havia virado a esquina e desaparecido.
Tim respirou fundo e decidiu que já estava farto de andar na chuva por aquela noite. Ele olhou rapidamente para o bar do outro lado da rua. Não conseguia distinguir o nome, mas começava com “R”. Ele mal conseguia ver o interior mal iluminado pela entrada. Não parecia particularmente convidativo. Ele se virou para a lan house a algumas portas adiante. Uma placa branca e vermelha dizia “Cyber Café dos Anjos”. Tim imaginou que precisava de um anjo naquele momento. Ele também pensou que poderia, pelo menos, checar suas redes sociais.
Ao entrar no Cyber café, Tim se viu em um estabelecimento longo e estreito E que estava surpreendentemente movimentado. O lugar era mal iluminado e tinha um estranho esquema de cores branco e preto que não combinava muito bem. As estações de computador no meio da sala estavam cheios de clientes. Era uma multidão jovem, e ele não reconheceu ninguém. Também não viu nenhum computador livre. Ele foi até o balcão e acenou para a garota que trabalhava lá.
— Boa noite. O que posso fazer por você? — ela perguntou. A garota tinha uma aparência hipster meio cínica, mas parecia bastante amigável.
— Há algum computador livre por aqui?
— Bem — ela disse, seus olhos percorrendo a sala. — Parece que você vai ter que esperar liberar alguma maquina. Posso te trazer um café ou algo assim enquanto espera.
Tim pediu a coisa mais barata que encontrou no cardápio e olhou novamente pela sala. Havia alguns nichos mais isolados nos fundos do prédio que ele não tinha notado antes. A garota voltou com seu café e percebeu para onde ele estava olhando.
— Aqueles são apenas lugares para você conectar com seu próprio notebook. Sua melhor aposta ainda é esperar.
Tim assentiu, pagou e foi até os pequenos recantos montados contra a parede. Ele pensou que poderia pelo menos sentar em um e ter um pouco de privacidade enquanto esperava. Ele passou pelas primeiras cabines, indo para a do canto mais afastado do prédio, onde ninguém poderia vê-lo. Ao chegar à cabine, ele encontrou algo que era, de alguma forma, surpreendente e perfeitamente normal: um laptop esquecido.
Tim olhou pela sala para ver se pertencia a alguém. Não havia ninguém no balcão.
Todos os outros estavam ocupados em seus próprios computadores. Ele caminhou até as portas dos banheiros próximos e ouviu para ver se havia alguém lá dentro. Não ouviu nada. Tim bebeu seu café lentamente enquanto voltava para a cabine com o laptop.
O exterior preto não parecia ter nenhum logotipo ou marca. Um par de fones de ouvido repousava ordenadamente sobre ele.
Em qualquer outro dia, Tim não era o tipo de pessoa que abriria o laptop de outra pessoa.
Mas havia algo naquela noite, algo naquela sala mal iluminada, e algo naquele computador preto-azulado que o fazia não ser um dia comum. Dando uma última olhada para ver se alguém estava observando, Tim escorregou para a cadeira e abriu o laptop.
Ao apertar o botão de ligar, ele só podia imaginar que coisas loucas poderiam estar nele. Ficou quase desapontado quando a área de trabalho se abriu e havia apenas dois ícones: “Meu Computador” e “Lixeira”. Tim suspirou, mais por alívio. Ele supôs que não precisava de mais nada emocionante para acontecer naquele dia. Estava estendendo a mão para fechar o laptop quando avistou um ícone estranho aninhado no canto inferior esquerdo da tela. A melhor maneira de descrevê-lo seria uma estranha mistura entre um pôr do sol e uma rosa dos ventos. Ele o encarou por um tempo e então escaneou a sala à sua frente uma última vez, certificando-se de que ninguém o via. Ele clicou no ícone.
A tela do notebook imediatamente ficou branca pura. Uma versão maior do icone se desvaneceu no meio da tela, cercada pelas palavras “Encruzilhada Ocidental“. Depois de alguns segundos, o logotipo desapareceu e a tela mudou para o que era inconfundivelmente um navegador de internet, embora um que ele nunca tivesse visto antes. A maioria dos botões eram apenas símbolos que ele nunca havia encontrado.
Um pensamento ocorreu a Tim que o gelou.
Ele tinha ouvido falar de navegadores que as pessoas podiam usar para ir a partes da internet que estavam bem fora do caminho comum. A Encruzilhada Ocidental parecia ser um navegador da Dark Web. Ele nunca havia explorado a Dark Web antes. Apenas tinha ouvido as mesmas histórias genéricas que todo mundo. Pelo que ele sabia, não passava de drogas, terroristas e assassinos de aluguel. Foi nesse momento que ele viu um botão de estrela que deveria ser algo como uma lista de sites favoritos.
Tim apertou o botão e uma lista apareceu na lateral do navegador. Havia quatro sites favoritos e todos estavam escritos em uma língua que Tim nunca tinha visto antes.
Um estrondo de trovão ensurdecedor veio de fora que pareceu sacudir todo o prédio.
Tim teve que segurar a xícara de café barato para não derrubá-la no chão. Houve uma onda de murmúrios na sala principal enquanto os clientes se acalmavam. Tim voltou a olhar para a tela e descobriu que os sites da lista agora estavam em inglês. Ainda faziam pouco sentido, mas pelo menos ele podia lê-los.
O primeiro site dizia “Biblioteca de Entorum“. O ícone ao lado parecia ser de vários livros empilhados uns sobre os outros. Por alguma razão, Tim achou que também parecia estranhamente com as grades de uma cela de prisão. O segundo item dizia apenas “Sr. dos Negócios”, com um símbolo em bloco que parecia ser uma montanha dividida ao meio. O terceiro site era algo chamado “O Jardim das Delícias Terrenas”. O icone ao lado era uma chama azul. Uma sensação no estômago de Tim dizia para ele ficar bem longe daquele site. Isso deixava apenas o último item.
“O Altar” era o último site. O símbolo ao lado eram duas serpentes uma de frente para a outra, com as presas à mostra. Assim como ele havia sido atraído para o laptop, Tim se sentiu atraído por aquelas palavras. Sem pensar duas vezes, ele clicou no site.
Uma janela menor surgiu no meio da tela. Parecia ser algum tipo de vídeo de transmissão ao vivo com uma pequena caixa de bate-papo à direita. No momento, a única coisa visível era o mesmo símbolo das duas serpentes. Elas pareciam vagamente com a arte que ele havia visto de ruínas astecas e maias. Fluxos de vermelho e prata escorriam de suas mandíbulas abertas e formavam uma cachoeira entre elas.
A tela piscou brevemente e a janela ficou em tela cheia. Acima do registro de bate-papo lateral, um número começou a aumentar. Nomes de usuários começaram a preencher o registro. O número parou em 43. Nenhum deles digitou nada no registro; nem mesmo um cumprimento. Estavam esperando. Os nomes de usuário eram agrupamentos aleatórios de letras e números, completamente anônimos. Eles não tiveram que esperar muito, pois o vídeo piscou e começou a ser transmitido. Tim rapidamente pegou os fones de ouvido ao lado do laptop e os colocou. As únicas coisas que ele conseguia ver na tela eram uma ampla parede de vidro e um chão feito de grandes pedras esculpidas. O som de água corrente era tudo o que ele conseguia ouvir. A sala estava preenchida por uma luz bruxuleante e tênue que projetava sombras estranhas no chão de pedra. Enquanto ele olhava para a imagem, a luz ficou mais brilhante e lentamente Tim percebeu que o que ele inicialmente pensara ser uma parede de vidro, na verdade, uma parede de água caindo que fluía tão perfeitamente que brilhava como vidro. Toda a cena o lembrava estranhamente de morte e decadência. Ele pensou brevemente em fechar o laptop e correr de volta para a chuva, mas o pensamento foi rapidamente afastado quando uma figura saiu das sombras e entrou na visão da câmera.
— Boa noite, senhoras e senhores! — disse o homem com uma voz grave e imponente. — Sejam bem-vindos de volta a O Altar! — O homem tinha um sotaque que Tim não conseguia identificar. Era profundo e gutural. Ele estava vestido com um impecável terno cinza-chumbo, completado com uma gravata listrada prateada e vermelha. Tim mal notou o terno enquanto encarava o rosto do homem com nojo. Era um rosto de traços vagamente orientais, com a cabeça raspada acima dele. O que o tornava notável eram as tatuagens de serpentes cobrindo a maior parte do rosto. Mesmo agora, enquanto o homem sorria agradavelmente, ele era aterrorizante.
— Bem, tenho certeza de que temos alguns novatos aqui — disse o homem com uma piscadela. — Sempre temos. Então, permita-me apresentar-me. Eu sou o fornecedor de esperanças e sonhos! O realizador de desejos! O sumo sacerdote da sua religião pessoal! Podem me chamar de Tezcat.
Tezcat caminhou mais perto da parede d’água corrente, sua sombra assumindo uma forma estranha na luz bruxuleante de sua superfície.
— Agora, em alguns instantes, começarei os leilões, então vou lembrá-los das duas regras de lance. Número um: seu dinheiro não serve aqui. Número dois: O lance final não tem devoluções. E, sim, alguns dos meus lotes podem parecer bons demais para ser verdade. Mas, prometo que a satisfação é garantida. Agora, vamos começar. Lote número um, senhoras e senhores!
Tezcat gesticulou para a parede de água atrás dele e uma imagem de um coração de desenho animado apareceu no líquido que fluía. Tim não sabia dizer se estava sendo projetada ali ou se estava sendo adicionada digitalmente.
— Amor verdadeiro! — disse Tezcat. — Sim, isso mesmo! Pelo preço certo, a pessoa do seu desejo se apaixonará perdidamente por você! Sem drogas! Sem hipnose! Sem lavagem cerebral! Apenas um pequeno empurrãozinho na direção certa que eles nem perceberão.
A imagem na água desapareceu e foi substituída pelos rostos de várias pessoas aleatórias. Tim não entendeu até que uma imagem que ele reconheceu apareceu. Era o rosto de uma colega de classe por quem ele teve uma obsessão doentia um ano atrás. Seu queixo caiu. Não havia como alguém saber que ele estaria naquele café, olhando para aquele exato site naquele exato momento. As únicas explicações eram uma chance em um trilhão, uma pegadinha incrivelmente elaborada, ou… era real.
Alguém na sala de bate-papo rapidamente deu um lance. “Dez milhões de dólares” apareceu no registro. Tezcat tirou um tablet de algum lugar e olhou para a tela. Um cenho carrancudo surgiu em seu rosto.
— Que parte de “sem dinheiro” é difícil de entender, gente? — Ele estalou os dedos e o licitante foi instantaneamente removido da sala. — Agora, temos algum lance de verdade?
Houve uma longa pausa. Tim se sentiu extremamente desconfortável enquanto Tezcat continuava a sorrir para a câmera com um ar de quem sabia de algo. Ele não tinha ideia de que tipo de lance o leiloeiro estava esperando. Finalmente, um dos usuários digitou “minha audição”. Tim encarou essas palavras em descrença. Ele não conseguia acreditar que algum maluco realmente ofereceu algo assim. Tezcat olhou para seu tablet novamente e sorriu de orelha a orelha.
— Bem, bem, bem — ele disse. — Agora estamos falando sério. — Ele tocou algo na tela e começou a rolar. — Hmm… você tem recursos consideráveis. Estilo de vida com pouco estresse. Alto intelecto. É um sacrifício, com certeza, mas acho que alguém pode fazer melhor. Prove-me que estou certo, senhoras e senhores.
Houve uma pausa muito mais curta desta vez. Foram apenas alguns segundos antes que alguém digitasse “1998”. Tezcat verificou outra coisa em seu tablet. Tim boquiaberto para a tela em ainda maior descrença.
— Um ano da sua vida é sempre uma boa oferta — ele disse. — Então, vamos ver o que aconteceu naquele ano. Primeiras palavras da filha… aprendeu a dançar salão… ah, aí está. Seu Pai pediu desculpas por nunca ter estado presente. Abrir mão de um ponto de virada na sua vida? Aceitável. Mais alguém?
Tim estava maravilhado com a cena que se desenrolava diante dele. Ele mal conseguia acreditar nos poderes psíquicos que o anfitrião prometia ter, mas arrancar memoria de um ano da vida de uma pessoa? Em que tipo de loucura ele havia se metido?
Outra pessoa digitou “minha habilidade de tocar guitarra”. Tezcat arqueou uma sobrancelha e fez outra verificação no licitante. Ele sorriu amplamente novamente, mas parecia mais artificial do que antes.
— Abrir mão das próprias esperanças e sonhos que o mantêm em movimento? Esperando que seu amor verdadeiro valha a pena abrir mão da única coisa que você faz bem? Jogando fora anos de estudo. Pratica, Planejamento e a fantasia de um dia ter sucessos? É como arrancar o próprio coração. Isso, meus amigos, é um lance. Dole Uma.
Tim não sabia se acreditava em nada disso ainda, mas podia sentir que o último licitante acreditava o suficiente para abrir mão de tudo.
— Dole Duas.
Ele fez uma pausa por um momento, esperando por mais lances.
— Vendido, Um amor verdadeiro em troca de suas esperanças e sonhos. — O licitante desapareceu da sala de bate-papo enquanto uma linha aparecia, afirmando que ele havia sido “transferido para cobrança”.
Seu anfitrião estalou os dedos e as imagens na água mudaram novamente. Diferentes cenas começaram a aparecer. Havia pessoas fazendo todo tipo de coisas, cada uma com o rosto mal visível. Uma mulher saiu de um carro e caminhou por um tapete vermelho. Um jogador de futebol marcou um touchdown na frente de uma multidão de milhares. Um arrepio desceu por sua espinha enquanto um homem caminhava por uma galeria de arte. Mais de uma das pinturas era exatamente do estilo dele. As cenas continuaram a ser reproduzidas enquanto Tezcat falava.
— E por falar em esperanças e sonhos — ele disse. — Agora, você também pode ter todo o talento e recursos necessários para realizar seus desejos mais profundos e sombrios. Um sonho por cliente. Mas você ainda terá que se esforçar, é claro. Este é sempre um dos meus lotes favoritos. Me dá uma sensação boa e aconchegante por dentro. — Ele soltou uma risada curta e grave.
Não houve hesitação da multidão desta vez, Alguém digitou “Troco por minha coleção de cartas”. Sua mensagem foi seguida por vários outras mensagens de usuários zombando dele. Tezcat, no entanto, examinou cuidadosamente o que quer que estivesse em seu tablet.
— Quarenta anos dedicados a construir uma coleção cartas. Várias cartas extremamente raras que você valoriza muito. Uma oferta fraca, devo admitir, mas ainda assim… aceitável. Alguém tem um lance melhor?
Ninguém zombou do próximo lance, pois alguém digitou “escola de medicina” no registro. Tezcat nem precisou olhar duas vezes depois de ver o lance.
— Abrir mão de sua carreira arduamente conquistada por uma chance de fama e fortuna? A medicina não é a vida incrível que você imaginou que seria? Imagine, para tantas pessoas, o que você está tentando dar pode ser exatamente o que elas estão disputando. Aceito.
Para não ficar para trás, outro usuário digitou apressadamente “minha empregada”. Com apenas duas palavras, a compreensão de Tim sobre as ofertas deste leilão foi levada a um nível totalmente novo. Não eram lances. Eram sacrifícios. Ele prendeu a respiração esperando para ver se o anfitrião aceitaria uma pessoa como pagamento. Enquanto ele examinava as informações, um olhar surgiu em seu rosto que Tim só podia igualar ao de um serial killer parado sobre um corpo recém-morto.
— Já tive pessoas tentando passar funcionários e conhecidos como lances antes. O valor deles para você é, na realidade, inacreditavelmente baixo. No entanto, você parece estar tendo um caso com esta funcionária em particular. E um amante é uma mercadoria muito mais valiosa. Aceitarei de bom grado esse lance. E duvido que alguém possa superar esse. Então, dole uma.
Tim se lembrou da imagem da galeria de arte que havia visto na água. Ele imaginou como seria sua vida. Rico, famoso, seus talentos apreciados pelo mundo inteiro. Ele se lembrou da discussão em sua casa, há menos de uma hora. Lembrou-se da indignação e revolta que sentiu por seus sonhos serem ignorados.
— Dole Duas.
Tim sentiu seus dedos se movendo quase sozinhos.
— Então…
Ele quase não conseguiu acreditar quando viu o que ele digitou no registro: “Eu oferecço meus pais”. Tezcat parou no meio da frase com um olhar de leve choque que Tim não teria pensado ser possível alguns momentos antes.
— Agora, isso — ele disse com uma alegria mal contida. — É um lance. — Algumas mensagens de descrença preencheram o registro de bate-papo, uma delas lendo apenas “meu Deus” , “não acredito”. — E acho que não preciso perguntar se alguém pode superar isso. Vendido.
Tim olhou para a tela por um momento, ainda em choque pelo que acabara de acontecer. Tinha que ser um sonho ou uma alucinação. Ele não seria capaz de fazer aquilo na realidade. Certo?
— E, com isso, vamos para o nosso último lote da noite — disse Tezcat. Tim apenas esperou que algo, qualquer coisa, acontecesse para fazê-lo acreditar que tudo era uma grande brincadeira. Em vez disso, outro enorme trovão atingiu a Lan House e as luzes se apagaram. Olhando para a tela, ele viu que a janela havia mudado, lendo “transferindo para cobrança”.
As luzes da loja voltaram em apenas alguns segundos. Tim desviou os olhos da tela, espreitando para fora do recanto, procurando por alguém. Ele estava prestes a abandonar o laptop e correr, quando ouviu o som de alguém limpando a garganta. Olhando de volta para a tela, ele viu o rosto de Tezcat o encarando.
— Senhor Averys — ele disse. — Acho que deveríamos conversar pessoalmente.
Isso era tudo o que Tim precisava ouvir. Ele bateu o laptop, jogou-o no chão e correu para a porta. Ele mal percebeu, enquanto corria pelo café, que o salão agora estava completamente vazia. Foi a parte do “Senhor Averys” que o fez. Ouvir seu nome sair da boca do anfitrião bizarro foi a gota d’água. Ele alcançou a porta e saiu correndo para a noite.
O asfalto ainda estava molhado, mas a chuva havia parado. A rua era vista com mais detalhes do que antes. As luzes e o barulho dos veículos na rua e a escuridão dos prédios vazios pareciam apertar-se ao redor dele, sufocando-o. Ele parou, fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes. Começou a ajudar quando ele sentiu uma gota de líquido atingir sua mão. Irritado porque a chuva estava recomeçando, ele sacudiu a mão com força, tentando secá-la. Ao sacudi-la, percebeu que o líquido nela não era água. Era vermelho-vivo. Sentindo outra gota em suas costas, Tim olhou para cima. A placa que antes dizia “Cyber Café dos Anjos” agora continha apenas o símbolo das duas serpentes. O filete de vermelho estava pingando dele.
Virando-se, Tim achou a rua muito diferente do que se lembrava de apenas um momento antes. Cada carro na rua havia mudado de cor. Um táxi carmesim passou com o símbolo da Encruzilhada Ocidental estampado na lateral. Um caminhão de mudanças prateado metálico passou com o símbolo do Altar vividamente pintado nele. Os prédios que estavam mortos e vazios tinham luzes estranhas se movendo dentro deles. Na única vez em que Tim conseguiu uma visão clara delas, pareciam olhos que brilhavam fracamente. Qualquer chance de que o que ele estava vivenciando fosse um sonho estava rapidamente se esvaindo. Naquele ponto, Tim estava assumindo que estava morto ou insano.
O único lugar na rua que permanecia meio normal era o bar caindo aos pedaços do outro lado da rua. Ele tomou uma decisão rápida e se jogou no trânsito, desviando de um carro, depois de dois, e então parando enquanto um ônibus passava em alta velocidade à sua frente. Cada um dos passageiros tinha serpentes tatuadas no rosto. Assim que o ônibus passou, Tim correu pela última faixa e atirou-se contra a porta do bar. Respirando fundo mais algumas vezes, ele entrou no bar, que, segundo a placa na porta, chamava-se Relk’s, seja lá o que isso significasse.
O interior do bar era tão genérico que era quase doloroso. Parecia apenas um boteco comum. Enquanto Tim seguia para o balcão, ele teve algum consolo ao ver que os poucos clientes no local pareciam normais. Ao chegar ao balcão, ele escorregou exausto em um assento. Ele olhou em volta procurando o barman e o encontrou conversando com um cliente no outro lado do balcão. Isso estava bom para ele. Ele só queria um tempo para processar o fato de que havia enlouquecido completamente. Ele não teve esse tempo. Diretamente atrás dele, ele ouviu o mesmo ruído de alguém limpando a garganta de alguns minutos antes. Alguém colocou um paletó cinza-chumbo no assento ao lado dele.
— Senhor Averys — disse Tezcat. — Fico feliz que pudemos conversar. — Tim não sabia o que dizer enquanto olhava para os olhos negros emoldurados pelas mandíbulas de serpentes tatuadas.
— Estou sonhando.
— Não, você não está.
— Eu enlouqueci.
— Erro número dois.
— Estou morto.
— Desculpe, mas não — disse Tezcat, sentando-se. — Ainda não. No momento, você possui uma grande oportunidade. Você terá o talento e os recursos para se tornar o maior artista do mundo. Pense nisso. Você será rico além dos seus sonhos mais loucos, mundialmente famoso, afogando-se em mulheres bonitas. Celebridades e a realeza terão suas obras em suas paredes e as pessoas se lembrarão de você por séculos.
— Eu não quero mais — disse Tim.
— Bem, você quis muito por um momento ali. E isso é tudo o que Relk e eu precisamos.
— Quem diabos é Relk? — perguntou Tim, finalmente encontrando um pouco de coragem.
— Relk. O Devorador. Um deus. E não as desculpas patéticas para deuses que vocês têm hoje em dia. Relk é um dos verdadeiros deuses. Os deuses antigos, como Carn, Sted, Zatan’nataz. Ele andava pelas ruas de suas cidades no reino material, defendeu seus seguidores até o fim e bebeu o sangue de seus inimigos.
— Eu devo acreditar em deuses agora também? — perguntou Tim.
— Senhor Averys — disse Tezcat com um sorriso. — Onde você pensa que está? — Ele pegou um copo vazio da mesa e o jogou na prateleira de trás do bar. O copo desapareceu no ar antes de atingir. As paredes ao redor deles cintilaram. A madeira e o vidro derreteram-se em pedra bruta. A luz fluorescente foi substituída por tochas bruxuleantes. Ele ouviu água correndo atrás dele. Ele se virou para encontrar a parede de água caindo atrás dele, caindo em uma piscina rasa que percorria a circunferência da sala. Virando-se de volta para o bar, ele se viu sentado em um pedestal baixo e encostado em um grande altar de pedra. No centro do altar havia um crânio humano. Rolos de tecido estavam envoltos na mandíbula e nas órbitas oculares do crânio.
— Esta é a Tumba de Relk, Timmy, meu rapaz. Bem, uma recriação dela. É um lugar real no reino material, mas pessoas como eu podem fazer um pequeno lar para si fora do caminho comum. Gosto de usá-la para minhas transmissões. Me lembra os bons e velhos tempos.
— Isso é… na dark web? — Tezcat explodiu em uma crise de riso histérico.
— Ah, céus, não — ele disse. — Aquilo é apenas um ponto de entrada. Veja bem, não há nada como o desejo humano bruto para criar um portal entre dois lugares. E digamos que sua dark web abunda nisso. Assim como você.
— Não mais — disse Tim. — Não vou deixar você levar meus pais. — Tezcat respirou fundo e suspirou.
— Timothy, receio que você não tenha escolha neste momento. Então, vamos direto ao assunto e fechar o negócio. — Ele tirou dois pequenos copos de dose de seu paletó e os colocou na frente de Tim e dele mesmo. — Peço desculpas pela… crueza, mas essas coisas precisam ser feitas de certas maneiras. — Com isso, ele tirou uma pequena faca do bolso. Parecia obsidiana para Tim, só que era verde. Com um movimento afiado, Tezcat fez um corte em um de seus próprios pulsos. Ele segurou a mão sobre um copo. Sangue dourado fluiu da ferida, enchendo rapidamente o pequeno copo. Ele fez o mesmo sobre o que estava na frente de Tim. O sangue parou de fluir quase imediatamente.
— Então — disse Tezcat, pegando uma dose. — Saúde, senhor Averys. — Tim apenas o encarou de volta nos olhos, um pensamento se formando no fundo de sua mente. Ele segurou o copo de dose o mais levemente possível e o empurrou um pouco para trás. O pensamento tornou-se mais concreto.
— Você disse que isso se chamava a Tumba de Relk — ele disse. — Então, os deuses podem morrer? — Tezcat revirou os olhos e soltou um longo suspiro.
— De certas formas, podem — ele disse. — Mas é difícil manter um deus morto. Eles morreram, eles voltaram, embora ligeiramente diferentes, e então recrutaram pessoas como eu, um aspecto, para conseguir almas para eles.
— Espere — disse Tim. — Almas de quem? — Os olhos de Tezcat se arregalaram como se ele tivesse percebido que não deveria ter aberto aquela porta. — As almas que apostamos? Isso não parece certo.
— Senhor Averys, apenas beba e podemos conversar sobre isso depois.
— É a minha alma, não é? — perguntou Tim. — É porque eu apostei uma pessoa. Eu sacrifiquei uma pessoa. É por isso que você não ficou feliz quando o cara ofertou a habilidade de música dele. — As revelações continuavam. — É por isso que é um leilão. Porque as pessoas não sacrificam outras pessoas a menos que você as force a superar o lance de alguém. É um teste.
— Sim, é — disse Tezcat. — E você falhou. O que significa que sua alma tem uma marca. E quando você morrer, Relk fica com sua alma. Você não passa pelo Início, você não recebe duzentos dólares. Não tem como escapar agora, então beba.
— Eu ainda não falhei — disse Tim, pegando o copo de dose e agitando-o na frente de Tezcat. — Porque você parece muito determinado a me fazer beber isso e fechar o negócio. Acho que isso significa que eu ainda tenho uma chance.
— Não, você não tem — disse Tezcat, sua voz começando a ferver de raiva. — Sim, esse sangue vai marcá-lo, mas também é sua única saída deste mundo. Do meu mundo. Então você tem duas escolhas agora. Você pode beber e ter uma vida incrível, ainda que cheia de culpa. Ou, pode jogar este jogo e ficar aqui no meu mundo para sempre. E aqui dentro, eu sou um deus. Posso fazer deste o seu Purgatório pessoal.
— Mas meus pais vivem.
— Quem se importa?! — gritou Tezcat. As pupilas de seus olhos se estreitaram em algo como as de uma cobra ou um gato. — Eles morrem agora ou morrem em dez anos! Eles não importam! Você não importa! Diabos, nem eu importo! O Devorador está acima de todos nós. Agora, faça uma escolha. Porque, embora eu tenha todo o tempo do mundo, não gosto de desperdiçá-lo com ninguém como você. Então, ou beba e pegue a porta de saída, ou fique aqui e apodreça!
— O que diabos você é? — perguntou Tim, esperando conseguir ganhar um pouco mais de tempo enquanto um plano se formava em sua cabeça. Tezcat riu e socou o altar com um punho. A sala ao redor deles ecoou com o impacto. O crânio envolto em tecido à frente deles caiu de lado e rolou um pouco na direção de Tim.
— Eu já fui como você. Eu vivi. Eu morri. E então fiz um acordo, assim como você. Consegui o que queria, mas o custo foi alto. Tornei-me uma encarnação viva de um aspecto de um deus. Sacrifício é o que eu sou. E você não vai sair deste lugar sem um sacrifício seu!
Tim finalmente agiu. Ele pegou o crânio do altar à sua frente e o esmagou contra o lado do rosto de Tezcat. Osso esmagou osso e sangue dourado voou pelo ar. O aspecto atingiu o chão com força. Tim agarrou o copo de dose de sangue e correu para onde ele achava que havia entrado no bar. Enquanto corria, ele mergulhou os dedos no líquido dourado. Ele havia dito que o sangue era uma porta. Tim esperava que fosse literal. Atrás dele, Tezcat soltou um rugido enquanto se levantava do chão de pedra.
— Eu sou Tezcatlipoca, o Reflexo Sombrio! Eu sou Sacrifício! Eu sou a Mão de Relk! E você me irritou pra valer, Timmy!
Tim alcançou a parede e começou a desenhar. O sangue começou a brilhar fracamente quando atingiu a parede da tumba. Ele rapidamente arrastou os dedos pela parede, fazendo duas linhas verticais. Ao completar a linha de conexão na parte superior, ele ouviu tecido rasgando atrás dele. Virando-se, ele viu uma cena que sabia que jamais esqueceria.
Tezcat havia rasgado sua camisa e revelado seu torso nu. Seu corpo estava completamente coberto por tatuagens de manchas de onça gravadas em tinta prateada brilhante. Por todos os seus braços e ombros, espinhos dourados curvados haviam sido cravados em sua carne. O ouro e a prata em seu corpo brilhavam na luz bruxuleante das tochas, assim como seus olhos felinos. Foi então que Tim percebeu a verdade sobre quem o homem havia sido. Ele teve um flash, quase uma memória, de Tezcat parado na luz do sol de um mundo primordial, no topo de um grande altar de pedra em uma cidade dourada, um coração fracamente pulsante agarrado em sua mão. O Sumo Sacerdote de Relk.
Enquanto a figura monstruosa começava a se mover em sua direção, Tim se virou para a parede. O contorno estava brilhando. Parecia que funcionaria. Mas precisava de algo. Olhando para sua mão, ele viu que a borda do copo estava coberta de sangue. Ouvindo passos a poucos metros atrás dele, ele pressionou o copo contra a parede como uma maçaneta e girou. O contorno da porta brilhou com uma luz dourada brilhante. Por trás dele, o aspecto do sacrifício gritou de raiva e dor. Em um instante, a luz era tudo o que ele conseguia ver.
Tim não tinha certeza de quanto tempo ficou inconsciente, mas quando ele voltou a si, encontrou-se estirado na calçada em frente ao boteco, que a placa agora dizia se chamar Ruby’s Bar. A chuva ainda caía torrencialmente ao redor dele. Algumas pessoas o olharam estranho enquanto passavam apressadas. Ele se arrastou até ficar de pé e recuou para debaixo do toldo do bar. Pegou o telefone do bolso o mais rápido que pôde e discou o número dos pais.
O telefone tocou uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Um clique veio da outra linha. Uma onda de alívio percorreu Tim, mas durou pouco.
— Olá, Timmy — disse uma voz que ele agora conhecia muito bem. — Eu realmente tenho que parabenizá-lo por essa fuga audaciosa. — O estômago de Tim se contraiu em um nó gelado.
— Onde estão meus pais?
— Ah, eles estão bem — disse Tezcat. — Eu só queria falar com você uma última vez.
— Eu vou ter que ficar de olho nas minhas costas, não é?
— Sim, mas não por minha causa. Veja bem, apesar daquela demonstração emocional embaraçosa lá atrás, eu tenho que respeitar sua paixão.
— Besteira.
— Calma, calma, Tim — ele disse. — Neste ponto, sou um empresário acima de tudo. E não é um bom negócio manter uma vingança baseada em um acordo que deu errado. Seria um desperdício de tempo e recursos continuar atrás de você quando meu site ainda está a todo vapor.
— Então, por que você está falando comigo? Não seria mais divertido me manter olhando por cima do ombro?
— Sim, na verdade, isso faz parte do motivo pelo qual estou falando com você. Você não achou que foi pura sorte aquele laptop ter sido colocado ali e você ter sido atraído por ele, não é? Você tem exatamente o tipo de alma que atrai os aspectos; cheia de esperança, sonhos, desespero. Há muitos outros aspectos que vão te farejar eventualmente. Ambição. Desejo. Criação. Apenas te dando um aviso.
— Que gentileza sua.
— Boa sorte, senhor Averys. Tela Ra’an ten’ashad.
— O que diabos isso significa??
— Ahn, Tim? — perguntou a voz de seu pai. — Eu acabei de dizer ‘olá’.
— Ahn, sim, desculpe. Eu estava… falando com um cara na rua.
— Hum… ok. Então, você precisa que a gente te pegue em algum lugar? A chuva ainda está caindo bem forte.
— Não, só queria saber como vocês estavam. Acho que vou esperar a chuva passar. Ainda estou pensando sobre o que conversamos mais cedo.
— Você sabe que só queremos o melhor para você, certo, Tim?
— Sim, eu sei — disse Tim. — Só estou tentando descobrir algo. Falo com vocês depois.
— Sim, até mais. — Tim encerrou a chamada e soltou um longo e lento suspiro. Ele ficou sentado debaixo do toldo por um tempo, pensando no que queria fazer. Depois de um tempo, ele tomou uma decisão. Ele caminhou em direção à faixa de pedestres, voltando para a lan house. Havia outros três sites naquela lista na Encruzilhada Ocidental. Ele não estava se sentindo desesperado. Estava se sentindo sortudo.