Era uma porta de cobre com a altura de dois andares colocada diretamente na parede de uma caverna.
Sua superfície estava esculpida com um vasto e complexo baixo-relevo que incomodava os olhos. Uma mistura nauseante e confusa de corpos humanos amontoados, formando uma massa de carne nua, muitos olhando horrorizados por cima dos ombros enquanto fugiam de algo fora do quadro, invisível. Milhares deles. Famintos e miseráveis, com rostos magros e olhos fundos. Costelas salientes e barrigas inchadas.
Havia rumores de que aquelas figuras se moviam, mas apenas quando ninguém estava olhando.
Menos de uma semana após sua descoberta, derrubaram a porta com explosivos. Naquele momento, não sabíamos exatamente o que tínhamos encontrado, embora eu tenha certeza de que alguns de nós — especialmente os religiosos — já tinham suas suspeitas. A porta estava errada. Totalmente errada. Ela simplesmente não deveria estar ali. Cavernas naturais não se estendem tão fundo na Grã-Bretanha. Não a mil metros de profundidade.
Como cientistas, deveríamos estar animados, mas todos concordávamos que aquela porta era repulsiva. Olhar para ela por muito tempo despertava um desejo incontrolável de fugir. Talvez uma memória ancestral, da mesma forma que nossos corpos sabem instintivamente evitar criaturas rastejantes e escorregadias. Coisas que apodrecem, zumbem e exalam o fedor da morte e decadência.
Nunca nos disseram como encontraram, nem por que nos fomos designados a esse projeto. Apenas que precisávamos descobrir o que havia do outro lado dessa porta. Quando as cargas explodiram, detonaram como fogos de artifício gigantes. Uma sequência que percorreu todo o contorno do portal, uma por uma. Estrondos ensurdecedores sacudiram a caverna inteira. Pisquei para afastar a poeira dos olhos enquanto as grandes máquinas baixavam a porta, agora solta de seus engates.
Olhando para trás, alguns detalhes vêm mais facilmente do que outros. O ar que escapou dali era quente e seco — e isso não me surpreendeu. Parecia intuitivamente correto. Quer eu admitisse para mim mesmo ou não, desde o início eu pensava naquela porta como um portal para o inferno. E minha imagem mental do inferno era estranhamente medieval: grandes muros de pedra, como os de um castelo antigo. Correntes chacoalhando. O lamento dos condenados. O fedor de enxofre. Deus, até mesmo pequenos demônios vermelhos com chifres e caudas pontudas.
Mas eu não esperava prateleiras e livros. Essa foi a primeira coisa real que vimos.
Prateleiras alinhadas às paredes, escavadas diretamente na mesma rocha da caverna. Subiam muito além do alcance de nossas lanternas, de modo que, quando olhávamos para cima, só víamos escuridão e poeira — mas nunca o fim da fileira infinita. Cada centímetro coberto de livros. Sem lacunas. Apenas poeira e livros de todos os tamanhos: couro, tecido, brochura. Pastéis desbotados, letras douradas em alfabetos familiares e outros completamente estranhos.
E não eram apenas as paredes. O chão estava tomado por pilhas aleatórias de livros, algumas na altura da cabeça, empilhadas como se algum bibliotecário exausto tivesse desistido de encontrar espaço nas prateleiras. Formavam um labirinto, escondendo cantos e portas.
A equipe da frente — eu incluso — avançava com cautela pelo corredor de pedra, atentos a qualquer sinal que desse algum sentido àquele lugar. Devia haver milhares de livros, e isso era apenas no primeiro corredor explorado. Sempre que pegávamos um deles, as páginas se revelavam finas como papel de arroz, quase translúcidas, muitas vezes cobertas por símbolos e letras estranhas, impossíveis de reconhecer. Fora isso, era apenas jargão.
Não que os estudássemos por muito tempo naquele primeiro dia. Sempre que eu pegava um, devolvia rapidamente. Levantá-los me dava a sensação de que estava fazendo algo errado. Inapropriado. Eu detestava o vazio que deixavam nas prateleiras. Uma lacuna como um dente faltando, a escuridão dentro dela girando como águas profundas.
A sensação de segurança ali era apenas uma ilusão. Mexer nos livros parecia um risco de quebrá-la. Não sei como descrever melhor, a não ser que eu não queria fazer nada que pudesse chamar atenção para mim. Era como se estivéssemos expostos demais. Extremamente visíveis.
Não havia sons além dos que nós mesmos produzíamos. Nossa própria respiração.
Nossos próprios passos. O arrastar e o esforço de cada movimento. Podíamos até ouvir os batimentos cardíacos uns dos outros. O bu-bump dissonante de vários peitos batendo como uma bateria quebrada. E, de vez em quando… uma corrida. Um aumento constante na cadência da batida, sempre que dobrávamos uma esquina cega, ou levantávamos um livro apenas para ver o que continha, ou olhávamos para as sombras acima de nós. Cada um de nós continuava tendo falsos alarmes, porque sempre havia aquela expectativa de que veríamos algo. Logo. A qualquer instante. Espremido entre dois livros, ou balançando no alto…
Demorou mais seis horas até que o corredor se abrisse, e quando isso aconteceu ficamos estupefatos. Diante de nós havia um vasto e assustador mezanino, feito de rocha antiga, com vista para um abismo sem fundo visível. Andar após andar, todos tomados por prateleiras cheias de livros. Milhões. Bilhões. E ao longo de todas aquelas paredes e níveis distantes, pequenas aberturas levavam a mais corredores, iguais ao que havíamos acabado de percorrer. Tantos, que era como encarar uma colmeia em ruínas. Olhar para cima, para baixo ou para qualquer direção era se deparar com mais livros do que qualquer ser humano poderia ler em toda a vida.
Fizemos nossa primeira pausa naquele mezanino. Embora os rádios não funcionassem bem ali, tivemos o bom senso de levar fio suficiente para manter uma conexão forte e, por meio dele, conseguimos contatar o local de pesquisa principal e atualizar a situação. Deveríamos continuar por mais seis horas e depois retornar. Um dia, não mais — esse era o plano. Mas até isso parecia tempo demais. Eu queria ir embora. Queria confirmar que, em algum ponto, haveria uma porta que me levaria de volta à realidade, porque desde que entrei ali, parecia que tinha atravessado para um pesadelo. Um lugar onde a realidade era plástica. Dizia a mim mesmo que era apenas a escala descomunal. A estranheza. Mas era mais do que isso. O próprio ar parecia rarefeito.
Éramos seis. Três cientistas e três soldados. Os soldados reagiam à situação com silêncio e um estado de alerta que beirava a paranoia, examinando constantemente a escuridão com as lanternas acopladas nos rifles. Passavam os fachos de luz de uma prateleira alta para outra. Inquietos. Troca de olhares sombrios. De certa forma, eu ficava grato, mas ao mesmo tempo aquilo me deixava nervoso, e não consegui relaxar nem por um instante na primeira metade da pausa.
Acho que era natural que os cientistas começassem a conversar. Parte para preencher o silêncio. Parte para tentar nos convencer de que deveríamos estar animados com as implicações daquela descoberta, fosse qual fosse. Reescrever a história. Arqueologia em um novo patamar. Esse tipo de coisa.
Não demorou até que nos convencêssemos a dar uma olhada mais cuidadosa naqueles livros. Admito que não foi fácil, mas fizemos um bom trabalho em acreditar que não estávamos realmente com medo. Começamos devagar, pegando um livro, abrindo e rapidamente recolocando no lugar. Depois, com uma bravura forçada, pegamos mais e mais, até que cada um de nós estava sentado de pernas cruzadas, com pilhas de livros de cada lado, esperando para serem folheados.
Lembro que em algum momento devo ter me cansado e ergui o olhar por cima da minha própria pilha. Foi quando notei a Dra. Aisling murmurando baixinho enquanto traçava algumas palavras com os dedos.
— O que você encontrou?
— É o alfabeto latino — ela disse. — O primeiro em que reconheço as letras. Alemão, talvez?
Nenhum de nós era linguista, então estávamos apenas tentando adivinhar. Mas, ao ouvir Bea mencionar alemão, um dos soldados se aproximou e olhou para a página aberta.
— Germânico, mas não alemão — disse ele.
— Você fala isso?
Ele assentiu.
— Meu pai é alemão, e eu não sei o que é isso, mas não é alemão.
— Alguma coisa disso é familiar? — Bea perguntou, entregando o livro a ele. Após um breve aceno de seu CO, o Tenente Meikle, ele pegou o volume e começou a folhear as páginas.
— Acho que essa é a palavra para morte. Um tipo de erro de grafia, talvez. Essa aqui… acho que significa algo como querer. Desejar? Não sei. Nem todas as palavras parecem estar no contexto certo também.
— Então eles estão em uma variedade de línguas e alfabetos, mas até agora nada que possamos entender. E você? Teve sorte? — Bea me perguntou, e eu olhei para o livro que tinha em mãos.
— Algum tipo de cirílico, talvez? — Dei de ombros. — Não sou linguista. Definitivamente precisamos do Dr. Sellers na próxima expedição. Tenho certeza de que ele poderia oferecer algum esclarecimento. E você, Dr. Rosenstein?
O terceiro cientista do grupo, um homenzinho careca, permanecia em silêncio, franzindo a testa diante de um dos vários livros abertos à sua frente. Presumi que estivesse apenas curioso, como Bea e eu.
— Grant — chamei, tentando atrair sua atenção. — Ei, Grant! Encontrou alguma coisa?
Seu silêncio me deixou inquieto. Ele não estava apenas absorto. O suor escorria pela testa, veias saltavam em suas têmporas. Estava pálido, os olhos arregalados, os lábios rachados e secos. Os soldados, percebendo os mesmos sinais estranhos que eu, ficaram mais atentos, os corpos enrijecidos.
— Dr. Rosenstein? — um deles perguntou, nervoso. — Doutor? Consegue nos ouvir?
O soldado mais próximo estendeu a mão e tocou seu ombro. O homenzinho então nos olhou como se só naquele instante tivesse percebido nossa presença. No início, pensei que estivesse aliviado, pelo jeito como olhava para cada um de nós com um sorriso bobo no rosto. Mas logo percebi que havia algo errado.
— Oh! — disse ele, soltando uma risada ansiosa. — Oh. Certo. Claro. — Seus olhos corriam entre nós. — Claro. Desculpem. Eu não queria alarmar vocês.
— Certo — respondi. — Bem… estávamos falando sobre os livros. Bea acha que o dela pode ser em algum tipo de alemão ou língua germânica.
Ele assentiu, como se aquilo fizesse todo o sentido.
— Sim, imagino que sim — ele respondeu, enquanto olhava ao redor das prateleiras que se erguiam sobre nós. — Muitas línguas, eu diria.
E então, sem realmente perder o ritmo, acrescentou:
— Eles são pecados.
O grupo ficou em silêncio enquanto cada um tentava entender o que ele acabara de dizer. Nesse meio-tempo, ele se levantou e se espreguiçou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Do que você está falando? — perguntei, quando ficou claro que ele não daria mais detalhes.
— É bem óbvio onde estamos — disse, inclinando-se para a frente e nos olhando sombriamente. — E esses livros são uma lista de todos os nossos pecados. Um para cada um de nós. Então, haverá livros em alemão, tanto contemporâneo quanto histórico, como o que você encontrou, Dra. Aisling. Mas também haverá livros em russo, francês, árabe e chinês. Não apenas línguas contemporâneas. Egípcio antigo. Fenício. Babilônico. Aramaico. Latim. E, claro, línguas perdidas. Aquelas que nunca encontramos, mas que existiram de qualquer maneira. Todas elas. Todas as transgressões do mundo estão bem aqui, registradas na língua original do pecador.
Os soldados já se aproximavam mais, e Bea e eu trocávamos olhares profundamente preocupados. Grant parecia no meio de um colapso, falando de forma frenética e ansiosa, convencido de seu próprio significado, mas sem dizer nada de concreto.
— Grant, acho que precisamos voltar…
— A verdadeira diversão é que acho que vocês encontrarão livros em línguas que ainda não existem — ele desabafou. — Isto não é apenas um registro de pecados do passado. Mas de todos eles. Cada um. Até mesmo aqueles que ainda não cometemos.
— Grant, vou mandar um dos homens voltar com você. Está bem? Acho que você pode não…
— Esses são meus — disse ele, gesticulando para o livro em sua mão. — Todos eles. — Riu. — Não apenas as coisas que eu fiz. Pequenas transgressões, todas registradas com nomes, lugares e até pequenos diagramas. Mas até pecados que eu só pensava. Coisas que eu… queria fazer. E — acrescentou, rindo histericamente — pecados que ainda não cometi.
Ele folheava as páginas aleatoriamente e ria loucamente de algo que apenas ele conseguia ver.
— Embora não sejam muitos! — gargalhou, virando para a página final, lágrimas brotando de seus olhos. — Só um, na verdade. O último! O último pecado que cometerei.
— Grant — comecei a dizer —, acho que você–
Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, ele largou o livro e disparou correndo em direção à saliência mais próxima.
— Foi por aqui que viemos, certo?
Bea estava parada à entrada de um corredor, sua lanterna iluminando um fio que serpenteava pela escuridão.
— Esse é o cabo que carregamos até aqui — disse um dos soldados. — Mas… — o jovem olhou para o seu CO, Tenente Meikle, que segurava uma bússola na mão e não parecia nada satisfeito.
— Não é a direção por onde viemos — disse o mais velho. — Viemos do sul, então precisamos ir para o norte. Seria por esta porta. — Ele apontou para um segundo corredor embutido na parede de pedra.
— Tem que ser esse o caminho — disse Bea. — Confio muito mais nesse cabo do que em uma bússola. Qualquer coisa pode estar interferindo nela. Além disso, sabemos que o cabo leva ao QG, porque o radio ainda está funcionando. Falamos com eles há poucos minutos por esse fio. Ele tem que nos levar para fora daqui.
— Isso faz sentido — acrescentei. — Mas marquei o caminho que seguimos com giz. E essa marca está aqui. — Apontei para uma terceira porta.
— Porra — murmurou Meikle.
— Independentemente disso, eu voto no fio — disse Bea. — Confio mais nele. É uma conexão física.
— Acho que também voto no fio — acrescentou Meikle.
— Eu também. Mas… o que fazemos se estivermos errados? — perguntei. — O que isso significaria? Que alguma coisa moveu o fio? Ou a porta?
Ficamos todos em silêncio por alguns momentos, contemplando isso. Quando ninguém ofereceu uma resposta, puxei minha mochila para cima dos ombros.
— Acho que não temos muita escolha de qualquer maneira.
— Você acha que realmente existe um livro aqui para cada um de nós? — Bea perguntou. Foi a primeira vez em horas que alguém falou. Até então, caminhávamos fixados na escuridão à frente e atrás, atentos a qualquer sinal que confirmasse nossa suspeita febril de que havia algo espreitando no breu.
— Grant parecia acreditar que sim — respondi.
— Então quais as chances de ele ter encontrado o próprio livro? Quero dizer… se ele estiver certo, existem o quê? Cem bilhões de livros ou algo assim?
— Mais — respondi. — Se ele estiver certo sobre a biblioteca conter pecados futuros, além dos passados.
— As chances são bem pequenas, então — ela comentou.
— O que você está pensando?
— Se ele encontrou aqui, não acho que tenha sido coincidência — disse ela.
Mais à frente, um dos soldados parou bruscamente. Com o punho erguido, murmurou algo para os outros, que se ajoelharam e ergueram seus rifles, mirando na escuridão.
— O que foi? — perguntei.
— Você não ouve? — gritou Meikle de volta.
Todos paramos e escutamos com atenção, tentando captar algum som distinto em meio ao ruído branco do sangue em nossos ouvidos e das batidas dos nossos corações. E sim, estava lá. Um farfalhar suave.
Sem precisar combinar, avançamos o mais silenciosamente possível pelo corredor até chegarmos à fonte do barulho estranho. Uma porta — uma que não estava lá quando entramos — deixada ligeiramente entreaberta. Com o rifle erguido, um dos soldados usou o cano para empurrá-la um pouco mais.
— Ah, merda… — disse ele, alto o suficiente para que sua voz ecoasse pelo corredor.
O som foi um choque, e Meikle o puxou de volta, pronto para repreendê-lo, quando todos vimos o que nos esperava do outro lado.
Outro corredor, só que este, tinha prateleiras forradas não com livros, mas com cabeças decepadas. Ressequidos, pálidos e magros. Fileira após fileira. Todas posicionadas ordenadamente lado a lado, espaçadas com precisão. A pele branca como papel sob a luz intensa de nossas lanternas. E todos os olhos, nublados.
E eles estavam falando.
Em voz baixa. Pequenos sussurros. Eles murmuravam em uma discórdia de lábios úmidos. Sem respiração. Sem pulmões. Apenas o movimento de mandíbulas flácidas formando sílabas e consoantes que se perdiam naquela cacofonia farfalhante. O som era horrível. Molhado e seco ao mesmo tempo, profundamente perturbador, infiltrando-se em minha pele até me dar uma vontade estranha de atacar as cabeças.
Mas a curiosidade foi mais forte que o nojo, e me aproximei de uma delas. Estremeci quando aqueles olhos turvos se fixaram em mim, mas não parei. Cheguei perto o bastante para ver cada detalhe da pele escamosa, os olhos reumáticos me encarando com uma emoção indescritível. Para não perder a sanidade, estendi a mão e a segurei, sentindo o desgosto imediato quando o coto de pescoço deixou escapar um fluido marrom que manchou a prateleira. Acho que só queria confirmar se era falso. Não era. A pele estava fria, e a testa franzida em ódio ao meu toque.
Assim que ergui a cabeça no ar, todas as outras pararam de murmurar e se voltaram para mim, expressões carregadas de desprezo. Rapidamente a coloquei de volta, aliviado quando os sussurros recomeçaram.
Mesmo assim, os olhos não me abandonaram.
— Que porra é essa…? — Bea sussurrou.
— O que é isso? — Meikle perguntou, levantando a lanterna para as prateleiras mais altas, que seguiam intermináveis. — Que porra é isso?
Lentamente, uma ideia estranha começou a se formar em minha mente.
— Pisque se você puder me entender — falei, me ajoelhando diante da cabeça que eu havia tocado.
Todos do grupo pararam o que estavam fazendo e se voltaram para observar o resultado do meu experimento.
A cabeça piscou.
— Ok. Ok. Ok… — respirei fundo para me acalmar. — Certo. Uma vez para não, duas para sim. Entendeu?
Pisque. Pisque.
— Certo… — olhei para os outros, esperando sugestões, mas foi Bea quem falou:
— Esses livros são uma lista de todos os nossos pecados?
Pisque. Pisque.
— Um livro para cada pessoa?
Pisque. Pisque.
— Então o que é você? — ela perguntou.
A cabeça lançou um olhar severo, carregado de rancor.
— Perguntas de sim ou não — murmurei para ela.
Um dos soldados — o mais jovem, o mesmo que ajudara a traduzir o alemão — se aproximou e, hesitante, perguntou:
— Isto é o inferno?
Pisque. Pisque.
— É esse o seu castigo?
Pisque.
— Se não é punição… então o que é? — ele insistiu.
De repente, todas as cabeças pararam os murmúrios e começaram a emitir um som horrendo. Seus rostos se contorciam grotescamente em paródias de alegria, bocas abrindo e fechando em um ritmo grotesco. Quando percebi o que estavam fazendo, um frio apavorante rastejou pelo meu corpo.
Eles estavam rindo de nós.
Não havia porta. O fio desaparecia em um pequeno buraco na base de uma parede que bloqueava o corredor.
Ficamos em silêncio por minutos, até que finalmente o tenente Meikle quebrou o choque com uma ordem:
— Davies, coloque o QG na linha.
O soldado se ajoelhou, retirou o equipamento de comunicação da mochila e rapidamente o conectou.
— QG, me escuta? câmbio.
— Err… sim, estou ouvindo.
— Bem, acho que o fio ainda está ligado ao QG — murmurei.
— Verifique se há emendas na parede, — ordenou Meikle. — Procure dobradiças escondidas… qualquer coisa. E você — virou-se para o soldado com o rádio — avise que encontramos um obstáculo. Mandem outra equipe com explosivos.
Passei as mãos pelas bordas da parede.
— Se isso abre, não sei como. É sólida. Diferente das outras paredes. Tijolos vermelhos, bem resistentes.
— Bem, veio de algum lugar! — Bea gritou, tentando espiar pelo buraco onde o fio sumia. — Droga, não consigo ver nada!
— QG, precisamos de assistência. Temos um… uh… obstáculo. câmbio.
— Entendido. Qual é o obstáculo?
— Uma parede. Mandem a próxima equipe trazer explosivos. câmbio.
— Uma parede?
— Só mandem a equipe o mais rápido possível! Nossa saída está bloqueada. câmbio.
Silêncio. Então a voz voltou:
— Estamos a caminho. Só uma pergunta…
— O que é? câmbio.
— Por que você continua dizendo “câmbio”?
De repente, a voz mudou. Começou a rir. Primeiro baixinho, depois cada vez mais alto, até explodir em gargalhadas cruéis, como uma criança maldosa se divertindo com uma piada macabra. O som me arrepiou inteiro. Eu estava prestes a tomar o aparelho quando ouvimos um barulho pesado: um rangido grave, como pedra raspando contra pedra.
Antes que eu perguntasse, Bea se jogou para trás, levantou-se num salto e correu para a escuridão feito uma possessa. O grupo entrou em pânico.
— Williams, vá atrás dela! — Meikle gritou, voltando-se para mim. — O que deu nela?!
— E-eu não sei… — gaguejei.
— Cristo… — Meikle rosnou, arrancando o rádio das mãos do soldado confuso. — Escute, eu não sei quem você é, mas coloque alguém responsável na linha agora—
O barulho voltou. Mais alto. Pedra contra pedra. Poeira caindo do teto.
Todos nos calamos, capacetes vibrando.
— Sou só eu… ou está mais perto? — Meikle perguntou, voz baixa.
— Difícil dizer — respondi. — Eu não—
A parede se moveu. Um movimento súbito, assustador, que nos fez recuar em choque. Caí para trás, apavorado, enquanto a risada cruel ainda ecoava no rádio.
— Acho que precisamos sair daqui — falei, tentando manter a calma.
A parede se moveu de novo.
E, dessa vez, não parou.
O jovem soldado com o aparelho não reagiu rápido o suficiente. A coisa avançou tão rápido que o pegou em segundos, derrubando-o no chão com um baque seco e pesado. Então rolou sobre ele e foi… bem, se você é como eu, talvez já tenha se perguntado, quando criança, o que aconteceria se alguém ficasse preso no topo de uma escada rolante. Tenho certeza de que você sabe o que quero dizer.
A luz era fraca, então não entendi direito o que vi. Só sei que havia muito sangue e, embora tenha sido rápido, não foi rápido o suficiente, porque quando a parede já estava na metade da espinha dele, eu ainda conseguia ver a dor estampada em seus olhos. Essa foi a última impressão que tive antes de Meikle me agarrar pelo colarinho e praticamente me arremessar de volta pelo caminho por onde viemos.
E então corremos.
Correndo. Caminhando. Um pé depois do outro. Não sei quanto tempo aquilo durou, mas parecia que o tempo se esticava de uma forma que só a dor e o tédio conseguem causar. Houve momentos em que, enquanto eu forçava minhas pernas a se moverem, me perguntava se já estávamos correndo há dias, não horas. Não havia como medir a passagem do tempo. Só monotonia.
Os livros passavam em um borrão. O chão era pedra lisa, sem nenhuma marca. O som rítmico dos meus pés perdeu todo o significado. E atrás de mim — a parede. Sempre avançando, com o som horrível de pedras se esmagando, prometendo dor e nada além disso.
A única coisa em que eu conseguia focar era a exaustão, e isso era autodestrutivo. Mais de uma vez pensei em simplesmente desistir. Até hoje tenho pesadelos em que estou sendo perseguido por aquele corredor. Não era um ritmo rápido, mas era rápido o suficiente. E não havia outra rota a não ser seguir em frente — essa era a tortura. Atrás de mim, a morte se movendo como uma corrida interminável. À frente, nada. Apenas escuridão, quebrada pelo movimento errático de uma tocha.
E por todo aquele tempo — que depois percebi ter sido algo em torno de duas horas — só conseguia pensar:
Quando vou perder essa luta? Quando vou cair? Quando vou desistir?
Imagine meu alívio quando, mais à frente, ouvi uma voz familiar gritar:
— Qual é o seu problema, moça!?
E então os vi. O jovem segurava Bea pelos ombros, tentando arrastá-la por uma porta aberta. Foi aí que lembrei do pequeno corredor com as cabeças decepadas. Não era exatamente o tipo de salvação que eu esperava, mas teria que servir. Juntos, Meikle e eu agarramos os dois e nos jogamos pela abertura. Segundos depois — perto demais para o conforto — todo o corredor atrás de nós foi engolido pela escuridão. A parede tomou conta da nossa posição, e ficamos ali, ofegantes e exaustos, deitados no chão, cercados por milhares de cabeças decepadas nos observando com irritação.
Quando olhamos para trás, não vimos pedra. Vimos carne pulsante. Uma parede dela. Quente, pegajosa, atravessada por veias azuladas e doentias. Não sei o que era aquilo, mas alguma coisa naquela carne me fez pensar em coral faminto.
— Era uma maldita armadilha — sibilou Meikle, analisando a massa grotesca. — Eu não sei como, mas fomos levados pelo caminho errado. Ele… ele trocou os cabos. Ou algo assim. Mas fomos atraídos até aqui como ratos.
— Onde está Davies? — perguntou o outro soldado.
— Ele… se foi — respondeu Meikle.
— O quê?
O homem mais velho apontou para a parede de carne atrás de nós.
— Seja lá o que for aquilo, pegou ele. Parecia uma parede, mas… podia se mover e simplesmente o esmagou. Obrigado pelo aviso, a propósito — rosnou para Bea, mas ela não deu nenhum sinal de ter ouvido. Estava sentada no chão, tremendo, completamente em choque.
— Onde agora, senhor? — perguntou o soldado restante.
Meikle fez uma careta.
— Onde você acha? — cuspiu, apontando para frente. — É a única direção possível.
As cabeças eram companheiras estranhas. Seguiam nossos movimentos com os olhos, mas nunca paravam de resmungar. Era irritante — um barulho que você podia ignorar por uma hora, talvez mais. Mas cedo ou tarde, o farfalhar de seus lábios antigos era a única coisa em que você conseguia se concentrar, não importava o quanto tentasse afastá-lo da mente.
Pelo menos a navegação era simples.
Para a frente. Sempre em frente.
Caminhamos por cerca de seis horas antes de fazermos a primeira pausa. O corredor era largo, mas nos mantivemos afastados das cabeças, deitando em fila, cabeça com pés, enquanto dois ficavam de vigia. Seis horas cada. Decidi ficar acordado junto com Meikle, enquanto Bea e o outro soldado tentavam descansar.
Bea ainda não tinha se recuperado totalmente do choque. No final da caminhada, murmurou algumas palavras, de forma quebrada, sobre o que havia visto enquanto estava ajoelhada perto da parede.
— Dentes — disse. — E um rosto.
Ela não quis — ou não conseguiu — elaborar mais do que isso. Mas a impressão que tive foi que ela tinha visto algo que quase a deixou completamente louca. Sinceramente, duvidava que algum dia se recuperasse. Já parecia uma mulher diferente. Olhos inchados. Cabelo ralo. Ou talvez fossem apenas as condições lá embaixo.
Meikle também parecia acabado, e presumi que eu não estivesse muito melhor. Especialmente depois daquela corrida. Aquilo me exauriu. Me quebrou. Não só fisicamente — psicologicamente também. O motivo pelo qual insisti em ficar de guarda foi porque eu simplesmente não queria dormir. Parte de mim temia sonhar que estava de volta naquele corredor, fugindo da parede viva. Não queria revisitar aquele lugar nem em sonho.
Por isso fiquei acordado, tentando ignorar o murmúrio incessante das cabeças. Até tentei conversar com Meikle, mas ele não tinha muito a dizer. Perder Davies o incomodava. Caramba, incomodava até a mim, e eu mal conhecia o cara. Mas juro que ainda hoje consigo ver, com clareza, o olhar nos olhos dele quando pedra encontrou carne e suas pernas simplesmente… desapareceram.
No fim, só tive esse tipo de pensamento como companhia.
E muito, muito tempo.
Por isso não deveria ter sido surpresa quando finalmente peguei no sono. Não foi por muito. Dez minutos, no máximo.
Mas foi tempo suficiente para acordar e ver algo arrastando o corpo do soldado adormecido para a escuridão de uma prateleira próxima, o pescoço dele pendendo de um jeito antinatural. O movimento foi suave. Silencioso. Mas também desajeitado, como uma criança tentando furtivamente tirar uma boneca de pano de uma caixa de brinquedos.
Olhei para Meikle e vi que ele também tinha adormecido. O cutuquei com o pé, e ele acordou com um sobressalto preguiçoso. Só quando notou meu olhar de terror percebeu o que estava acontecendo.
Não sei exatamente o que esperava dele. Mas ele era o líder. Estava armado. Eu não queria ser a única a decidir o que fazer. Talvez porque parte de mim estivesse tentada a simplesmente correr. Deixar o jovem para trás. Talvez até Bea. Se isso significasse sobreviver mais um pouco.
Na verdade, fiquei aliviado quando Meikle entrou em ação imediatamente. Eu não queria ser covarde. Ele pulou e agarrou o pé do jovem, e eu corri e agarrei a outra perna e juntos tentamos puxá-lo de volta. Eu não mencionei isso a Meikle, mas a maneira como o corpo do soldado se sentiu quando o agarrei… os músculos estavam muito relaxados. Muito pesados. Não sei como explicar, mas se você acabar na infeliz situação de mover um cadáver, você pode entender o que quero dizer. Um corpo vivo se sustenta. Um morto. É apenas carne e água e de alguma forma parece muito mais pesado por isso.
Ele estava morto. Ainda assim, continuamos lutando. Em algum momento, Bea deve ter acordado, percebido o que estava acontecendo e se juntado a nós. Lembro-me dela tentando alcançar a prateleira para agarrar o braço do homem morto quando de repente ela voou para trás, pousando com um baque forte contra a prateleira atrás dela e balançando algumas das cabeças decepadas em seus pequenos tocos.
O que quer que estivesse no escuro estava claramente frustrado. Queria sua próxima refeição e não nos deixaria impedi-lo. Lentamente, um longo braço desumano estendeu-se e agarrou a virilha do corpo. Sua mão estranha tinha dedos que se partiam na articulação, uma, duas, três vezes. Um efeito assustador, especialmente considerando como cada um se movia por conta própria. Um monstro de prato de jantar de uma mão presa a um antebraço ágil e musculoso desprovido de pelos. No segundo em que o vi estender a mão em minha direção geral, soltei a perna e caí para trás. Meikle continuou lutando por um tempo, até mesmo pegando uma pistola e disparando alguns tiros no escuro, mas ao fazer isso ele deixou apenas a mão para se agarrar ao cadáver de seu camarada e perdeu o controle. Com quase nenhum esforço, o corpo desapareceu na sombra e de repente ficamos reduzidos a três.
“Que porra é essa? Que porra é essa!? Que porra é essa!!? ” ele gritou.
Eu queria dizer alguma coisa. Talvez até algo para confortá-lo. Ou talvez um pedido de desculpas por ter adormecido, mas, por outro lado, ele também tinha adormecido. Eu não sabia o que deveria fazer. Eu estava em choque. E isso estava se instalando profundamente em mim quando Bea disse algo de onde ela permanecia no chão. Sua voz baixa, mas estranhamente insistente.
“Não acabou.”
Aquela mão ressurgiu. Cuidadosamente. Deliberadamente, ela se colocou no chão revelando mais da carne pálida que a alimentava. E então veio outra. E outra. E então sua cabeça emergiu lentamente da escuridão e me fixou com olhos pretos, bulbosos e numerosos demais para qualquer coisa que possa ser chamada de humana. E sua boca… Uma barba feita de dedos sujos. Cinza e azulado. Unhas longas e rançosas. Centenas delas se contorcendo como as mandíbulas de uma aranha faminta.
Meikle abriu fogo, mas ele poderia muito bem estar atirando feno pelo efeito que teve. As balas atingiram com um baque molhado , mas sem danos reais. A criatura o derrubou com puro desprezo e puxou o resto de si para o corredor onde vi que não tinha pernas, mas em vez disso dependia de vários braços longos para se suspender entre as paredes do corredor como uma espécie de aranha. Um desses braços estendeu-se e agarrou Bea e quando ela começou a gritar, já era tarde demais. Sangue escorria de seus ouvidos e houve um som como um galho quebrando. Seu corpo inteiro ficou mole e o monstro a deixou cair onde ela caiu no chão, seu rosto grotesco e disforme olhando para mim com olhos acusatórios.
O tenente gritou enquanto atirava mais uma vez, mas então aquela coisa o agarrou como se ele não passasse de uma boneca e o levantou, apertando com tanta força que ele deixou cair tudo o que segurava. Sua arma e tocha atingiram o chão com um barulho alto.
“Me ajude!” ele gritou enquanto tentava me pegar. “Jesus Cristo! Atire nessa porra!”
Corri para frente, agachando-me na esperança de evitar seus muitos braços. Meikle já estava sendo espremido com tanta força que o sangue jorrava de sua boca, e eu podia dizer que o monstro estava se divertindo, deleitando-se com seu tormento. Estendi a mão para pegar a arma do chão enquanto Meikle soltava outro grito desesperado e molhado por ajuda, mas por algum motivo minha mão parou a poucos centímetros de distância.
Hesitei. O sangue de Meikle estava pingando. Eu podia ouvir o estalar de suas costelas.
No meu momento de maior vergonha, peguei a tocha e corri.
E os gritos de Meikle me seguiram. Gritos. Guinchando. Choramingos. Sons de ossos quebrando e papel rasgando.
Sons de tortura e tormento que de alguma forma pareciam durar para sempre.
Saí do corredor sozinho.
Levei alguns segundos tropeçando em minhas pernas fracas para perceber que o monstro havia desistido da perseguição, e então mais alguns segundos para eu reconhecer que estava de volta ao mezanino. Aterrorizado e exausto, e pensando se valia a pena tentar escapar se isso significasse ter que passar mais um segundo vivo naquele lugar, caí no chão e comecei a soluçar. Talvez, pensei, fosse hora de dar um mergulho daquela saliência, assim como Grant fez.
“O que diabos você está fazendo aqui?”
Virei-me rapidamente para ver um velho de túnica me encarando como um intruso mal-educado. Sem querer, comecei a rir. Minha sanidade, era justo dizer, estava em suas últimas pernas.
“Hmph,” ele disse enquanto se inclinava para o lado para dar uma olhada no longo corredor atrás. “Agora, por que você foi lá embaixo ? ”
Eu queria responder, mas não consegui fazer nada além de rir e respirar fundo.
“Acho que você realmente deveria ir para casa”, ele disse como um professor repreendendo uma criança.
“Este lugar é um inferno”, eu gritei enquanto balançava para frente e para trás nos joelhos.
“Sim.” Ele assentiu. “Sim. Bom para você. Esta é uma pequena parte do inferno, uma que tem uma ligeira sobreposição com a Terra, se bem me lembro? Estou supondo que foi assim que você chegou aqui. A porta. O que aconteceu com seus amigos, afinal?” Ele acrescentou.
Olhei para trás, na direção por onde vim, e apontei.
“Ohhhh,” ele suspirou. “Sabe, eu deixei seus livros de fora especificamente para que você os encontrasse e descobrisse. E eu sei que aquele sujeito careca descobriu. Então, uma vez que você soube que esse lugar era um inferno, por que você perdeu mais um segundo ficando por aqui?”
Dei de ombros, sem saber muito bem o que dizer sobre esse tipo de coisa.
“Fomos surpreendidos”, eu engasguei. “Enganados.”
“Justo”, ele respondeu. “Provavelmente deveria ter feito mais para garantir que você chegasse em casa em segurança. Isso é em parte culpa minha. Embora eu não vá me desculpar. Você entrou neste lugar. Você não viu a porta? Que parte disso foi convidativa? Você tem que assumir um pouco da culpa.”
Eu queria montar uma defesa, mas eu realmente não tinha uma. Quando ficou claro que a única coisa que eu podia fazer era soluçar e resmungar, a linguagem corporal do velho se suavizou e ele estendeu a mão.
“Vamos, eu te levo de volta.”
“E os demônios?”, perguntei.
O velho franziu a testa.
“Aqueles não eram demônios”, ele retrucou. “Este lugar está extinto. Almas mortais deveriam demonstrar arrependimento vagando pelos corredores quase eternos em busca de seu livro. Somente quando o encontravam é que tinham permissão para seguir em frente. A coisa toda não deu muito certo. 86 quatrilhões de livros. Demora um pouco para uma pessoa comum encontrar o deles. Então, toda essa ala foi abandonada e agora só restam pecadores.”
“Aquela coisa nunca foi humana”, gritei enquanto apontava para o corredor de onde havia saído.
“A alma de ninguém parece humana”, ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Muito menos o tipo de pessoa que é mandada para o inferno. Este não é um lugar para pessoas que comem carne numa sexta-feira ou cobiçam o boi do vizinho. É para os cruéis e maliciosos. Covardes e oportunistas. Muitas pessoas neste lugar têm almas que têm mais em comum com tamboris e aranhas de alçapão do que com seus semelhantes. E também não é uma condição que melhora depois de vários milhares de anos. A alma muda, se distorce, e o mesmo acontece com suas formas físicas.”
“E você?”, eu disse enquanto estendia a mão e pegava a dele. “Por que você parece tão normal?”
“Oh,” ele disse enquanto me ajudava a levantar. “É porque eu construí este lugar.”
E a última coisa que me lembro quando ele me agarrou pelo ombro foi a sensação repentina e dolorosa de calor.
Acordamos em nossos respectivos alojamentos.
Nós.
Nós seis.
Ainda não entendi completamente a mecânica. Tentei perguntar aos outros como eles conseguiram voltar, mas… eles não estavam em condições de responder perguntas. Bea estava catatônica. Gritando e segurando a cabeça no hospital, como se ainda se lembrasse do jeito que aquela coisa esmagou seu crânio como uma toranja. O soldado que caiu na parede ficou paraplégico, embora os exames médicos não conseguissem identificar uma única razão. Psicológico, eles disseram. O outro soldado, aquele que foi arrastado para as prateleiras, estava em coma. Não sei se ele se recuperou, mas ele estava vivo. E Grant foi deixado em um estado psicótico permanente, compelido a escrever em qualquer superfície que pudesse repetidamente. Pecado após pecado, tentando desesperadamente reescrever o próprio livro que o levou à loucura em primeiro lugar.
Meikle tentou muito me matar.
Ele tinha lembranças claras de ter sido deixado para morrer no escuro. Estou feliz que o pegaram antes que ele conseguisse arrancar a vida de mim com as próprias mãos. Nunca descobri o que aconteceu com ele depois que vários homens conseguiram arrancar suas mãos da minha garganta. Apesar de tudo, espero que ele tenha conseguido algum tipo de recuperação.
A porta desapareceu, felizmente sem ninguém do outro lado. Eu sei que eles estavam planejando expedições futuras. É melhor que esse tipo de coisa não aconteça novamente. Eles não têm ideia do que os espera.
De certa forma, eu provavelmente poderia ter me convencido de que a expedição nunca aconteceu. Alguns dias, mesmo agora, é isso que eu sinceramente espero que aconteça. Não havia nenhuma evidência física. Nada. Nós aparecemos em nossas camas completamente nus, exceto por um bilhete preso no meu peito. E é esse pequeno toque final que se destacou para mim como uma confirmação severa de tudo que eu tinha experimentado.
Devolver ao remetente,
Seis mortais. Cinco foram danificados no transporte. Corpos foram reparados da melhor forma que pude, mas eu nunca fui bom nesse tipo de coisa. Mentes são outra questão completamente diferente.
Não consegui me conter em um caso. Deixei um companheiro mortal morrer no escuro. Não pareceu muito esportivo. Não deixe ninguém dizer que não tenho senso de humor.
Caso contrário, não há mal nenhum.
Muitas felicidades,
Meu!
Meu coração afundou quando os ouvi lerem para mim. Isso confirmou minhas preocupações mais profundas. Ninguém tinha sido muito honesto comigo desde que cheguei ao hospital. Eles me mantiveram enfaixado, então não foi fácil dizer, mas depois que ouvi aquele bilhete, finalmente criei coragem para levantar e remover os grossos chumaços de tecido.
Então, com dedos trêmulos, finalmente toquei meus olhos.
Ou melhor, as cavidades vazias onde costumavam estar.