Henrique Vincent Johnson tinha mãos como luvas de beisebol. Tremendas, de formato estranho e um pouco curtidas, como couro.

Henrique tinha 33 anos e vivia feliz com sua mãe amorosa, Patricia. Quando era pequeno, Henrique foi diagnosticado com uma forma avançada de autismo que o deixou com deficiência mental. Ainda assim, Patricia amava o filho acima de tudo. O pai de Henrique, anos antes, fez as malas e saiu de casa para uma viagem de negócios — que nunca terminou. Henrique imaginava que o trabalho devia ser muito importante para demorar tanto a voltar.

Henrique não entendia muitas coisas do mundo: não compreendia por que as pessoas comiam cordeiros, tão fofos; não entendia por que padres que praticavam sodomia falavam contra a homossexualidade. Não entendia por que as pessoas zombavam dele quando ia à loja de música e cantava sua canção favorita, já que cantar o deixava tão feliz. Mas, acima de tudo, Henrique não entendia por que as pessoas achavam suas mãos enormes tão assustadoras e estranhas. Sua mãe lhe dizia que aquelas eram mãos bonitas porque Deus as havia feito. Henrique refletia que, se tudo que Deus fez era bonito, por que as pessoas reagiam tão mal ao ver os outros nus? Havia muitas coisas que o confundiam.

Seus pés eram parecidos com as mãos: grandes, inchados e de textura áspera. Isso tornava comprar sapatos um pesadelo. Mesmo quando Patricia encontrava um par que servia, Henrique os achava desconfortáveis e pesados, e na maior parte do tempo ia descalço. Ele não entendia por que isso incomodava tanto as outras pessoas, mas sua mãe continuava a amá‑lo.

Henrique também amava a mãe, embora às vezes ela o confundisse. Por exemplo, quando ela tomava banho, proibia com fervor que Henrique entrasse no banheiro com medo de ficar nu; isso deixava Henrique perplexo, pois ele achava todo corpo bonito e a proibição frequentemente fazia‑o sentir‑se rejeitado.

Um dia, durante um banho de Patricia, Henrique decidiu sair para caminhar. Nunca o deixavam sair de casa sem permissão, mas naquele momento ele não quis obedecer. Foi até a mercearia e sentou‑se no avião de brinquedo do lado de fora. Henrique nunca tinha ido a um voo de verdade porque a mãe dizia que ele era grande demais, mas queria experimentar. Não tinha dinheiro, então contentou‑se em sentar no aparelho e fingir que o avião se movia. Estava gostando quando o gerente da mercearia apareceu e exigiu que ele saísse do brinquedo. Henrique não queria interromper sua aventura, mas sua mãe ensinara‑o a respeitar a autoridade, então ele obedeceu relutante. Depois de uma repreensão, ele saiu chateado. Não gostava de ser gritado.

Pensou que talvez a loja de música pudesse o consolar. Caminhou até a placa de neon familiar e entrou. Dirigiu‑se ao aparelho reprodutor e esperou a canção de que tanto gostava. Não sabia selecionar músicas sozinho, precisava confiar na função de embaralhar até que sua favorita tocasse. Já tinha ido à loja sem a mãe, mas sempre fora quando estava vazia; agora o lugar estava cheio. Enquanto aguardava, um garoto aproximou‑se do aparelho e apertou um botão, fazendo tocar uma música diferente. Henrique não entendia como a máquina funcionava e temeu que teria de esperar muito mais tempo; começou a assustar o garoto.

Felizmente, o atendente da loja, que conhecia Henrique, interveio. Acalmou o homem grande e procurou a canção favorita para ele. Quando os primeiros acordes tocaram, a caixa de som lançou triunfante:

— Se você está feliz e sabe disso, bata palmas.

Henrique ficou radiante; cantou e bateu palmas, transformando suas enormes mãos em pratos que soavam alto. Isso incomodou alguns clientes, que cochicharam comentários, e outros saíram da loja; mas ele não se importou. Tinha sua música para animá‑lo. O atendente nem se importou tanto; sabia que, terminada a música, Henrique sairia por conta própria.

Mas antes que a canção acabasse, a mãe entrou: havia terminado o banho e estava muito zangada por ele ter saído sem permissão. Pediu que voltasse para casa imediatamente. Henrique ainda queria ficar; estava curtindo sua canção, mas Patricia era insistente e sabia lidar com o filho, na maioria das vezes. Aquele dia ele estava mais difícil e menos obediente, o que frustrou Patricia.

Quando a situação ameaçava piorar, o atendente, com cuidado, aproximou‑se da mulher segurando o CD que continha a canção de Henrique. Entregou‑o com um sorriso e fez questão de que o rapaz visse a transferência. Ele ficou empolgado ao saber que poderia ouvir a música quando quisesse, mas a mãe sabia que não devia premiar o mau comportamento. Pediu que ele prometesse nunca mais sair sem pedir permissão para ficar com o CD. Ele concordou prontamente, embora não fosse bom em lembrar promessas. Patricia perguntou ao atendente quanto devia. Ele disse que era um presente para Henrique; poderia levar o disco de graça. Como ambos acharam — que homem gentil. Saíram da loja sem mais incidentes.

Henrique ouviu o CD repetidas vezes. A semana inteira seguinte, tudo o que Patricia ouviu foi o filho cantando e dançando sua canção. Ela era forte e suportava muito em seus ombros estreitos. Henrique amou o presente: amou na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado e, sim, no domingo.

Mas quando a segunda‑feira voltou, algo mudou. A música já não trazia a mesma alegria. O que antes era seu único refúgio começou a ficar banal à medida que o tratado raro se tornava rotina. Logo deixou de sentir qualquer prazer ao ouvir o disco, e isso o deixou muito aborrecido. Passou a considerar o atendente nada gentil. “Agora nem posso curtir minha canção favorita, e tudo porque ele me deu o CD”, pensou. Esses pensamentos se acumularam na mente de Henrique como roedores ao redor de um pedaço de ricota, e em pouco tempo ele percebeu que seu único método de sentir alegria tinha sido tomado.

Isso tornou a convivência com Patricia muito difícil. Henrique e Patricia começaram a brigar; cada explosão de Henrique trazia punições e perda de privilégios. Isso também o magoava, é claro, mas o que ele poderia fazer? Não conhecia o mundo lá fora e certamente não podia viver sozinho. Um mês antes ele tentara ligar para a avó usando o micro‑ondas; em outra ocasião acreditara que os refrigeradores da mercearia eram portais para Nárnia; e houve o mal‑entendido com autoridades sobre o termo “strip mall”. Assim, Henrique emburrecera em tristeza por dias até chegar a uma conclusão: se já estava tão miserável, o que mais a mãe poderia fazer para piorar? Ele achou que havia batido no fundo do poço e que nada poderia torná‑lo mais infeliz.

Então, numa quinta‑feira, enquanto Patricia tomava banho, Henrique saiu de novo sem supervisão. Dessa vez não foi à loja de música nem à mercearia — embora quisesse investigar melhor os refrigeradores —, resolveu ir ao minimercado próximo, onde nunca estivera. Patricia não dirigia e evitava preços altos da conveniência, mas Henrique tinha algum trocado e pensou em comprar um pacote de M&M’s. Preferia‑os a barras de chocolate porque as barras não tinham personagens coloridos nos rótulos.

Ao chegar ao minimercado, já era fim de tarde; o crepúsculo se aproximava. Havia um grupo de adolescentes aglomerados na frente da loja. Henrique não gostava de adolescentes — costumavam ser cruéis por causa de sua condição — mas queria muito os M&M’s e aproximou‑se da entrada. Os rapazes, como era de se esperar, reconheceram‑no pelas mãos enormes e pelos pés descalços. Já era conhecido na pequena cidade, e não perderam tempo em atacá‑lo com insultos e piadas maldosas.

Henrique geralmente não entendia muito do que se dizia, mas entendeu as palavras deles daquela vez; doeram‑lhe. Tentou se defender, mas ao abrir a boca os jovens aproveitaram para insultá‑lo ainda mais. Atingido, Henrique ficou ferido e confuso: por que eram tão cruéis? Que vantagem tinham em humilhá‑lo? A confusão virou raiva; ele perdeu a paciência com as zombarias. Os garotos não se impressionaram, provocaram ainda mais até que Henrique, que desde criança ouvira que era errado usar violência, atingiu seu ponto de ruptura.

Antes que pudessem reagir, ele agarrou o pescoço de um deles com sua mão monstruosa e o levantou no ar, sacudindo‑o como um farrapo e mandando que não zombassem mais. Os outros dois entraram em pânico e tentaram empurrá‑lo, mas Henrique, maior e mais forte, os afastou com a outra mão. Jogado ao chão, o primeiro garoto caiu inconsciente no cimento. Quando recuperou fôlego, começou a xingar Henrique por tê‑lo atacado — e isso o irritou ainda mais. Ele não era o vilão; eles o eram. Se não os impedisse, continuariam a ferir outros.

Então Henrique ergueu o grande pé e desceu com violência sobre a perna do rapaz, quebrando‑a. O garoto gritou, mas Henrique não parou. Pisoteou os três rapazes até que não pudessem fugir, o sangue encharcando seus pés curtidos. Percebeu que a mãe não aprovaria, mas também que nada que ela fizesse poderia piorar sua vida naquele ponto. Além disso, descobriu algo: desobedecer a mãe e escolher suas próprias ações lhe dava uma sensação boa; e dar àqueles que mereciam o que vinham merecendo era prazeroso.

Quando essa realização o inundou, os três estavam derrotados; três golpes bem desferidos nos crânios foram suficientes para calar de vez as zombarias deles. Henrique permaneceu um instante, saboreando a vitória sem saber que o atendente do minimercado tivera visto os últimos minutos de sua ação.

Henrique, feliz, pediu por educação um pacote de M&M’s, estendendo algumas notas amassadas que guardara no bolso. A jovem ficou aterrorizada, correu para trás do balcão e acionou o alarme silencioso. Como muitas coisas, isso confundiu Henrique: queria entender por que ela não lhe vendia o doce. Quando não respondeu, ele ficou zangado e se aproximou do balcão até a menina, frágil, dizer para ele pegar todos os M&M’s que quisesse. Henrique ficou ainda mais confuso — não tinha dinheiro para tanto. Ao dizer isso, descobriu que podia levar aquilo tudo de graça. Como as guloseimas eram grátis, ele perguntou se podia gastar seus dois dólares em uma barra Milky Way; ela disse que podia pegar quantas quisesse também.

Henrique ficou encantado com aquele lugar mágico onde o doce parecia ser gratuito. Saiu com as mãos cheias do que conseguia carregar, pensando em como aquele dia melhorara desde que desobedecera à mãe. Pela primeira vez em muito tempo, fora um dia maravilhoso. “Se ao menos esse dia pudesse durar para sempre”, pensou.

Mas o destino nem sempre é gentil: sua mãe reapareceu e, ao ver o filho sobre três corpos adolescentes ensanguentados, com os braços cheios de chocolate, sentiu horror e fúria. Patricia costumava esperar até chegar em casa para regravar a bronca, mas aquilo era além do que ela imaginara. Henrique havia ultrapassado limites que ela jamais acreditara que ele pudesse cruzar, e despejou sobre ele uma fúria bíblica.

Pela primeira vez, Henrique não teve medo da mãe. Achou quase engraçado ver a mulher pequena diante dele, gritando em sua voz estridente, tão abaixo de sua altura. Riu, e riu alto — tanto que deixou cair todas as barras de chocolate. Isso enfureceu ainda mais Patricia, que avançou. Henrique soube o que fazer. Com uma varredura poderosa do punho, fez a cabecinha frágil da mãe voar longe de seu corpo envelhecido, do mesmo modo que havia tratado os garotos. O corpo dela tombou ao chão, sobre a pilha de doces.

E, de repente, todos os problemas de Henrique desapareceram. Ele não conseguiu se conter: bateu palmas, riu e dançou, mostrando ao mundo aquelas mãos grandes e belas. Não havia mais ninguém para dizer‑lhe que não podia sair de casa, que não podia bater palmas, dançar ou cantar sua agora quase esquecida canção favorita. Pela primeira vez, Henrique estava feliz — e sabia disso. Bateu palmas novamente.

Agora poderia viver do seu jeito, eliminando todas aquelas pessoas desagradáveis que causavam problemas para ele e para os outros. Ninguém mais ficaria em seu caminho. Aqueles velhos policiais malditos não souberam o que os atingiu.

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