Acordei com a visão turva. O quarto ao meu redor estava escuro, e a única fonte de luz parecia ser uma vela solitária sobre a mesa de mogno à minha frente.

Eu estava amarrada à cadeira e não conseguia me mexer. Havia outra cadeira à minha esquerda, vazia. Não havia mais luz além daquela vela e uma porta do outro lado do cômodo.

Gritei por socorro, mas não obtive resposta. Consegui me mexer na cadeira, na esperança de que ela se movesse, ou, melhor ainda, tombasse. Ela não cedeu. Percebi que estava presa ali, o corpo pesado e inútil.

— Alô? Tem alguém aí? — perguntei, o pânico crescendo na voz.

Após alguns minutos, ouvi uma voz abafada finalmente responder.

— Só um instante, querida. O jantar está quase pronto — disse a pessoa.

A voz parecia masculina, mas pouco mais dava para identificar. Só podia ficar sentada e imaginar o que ele quisera dizer com “jantar”. Não conseguia lembrar como havia ido parar ali. Minha cabeça latejava; a última lembrança era de ter bebido com minhas amigas na noite do encontro de garotas. Não saía de casa desde que minha mãe morreu no mês passado; todas disseram que eu precisava espairecer.

Naquele momento, tudo o que eu queria era sair da cadeira. Tentei me mover de novo e uma dor pulsou por baixo das minhas pernas. Contorci-me enquanto um choque subia pela coxa. Tentei inclinar-me para trás para ver a causa do sofrimento, mas era inútil. Estava amarrada com muita força ao assento.

Chamei outra vez, o desespero rasgando a garganta. A porta se abriu e a luz invadiu o cômodo. Um homem alto e pálido saiu de onde parecia ser a cozinha. A fluorescência por trás dele me cegou por um segundo; quando seus traços reapareceram, ele avançou para fechar a porta.

— Ah, bom. Você acordou. Vou trazer um pouco de vinho — disse ele.

O cabelo preto estava penteado para trás, e ele usava um casaco branco de dois botões com um avental na cintura. Tive a sensação bizarra de que me tornara a convidada relutante do Chef Maluco.

Desapareceu na cozinha e retornou minutos depois com uma garrafa de vinho e duas taças. Colocou-as lado a lado e as encheu com cuidado, depois ergueu a garrafa e me mostrou o rótulo: Pinot Noir 1956.

— Vai combinar muito bem com nossa refeição. Espero que goste dos dois — disse, sorrindo de forma contida.

Olhou para o meu corpo preso e bateu a palma na própria cabeça, como se tivesse esquecido algo.

— Ah, claro. Você vai precisar de ajuda com sua bebida.

Pegou a taça e a levou aos meus lábios. Virei o rosto e o encarei de soslaio. Rosnei.

— Que diabos é isso? — murmurei.

Ele pousou a taça e enxugou as mãos num pequeno pano preto e branco preso ao quadril. Soltou um suspiro desapontado enquanto se inclinava. Senti seus dedos roçarem minha bochecha e recuei.

— Bem, eu gosto de cozinhar. Sempre gostei. Mas dizem que não sou muito bom — falou, gesticulando como se isso justificasse algo. — Costumo me ater a receitas simples, e estou tentando aperfeiçoá-las. Sei que você quer saber o que teremos, mas terá que ser paciente. Não quero estragar a surpresa.

As palavras saíram fáceis. Assim que terminou, virou-se e foi para a cozinha. A atitude dele me deixou inquieta — confortável demais, como se já tivesse feito aquilo antes.

Comecei a vasculhar a sala em busca de uma saída, mas tudo o que via era a mesa com a vela. Havia duas janelas, porém pesadas cortinas carmesim as cobriam por completo. Tentei mover a cadeira outra vez e outra dor percorreu minha parte inferior. O peito apertou; senti que ia hiperventilar. As lágrimas escorreram quentes pela face.

Eu estivera com minhas amigas a noite toda. Nunca havia aceitado bebida de um estranho. Devo ter sido dopada, mas não fazia ideia de como ou quando. Só lembrava de ter tomado dois cosmopolitans.

Meu pensamento foi interrompido por um cheiro que se espalhou pelo ar — familiar e ao mesmo tempo errado. O captor apareceu de novo, empurrando um carrinho de serviço com uma bandeja de prata coberta. Transferiu a bandeja para a mesa antes de afastar o carrinho. Ele alcançou a cobertura, levantou-a rápido e exclamou num sotaque italiano falso:

— Voilà!

O ruído repentino me fez pular. Olhei para o prato: fios pálidos de massa enrolados numa pilha, banhados por um molho vermelho e pedaçudo com carne moída. Pelo visto, eu havia sido sequestrada para um jantar de espaguete com o psicopata.

Levantei o olhar, o cenho franzido, e percebi que ele ostentava o sorriso mais piegas que já vira. Parecia orgulhoso.

— Bem, espero que goste — sorriu. — É meu melhor prato.

Não sabia o que fez esse homem achar que eu colocaria algo que ele trouxesse na minha boca, mas em minutos ele já enrolava fios de massa no garfo e os guiava até mim. Virei o rosto outra vez.

— Não vou comer isso — disse, fechando os lábios.

Ele baixou o garfo e a expressão se desfez.

— Acho que você iria gostar se apenas experimentasse — murmurou. — É bom. Eu garanto.

Se não acreditava nele, ele enfiou o garfo na própria boca. Mastigou por um momento, falando com a boca cheia:

— Viu? É delicioso.

Pegou mais massa, enrolou as tiras e inclinou-se em minha direção.

— Não — gritei. — Me tira dessa cadeira e me tira daqui.

O garfo foi posto no prato e as mãos dele pousaram nos quadris.

— Que tal isto? — ponderou. — Se você der algumas garfadas no meu espaguete, eu te solto da cadeira.

O tom subiu, como se perguntasse. Olhei para ele, pesando minhas opções; não havia outra forma aparente de forçá-lo a me libertar. Talvez fosse minha única saída. Só que aceitar significava abrir a boca para algo que eu não conhecia — poderia ser envenenado, contaminado, mal cozido. Ele mesmo dissera que era um cozinheiro ruim. Podia haver alergênicos, bactérias. Podia até ser uma armadilha.

Ele ficou impaciente.

— Tudo bem — murmurei, derrotada. — Eu cedi.

Ele bateu palmas e soltou uma risadinha antes de pegar o garfo de novo. O molho gotejava dos fios enquanto se aproximava. Só de ver aquilo, meu estômago revirou. Abri a boca levemente e ele colocou a porção nela. Fechei os olhos e fiz uma prece muda.

A massa rolou entre meus dentes por um instante. Quando abri os olhos, ele exibia o mesmo sorriso idiota. Para meu espanto, a comida estava realmente boa. Muito boa, na verdade. Mastiguei e engoli; meus olhos talvez traíssem meu prazer.

Ele trouxe outra garfada depressa e a pressionou em meu rosto. Hesitei, mas aquilo honestamente era o melhor espaguete que já havia provado. Depois de comer metade do prato, lembrei do acordo: provar para ser solta. Ok, estava bom, mas o que eu queria mesmo era sair daquela cadeira.

Falei com tom firme. Ele franziu um pouco, mas pousou o garfo.

— Tudo bem. Acordo é acordo — disse, desapontado.

Aproximou-se e desfez as amarras que prendiam meu tronco ao encosto; depois ajoelhou-se para soltar as pernas. Ouvi o som metálico de algo sendo destravado. Só pude supor que ele desmontava primeiro o mecanismo que prendia a cadeira ao chão. Senti a mão dele roçar minha coxa enquanto o laço das pernas se soltava e caía.

Assim que fiquei livre, tentei levantar. Uma dor quente e cortante subiu das minhas pernas até a coluna. Agora que eu podia recuar, vi o motivo.

Grandes tiras de pele e músculo haviam sido removidas da região das minhas coxas. Estavam parcialmente cobertas por curativos ensanguentados; o pano encharcado denunciava a profundidade da lesão. O odor metálico do sangue misturava-se ao cheiro do molho que eu ainda tinha no paladar. Meu corpo tremeu; as lágrimas voltaram a rolar.

— Sinto muito — ele disse, o cenho franzido. — A dormência passa em algumas horas. Usei anestésico demais por acidente. Sempre fui ruim com medidas.

Toquei os curativos; minhas pernas não respondiam. Comecei a perguntar qualquer coisa que viesse à cabeça.

— Por que? O que você fez comigo? Quem é você? Ai meu Deus, minhas pernas — gritei.

Ele apenas enxugou as mãos no pano novamente e me observou, o rosto impassível. Quando notei que me encarava, incline-me para frente e as palavras saíram altas:

— Que porra você fez comigo?

Ele avançou e pegou o prato, dando mordidas no que restava.

— Já te disse, estou tentando aperfeiçoar minha cozinha — disse, as palavras distorcidas pelas bolotas de massa na boca.

Enquanto ele falava, um pensamento torturante foi se formando devagar na minha cabeça. O tempo inteiro em que devorei aquilo, eu nem sequer considerara que o cheiro e o gosto não eram os de um espaguete que eu conhecia. Meus olhos se arregalaram; senti o vômito subir. Me curvei e a refeição que restara escorreu pelo chão.

O homem saltou para trás e pousou o prato no carrinho.

— Meu espaguete não caiu bem? — perguntou, correndo para limpar o que tinha no meu rosto. — Não se preocupe, tem muito mais. E já que você não vai a lugar nenhum tão cedo, que tal provar mais umas garfadas?

A pergunta veio acompanhada daquele sorriso doentio. Cuspi nele e me arrastei até o chão. Meu corpo gritou quando bati forte na madeira. Levantei o rosto e disse:

— Não. Eu vou sair daqui. Vou pra casa e você vai se foder.

Ele sorriu e chegou mais perto. Pegou a cadeira e a colocou na mesa, depois se inclinou para me ajudar a levantar, mas recusei. Ele balançou a cabeça e se aproximou mais.

— O acordo foi soltar você da cadeira. Eu nunca disse que iria deixar você ir embora — falou.

Em seguida, se afastou rumo à cozinha. O ar me faltou ante a possibilidade de ficar ali com aquele homem.

Assim que passou pela porta eu comecei a rastejar atrás dele. A madeira ralou meus joelhos; os músculos imploraram para eu parar. A porta se fechou na minha frente, e quando estendi a mão ouvi o som metálico de algo deslizando. Ele havia trancado.

Ao tocar a entrada, a madeira não cedeu. Estava presa de novo. Quando olhei para as janelas, ouvi a voz dele outra vez.

— Não adianta com as janelas. Estão com grades. Pode se sentar de novo e terminar sua comida.

Faz uma semana desde tudo isso.

Enquanto eu terminava de contar, o detetive rabiscava notas num bloco sentado ao lado do meu leito no hospital. Estava coberta de curativos do pescoço para baixo; cada bandagem era um mapa de dor. A caneta dele pausou um instante antes de perguntar:

— E como você conseguiu escapar?

— Bem — respondi — ele tirou um pouco de mim a cada noite, e eu achei que ia morrer. Perdi a consciência, e quando acordei fui deixada aqui.

Tentei mover a mão para falar, mas doía demais. O detetive perguntou se eu lembrava onde estava; eu apenas balancei a cabeça. Tinha ficado inconsciente várias vezes naquele lugar. Nada na sala ou na cozinha parecia familiar. Não estava sendo muito útil.

Por que você acha que ele te deixou ir? ele perguntou de novo, enquanto rabiscava.

Pensei por um momento e disse a única coisa que podia pensar:

— Ele precisava de carne fresca.

Related Posts