Deixe-me começar dizendo que sou apaixonado por filmes de terror. Guardo boas lembranças da adolescência: nos fins de semana, ficava acordado até tarde, enfiado num cobertor com uma tigela enorme de pipoca, completamente hipnotizado pelo que via na tela.
Os efeitos práticos, o gore, a trilha sonora… tudo isso me tornou viciado para a vida toda.
Naquela época eu buscava minha próxima dose na locadora da cidade toda sexta-feira à noite, depois da escola. Chamava-se Dead End Video e era meu segundo lar: iluminação precária, uma seleção incrível de doces e prateleiras empilhadas do chão ao teto, de parede a parede, com fitas VHS e DVDs.
Mas, infelizmente, o mundo seguiu em frente e deixou a Dead End Video para trás. O que antes era um santuário do meu eu mais jovem virou uma loja de vapes.
Nos anos desde que aquilo faliu, eu cresci, me apaixonei, desencantei, trabalhei numa carreira que sugava a alma e, por fim, voltei para cá em busca de um “recomeço”.
Essa é a versão curta que eu conto às pessoas. Na verdade, eu só girava em círculos, preso ao passado. Talvez foi por isso que a nova locadora chamou minha atenção.
A loja ficava entre uma antiga loja de donuts e um escritório da H&R Block. Uma placa em forma de faca se acendia em neon vermelho: Final Cut Video.
No começo pensei que fosse piada — quem abre uma locadora em 2025?
As janelas eram escuras e uma lousa na frente anunciava:
AGORA ABERTO! SÓ FILMES DE TERROR! TEMOS O QUE VOCÊ ESTÁ MORRENDO PARA VER!
— Vamos ver, então — murmurei enquanto caminhava até a porta.
Sempre fui meio purista quanto a terror. Enquanto todo mundo migrou para o streaming, eu mantive o VHS. Algo nas linhas de rastreamento, nas cores arrancadas e no granulado dava à experiência uma autenticidade crua que outras mídias não têm. Assistir em fita é ver as imagens se deteriorarem em tempo real.
Com o tempo juntei uma coleção respeitável: slashers raros, títulos estrangeiros obscuros, coisas que nunca chegaram ao DVD. Eu trocava fitas com outros colecionadores em grupos da “velha internet”. Procurava tudo marcado como “sem classificação”, “sem cortes” ou “banido” — não só pelo choque, mas para buscar a verdade no terror.
O interior da Final Cut Video era o sonho de qualquer fanático por horror. O ar tinha um leve cheiro de pipoca e as prateleiras exibiam filas de clássicos e cults, organizadas por subgênero: Slasher, Sobrenatural, Criaturas, Psicológico, Found Footage.
Vários títulos me chamaram a atenção enquanto eu vagava: Sleepaway Camp, 1408 e REC. Havia até bootlegs com capas fotocopiadas entre os mais populares.
As paredes estavam cobertas de pôsteres que eu reconhecia — Tubarão, O Massacre da Serra Elétrica, O Iluminado, Tumbas dos Mortos Cegos, Vamos Assustar Jessica Até a Morte — e também pôsteres de produções claramente destinadas ao mercado VHS, com imagens deslocadas, muito granuladas: nomes como As Crueldades Bárbaras do Necrocannibal, Um Matadouro Perto do Cemitério e Três em um Gancho de Carne.
Enquanto eu caminhava, notei alguns clientes.
Havia um homem de sobretudo perto da seção de terror estrangeiro. Sempre que eu olhava, ele se endireitava e fingia analisar uma capa, mas sentia que seus olhos me seguiam.
Uma mulher agachada remexia num monte de bootlegs nas prateleiras baixas. Ela parecia absorvida, mas olhava para mim de vez em quando.
Mais adiante, um adolescente de moletom branco encostado num rack olhava fixo para um pôster de O Iluminado. Sempre que eu passava, ele se movia o suficiente para ficar na minha linha de visão.
Fui ao balcão e vi um homem alto e magro com cabelo loiro descolorido e uma tatuagem de globo ocular no pescoço. Parecia ter uns trinta e poucos anos, com expressão oscilando entre divertida e vazia. Sua camisa mostrava um pôster desbotado de Brinquedo Assassino 2 e sua etiqueta dizia Fulci.
— Boa noite! — disse ele com entusiasmo quando me aproximei. — É sua primeira vez aqui?
— Sim, voltei para cá há um tempo. Para ser honesto, eu não achava que esse tipo de lugar existisse — respondi, e Fulci riu curto.
— Somos especializados. Oferecemos terror e só terror. O bom, o ruim e o francamente… feio.
Deixou a frase no ar como se esperasse risadas de sitcom.
— Legal — disse eu, aproveitando a pausa estranha. — Estou curioso para ver o que vocês têm.
Ele sorriu e segurou duas fitas: Gritos na Noite e As Fitas de Pulkipse.
— Tudo bem, teste rápido. Uma é genial, a outra é lixo. Vamos ver se você escolhe certo.
— Pegadinha. As duas são lixo. A diferença é que uma é lixo brilhante — respondi sem hesitar.
— Qual é o lixo brilhante, então? — ele perguntou.
— As Fitas de Pulkipse, ué.
Fulci alcançou algo sob o balcão e apareceu com outro conjunto de fitas.
— Ok, A Noite dos Mortos-Vivos ou Zumbi? Qual você respeita mais?
— Romero é o clássico que gerou o subgênero como conhecemos, mas Zumbi é um caos bonito com gore de bom gosto. Vou pro Romero, embora ame o trabalho de Fulci.
Ele sorriu, satisfeito.
— Opinião respeitável. Ei, Hooper! Roth! Venham, temos alguém com bom gosto.
Dois atendentes se aproximaram. Roth era baixo e atarracado, com corte militar e um moletom do Iron Maiden muito gasto. A outra, magra como um cabide, franja irregular como se tivesse cortado sozinha, cardigã grande demais, sua etiqueta dizia Hooper, as letras desbotadas.
Fulci pigarreou.
— Agora me diga, qual o melhor filme de Dario Argento? Suspiria ou Inferno?
— Suspiria é a única resposta correta. Argento criou algo magistral; Inferno é interessante, mas estilisticamente bagunçado.
— Isso é ousado — Fulci afirmou enquanto Hooper e Roth assentiam.
— Posso fazer uma pergunta? — Roth interveio, com os olhos em Fulci, que acenou.
— Ok, qual você prefere: Holocausto Canibal ou A Bruxa de Blair?
— Hmmmm… — hesitei, pensando. — Holocausto Canibal. É errado de muitas maneiras, mas autêntico na abordagem. A Bruxa de Blair parece esforçar demais.
Os olhos de Roth mostraram leve decepção, mas ele acenou e Fulci assobiou de prazer.
— Interessante, você não se assusta com coisas reais. Bom saber — Fulci disse. — Agora, qual o filme mais assustador que você já viu, puramente pelo que ele fez com você?
Pensei enquanto Hooper me estudava.
— Tem que ser O Enigma de Outro Mundo. Não só pelos efeitos da criatura, mas pela paranoia, isolamento e como ele faz você duvidar de tudo.
Fulci recostou-se, sorrindo satisfeito.
— Bom! Acho que isso me diz tudo. Você aprecia o terror como experiência. Você persegue o cru, o obscuro, o proibido — ele se inclinou, cotovelos no balcão, voz baixa: — Você não é como os outros que vêm só para gritar. Você busca o extremo, estou certo?
Dei uma risada educada, descartando-o como alguém que levava o trabalho muito a sério. Havia algo em Fulci, porém — não assustador, mas a postura lembrava um médico tentando não assustar um paciente antes do diagnóstico.
— Acho que gosto do que a maioria não ligaria.
Ele bateu no balcão, sorriso afiado.
— Você prefere terror que distorce a mente ou terror que o deixa perturbado muito depois dos créditos?
— Gosto dos que entram na sua pele. Sou fã do psicológico, mas não fujo do gore se ele servir a um propósito.
— E as pessoas na tela… você sente pena delas ou gosta de ver do que humanos são capazes?
— Não sei. Eu assisto e tento entender o que o diretor quer transmitir.
— Mas é aí que a diversão começa — seus olhos brilharam. — Colocar-se no lugar da vítima ou pensar em ser quem faz os atos… a maioria se assusta com essa ideia. Você parece não se assustar; usa a imaginação, e isso diz muito.
— Não tenho certeza se quero saber qual papel você mais gosta de imaginar — brinquei.
— Se isso te tranquiliza, é cinquenta-cinquenta — Fulci riu. — Agora, até onde você iria pela experiência de terror perfeita que não finge? Por uma história que parece… real?
— Não sei. Gosto de filmes que sabem o que são, não do terror da vida real, se é isso que você quer dizer.
— A linha entre ficção e realidade é mais tênue do que a maioria pensa — Fulci disse, quase contemplativo. — Alguns perseguem os monstros da tela; outros buscam a verdade que faz os monstros—
— Então você vai me mostrar uns filmes ou o quê? — interrompi, ficando estranho com a conversa.
Fulci apertou os olhos.
— O que vou te mostrar não mostramos aos clientes normalmente — ele bateu duas vezes no balcão e acenou para a sala dos fundos. Roth foi até lá sem falar.
Hooper ficou onde estava, observando-me, esperando minha reação.
— Temos uma coleção particular — continuou Fulci. — Coisas fora das prateleiras. Elas não têm arte nem créditos no IMDb. Tecnicamente, são filmes que não existem.
— Você também não os encontrará em grupos de colecionadores — Hooper acrescentou, com tom desafiador.
Ergui a sobrancelha, cético.
— Vocês falam de bootlegs? O que têm lá, uma cópia original de Begotten?
— Ah, bootlegs… — Fulci fez que sim.
Roth reapareceu com uma dúzia de estojos pretos, gastos, e os deixou no balcão. Nada tinha capa; as fitas estavam sem marca.
Algumas estavam riscadas, outras com bordas derretidas perto do carretel; uma parecia ter sido colada de volta depois de explodir num videocassete.
No centro, todas tinham adesivos brancos com caligrafia bagunçada: Até Você Ver os Olhos, Jeremy Vane Já Estava no Porta-Malas, As Vítimas Esculpidas na Casca.
Fulci pegou as fitas com cuidado, como quem manuseia bombas.
— Essas fitas são preciosas pra Final Cut — falou com reverência. — Cada uma é única. Não há cópias. Estes são únicos de muitas maneiras. Elas não acabam quando acabam.
— Frase fofa — sorri, e Hooper se inclinou.
— Não, ele está falando sério — ela manteve meu olhar por tempo demais e se virou.
Parei num estojo de plástico ressecado; alguém havia riscado um título na borda com o que parecia uma agulha: O Incidente na Floresta de Summerbrook.
— O que é isso? — perguntei pegando a caixa.
Fulci fez uma pausa.
— Esse é difícil de assistir, pra dizer o mínimo. A maioria achou visceral demais. Não tiveram estômago para ir até o fim.
— Vocês agem como se fosse a fita de O Chamado — brinquei, seco. — Eu topo um desafio. É amaldiçoada?
— Amaldiçoada é marketing. Mais apropriado é adjacente a documentário. Também é o favorito do Roth.
— Sério? — perguntei para Roth. Ele apenas assentiu e me encarou como um NPC.
Olhei para Hooper.
— Você pode levar — ela disse baixo —, mas tem que assistir até o fim.
— Tudo bem, estou vendido. Será o filme de hoje — decidi ali mesmo e aluguei.
Hooper e Roth trocaram um olhar, sorriram como quem ganha uma aposta. Fulci me cobrou; a gaveta de troco tilintou quando abriu.
Ele colocou a fita num saco de papel marrom amassado, sem marca. Ao me entregar a sacola, os dedos dele demoraram um segundo a mais nos meus.
— Lembre-se, alguém sangrou pra fazer cada uma dessas — disse ele.
Forcei um sorriso.
— Certo… volto amanhã.
Despedi-me e saí com o saco debaixo do braço, sem olhar para trás.
Mais tarde, pedi delivery, peguei uma lata gelada de Monster e coloquei a fita no meu videocassete embutido na TV, por nostalgia.
O videocassete chiou como um velho fumante quando a fita começou.
A primeira coisa que notei foi a estética grindhouse dos anos 70. Começou sem créditos: uma tomada de estabelecimento de seis adolescentes bebendo e rindo ao redor de uma fogueira.
Não havia trilha sonora; a única luz vinha do fogo crepitante. Parecia um vídeo caseiro perdido num contêiner.
As vozes eram quase inaudíveis; não dava pra entender o que diziam. Um dos rapazes olhava repetidamente para as árvores, como se tivesse ouvido algo. Era a cena típica de um slasher.
Esperei o “filme” de verdade começar, mas nos primeiros dez minutos era só a câmera trêmula seguindo o grupo. Respirações e risinhos abafados. Uma menina se afastou do grupo — disse que ia fazer xixi atrás de uma árvore.
A câmera a seguiu de longe; folhas crocantes sob os pés. Quando a pessoa que filmava se aproximou, ouvi o som metálico de uma faca sendo desembainhada.
A garota foi derrubada e a câmera caiu no chão. Um homem grande a dominou e enfiou a faca profundamente na garganta. Ela não morreu de imediato; respirava ofegante enquanto o sangue jorrava.
A câmera permaneceu imóvel enquanto ela sufocava no próprio sangue. Não parecia encenação; não parecia atuação. Parecia real.
Pausei o videocassete e fiquei olhando a imagem distorcida na tela, sem saber se era o filme de terror mais convincente que vira ou a coisa mais perturbadora que já vi.
Meu cérebro tentava racionalizar: “É só cinema underground. Pessoas com câmera, talento pra choque.”
Ri de mim mesmo e apertei play.
A cena seguinte mostrava o resto do grupo amarrado ao redor da fogueira, pulsos presos com fita adesiva, sacos de serapilheira puxados com força sobre as cabeças.
Os movimentos eram lentos; soluços abafados sob o tecido. A câmera estava no chão captando tudo.
Alguém desparafusou a tampa da lente; uma sombra passou perto do quadro. A mão do cinegrafista passou uma arma pra alguém fora de cena.
— Qual dos seus amigos é o primeiro? — ouviu-se, com um sorriso na voz.
A pessoa com a arma entrou no quadro; seus traços meio iluminados pelo fogo. Parecia familiar e estava em pânico. Apontou a mão trêmula e atirou.
POP.
O primeiro tiro ecoou. A cabeça inclinou e o corpo caiu. Dois tiros vieram rápidos em seguida. POP. POP.
Os sacos ficaram escuros no topo quando o sangue jorrou lento, quase xaroposo, pingando no chão.
A câmera não se mexeu. Nenhuma trilha, nenhuma edição dramática; o vento farfalhava e risadas enchiam o ar.
Então, sem créditos, a fita clicou e o chiado da estática dominou a TV. Fiquei olhando, sem reação.
Ejetei a fita, segurando-a na mão. Me senti ridículo, mas perturbado.
Que tipo de filme era aquele? Pensei enquanto desligava a TV e ia dormir.
Rolei na cama, me repetindo que era só um underground europeu estranho. Queria acreditar nisso, mas uma parte de mim não sabia no que acreditar.
Quase adormecendo, ouvi passos lá fora. Levantei e puxei a cortina; senti a pele arrepiar.
Uma dúzia de pessoas estava parada na rua, imóveis, olhando para minha casa.
Não dava pra ver rostos; todos usavam roupas escuras. As cabeças se inclinavam para minha janela, como se me observassem.
Ninguém se mexeu por um tempo eterno. Depois um deles levantou a mão e apontou direto para a minha janela.
Cambaleei para trás. Quando olhei de novo, haviam sumido; a rua estava vazia.
Abri a porta esperando pegar brincalhões fugindo, mas não havia ninguém. Só ouvi sussurros vindos de algum lugar próximo.
Várias vozes repetiam as mesmas palavras como um cântico ritual: “Você assistiu? Você assistiu?”
As vozes cresceram enquanto cascalho anunciava passos se aproximando.
Bati a porta e tranquei, conferi três vezes e apaguei as luzes. Afastei-me, dizendo que era minha cabeça.
Então ouvi batidas: toque-toque-toque que virou pancadas furiosas.
— Você assistiu? — as vozes diziam, sobrepostas umas às outras.
Ouvi unhas arranhando a moldura. Pela fenda da porta, sombras tremiam em frenesi.
Recolei no corredor, a maçaneta chacoalhando. Corri pro meu quarto e peguei um taco de beisebol.
— Me deixem em paz! — gritei, brandindo o bastão.
A única resposta foi um sussurro grudado na madeira:
— Você assistiu?
Tão repentinamente quanto começou, acabou. A maçaneta parou de tremer; o mundo parecia prendendo a respiração.
Fiquei ali uma hora, ouvindo qualquer sinal antes de espiar pelo olho mágico. Não vi ninguém; a rua parecia vazia. Sentei no sofá com o bastão no colo, esperando o sol.
Às 3h13 meu telefone tocou. Era de um número desconhecido.
Atendi e reconheci a voz.
— Você assistiu? — disse Fulci.
— Fulci? É você? Como pegou meu número? O que está fazendo me ligando a essa hora? — perguntei.
— Você já sabe por que ligo — respondeu ele.
— Sim, eu assisti. O que está acontecendo? Sinto que estou perdendo a cabeça. Preciso de respostas.
— Tem mais por vir. Falo com você depois.
Depois, a linha ficou muda.
Imediatamente comecei a escrever isso; precisava contar minha história a alguém.
O que eu devo fazer? Estou realmente perturbado. Talvez eu tenha visto muito terror, mas não consigo tirar a sensação de que algo estranho está acontecendo. Acho que vou investigar a locadora com calma.
Sinto que há mais na Final Cut Video do que parece.
Continuarei atualizando com o que encontrar.
CONTINUA…