Estávamos a mil milhas de casa quando o carro morreu de vez.

Pra ser honesto, me surpreendi de termos chegado tão longe. Meu velho Nissan vinha funcionando na corda bamba na maior parte da última década. Agora que ele dera o último suspiro, senti quase um alívio, como se a máquina finalmente pudesse descansar em paz no grande estacionamento do além. Claro que esse alívio foi facilmente ofuscado pelo pânico novo de estarmos encalhados no meio de um lugar totalmente desconhecido.

Jerry estava com a cabeça embaixo do capô, fazendo tudo, menos magia negra, para tentar fazer o motor funcionar de novo, enquanto eu andava nervoso pela estrada com o celular sobre a cabeça, torcendo por uma única barra de sinal e me sentindo tão útil quanto mamilos masculinos. Com certeza não era o ponto alto da nossa viagem pelo país, mas também não era o pior momento (esse título ficou pro “zoológico de marsupiais para acariciar” à beira da estrada). Pra ser justo, aquilo me tirava da cabeça todas as coisas que eu tinha deixado pra trás — afinal, esse era o sentido daquela tal “férias-surpresa”.

É como meus amigos chamavam: “férias-surpresa”. A expressão deles pintava uma imagem mais gentil do que acabou sendo — basicamente um sequestro leve. Voltei do meu turno noturno e os encontrei todos na minha sala, num esquema tipo intervenção. Meu colega de apartamento, Jerry — o cabeça por trás de tudo — tinha duas bolsas de emergência esperando na porta e um mapa planejando nossa viagem pela estrada para eu ver o Pacífico pela primeira vez.

Jerry sempre teve esse dom de gestos espontâneos e bem-intencionados (mas altamente irresponsáveis) desde que eu o conheço. Pelo menos, dessa vez, ele não trouxe um animal de rua de presente. Normalmente eu dizia “obrigado” e cortava aquilo antes que fugisse do controle, mas eu não estava em condição de lutar. Tinha acabado de passar por algo que só dava pra chamar de trauma. Pessoas próximas a mim morreram e houve um grande “mal-entendido” com o novo xerife (mas isso é história pra outro dia).

Basta dizer que meus amigos viram que eu estava passando por uma fase difícil e acharam que “seria remédio” me tirar dali por alguns dias. Cobriram meus turnos no posto até o fim da semana, tempo suficiente pra as coisas se acalmarem e voltarem ao “normal”.

Não podia culpá-los por não entenderem o que realmente acontecia. Puta merda, eu mesmo mal tinha noção. Mas os médicos disseram que tudo ficaria bem contanto que eu seguisse o plano e tomasse meus remédios.

Depois de dias de armadilhas turísticas, atrações à beira da estrada, motéis baratos e gases do carro, parecia que finalmente tínhamos chegado ao fim da aventura. Estávamos a poucos estados da costa oeste, mas com pouco dinheiro e menos tempo ainda. A viagem tinha sido o mais perto de sucesso que conseguiríamos, e a quebra do carro foi a gota d’água. Decidi dar a Jerry mais uns segundos de férias antes de anunciar a notícia, por isso eu estava demorando tanto a procurar sinal sabendo que não haveria nenhum ali.

Quando voltei pro carro, Jerry ergueu a cabeça debaixo do capô e disse:

— Ok, tenta ligar agora!

Virei a chave e ouvi o som teimoso do silêncio.

— Nada — anunciei.

— Sério? Merda. Eu bypassei a chave da ignição. Não é a bateria nem o motor de partida. Velas de ignição estão boas. Fusíveis ok. Palhetas do limpador novas. Fluido do pisca-pisca cheio.

— Talvez esteja sem gasolina? — ofereci, esgotando todo meu conhecimento automotivo.

— Nah, ainda tem meio tanque. — Ele bateu o capô e falou: — Bem, vou fazer amizade com uma árvore. Quando eu voltar, começo a desmontar o motor. Enquanto isso, você devia acender uma fogueira e achar algo pra cozinhar. A gente pode ficar aqui um tempo.

— Esse plano não vai funcionar.

— Relaxa, cara. É só uma expressão. Não vou mesmo fazer amizade com a árvore. — Ele deu risada. — Se for o caso, vou é dar um bom motivo pra ela ficar puta comigo.

— Eu quis dizer que não dá pra montar acampamento aqui esperando por um milagre ou por algum bom samaritano. Quais são as chances de aparecer alguém que pegue o mesmo desvio que a gente?

Eu não queria soar antipático, mas ele tinha sido o gênio que descobriu esse “atalho alternativo” entre rodovias mais de uma hora atrás, e desde então não tínhamos visto um carro além do nosso. O caminho era só milharal e árvores… e, claro, aquela casa enorme lá no topo da colina.

— Beleza — cedeu Jerry. — Qual é o plano então?

— Percebeu aquela casa sinistra que passamos há mais ou menos uma milha?

Ele riu.

— Como não? Era muito demais.

Ele não estava errado. O lugar destoava como biquíni rosa num funeral mórmon. Ao contrário das casas de fazenda e trailers que pontuavam nosso trajeto pelas estradas secundárias do sul, aquilo era uma mansão certificada. Uma mistura de revivalismo grego com gótico: torres, colunas e até um mirante de viúva. Eu não teria me surpreendido de ver um gárgula no telhado; daria minha última nota pra apostar que era assombrada. Uma coisa era certa: era o tipo de lugar que eu teria feito de tudo pra evitar.

— Acho que a gente precisa ir lá — disse, arrependido.

Jerry concordou prontamente. Enquanto ele se aliviava na beira da estrada, eu fui no porta-malas e peguei alguns itens necessários pra subir a colina: um saco de mix de trilha, uma garrafa d’água e protetor solar. Não esperava que fosse demorar, mas “não demorar” foi tempo suficiente pra queimar, e preparo ruim já tinha ferrado comigo várias vezes.

Jerry deve ter pensado o mesmo. Ele veio até mim e puxou o taco de beisebol do esconderijo embaixo das bolsas.

— Pra que isso? — perguntei.

— Proteção. Duh. Pode ter lobos por aí.

— Não, cara. Sem armas. Não quero chegar na casa de um estranho parecendo ainda mais suspeito do que já somos.

— Boa observação. — Ele jogou o taco dentro e bateu o porta-malas. Achei que tínhamos o que precisávamos. Achei que estávamos sendo espertos deixando a arma pra trás. Em retrospecto, foi a primeira de muitas decisões ruins.

Demoramos meia hora pra chegar ao topo da colina. Mais cinco minutos só pra subir a entrada sinuosa pela grama meticulosamente cuidada. Quando finalmente alcançamos as enormes portas duplas, eu estava tão exausto que nem conseguia sentir nervosismo. Jerry bateu enquanto eu remexia (sem sucesso) atrás de sinal no celular.

— Quem você acha que mora aqui? — perguntou Jerry. — Algum supervilão? Rei dos fazendeiros? Os Munsters?

— Se eu tivesse que chutar, diria o tipo de família que um dia teve gente como propriedade — respondi.

A porta se abriu, e eu me lembrei rápido de como ficar nervoso de novo.

— Posso ajudar? — crocitou a velha mulher, com voz que soava como papel sendo rasgado. Ela devia ter pouco mais de um metro e vinte de altura e estava vestida como uma boneca vitoriana. Cabelo grisalho preso por um lenço, pelos do nariz espetando, pele na cor de patê enlatado e os óculos de arame mais grossos que eu já vi, ampliando suas pupilas pro tamanho de moedas. Pra ser franco, era difícil encará-la.

Quase deixei cair o celular, mas Jerry nem se mexeu. Só ajeitou um chapéu imaginário e disse:

— Olá, dona. Eu sou o Jerry, e esse aqui é meu parceiro Jack. A gente odeia incomodar, mas nosso carro quebrou ali na estrada e a gente se perguntava se poderia—

— Eu não estava esperando mais companhia — interrompeu ela. — Tem certeza de que têm o endereço certo?

Jerry e eu trocamos um olhar.

— Não, dona — ele disse. — Só falei que o carro pifou. Ficamos à beira da estrada e o Jack é meio nervoso, então a gente decidiu—

— Todos os convidados foram contabilizados — disse ela, com a voz em algum lugar entre uma porta rangendo e um sargento enfurecido. — Confiram seus convites, por favor.

Jerry respirou fundo e esfregou as mãos.

— Tem alguém mais jovem com quem possamos falar?

— Jerry! — cortei.

— Relaxa, cara. Acho que ela nem nos ouve — rebateu ele.

Empurrei-o de lado, me aproximei da velha e olhei nas enormes lentes ampliadas dos óculos dela. — Com licença — falei com delicadeza. — Precisamos usar seu telefone, por favor.

Ela inclinou a cabeça pra cima e pra baixo, provavelmente nos avaliando. Em seguida, virou-se e falou:

— Sigam-me até a máquina de telefone. Chamadas locais apenas. Sem longa distância, por favor.

Ela desapareceu pelas entranhas da mansão antiga e eu hesitei. Uma sensação familiar me invadiu — uma que eu não conseguia confiar nem ignorar. Pavor. Um pressentimento inabalável de que algo ali estava errado. Só que dessa vez parecia mais forte. Mais real. Antes que eu pudesse entender, Jerry já tinha passado por mim e ido pelo escuro corredor de entrada, me deixando sozinho com minha paranoia.

Respirei fundo e segui atrás deles.

A velhinha falava num tom seco enquanto nos guiava pela entrada até um grande salão que não destoaria do convés de primeira classe do Titanic. Eu só meio que prestava atenção, mas peguei o suficiente pra entender que ela recitava a história da casa como se fosse uma guia turística. A casa fora construída em 1800 e bolinha por um tal coronel. Começou como uma plantação (eu sabia!), depois serviu de hospital durante a Guerra Civil (ou, como ela disse, “A Guerra da Agressão do Norte”).

Enquanto falava, o interior da mansão contava sua própria história. Tábuas de madeira com marcas de garras centenárias. O quadro enorme sobre a lareira mostrando um homem com costeletas e uma cara de “eu desafio você a fazer careta”. Uma armadura, um tapete de pele de urso, um lustre de cristal. Metade de mim esperava um letreiro de diamantes dizendo: “Temos dinheiro antigo, então foda-se você!”

O ar cheirava a tabaco e livros velhos. Vozes abafadas vinham de longe através das paredes. Havia alegria nelas. Algumas risadas, até. O lugar parecia cheio de gente. (Pelo menos, era o que eu esperava ouvir).

Ao pé da escadaria principal havia uma porta estreita. A mulher a abriu, revelando uma escada bem menos imponente descendo para o porão. Ela desceu, e Jerry a seguiu. Pensei se seria prudente ficar onde estava, mantendo a saída à vista caso alguém precisasse dar no pé. Olhei por cima do ombro pra garantir que a porta ainda estava lá. Não que fizesse muita diferença. Se a coisa apertasse, sabia que não chegaria muito longe sozinho.

Quando me virei pra descer, já era tarde demais pra mandá-los parar ou esperar. Olhei de novo pra saída. Eu estava preso. É curioso que, mesmo com minha atenção sendo puxada em direções opostas, de alguma forma percebi a prateleira de livros junto à parede, perto da lareira. Ainda mais curioso como fui atraído até ela quase sem querer, como se o tempo congelasse e eu esquecesse onde estava por um instante. Nesse espaço de tempo, devo ter puxado um livro e começado a ler. Fazia eras que eu não me permitia relaxar e me perder numa boa história… Krikrikrikrik.

Que merda eu tô fazendo? O tempo estalou de volta. Quanto tempo fiquei ali? Já estava um capítulo e meio dentro. Fechei o livro e olhei a capa: “O Olhar do Basilisco.” Um mistério da Agatha Christie que eu nunca tinha visto antes. Estranho… Achei que já tinha lido tudo dela. Como esse escapou?

De repente, senti uma presença inquietante. Uma sombra à espreita. A mesma sensação quando um carro de polícia começa a te seguir na interestadual. Recoloquei o livro no lugar e me virei — minha suspeita se confirmou: eu não estava mais sozinho.

A jovem mulher me observava em silêncio. Por quanto tempo, eu não sei, mas resolvi lhe dar o benefício da dúvida e supor que ela não vinha me fitando como um vampiro no estilo Edward Cullen o tempo todo. Vestia um vestido formal azul-claro, que poderia ter saído direto do século XIX, com armação de anágua e luvas brancas até o cotovelo. Parecia ter minha idade (assumindo que não fosse fantasma ou vampira), olhos azuis cortantes e cabelo preto em cachos que emolduravam um rosto em forma de coração. Nas mãos, segurava um livro antigo, a capa gasta o suficiente pra esconder o título.

Ela não disse nada. Não sorriu nem assentiu. Só ficou ali, quieta, encarando. Achei estranho até perceber que eu fazia exatamente a mesma coisa. Consegui dizer “oh” e “oi”, nessa ordem.

Ela desviou o olhar por um momento pra estante, e depois voltou pra mim. A voz veio quase num sussurro:

— Você é como eu, não é?

Não respondi de imediato. Não sabia como responder. Parte de mim, lá lá no fundo, queria dizer que sim, mas eu não sabia por quê. Em vez disso, tentei:

— Como assim?

Quando falou de novo, a voz tinha um pouco mais de timbre:

— Tem algo errado com você.

Jeito que ela falou não tinha malícia. Era uma observação inocente. Respondi com honestidade.

— É. Como soube?

A pergunta dela me fez arrepiar a nuca.

— As coisas estranhas… também te seguem?

Olhei ao redor pra ter certeza de que ainda estávamos a sós antes de responder.

— Ainda não sei.

— Por aqui, por favor! — A velha havia voltado. Apesar do “por favor”, dava pra sentir que era mais uma ordem do que um pedido.

A garota de olhos azuis entrou na frente, guardou o livro na prateleira e saiu sem outra palavra. Desta vez, quando a mulher idosa desceu, eu fui rápido atrás. Quanto mais cedo conseguíssem chamar o guincho, mais cedo iríamos embora.

O quarto subterrâneo cheirava exatamente como eu esperava que um porão cheirasse — empoeirado e úmido. Uma lâmpada incandescente pendia do teto, iluminando o ambiente. Um relógio de pêndulo quebrado contra a parede, uma máquina de lavar e secar industriais, caixas de papelão empilhadas até o teto, e um urso polar empalhado de dois metros e meio que levantava a questão: como diabos tiraram aquilo daqui em uma peça só?

Jerry já mantinha o receptor do telefone de mesa entre o ouvido e o ombro quando entrei. Ele segurava um catálogo telefônico amarelado.

— Beleza, valeu… é, você também… — Olhou pra mim com uma expressão estranha. A boca sorria, os olhos diziam “você não vai gostar do que vou te contar”.

— O que foi? — perguntei.

Ele pousou o catálogo na mesa, cravou o receptor, respirou fundo e respondeu devagar:

— Tenho boas e más notícias.

— Eu odeio esse jogo, você sabe, né?

— O mecânico sabe exatamente onde estamos. Ele está mandando o guincho, mas…

— Mas?

— Ele só pode vir pela manhã.

— Aí a gente tenta outro.

— É que… ele é o único mecânico no condado inteiro.

— Ah é? Ele te falou isso?

— É o único mecânico listado no catálogo.

— Ele… como assim?

Peguei o livro e ele abriu direto na página de mecânicos. Se eu não fosse tão paranoico, talvez não tivesse pensado nada. Mas o fato de ter aberto justamente na página que buscávamos soou menos como serendipidade e mais como um sinal vermelho grande o suficiente pra empurrar um veleiro.

Suspirei ao ver que ele estava certo. Havia apenas uma entrada em “Oficinas Mecânicas, Automotivas.”

Guardei o catálogo e disse:

— Tudo bem. Um dia no carro a gente aguenta. Já sobrevivemos a coisa bem pior.

Quase me engasguei quando a velha começou a falar (honestamente, eu já havia esquecido que ela ainda estava ali).

— Se assim deve ser, não negarei abrigo a viajantes por uma noite. Há um aposento disponível no terceiro andar — a suíte Woodrow Harper.

— Ah, não — falei. — Não podemos aceitar esse incômodo.

Jerry fez um barulho que parecia um pato e disse:

— Uh, claro que podemos! Do que você tá falando?

Ela insistiu:

— Não é incômodo algum. Minha família tem sido abençoada com os frutos da fortuna por muito tempo. É certo estendermos nossa hospitalidade aos necessitados. Entretanto, há uma… condição sobre a qual insisto.

— Sério — eu disse. — Está tudo bem.

— Sério — repetiu Jerry. — Você disse “suíte”?

O mau pressentimento no estômago crescia a cada segundo.

— Jerry, quer que a gente converse em particular um instante?

Ele me acompanhou até um canto distante, sob os olhos vigilantes do urso coberto de pó.

— Não gosto disso — sussurrei. — Algo aqui não bate. Tem algo errado.

Krikrikrikrik. Por um instante pensei ter visto algo subindo pela parede ao nosso lado… mas, ao olhar melhor, não havia nada. Minha mente prega peças.

Jerry não se preocupou em falar baixo.

— Sim, eu sei. É esquisito pra caralho, mas a vovó ali não me parece uma canibal assassina. Tenho certeza que, se preciso, damos conta dela.

Olhei por cima do ombro pra ver se “vovó” tinha ouvido. Se tivesse, o rosto dela não denunciou nada. Voltei a olhar a Jerry:

— Não é ela que me preocupa.

— Então o que é?

Tentei encontrar a resposta, mas não sabia. Dei de ombros.

— Relaxa — disse Jerry. — Se você sente bad vibes, a gente pode dar o fora. Mas pensa: se algo está errado, você realmente acha que vamos ficar mais seguros no carro?

Ele tinha um ponto. O que quer que estivesse ativando meu radar de “foge” podia muito bem nos seguir pela estrada. Mas se voltássemos pro Nissan, pelo menos eu passaria a noite com um taco de beisebol na mão.

A paciência da velha devia ter acabado. Ela se virou para a escada e chamou por cima do ombro:

— Sigam-me. Vou mostrar o quarto.

Jerry leu meu rosto e tentou frear:

— Na verdade, a gente vai fazer a noite no carro. Sem necessidade de nos mostrar… oh, olha, ela já foi.

Subimos apressados as escadas atrás dela. Ao reaparecermos no térreo, ela seguiu em direção à escadaria principal. Mas Jerry e eu tomamos outro caminho, indo direto pra porta da frente. Quase toquei a maçaneta quando as luzes vacilaram e um estrondo ecoou pelo ambiente, nos congelando. O som de uma explosão distante permaneceu por alguns segundos, depois sumiu. Se eu não soubesse melhor, juraria que soou como trovão…

Saí do transe e abri a porta pra ver que o céu lá fora havia virado um preto turvo. Ondas de chuva torrencial sacudiam as árvores no horizonte como mãos acenando desesperadas pra dizer adeus ao mundo. Já tinha passado por tornados o suficiente pra saber o que era mau tempo, mas aquilo… aquilo era diferente.

Um raio partiu uma árvore do outro lado da estrada. Meio segundo depois, o estrondo nos atingiu. Recuo instintivamente e fecho a porta.

Jerry deu risada:

— Acho que isso resolve, né? Parece que vamos ficar a noite aqui quer queiramos ou não.

— Parece que a tempestade finalmente nos alcançou — disse a velha, surgindo sem que eu percebesse.

Me virei pra ela. Ela não demonstrou preocupação. Nenhum sorriso, nenhuma carranca. Nenhuma emoção, na real. Ficou ali, esperando eu falar algo, o que finalmente fiz:

— Você disse que há uma condição pra ficarmos?

— Sim — respondeu ela. — Como certamente descobriram, isto não é um bed and breakfast comum. Reservas típicas são feitas com um ano de antecedência. A experiência de passar uma noite na Mansão Bedside é muito valiosa — por vários motivos. Se aceitarem, espero que se comportem como hóspedes legítimos. Ou seja: participem de todas as atividades da noite, explorem os diversos mistérios e mantenham seus papéis. Acima de tudo — — ela levantou a voz pra enfatizar — — não digam a qualquer outro participante que vocês não pagaram pela estadia. Está entendido?

— Tá claro como lama — respondeu Jerry.

— Excelente. Sigam-me para suas acomodações. — Sua explicação era demais pra eu digerir de uma vez só. Atividades? Bed and breakfast? Interpretar personagens??? Ela continuou falando enquanto subíamos a escadaria principal, nos afastando mais da suposta segurança lá fora. — A Mansão Bedside tem treze quartos: cinco para hóspedes, três para a família e outros cinco para os servos. Houve um tempo em que se considerava progressista permitir que a ajuda morasse nas dependências principais, mas Eustice Bedside achou prático mantê-los próximos. Mantenha seus amigos por perto e seus empregados mais ainda.

Fiquei alguns degraus atrás e cochichei com Jerry, dentro do alcance baixo de voz.

— Essa tempestade saiu do nada.

— É um aguaceiro — deu de ombros. — Acontece.

— Pegamos sol subindo a colina. Não havia uma nuvem no céu.

— Ainda bem que chegamos quando chegamos, né? — Ele não estava entendendo a dica.

— Pois é — respondi, resignado. — Ainda bem.

A velha alcançou o topo do patamar e esperou silenciosa que a gente alcançasse. Quando nos juntamos, ela retomou a monologia e explicou a história escabrosa das gerações dos Bedside, como se tudo aquilo fosse relevante pro enredo. Eu não prestava muita atenção. Assumi que Jerry estava ouvindo e poderia me contar depois.

Em pouco tempo estávamos ao lado de uma porta marrom-avermelhada, com uma maçaneta de mercúrio e uma placa de latão acima da moldura que dizia: “Woodrow Harper. (1846–1857)”

— Tem alguma pergunta? — ela perguntou.

— Tem Wi-Fi? — Jerry falou.

— A Mansão Bedside oferece uma experiência imersiva de tempos mais simples. Não há computadores nem televisores. Salvo emergências, o telefone não estará disponível aos hóspedes durante a estadia.

Fiz a próxima pergunta:

— E qual é o seu nome?

— Meu nome é Margaret. Margaret Bedside. Mas podem me chamar de “Maggie”.

— Obrigado, Maggie.

Ela nos entregou a chave e uma desculpa estranha: — Sinto muito. Receio que haja apenas uma cama na suíte Woodrow Harper.

Peguei a chave e respondi:

— Isso não será problema.

Ela pareceu querer dizer algo a mais, mas ficou calada. — Vou deixá-los se arrumarem. Podem usar qualquer roupa que encontrarem no armário. O jantar é às sete em ponto. Haverá um momento de convívio às seis. Espero vê-los lá.

Com isso, virou e foi mancando de volta à escada.

O quarto era, em uma palavra, magnífico. Uma cama king-size com cortinas próprias. Uma área de estar separada junto às estantes. Até um lustre de cristal.

Tentei manter a voz calma.

— Jerry, qual é sua leitura da situação em que nos metemos?

— Não tá óbvio?

— Nem um pouco.

— Mano, presta atenção: isso é um desses bed and breakfasts temáticos de assassinato misterioso! — Ele mal conseguiu conter a empolgação. — Sempre quis tentar um desses!

— Como é?

Ele começou a explorar o quarto feito criança em loja de doces. — É tipo uma sala de escape misturada com teatro de jantar! Olha como vai ser: alguém “morre” hoje à noite e a gente passa o fim de semana brincando de detetive. O motivo de tudo aqui parecer tão assustador é proposital! A velha Maggie deve ser só uma atriz. Vai ser demais! — Entrou no banheiro e chamou, excitado: — Tem bidê e papel higiênico! Quão chique você se sente agora? Porque eu tô me sentindo monóculo-chique.

Me aproximei da janela com vista pra frente da propriedade. Se a tempestade estava nesse ritmo, não demoraria muito. Eventualmente o céu teria que se esgotar, certo? — Você sabe que não podemos passar a noite aqui, né? Não temos nossas coisas. Não temos roupas. Deixei meus remédios no carro e não posso pular mais uma dose. Não depois do que rolou da outra vez. — Pensei na prateleira de livros, no tempo perdido. E na garota de olhos azuis.

Jerry me interrompeu, voltando à sala principal com um roupão de seda pendurado no pescoço como um cachecol gigante.

— Sim, não esqueci disso — disse. — Olha: quando a tempestade passar, a gente pode sair sem fazer cena. Mas, por enquanto, vamos ver se o armário vem com portal de Nárnia de brinde. — Abriu as portas do guarda-roupa, recuou e assobiou.

— O que tem?

— Ei Jack, que tamanho de terno você usa?

— Não sei. M? Por quê?

Atravessei o quarto e vi que o móvel continha dois ternos completos — traje social com cauda e cartola (não, obrigado), sapatos e gravata-borboleta. Exatamente dois conjuntos. À primeira vista, pareciam aproximar-se dos tamanhos meus e do Jerry. As gavetas debaixo tinham meias e cuecas. No banheiro havia duas escovas de dente lacradas.

Jerry foi tomar banho primeiro. Quando saiu e provou a roupa, serviu perfeitamente. Depois do meu banho, nem me surpreendi que a roupa servisse como se tivesse sido feita sob medida. Coincidências acontecem, mas até Jerry teve que admitir que essa era um pouco demais.

Tudo naquele quarto parecia indicar que alguém nos esperava.