A primeira coisa que desapareceu foi o meu rosto.

Trabalho à noite num prédio velho. Apartamentos vazios, lâmpadas que tremem, e espelhos por todo lado — em portas, elevador, vidraças.

Comecei a reparar que minha imagem no vidro não fazia exatamente o que eu fazia. Um atraso de uns segundos. Pequenos erros. Um sorriso que chegava antes do meu.

Fingi que era cansaço. Fingi que era a luz.

Na terceira madrugada, meu reflexo parou e ficou me olhando. Não piscou. Abriu a boca devagar, como quem prova algo novo.
E sussurrou sem som, com a minha voz, um pedido: Me empresta.

A superfície brilhou como pele molhada. Um fio fino, translúcido, deslizou do vidro e grudou no meu pulso. Era frio. Era pegajoso. Puxei, e o fio entrou sob a unha, como linha que costura por baixo da carne. Tudo ficou lento. Eu tentava gritar. O som vinha do vidro — eu já não controlava mais a minha voz.

Vi da escada a coisa sair do espelho inteira: meus olhos vazios, meus dentes que não eram meus. Ela se vestiu com o meu próprio rosto, ajeitou o cabelo do jeito que eu sempre ajeito, e sorriu como se eu fosse o assento vazio de um espetáculo.
Corri. Bati espelhos com as mãos. O vidro não cortou. Ele me sugou. No reflexo, a coisa me observava, confortável dentro da minha própria pele. E, pela primeira vez, eu ouvi a voz que vinha do vidro dizendo meu nome melhor do que eu.