A primeira vez que a vi pensei que alguém tinha esquecido uma boneca nos bastidores. Estava sentada entre cortinas e cabos, pele tão lisa que parecia verniz, sem sobrancelhas, olhos imóveis como vitrais. Moveu-se com a fluidez de quem sabe exatamente onde as cordas estão. Quando sorriu, a boca abriu em fileiras de lâminas finas, brilhando como tesouras. Tentei me afastar, mas minhas mãos tremiam. Empurrei o corpo até os holofotes; ela não gritou, só virou a cabeça e observou. Chamei segurança pelo rádio e ouvi passos vindo do corredor. Antes que chegassem, ela esticou a mão e tocou meu rosto como quem ajeita uma fantasia. Foi um toque gelado. Minha voz sumiu no ar. Vi pela câmera o segurança correr — e então ela arrancou a máscara que ele usava: pele, pelo, sorriso. Colocou-a no rosto como quem ajusta um adereço e aplaudiu o vazio do palco com dedos que nunca antes tocaram nada humano. Corri para a saída, mas as portas já estavam presas por cordas que não existiam antes. Voltei para tentar arrancar minha própria boca e encontrei no espelho meu rosto pendurado num gancho, brilhando, acabado. Ela estava em cena, impecável, usando o sorriso que eu tinha ensaiado toda a vida. Antes de apagar as luzes, inclinou-se para mim e, sem mover um músculo do rosto perfeito, disse devagar: agora você aprende a calar.