Ela estava no centro do palco, imóvel como um manequim iluminado por um holofote frio. Eu achava que era uma boneca quebrada até ver a pele feita de maquiagem perfeita, os olhos vazios e a mão segurando a cabeça de um marionete, a madeira alva manchada de vermelho. O teatro cheira a pó e cola. Eu pensei em trancar a porta e ligar para a polícia. Antes que eu conseguisse, ela virou a cara. Sorriu sem mexer as sobrancelhas. Quando o técnico entrou correndo com a lanterna, ela se levantou como se puxassem fios invisíveis. A boca se abriu e revelou dentes como agulhas. Ele só teve tempo de arregalar os olhos. Ela mordeu o pescoço. O som foi seco e curto. Depois, inclinou o rosto e sussurrou algo que eu senti mais do que ouvi: “Eu ajudo a calar o que não deveria cantar.” Em seguida, caminhou devagar entre os bonecos. Eles ficaram imóveis por um instante. Depois, os braços de madeira começaram a balançar sozinhos. Quando saí correndo, ouvi risos infantis afinarem no fundo do teatro. Na manhã seguinte, as marionetes estavam alinhadas no camarim. Todas com o sorriso dela.

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