Na noite em que ouvi pela primeira vez a passarela gemer, eu estava sozinho no posto de vigilância. A favela improvisada ao lado vivia de restos e favores; lá morava a Lúcia, que distribuía bolos e cobertores até a última semana do inverno. Uma manhã, uma chama de fogareiro virou furacão e Lúcia saiu correndo em pânico, em direção ao terminal lotado, gritando por alguém. Um caminhão bateu nela antes que alguém conseguisse alcançá‑la. Enterraram o corpo sem nome; a barraca foi ocupada no dia seguinte. Um mês depois, um motorista jurou ter acertado uma mulher em chamas na curva da passarela. Saltou do volante, correu pela pista e encontrou só marcas de fuligem e cheiro de latão aquecido. Comecei a anotar relatos. Na mesma noite do acidente, todo ano, do mesmo ponto, surge uma silhueta: vestido enegrecido, cabelo ao vento como fumaça, passos que não tocam o chão. Cheguei até a subir na pista uma vez, lanterna na mão, coração batendo na garganta. Ela veio correndo na minha direção, rosto contorcido, gritos que pareciam vidro quebrando. Tentei tocar, joguei água, lancei um cobertor — minhas mãos queimaram como se tivessem passado por um forno. Não havia corpo, só brasas que se apagavam quando eu respirava fundo. Na manhã seguinte, o caminhão que tinha atropelado no ano anterior estava estacionado no mesmo lugar. O motorista disse que a mulher o olhou nos olhos antes do impacto. E foi aí que percebi: ela nunca buscava socorro. Ela procurava quem tinha visto e seguido em frente. Quem vira, seguido, e não ajudou. Na última vez que a vi, ela parou, me fitou com olhos feitos de carvão e sussurrou algo que eu trouxe por dias: ‘Você lembrou de mim.’ Nem sempre é pedir salva; às vezes é cobrar memória. E quando a passarela chora de novo, eu sei que não é a chama que volta — é a conta que voltou a ser cobrada.