Nunca deveria ter comprado aquela pintura. Encontrei num antiquário empoeirado, um retrato de uma mulher curvada, o rosto coberto por um manto, como se chorasse eternamente. Havia algo de melancólico e belo nela, um ar de dor tão real. Levei-a para casa e pendurei-a na sala. Comecei a me sentir estranha. Uma exaustão inexplicável me dominava, como se cada dia drenasse um pouco mais da minha energia. As plantas murcharam. Meu gato me encarava, arrepiado, miando para a pintura. Uma noite, enquanto rolava pelo celular, a história de uma lenda local me chamou atenção: A Pintura das Lágrimas Vivas. Dizem que, se a observar tempo demais, ela rouba a sua luz, a sua alegria, sua própria vitalidade, gota a gota, até conseguir enxergar novamente. Suas vítimas se tornam um vazio para alimentar o olhar dela. Tentei cobri-la com um lençol, mas senti os olhos dela em mim, por baixo do pano. A sensação de ser observada era sufocante. Naquela noite, acordei com um frio cortante. As luzes da rua iluminavam a sala, e por uma fresta do lençol, a pintura parecia me chamar. Eu não conseguia resistir. Lentamente, puxei o tecido. Os olhos. Antes escondidos na sombra, agora estavam lá. Vermelhos, úmidos, vibrantes. E me encaravam com uma fome indizível. Senti a última faísca de mim mesma se esvair. Agora, sou só um eco. E a pintura, bem, a pintura finalmente pode ver.