O velho muro no fundo do terreno vizinho sempre me chamou. Não era bonito, só pedras soltas e musgo, mas algo nele sussurrava. No começo, era uma brisa na nuca, um arrepio. Depois, virou uma coceira na palma da mão, uma vontade incontrolável de tocar naquelas pedras úmidas. À noite, na cama, as vozes eram mais claras, prometendo um alívio que eu não sabia que precisava. “Vem”, elas diziam, “vem e nos alimenta.” Eu tentava ignorar, focar nos estudos, conversar com meus pais, mas a pressão era um nó na garganta. “Você sabe que quer”, elas insistiam, e eu sentia meus dedos latejarem. Depois que todos dormiam, a casa em silêncio parecia amplificar o chamado. Saía de fininho, descalço no gramado molhado, até a parede fria. Era como um vício. A cada rachadura, eu cravava as unhas, arranhando a pele, arrancando pedaços de mim mesmo contra a argamassa áspera. O sangue escorria pelos dedos, e as vozes se acalmavam, um sussurro satisfeito. O muro parecia absorver cada gota, e eu sentia uma estranha paz, um cansaço bom, antes de voltar para o quarto, escondendo as mãos feridas sob o lençol. Amanhã, a coceira voltaria. E eu sabia que elas também.